Transplantes


Qual foi a verdadeira postura das 

Testemunhas de Jeová sobre os 

transplantes de órgãos?




Em seu incansável esforço por desacreditar às Testemunhas de Jeová e por transmitir uma má imagem delas, alguns inimigos religiosos utilizam uma acusação relacionada com a postura das mesmas com respeito aos transplantes entre 1967 e 1980.

Qual é esta acusação e qual é a realidade?

Vejamos antes um resumo cronológico do desenvolvimento da técnica dos transplantes, seus envolvimentos éticos e a
postura das Testemunhas de Jeová, tudo ao mesmo tempo, para ter uma visão global do assunto em seu verdadeiro contexto histórico e cultural à luz do que era entendido à época.





A bioética e os transplantes de órgãos surgem de forma quase simultânea e a história de ambas, ainda breve, discorre de forma quase paralela (segundo o Dr. Diego Garcia Guillén, da Universidade Complutense de Madri (http://www.iqb.es/historiamedicina/academia/gracia.htm). 
Assim, podemos dizer que a história dos transplantes de órgãos, sem contar alguns pequenos ensaios e avanços prévios, começa na década de 50 do século XX. De fato, o principal problema que debate a bioética naquela década é o da mutilação que exige a doação por parte de um sujeito vivo.

Na década de 50, as publicações das Testemunhas de Jeová nem sequer fizeram menção de uma técnica que estava ainda em seus primeiros passos e era pouco mais do que episódica. Foi em 1961 quando se fez uma breve menção do tema, no número de 1º de agosto da revista Watchtower (1º de fevereiro de 1962, pág. 96, na edição em português de A Sentinela), na seção 'Perguntas dos Leitores':

“Há alguma coisa na Bíblia contra a se doar os olhos (após a morte) para serem transplantados numa pessoa viva?"

"...Não parece haver nenhum princípio ou lei bíblica envolvida. É, portanto, algo que cada pessoa deve decidir por si mesma....”


Como vemos, não se apresenta objeção aos transplantes de tecido, ainda que não entra na polêmica em voga sobre a mutilação de doadores vivos para transplantes de órgãos.

A técnica dos transplantes ainda estava em fase experimental na década de 60, de maneira que, à medida que se foi resolvendo o problema ético da mutilação, o grande tema em debate desta década foi o da utilização dos transplantes em seres vivos com fins experimentais. De fato, o catedrático de anestesiología da Faculdade Médica de Harvard Henry Beecher, publicou em 16 de junho de 1966 seu famoso artigo denunciando uma extensa série de experimentos médicos eticamente questionáveis (Henry K. Beecher, “Ethics and Clinical Research”. New England Journal of Medicine, 1966; 274: 1354-60). Pouco depois, em 1967, apareceu um livro na mesma linha que não demoraria em fazer-se famoso: Human Guiné Pigs , do médico britânico M.H. Pappworth.

Por então, A Sentinela de 15 de novembro de 1967 (1 de junho de 1968, p. 349-351, em sua edição em português) abordou também o tema das doações de órgãos em seu artigo Perguntas dos Leitores: “Será que há alguma objeção bíblica a que se doe o corpo para uso na pesquisa médica ou que se aceitem órgãos para transplante de tal fonte?”. 

No referido artigo, além de abordar a questão da mutilação, diz-se:

“Aqueles que se submetem a tais operações vivem às custas da carne de outro humano. Isso é canibalesco. Não obstante, ao permitir que o homem comesse carne animal, Jeová Deus não deu permissão para os humanos tentarem perpetuar suas  vidas por receberem canibalescamente em seus corpos a carne humana, quer mastigada 
quer na forma de órgãos inteiros ou partes do corpo, retirados de outros.”

De maneira que, a posição da revista nesta data é claramente contrária aos transplantes. Sem dúvida, nesta postura influiu o artigo sobre “Canibalismo médico” da Encyclopœdia of Religion and Ethics (Enciclopédia de Religião e Ética), de James Hastings (veja-se o volume 3, página 199).


Dr. Christiaan Barnard (1922 - 2001) foi um cirurgião, pioneiro em realizar um transplante de coração, na África do Sul, em 1967.
Pouco depois, em dezembro de 1967, o Dr. Barnard realizou na África do Sul o primeiro transplante de coração com sucesso (o paciente viveu 18 dias, o qual se considerava um sucesso para uma terapia experimental de alto risco como eram então considerado os transplantes). Aquilo fez que se apertasse ainda mais a 
controvérsia, que se converteu numa acalorada polêmica nos meios de comunicação com críticas de grande dureza e agressividade. 


