Mais Relatos

Relatos na Primeira Pessoa IV

Calcorreando a savana

 

Após a força em que estava integrado ter sido considerada inoperacional, o que se deveu a diversas baixas e traumas sofridos na guerra no norte, tenho o privilégio de conhecer o extremo sul de Angola a cerca de 1600Kms de Luanda, junto à fronteira com a actual Namíbia, muito distante da guerra. Uma região de savana com um clima totalmente diferente, influenciado pelo vizinho deserto do Calaari, seco e árido, com temperaturas muito elevadas durante o dia e bastante baixas à noite.

Eu e o meu grupo estávamos colocados junto da ponte sobre o rio Cuvelai, um afluente da margem sul do grande rio Cunene, instalados em tendas de campanha a 200kms da pequena Vila Pereira De Eça, actual Ondjiva, capital da província do Cunene.

Naquela zona eram raros os aglomerados populacionais, tratava-se de uma imensa região pouco habitada, no entanto e à semelhança da restante Angola, era composta por inúmeras etnias e subgrupos étnicos todos pertencentes ao grande grupo Bantu, com afinidades linguísticas entre si.

Naquela zona a etnia prevalecente era constituída pelos cuanhamas, indivíduos de estatura bastante elevada e criadores de gado que se dedicavam à agricultura de subsistência e sobretudo ao pastoreio de gado bovino. Os cuanhamas tinham uma forte vocação guerreira, realizando ainda no princípio do século passado expedições de guerrilha e de saque sobre os seus vizinhos sobretudo os humbes e os ganguelas, espalhando o terror e a morte, capturando escravos e gado.

Todas estas e outras abomináveis histórias de horror eram-me contadas pelos mais velhos desta tribo, que eu ouvia com interesse apesar das dificultadas de comunicação, mas que não evitavam a boa relação que sempre procurei manter com estes povos.

Por sua vez a margem do grande rio Cunene era habitada pelos muilas, também eles criadores de gado bovino.

A característica que mais me marcou nas mulheres muilas foi observar de perto os seus penteados executados à base de estrume de vaca, fazendo-me recordar os elaborados penteados efectuados com terra vermelha e gorduras vegetais usados pelas mulheres Cokwe habitantes da Lunda Norte e que eu tive oportunidade de observar aquando das minhas longas viagens por todo o norte Angolano ao serviço da Força de Intervenção.

Dispersos pelo vasto sertão estes povos levavam uma vida bastante carenciada e primitiva, passando por necessidades e privações de toda a ordem. Estávamos no princípio dos anos setenta do século XX e como se deve compreender não existiam por estas isoladas e remotas paragens qualquer tipo de assistência medicamentosa, escolar ou de qualquer outra ordem.

Estas tribos habitavam dispersas pela vasta savana em quimbos familiares de construção muito simples, que eram constituídos por algumas palhotas delimitadas em círculo por uma alta cerca de paus a pique, onde também eram abrigados durante a noite os animais domésticos que assim ficavam mais a salvo dos leões e de outros animais selvagens que dividiam a savana com estas tribos.

Em volta destes quimbos era frequente verem-se alguns terrenos de cultívo onde praticavam uma parca agricultura de subsistência à base de uma variedade de milho-miúdo a que chamavam massango, estas pobres culturas eram por vezes invadidas pelos elefantes principalmente durante a noite.

Certa vez quando de uma das minhas habituais deslocações em patrulha auto, que geralmente tinham a duração de quatro a cinco dias e em que eu dormia debaixo da viatura militar, cheguei a assistir apavorado a uma destas incursões em que os indígenas faziam um imenso banzé com tambores e ostentavam tochas acesas para afugentarem os esfomeados animais, que respondiam com urros intimidantes e ensurdecedores ecoando pela noite escura da savana.

Também tive oportunidade de contactar com os Bosquimanes, os célebres intervenientes do conhecido filme “os deuses devem estar loucos, e que em Angola são conhecidos por Mukankalas ou Vassequeles, estes povos nómadas eram vítimas de segregacionismo pelos seus vizinhos negros que os perseguiam acusando-os de, entre outros factos, destes lhes roubarem o gado.

Estes pequenos e inofensivos nómadas vivem da caça e da recolha de raízes, mel e insectos. São de baixa estatura, muito vulneráveis, de cor amarelada, e nádegas proeminentes que segundo se diz constituem reservas de gordura para as épocas de escassez.

