Relatos na primeira pessoa I

O meu 29 de Julho de 1974,

(o dia do meu aniversário)

 

Acoitados na orla da recôndita, misteriosa e agreste floresta virgem, aguardávamos o clarear do dia para penetrarmos até ao famigerado e temível Trilho Internacional do Congo, que corria pelo capinzal, a meia hora de marcha, para além do final desta edílica mas perigosa e enigmática mata.

Tínhamos aproveitado a negrura duma tenebrosa noite para sairmos do aquartelamento da Mamarrosa, no norte de Angola a escassos 6 km da fronteira com o Congo numa missão que se previa bastante perigosa e arriscada.

Éramos um grupo de combate, com o objectivo de montar uma emboscada para intercepção e aniquilamento de vários elementos inimigos armados. Que segundo informação da P.I.M. [1][i] seriam comandados por um mercenário ex-capitão cubano.

Assim que a luz solar começou a penetrar a densa folhagem, iniciámos a penosa e árdua marcha, através da cerrada selva tropical, com frondosas árvores de um verde intenso a formarem belas e caprichosas catedrais de cor e luz. O intenso e ardente Sol Africano penetrava com dificuldade por entre o labiríntico e selvático emaranhado de ramagens, formado pelas compridas e grossas lianas que corriam em todas as direcções, dificultando-nos imenso a extenuante e cansativa marcha.

Aproveitávamos as pequenas paragens para nos aliviarmos do cansaço, do suor pegajoso, da sede e para ingerirmos o conteúdo de uma ou outra lata de ração de combate.

A progressão por entre o enleado labiríntico de vegetação quase impenetrável, estava a ser esgotante e extremamente estafante, principalmente para o homem da frente que era sucessivamente substituído. Com passos medidos, acautelados e enorme sacrifício alcançamos ao anoitecer o fim da hedionda e medonha floresta virgem.

O trilho ainda ficava a cerca de meia hora de marcha pelo que decidimos pernoitar na escuridão da paradisíaca, mas tenebrosa mata.

Só as aves se faziam ouvir, cantando a sua melodiosa solidão, mas foram gradualmente substituídas com a chegada da negra e horrorosa noite por outros sons mais arrepilantes e fantasmagóricos dos vários e sinistros habitantes nocturnos. Essa horrível noite foi inquieta e mal dormida, no chão duro e húmido da infernal e enigmática floresta, repleta de sons intrigantes, pavorosos e desconhecidos.

Ainda antes do nascer do Sol e aproveitando o lusco-fusco da alvorada, iniciamos a espinhosa aproximação ao temido e malfadado trilho que se encontrava a meio de uma encosta coberta de capim, que nos chegava um pouco acima da cintura. Com celeridade, precaução e olhos atentos, rastejamos até à parte superior de uma encosta e estando nós numa posição que nos era

estrategicamente vantajosa, montamos o dispositivo inerente à emboscada. Ainda estávamos apenas a meio da manhã e já o adverso, abrasador e tórrido sol Africano fustigava-nos impiedosa e severamente.

Deitado numa posição bastante desconfortável na ribanceira com a cabeça sobre o rádio e os pés mais elevados, segurava com as mãos suadas a arma G3 e vislumbrava dissimulados entre o capim de armas aperradas os meus camaradas que constituíam o grupo de detenção à frente e perscrutando o trilho com redobrada atenção, num silêncio sepulcral, à esquerda entre o verde amarelado do capim encontravam-se os homens do grupo de detenção á retaguarda. Também eles numa completa imobilidade, silêncio total, olhos e ouvidos atentos, estavam os camaradas que constituíam o grupo de assalto.

Isolados à distância, perfeitamente camuflados no capinzal alto, mal se lobrigavam os dois camaradas que constituíam o grupo de vigilância, com as suas armas aperradas e perscrutadores olhos de lince, concentrados e atentos aos meandros sinuosos do trilho.

Triste sina, a destes rapazes de vinte anos terem de lidar com a vil e cruel labareda da morte.

Apreensivos, ensopados em suor pegajoso, rostos tensos, armas apontadas em riste, todos esperávamos com indisfarçável nervosismo e ansiedade a agoirenta e funesta chegada do in.

No grupo de protecção, os nossos olhares cruzavam-se numa mudez aterradora mas esperançosa, todos respirávamos medo, terror e pânico. Enquanto observava os meus camaradas, à minha mente fervilhava num turbilhão de pensamentos contraditórios e pavorosos, seria que o in.  entrava todo na zona de morte? Provavelmente não… Como a zona era muito aberta, e eles numerosos, talvez viessem bastante espaçados, e assim sendo, com imensas possibilidades de tentarem o nosso envolvimento, semear a confusão, o terror, a morte, e num ápice desfazer todos os nossos sonhos.