Enquanto a questão ética da experimentação se aproximasse da sua solução, surgiu um novo tema de debate sobre os transplantes que caracterizaria quase toda a década de 70: depois de um relatório da Universidade de Harvard sobre o coma irreversível, grupos alheios à medicina começaram a expressar sua preocupação para que os médicos definissem unilateralmente o momento da morte e, portanto, o momento em que podiam extirpar-se órgãos para experimentar em transplantes (Rothman, D. Strangers at the Bedside New York , 1991, Basic Books). Apareciam artigos na imprensa geral 
perguntando-se qual é o momento da morte (veja-se, por exemplo: Stevens, L. “When is Death?” Reader’s Digest, maio de 1969, págs. 225-232). Grupos religiosos e filosóficos queriam fazer ouvir sua voz, e os hospitais começaram a realizar reuniões entre clérigos e médicos sobre o tema da morte cerebral.

Durante aqueles anos (entre 1968 e 1975) houve algumas menções ocasionais e breves dos transplantes de órgãos nas revistas das Testemunhas de Jeová, todas elas expressando uma posição negativa, e geralmente citando obras e autores alheios às Testemunhas de Jeová (a última menção, no número de 1 de setembro de 1975 apareceu em português no número de 1 de março de 1976, p. 135).

A fase experimental dos transplantes dura até 1975; desde então, à medida que se solucionavam os problemas éticos e sobretudo os problemas técnicos, os transplantes entraram numa fase de consolidação que duraria até 1983.

Durante os primeiros anos desta fase, não há nenhuma alusão à técnica dos transplantes nas publicações das Testemunhas de Jeová. Até que no número do 15 de março de 1980 de A Sentinela (1 de setembro, p. 31, em sua edição em português) publicou-se outro artigo na seção Perguntas dos Leitores, que dizia:

“Deve a congregação tomar ação quando um cristão batizado aceita o transplante dum órgão humano, tal como a córnea ou um rim?"

"No que se refere ao transplante de tecido ou osso humano de um humano para outro, é um caso de decisão conscienciosa de cada uma das Testemunhas de Jeová.”


A novidade deste artigo é que não se expressam pontos de vista a favor e contra aos transplantes de órgãos e se especifica que cada um deve tomar sua decisão pessoal. Essa segue sendo a postura das Testemunhas de Jeová até o dia de hoje.

O valor imunossupressor de uma substância chamada ciclosporina  tinha sido descoberto em 1976, e então começaram uma série de experimentos para tratar de vencer o principal problema técnico dos transplantes, a rejeição. Os experimentos foram muito satisfatórios e finalmente se terminou aprovando oficialmente seu uso médico em 1983. Também, no final dos anos 70 e princípio dos 80, se chegou a uma solução satisfatória sobre o problema ético do momento exato da morte. Não é casual que as leis reguladoras sobre os transplantes começassem a aparecer em torno do ano 1980 (por exemplo, a lei espanhola sobre extração e transplante de órgãos é de 1979, e a norte-americana, de 1984). Assim, desde princípios dos anos 80, e especialmente desde 1983, os transplantes de órgãos deixaram de ser uma técnica experimental para passar a ser uma terapia médica. De fato, desde aquele ano e até os anos 90, muitas igrejas da cristandade e outras religiões começaram a emitir resoluções oficiais a favor dos transplantes de órgãos. Hoje é um procedimento médico aceito e de uso corrente.

Anos depois, opositores das Testemunhas de Jeová decidiram utilizar, entre suas muitas acusações, para escandalizar a opinião pública, algumas acusações relativas aos transplantes. Em que consistem estas acusações?

Afirmou-se que muitas Testemunhas recusaram esta terapia sob ameaça de expulsão apresentando o assunto como uma postura suicida ante uma terapia segura que salvava vidas. Para adicionar um efeito dramático, alguns chegaram a afirmar que muitas Testemunhas morreram por esta postura. Foi dito que em 1980 deixou de se expulsar às Testemunhas que 
aceitavam transplantes e não se pediu perdão pelos que supostamente tinham sido expulsos ou tinham morrido devido à postura anterior.

A profundidade desta acusação é tratar de equiparar aquela situação à de nossa rejeição às transfusões de sangue. Tratam de apresentar um pretexto  “histórico” de ensinos anticientíficos contra os progressos médicos para tentar dar a impressão de que nossa postura bíblica com respeito ao sangue é só mais um ensino fanático que inclusive poderia mudar no futuro.