Uma das suas características que mais me chamou a atenção foi a sua forma peculiar e estranha de comunicação, que consiste numa grande variedade de sons com estalidos da língua, pelo que ouvia contar, esta comunicação era tão complexa que os outros povos das redondeza também eles exímios em falar as línguas vizinhas, não conseguiam apreender a forma de comunicar destes pequenos nómadas.

Recentemente li num jornal Angolano que estes povos estão em perigo de extinção em Angola, na província da Huila á apenas cerca de dez anos existia uma população de alguns milhares e agora estão apenas contabilizados perto de 200 indivíduos, os quais estão a ser alvos de uma ampla campanha de ajuda alimentar e medicamentosa por parte de algumas ONG, relata-se também que a diminuição dos seus terrenos ancestrais de caça, aliadas às doenças, fome e outras carências são as principais causas da brutal diminuição deste característico e emblemático povo que se julga ser o mais antigo de África.

Durante os nossos patrulhamentos pela imensa e remota savana levávamos como guia e interprete o Luandino, homem da tribo Cuamato, de idade indefinida, era bastante magro e de pequena estatura idêntica aos Bosquimanes, mas sem aquelas feições características, e de pele bastante mais negra, com uns dentes brancos de neve que mostrava generosamente nos seus rasgados sorrisos.

Entendia os diversos dialectos falados nesta vasta região e afirmava também falar Alemão. Órfão de pais desde muito pequeno, tinha sido recolhido numa missão Alemã, onde os missionários apenas falavam Alemão e poucas palavras de um dialecto que ele não conseguia precisar, era um exímio poliglota este nosso cicerone.

Ao fim de poucos anos passados na missão, fugiu da disciplina imposta pelos alemães e regressou à vida dura e penosa da sua tribo, mas também à ambicionada liberdade, construiu um pequeno quimbo onde vivia com as suas três mulheres e nove filhos.

Desde a nossa chegada a este paraíso vem-nos prestando os valiosos serviços de guia-intérprete, aproveitando para recolher todos os enlatados que nós rejeitamos para levar para os seus filhos.

Devido ao facto de eu transportar sempre junto a mim o rádio militar Racal TR28, o Luandino tratava-me carinhosamente por: Patrão Telefonia e cedo se apercebeu do meu interesse e fascínio por esta região virgem e pelos seus incrédulos habitantes que foi com a nossa chegada que viram pela primeira vez homens brancos e vestidos de igual, montados em potentes cavalos berrantes. Luandino encarregou-se desde logo de satisfazer a minha curiosidade. Conversávamos imenso e fiquei com a ideia de que no final ele já se exprimia muito melhor em português, reciprocamente fui aprendendo várias palavras locais das quais ainda hoje recordo algumas.

Algum tempo após a minha chegada a estes longínquos lugares parto em patrulha auto num veículo militar de todo-o – terreno do tipo hunimog, após uma extenuante viagem de três dias pelos trilhos deixados pelos madeireiros e após o final destes, através das longas chanas sem arvoredo, apenas cobertas de um reles capim ressequido. Era já de noite quando chegamos a um modesto e isolado quimbo unifamiliar.

Extenuado e coberto de pó pegajoso preparava-me para passar a noite debaixo da viatura que me protegeria um pouco da friorenta humidade nocturna, quando repentinamente sou interrompido pelo Luandino que me diz:

- Patrão Telefonia, homem do quimbo quer que tropa com suas espingardas mate leão que anda comendo vacas.

-O que dizes? Ele pensa que somos caçadores? Retorqui!

Então o Luandino explicou-me que alguns leões quando chegam a velhos e não podem caçar, costumam atacar o gado, principalmente durante a noite, chegando a saltar as paliçadas.

Ficamos atemorizados, estávamos armados sim! Mas não com armas próprias para caça, e sem conhecimentos para enfrentar leões encurralados e na espessa escuridão da desconhecida savana.

Apavorado resolvi pernoitar no interior do quimbo, com o rádio e a arma G 3 a fazerem de almofada, pedindo à Virgem Maria que o leão não aparecesse. A longa noite, de perto de doze horas, foi muito fria, interrompida inúmeras vezes pelo gargarejar assustador e sinistro das irritantes hienas. A Virgem mais uma vez esteve ao meu lado e os raios de Sol finalmente começaram a penetrar a escuridão da infindável savana, sem sinal dos temidos e esfomeados leões.

 

FIM             

 

 

 

 

 

 

 


 
 
 
 

 
 
 
 
 
Subpages (1): Relato IV (M.Aldeias)
Comments