O Homem Barroco

Pôde-se ver até agora a atmosfera do Brasil na época colonial. Profunda crença religiosa, com acentuada preocupação com a morte e a sobrevida no outro mundo. Respeito pelo rei e pela realeza, com extrema valorização de tudo que provinha da Metrópole. Espírito de aventura, com preocupação de enriqueci-mento pela exploração da colônia, seja pela indústria extrativa do pau de tinta - pau-brasil -, seja pela implantação da cana-de-açúcar e do fumo no tempo, o melhor do mundo, ou, no sul, pela exploração de couro do gado das vacarias.

        Daí, neste ambiente prevaleceu a escravidão do selvagem, substituída, depois, pela do negro africano à medida que crescia o poder econômico, pois já se sabia da inadaptação do índio ao trabalho pesado de rotina da indústria do açúcar.
        Com o século XVIII, explodem o ouro e os diamantes, que revolucionaram a metrópole e a colônia, pela sedução de riqueza.
        Assim, o homem colonial foi também um homem do barroco, pois viveu tomando parte de uma época de sobressaltos, esperanças e desilusões, não em torno de ambições políticas, mas sim em torno de riquezas reais, que chegaram deslumbrando e criando na fantasia da massa algo maravilhoso, como que um sonho. Tudo isso foi excepcional na História, diferente, inesperado, bizarro, e por isso mesmo, barroco. Acredita-se, daí, que o homem dessa época só poderia produzir artisticamente criando algo diferente e característico como ele próprio, à feição barroca em todos os ramos de atividade artística. Ele nos legou, por isso mesmo, sua maneira de interpretar a arte de acordo com os percalços da vida colonial brasileira, dando-nos a oportunidade de estudar seus aspectos próprios.
        À opulência, seguem-se em sucessão, miséria e riquezas, segundo se esgotam as minas e novas reservas são descobertas. A angústia da abundância e da miséria acompanhou nosso homem setecentista até à realidade crua e inilu-dível do esgotamento completo do ouro. Estávamos então em decadência, cheios de desânimo, inconformados, pois tínhamos manuseado, usufruído e guardado o ouro que foi depois gasto, consumindo e perdido sem substituição. O homem do barroco viveu, por assim dizer, num sonho dourado. Enquanto antes e depois dele viveu-se e sonhou-se sem riqueza, ele sonhou e usufruiu riquezas sem par. Tinha, portanto, que se comportar de maneira diferente das gerações que o precederam e sucederam.
        Viveu em constantes angústias. Antes, pelo que buscava, depois pelo que encontrou e que logo se esgotava; mais adiante, tentando substituir com novas descobertas o que lhe fugia por entre os dedos; e finalmente, na angústia de buscar e nada encontrar. Caiu então no desânimo, na realidade de ter que traba-lhar para a sua sobrevivência, construindo pedra sobre pedra, no dia a dia rotineiro do pobre que junta aos poucos, em busca de alguma segurança. Este homem do Brasil-colônia teve, como pano de fundo de suas preocupações, a religião que o amparou na bem-aventurança e no pecado, que foram sempre os pólos entre os quais se situou. Teria ele que se construir, perenizar em templos, sua gratidão e submissão a Deus que tanto lhe dera e que acolhia a todos os fiéis e pecadores em seu "seio misericordioso". As igrejas acompanharam o homem do barroco; nelas ele deixou a marca de suas angústias, representadas por uma arquitetura cheia de profunda fé, opulenta em ouro e arroubos plásticos, que marcou esta época frenética da nossa história, perpetuando e como que desmen-tindo a dura realidade do mundo exterior, o fim da opulência da época do ouro do Brasil.
        A partir de monumentos barrocos coloniais pôde-se buscar elementos para entender nossos ancestrais. Conhecendo-os, compreendemos porque e como conseguiram realizar tão belas obras.
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