O desespero, o medo e a angústia começavam a apoderar-se de mim.

 

Na habitual comunicação com a base que se realizava sempre pelas 10 horas, somos informados, via rádio, que as informações militares davam como altamente provável, para a próxima noite um feroz ataque com previsível assalto e tomada das instalações do destacamento do Luvo, pelo que se tornava necessário que levantássemos de imediato o dispositivo e partíssemos em reforço daquele pequeno e isolado destacamento.

A notícia foi recebida com júbilo e satisfação por todos os Felinos pelo que levantamos rapidamente a emboscada e encetamos o regresso, atravessando de novo a medonha e enigmática floresta à picada, onde fomos recolhidos e transportados numa coluna auto, por uma picada difícil e perigosa comárvores colossais de ramagens cerradas e assustadoras, até ao Luvo. Fomos saudados com imensa alegria e enorme emoção, ao chegarmos a este pequeno e isolado destacamento, apenas guarnecido com dois grupos de combate e a escassos trezentos metros da fronteira com o Congo, à qual se encontrava ligado por uma desactivada ponte em ferro, construída algumas décadas antes pelos antigos colonizadores Belgas. A guarnição deste destacamento, todos os meses era substituída, passando por lá, à vez, os 4 grupos

de combate dos Felinos, e outro da vizinha companhia da Canga.

Durante o anterior mês de Junho de 1974, devido às constantes informações de que o in. Dispunha de auto-metralhadoras estacionadas nas suas bases no outro lado da fronteira, o meu grupo de combate que nesse mesmo mês fazia a guarnição deste destacamento, procedeu ao desmantelamento do tabuleiro desta ponte e ao reforço das minas anti-carro e anti-pessoal colocadas nas suas imediações.

Estes aquartelamentos de fronteira tinham por missão dificultar a infiltração do in. vindo das suas bases no Congo, no entanto as vastas e densas florestas a perder de vista e as zonas de capim que em certas épocas do ano atingiam uma altura superior a um homem, constituíam uma óptima camuflagem para os seus trilhos.

 

A tensão e a pressão exercida sobre o destacamento do Luvo eram enormes, frequentemente no silêncio da negra e temerosa noite, o in. astuto, ardiloso, manhoso e provocador, disparava tiros esporádicos e os sentinelas invariavelmente ouviam ruídos estranhos e viam fugazes luzes ao longe.

A eminência de um ataque era real e assustadora, passavam-se noites e noites nas valas que rodeavam o destacamento.

Os Felinos conjecturavam entre si, que se o in. atacasse seria corrido a ferro e fogo, e perseguido até às suas bases no outro lado da fronteira, ainda que tal pudesse vir a originar um conflito diplomático entre os dois países.

Se o in nos obrigasse a atravessar a fronteira em sua perseguição, iríamos munidos com granadas “brancas”, às quais como já por diversas vezes acontecera eram raspadas e apagadas as marcas e outros caracteres.

A pressão, a angustia e o desgaste psicológico estavam a subir em espiral, se os Felinos mostrassem as suas garras, o in. que se cuidasse.

A minha Estrela da Sorte sempre me havia protegido. Aquando do violento e brutal ataque a Mamarrosa durante a noite de S. João desse ano de 1974, durante o qual o in. abandonou no terreno quatro mortos e diverso material de guerra, eu e o meu grupo de combate encontrávamo-nos aqui no Luvo no mês de guarnição rotativa Essa também tinha sido para nós uma longa noite de grande angustia e enorme aflição, já que devido á relativa proximidade a que nos encontrávamos ouvíamos e víamos perfeitamente os estrondos e os enormíssimos clarões dos tremendos e medonhos rebentamentos, com que os nossos camaradas estavam a ser presenteados.

 

No monstruoso e sanguinário ataque de 10 de Setembro de 1972 a Nambuangongo, a 180 km a norte de Luanda eu não me encontrava presente. Tinha saído com o meu grupo de combate para reforçar Quipedro, um aquartelamento das nossas tropas situado a 60 km mais para o norte e para o interior da inóspita selva. Nesse ataque o in. ao cabo de uma longa e horrível batalha que duraria praticamente toda a noite, acabou por nos infligir dois mortos e alguns feridos graves.

Participei sim nos dramáticos e medonhos ataques seguintes, de 12 e 15 desse mesmo mês e o anterior de 31 de Agosto de 1972, no entanto, apesar dos mesmo terem sido bastantes aterradores e cruéis, foram bem menos avassaladores e agressivos.

