Parte 4 - João 1:1 – Como outras versões bíblicas e obras eruditas traduzem esse texto?

Neste estudo, iremos incluir algumas fotos das diversas traduções de João 1:1, feitas por versões e obras bíblicas anteriores à Tradução do Novo Mundo (NWT), bem como também algumas que foram feitas posteriormente. O objetivo é provar que esta versão, a NWT, não foi a primeira a traduzir João 1:1 por “a Palavra era um deus” ou “a Palavra era divina”, que não é a tradução tradicionalmente aceita ou usada pela maioria, mas é gramaticalmente correta, de acordo com as regras do grego coiné.  

 

O que dizem os eruditos estrangeiros? 

Comecemos pelo exemplo da versão bíblica “The New Testament in an Improved Version, upon the Basis of Archbishop Newcome’s New Translation” (Londres, 1808; Boston, 1809). Esta versão é uma revisão, preparada por um unitarista chamado Thomas Belsham, de uma tradução publicada pelo Arcebispo Newcome, em 1796: 




Veja como traduz “O Novo Testamento”, por Abner Kneeland (Philadelphia, EUA; 1823):


 

A versão “A Liberal Translation of the New Testament"; de E. Harwood, 1768, assim traduz o texto: 




Robert Young, erudito bíblico presbiteriano, é o tradutor da versão da Bíblia conhecida como “Young’s Literal Translation” (Edimburgo, 1863). Mais tarde, ele publicou a obra intitulada “Concise Commentary on the Holy Bible: Being a Companion to the New Translation of the Old and New Covenants” (Edimburgo, 1865). Trata-se de um comentário conciso de toda a Bíblia, e é muito interessante a tradução alternativa que esta obra oferece à última frase de João 1:1. Vejamos: 



 

A versão “A Literal Translation of the New Testament of our Lord and Saviour Jesus Christ” (Londres, 1863), por Herman Heinfetter (pseudônimo de Frederick Parker) traduz assim: "como um Deus o chefe era". Veja:


 

A versão “The Emphatic Diaglott” (Genebra, 1864), por Benjamin F. Wilson traduz assim: "e um deus era a palavra".  



  

A versão “Le Nouveau Testament” por Hugues Oltramare (Société Biblique Protestant de Paris, Genebra e Paris, 1872). O Dr. Oltramare, pastor e professor de Teologia na Universidade de Genebra, foi um dos mais importantes teólogos e exegetas da Igreja Reformada Suíça do séc. XIX. Traduziu o texto assim: 



A versão “The Bible – Analized, Translated and Accompanied with Critical Studies – New Testament”, traduzida por Leicester Ambrose Sawyer (Whitesboro, 1891), traduz assim: "e a palavra era um deus". Abaixo:

 


 

A versão “The New Testament – A New Translation”, por James Moffatt (New York, 1913). Moffatt foi um pastor presbiteriano e um célebre acadêmico do NT. Ele traduziu assim o texto:

 


 

A versão “The New Testament – An American Translation”, feita por Edgar Johnson Goodspeed (The University of Chicago Press, 1923). Goodspeed foi um ministro evangélico batista, professor universitário de Novo Testamento e Patrística Grega, e um muito respeitado acadêmico da Bíblia. A coleção de manuscritos da Universidade de Chicago leva seu nome em homenagem ao seu trabalho. Vejam como ele traduz João 1:1: "e a Palavra era divina". Veja: 



 

A versão francesa “La Bible du Centenaire – Le Nouveau Testament, Tome IV” (Société Biblique Protestante de Paris, 1928). Este NT foi traduzido por uma comissão de eruditos evangélicos francófonos. A tradução do Evangelho de João foi feita por Maurice Goguel, um dos mais importantes teólogos evangélicos franceses da primeira metade do séc. XX. Ainda mais, a sua tradução foi revisada pela Comissão de Tradução da Société Biblique Protestante de Paris. Para aqueles que não conhecem o idioma francês, a tradução da última frase de João 1:1 é a seguinte: “e o Verbo era um ser divino”.  Assim foi traduzido João 1: 1: 


 

 

A versão bíblica “The Four Gospels – A New Translation”, por Charles Cutler Torrey (Hodder and Stoughton, Londres, 1933). Torrey foi professor de línguas semíticas da Universidade de Yale. Traduziu assim: "e a Palavra era deus". Abaixo:  



 

Igualmente, a versão bíblica alemã “Die Helige Schrift”, feita por Hermann Menge (Stuttgart, 1961) traduz o texto da seguinte forma: ‘e Deus ( = de natureza divina ) era a Palavra’. Veja: 



