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AUTA DE SOUZA (1876 – 1901) nasceu no Estado do Rio Grande do Norte, na pequena cidade de Macaíba, em 12 de Setembro de 1876. Única filha mulher, de uma família aristocrática, estudou no Colégio São Vicente de Paula, em Recife. Seus primeiros poemas foram publicados na revista Oásis de Natal, ainda com 18 anos, e em revistas como A Mensageira (São Paulo). Em 1901 publicou o livro Horto, prefaciado por Olavo Bilac. A terceira edição do livro contou com o prefácio de Alceu Amoroso Lima. Para Genilson de Azevedo Farias, o silenciamento da autora em relação a própria cor talvez seja um dos motivos para a aceitação da sua obra na imprensa e brasileira e entre os críticos literários da época: “Assim, sempre que falarmos em escrita feminina no século XIX a obra de Auta vai ter grande importância, sobretudo por ela representar uma pequena parcela de mulheres negras que ficaram conhecidas pelo hábito da escrita (...).” (Auta de Souza: superando barreiras de gênero e raça no espaço da literatura feminina dos oitocentos. XXVII Simpósio Nacional de História, Natal 22 a 26 de julho de 2013).

Súplica

Se tudo foge e tudo desaparece,

Se tudo cai ao vento da Desgraça,

Se a vida é o sopro que nos lábios passa

Gelando o ardor da derradeira prece;


Se o sonho chora e geme e desfalece

Dentro do coração que o amor enlaça,

Se a rosa murcha inda em botão, e a graça

Da moça foge quando a idade cresce;

 

Se Deus transforma em sua lei tão pura

A dor das almas que o Ideal tortura

Na demência feliz de pobres loucos ...

 

Se a água do rio para o oceano corre,

Se tudo cai, Senhor! por que não morre

A dor sem fim que me devora aos poucos?

(SOUZA, 1970, p.244)

 

Caminho do Sertão

A meu irmão João Cancio


Tão longe a casa!... Nem sequer alcanço

Vê-la, através da mata. Nos caminhos,

A sombra desce... E, sem achar descanso,

Vamos, nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já! Como, em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos...

Vamos mais devagar... de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas... Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece,

Que a noite ensina ao desespero e à dor...

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva,

Turíbulo imenso, para Deus eleve

O incenso agreste da jurema em flor.


CARDOSO VIEIRA (1848 – 1880)

Em 08 de Outubro de 1879 um homem negro sobe a tribuna da Câmara Geral dos Deputados, no Rio de Janeiro, para falar sobre a substituição da mão de obra escravizada. Este homem era Manoel Pedro Cardoso Vieira, um promissor intelectual/político/abolicionista da distante província da Parahyba do Norte. Sua vida foi marcada por polêmicas, onde quer que tenha atuado, seja como advogado, jornalista, poeta, professor ou deputado, foi sempre um polemista nato. Em seus anos de estudo na Faculdade de Direito do Recife participou, ao lado de outros estudantes das províncias do Norte, de um movimento literário chamado de Condoreirismo, fundado por Tobias Barreto e que teve como proeminência o poeta dos escravos, Castro Alves. Após passar cerca de nove anos estudando em Recife retornou à sua província de origem, em 1871. No ano seguinte ao seu retorno, assumiu a cadeira de retórica no Liceu Provincial, com apenas 24 anos de idade. Atuou nesta instituição educacional durante sete anos, até 1878, quando assumiu o cargo de Deputado Geral. Como jornalista, fundou em 1875 o periódico O Bossuet da Jacoca, um jornal em que Cardoso Vieira travou seus principais embates políticos com o já respeitado Padre Lindolfo Correia. Paralelo a isso atuou como redator e depois diretor do jornal O Despertador, órgão do Partido Liberal. Em meio a tudo isso exerceu também o cargo de Chefe de Polícia interino, entre Março de 1877 e Maio de 1878. Cardoso Vieira pode ser visto como fruto da histórica resistência dos africanos e seus descendentes aos males que a escravidão trouxe ao seu grupo étnico-racial durante o longo período, quase quatro séculos, de vigência do sistema escravista.

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