APRESENTAÇÃO




    Este site foi construído com o intuito de fornecer contribuições significativas para pesquisadores, professores e pais de crianças e jovens com necessidades especiais. Espero que ele possa ajudar aos que acreditam ou desejam um mundo mais inclusivo.

     Vivemos hoje a busca de preparo ou a tentativa de se cumprir o imposto por lei quanto à inclusão das pessoas com necessidades específicas, como pessoas capazes de exercer sua cidadania em diferentes espaços, independente de terem ou não "perfeições" ou "imperfeições" físicas ou mentais. Assim sendo, toda contribuição é sempre bem vinda.

     O que vou publicar aqui é fruto de minha experiência na construção de uma prática referenciada no trabalho com pessoas com necessidades educacionais especiais, sejam elas alunos ou professores. Essa experiência foi adquirida no meu trabalho ao longo de quinze anos no INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), situado no Bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Além disso,trabalhei durante igual período na Universidade Estácio de Sá e fui a primeira professora surda profunda a ser contratada para ministrar a disciplina de Linguagem de Programação Java para turmas do 3º. Período de Análise de Sistemas, onde convivi com turmas constituídas por alunos ouvintes e surdos.

    Minha vivência frequentando como aluna surda profunda as salas de aula regulares, capacitou-me  a compreender como  a escola pode alcançar o pleno sucesso nessa matéria. Além disso, minha experiência como pesquisadora mostrou-me que as condições de atendimento ao surdo no Brasil continuam muito aquém do que se diz inclusão. Observo, infelizmente, que há ainda um percentual limitado de professores capacitados para acolher o surdo numa perspectiva inclusiva, bem como uma carência em relação ao conhecimento da LIBRAS. Isso tem levado à dificuldade de comunicação em sala e ao prejuízo no processo de ensino/aprendizagem. Assim, na maioria das vezes, o método oral acaba sendo a única forma de ensino, não há presença de intérprete em sala de aula, há surdos que não tem uma língua de sinais bem desenvolvida, e raramente nota-se a existência de educadores bilíngues. O que se constitui em um grande empecilho para desenvolvimento pleno do aluno surdo frente a atividade de ensino e diante das exigência de uma sociedade letrada.

    A conscientização de que a minoria da qual faço parte não é tão pequena assim e de que ela também pode ser produtiva me levou a procurar mais informações e encontrei na literatura e nas pesquisas de mestrado na UERJ caminhos para minha vida profissional. Escolher este trabalho exigiu muita fé e força de vontade. Esta opção me levou à vivência de sentimentos extremos e dicotômicos.

     A satisfação pessoal por estar construindo uma relação horizontal com alunos e pais era acompanhada pelo constrangimento de ser e de fazer tão diferente do ser e do fazer de meus pares de trabalho. Minhas vivências, leituras e os meus sonhos embasaram minha postura em sala de aula, o que me levou a procurar, fora de meu trabalho, pessoas que tinham a prática que eu almejava. Era preciso estudar, pesquisar, consultar, trocar experiências e avaliar com pessoas que tinham a mesma concepção de escola. Esta decisão me ajudou a avançar em meus ideais.

     Minhas diferenças, necessidades e dificuldades me trouxeram sofrimento, constrangimento e muita busca de melhoria e superação. Aprendi a importância da organização, da pesquisa, dos estudos, da avaliação constante e principalmente dos registros na vida do professor, sobretudo se ele é diferente.

     Minhas experiências como estudante surda em escolas regulares ajudou-me a compreender melhor meus alunos "diferentes". Como eles, sempre fui uma pessoa "especial" junto aos meus grupos de convivência. Trabalhar com uma aluna surda como eu me remeteu ao meu passado. Lembrei-me de minhas frustrações diante das inúmeras situações de querer e não poder, ou não conseguir, vivenciadas por mim ao longo de minha vida devido à acentuada surdez. Recordei-me da grande ansiedade que sentia em muitos destes momentos e de quanto silenciosamente sofria e desejava que alguém adivinhasse meus pensamentos, se aproximasse e estendesse a mão.

     O que hoje sei e aplico como profissional, aprendi buscando soluções para as dificuldades surgidas, adaptando e adquirindo materiais; planejando e improvisando com freqüência, de acordo com a necessidade ou mesmo por não poder contar com a ajuda de algumas colegas. Preparei-me procurando não aceitar, ou combatendo, as frustrações da dinâmica perversa da escola, com seus tempos estrangulados e a abundância de incredulidades.

     Continuo porque sinto prazer, gosto de estar com meus alunos, de descobrir o que não sabem, de pensar em intervenções que podem ajudá-los a entender o que estão fazendo ou desenvolvendo. Sinto satisfação ao perceber seus avanços, ao sentir a autoestima ou autoconfiança se desabrocharem. Eu me realizo com eles, me vejo neles, Cresço com eles. Por eles e com eles aprendi a me valorizar e ter um pouco mais de segurança no que faço. Espero que como eu, eles também consigam ser entendidos, queridos e aceitos.

SITE DA PROFª VERA DIAS


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