 

Mais uma tradução que verte de maneira mais coerente com o grego coiné original o texto: “Novo Testamento”, em hebraico, da United Bible Societies (UBS, Sociedades Bíblicas Unidas), Jerusalém, 1979. Em hebraico transliterado, reza o texto: "Bereshith hayah ha davar, we ha davar hayah 'im ha elohim, w'elohim hayah ha davar"
(Tradução: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e deus era a Palavra.)
Notem o contraste entre 'ha elohim', ‘O Deus’ (com o artigo definido) e 'w'elohim' ‘e (um) deus’ (sem artigo definido) na mesma sentença, em destaque na foto.



 

 

A versão bíblica do Novo Testamento produzida em português para o público judeu, conhecida como “Novo Testamento Hebraico-Português”, (publicada pela Sociedade para a Distribuição das Sagradas Escrituras aos Judeus; Londres) tornou disponível na mesma edição o texto em português da Bíblia João Ferreira de Almeida, revista e corrigida, e o texto hebraico de Salkinson e Ginsburg. Como a versão acima, eles também diferenciaram a Palavra, no texto hebraico, usando o termo “Deus (elohim)” para distingui-lo de “O Deus (ha-elohim)”. Ficou assim a tradução: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com O Deus, e a Palavra era Deus (ou um Deus)”. Veja: 



 

 

E quanto à erudição e obras brasileiras? 

Felizmente, mais recentemente temos visto eruditos bíblicos brasileiros ‘nadando contra a maré’ e defendendo, em suas obras, uma tradução mais correta, mesmo não sendo tão usual. Isso também tem acontecido em obras traduzidas para o português. Vejamos alguns exemplos: 

A "Bíblia Israelita, Versão Judaica Nazarena", traduz coerentemente o sentido de João 1:1. Note:



A "Gramática do Grego do Novo Testamento", de Amador-Ángel Garcia Santos (Edições Loyola; 2002), na página 14, traz uma explicação sobre o uso de artigo no grego bíblico, bem como sua ausência. Note:




O “Dicionário Bíblico”, do erudito padre católico John L. McKenzie, produzido pela editora Paulus, traz um excelente comentário sobre o texto de João 1:1. Veja: 



 

Também encontramos no livro “Noções do Grego Bíblico”, feito por Lourenço Stelio Rega e Johannes Bergmann; Ed. Vida Nova, 3ªed, 2014. Note só a explicação dada nas páginas 76 e 342, respectivamente:

 


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Por fim, o professor de Grego e Hebraico no Seminário Presbiteriano do Sul, na área de Linguística no Instituto de Estudos de Linguagem (IEL) da UNICAMP; e de Grego e Exegese do Novo Testamento no Instituto Bíblico Palavra da Vida; Dr. Waldyr Carvalho Luz, produziu seu “Novo Testamento Interlinear” (Ed. Hagnos, 2010). E nessa versão, vejamos como ele colocou como possibilidade de tradução o texto: 


 


 

A conclusão a que devemos chegar

 

Este artigo não se trata de uma lista exaustiva. Existem outras traduções bíblicas não tradicionais de João 1:1, em vários idiomas, publicadas antes ou depois da Tradução do Novo Mundo. Nenhum dos autores citados foram membros de algum grupo religioso relacionado com as Testemunhas de Jeová, nem compartilharam, necessariamente, de seus ensinamentos. 

No entanto, os autores de diferentes confissões religiosas e ideologias (alguns deles eminentes eruditos bíblicos e membros proeminentes de suas respectivas denominações), e em épocas distintas, chegaram separadamente à mesma conclusão, que a tradução tradicional de João 1:1 (a Palavra [ou: o Verbo] era Deus) não é correta, e isso dá muito valor aos seus testemunhos. Além disso, eles  expressaram seu ponto de vista contrário à maioria da corrente teológica atual, o que torna ainda mais valiosa sua opinião. 

Isso só comprova que a Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada é uma versão coerente com a gramática do grego bíblico, e que a tradução “a Palavra era um deus (ou ‘a Palavra era divina’)” não é, como muitos que desconhecem os fatos afirmam, uma tradução “tendenciosa”, que faz “malabarismo teológico para adaptar às suas crenças não trinitárias”. Essa tradução não foi “tirada da cartola” e nem é uma ideia mirabolante! É perfeitamente consoante com as demais obras e versões bíblicas respeitadas mundo afora!





 

 Por Centurião

      julho/2016 

 

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