Tinha esperança, que a ameaça do in. não se concretizasse hoje, na véspera do meu aniversário, o terceiro consecutivo, passado neste imenso lamaçal da Guerra Colonial, já com a comissão de dois anos largamente ultrapassada.

Entretanto, para os lados do ocaso o Sol desaparecia numa imensidão de cores e ondulações suaves e com uma quietude doce, bela e silenciosa.  Aproximando-se a passos largos, a noite, medonha, inquietante e impiedosa, denunciadora de sangue e de morte, o que aumentava os nossos terrores e apreensões.

Os pensamentos voavam-me até longe, à longínqua e saudosa metrópole e traziam-me à lembrança os meus familiares e amigos distantes, despertando a saudade e outros sentimentos que tornavam ainda mais penosa e triste, esta tenebrosa, espessa e sinistra noite.

Os sentinelas reforçados, nessa noite escura e hostil, perscrutavam as trevas, tentando descobrir indícios estranhos. As horas iam passando com enorme lentidão e o in. não se anunciava. Alguns Felinos extenuados e cansados por várias noites mal dormidas no lamacento chão das valas e contrariando as ordens recebidas, decidem procurar o merecido aconchego das suas camas.

Repentinamente, um duro e furioso estrondo ecoa no silêncio escuro da noite, penetrando-nos os ossos até á medula, sucedem-se violentas saraivadas de tiros frenéticos e estridentes.

Rebentamentos medonhos e tremendas deflagrações, que nos revolvem as entranhas, iluminam o pequeno destacamento e tudo ensurdecem.

Perante este espectáculo horrendo e macabro, vivem-se momentos de sofrimento dramático e terror indescritível, as balas rasam-nos a cabeça, sibilando a canção da morte e cravam-se nas tábuas das improvisadas casernas de madeira, espalhando pavor, angústia e apreensão.

O medo, o terror e o pânico invadem estes, rapazes soldados, que passados os momentos iniciais de surpresa intimidatória reagem com coragem ao fogo in. com o fogo das suas armas.

Por diversas vezes o in. tenta o assalto, e sobe ao arame farpado, disparando mortíferas e raivosas rajadas, gritando impropérios e chamando nomes.  Mas este é sempre audaciosa e corajosamente repelido, deixando vários mortos pendurados no arame.

São momentos de horror e de medo, de sobressalto e de dúvida. O cheiro horrendo e sinistro da morte e do apocalípse empastão o ar.

Este inferno de hecatombe destruidora já dura há longo tempo, tempo demasiado, são minutos que parecem horas, horas que parecem dias e continuamos debaixo de um dilúvio tumultuoso e avassalador de metralha, tiros, explosões, gritos e horror.

O in. demonstrava estar bem enquadrado e liderado não tendo restrição de munições. As suas intenções obstinadas e maléficas eram de nos chacinar, massacrar e depois tomar as nossas instalações.

Se os Felinos quisessem salvar as suas vidas, teriam que reagir e contra-atacar, o que não seria tarefa nada fácil nessa funesta, horrível e maldita noite e perante um in, tão arrojado, forte e combativo.

Durante a tremenda, longa e horrorosa noite, as valas e abrigos, tresandavam a fezes e urina misturadas com pânico e terror, juntamente com o murmúrio de breves preces e orações.

Com uma colossal tenacidade, enormíssima coragem, abnegação e actos de completo desprezo pela própria vida, a reacção dos Felinos foi heróica, enérgica e destemida. Devido a esta enormíssima temeridade, grande arrojo e audácia, ao clarear do dia o in. começa a dar mostras de fraqueza e cansaço e iniciava o levantamento do cerco.  Sendo então perseguido com valentia e bravura para lá da fronteira.  Mas como sempre, astuto e manhoso, o in. dificulta a perseguição fugindo disperso em grupos de dois.

Por incrível que pareça durante esta violentíssima, selvagem e feroz batalha os Felinos não sofreram qualquer baixa, apenas alguns feridos ligeiros. Pelo contrário o in. abandonou no terreno para além, de diverso material de guerra e de enfermagem, cinco mortos que não conseguiu transportar e provavelmente houve muitas mais baixas a avaliar pelos desmesurados rastos de sangue encontrados nos trilhos de fuga.

Este foi, sem dúvida alguma, o mais pavoroso, o mais horrível e o mais contundente aniversário que alguma vez passei. E mesmo agora à distância de vários anos, é com tremenda angústia e enorme emoção que recordo aquela longa e dramática noite de domingo, 29 de Julho de 1974.

M. Aldeias

maldeias@gmail.com

[i] Polícia de Informação Militar (designação de Ex-PIDE/DGS)

 (Este relato, na Primeira Pessoa, foi cedido, gentilmente por Manuel Aldeias. Obrigado. )