Talvez as pessoas mais informadas não precisem seguir lendo para saber do que tais acusações são absurdas, mas a seguir trataremos separadamente três aspectos desta acusação:

Por um lado, se é verdadeiro ou não que havia ameaça de expulsão, assim como qual era a postura de outras religiões. Em segundo lugar, se recusar um transplante naqueles anos era realmente uma questão de vida ou morte. E, por último, se é verdadeiro que houve Testemunhas que foram expulsas ou morreram devido a este assunto.


Era expulso quem não recusasse os transplantes de órgãos?

Como já mencionamos na primeira seção deste artigo, no número do 15 de novembro de 1967 de A Sentinela (1 de junho de 1968, p. 351, em português), apresentava-se um ponto de vista negativo sobre esta questão. Mas, se apresentava como uma proibição categórica, sob pena de expulsão?  

O mesmo artigo dizia, em sua parte final:

“Deve ficar bem evidente, por meio desta consideração, que os cristãos que têm sido esclarecidos pela Palavra de Deus não precisam fazer tais decisões apenas à base dos caprichos ou das emoções pessoais. Podem considerar os princípios divinos registrados nas Escrituras e usá-los em fazer decisões pessoais à medida que se voltam para Deus em busca de orientação, confiando nele e depositando fé no futuro que ele tem em reserva para aqueles que o amam.”

De maneira que, ainda que a postura expressa no artigo é claramente contrária aos transplantes, especifica-se que se trata de uma decisão pessoal e não se faz nenhuma menção de medidas disciplinares, como pode ser comprovado.

Para ver o assunto mais claramente, contrastemos com a questão das transfusões de sangue. Expressou-se pela primeira vez a ideia de que tal terapia ia contra a lei divina sobre a santidade do sangue em 1945, no entanto, não foi até 1961 que se especificou que o assunto era de suficiente gravidade para se expulsar das congregações a quem passasse por alto este requisito divino e manifestasse uma atitude impenitente.

Sucedeu o mesmo com os transplantes? Depois do artigo de 1967, se mencionou em alguma publicação posterior que aceitar um transplante era um assunto de suficiente gravidade como para expulsar a quem o fizesse e não se arrependesse disso?

Em 1968 se publicou o livro "A Verdade que Conduz a Vida Eterna", um manual que menciona os ensinos fundamentais das Testemunhas de Jeová para estudar com as pessoas interessadas. Este livro considera em profundidade o assunto da santidade do sangue, mas nem sequer se menciona o assunto dos transplantes de órgãos!

Ademais, os candidatos ao batismo, assim como hoje, deviam examinar e aceitar as doutrinas bíblicas fundamentais das Testemunhas de Jeová antes de seu batismo, pelo qual se utilizavam perguntas impressas publicadas nos livros "Lâmpada Para o Meu Pé É a Tua Palavra" (publicado em 1967, em 1968 em português) 
e "Organização para Pregar o Reino e Fazer Discípulos" (1972). Entre estas perguntas se consideravam as normas morais das Testemunhas de Jeová, incluída nossa postura sobre as transfusões de sangue. No entanto naqueles livros não se dizia absolutamente nada sobre os transplantes de órgãos.

Portanto, a evidência indica que, nada havia nas publicações das Testemunhas que se mostrasse posturas negativas sobre os transplantes desde 1967 até 1975, e que não se expulsava a ninguém por este assunto.

Por outro lado, foram as Testemunhas de Jeová um caso excepcional por expressar um ponto de vista negativo com respeito aos transplantes? Deixando à margem opiniões médicas contrárias da época, dado que a religião aborda questões éticas, muito com frequência costuma-se questionar os avanços científicos (um exemplo atual o temos no caso da investigação sobre células-tronco). Como já mencionamos, os experimentos sobre transplantes suscitaram uma grande polêmica, especialmente no final dos anos 60, e nela os setores religiosos tiveram um papel destacado.

Igrejas, como a Católica, por exemplo, apresentaram no passado sérias objeções à técnica do homotransplante, ou transplante entre seres da mesma espécie (E. Chiavacci, Morale della vita fisica, EDB, Bologna, 1976, pp. 64-81). 
Em seu livro "Problemi dei etica sanitária" (Problemas de ética sanitária, 1992; Ancora, Milano, pág. 189), o jesuíta Giacomo Perico reconhece que até não faz muito tempo, os transplantes propunham "ainda sérias reservas de caráter moral” para os católicos. O mesmo pode dizer-se de outras religiões. Por exemplo, não foi até 1987-88 que o judaísmo se expressou oficialmente de forma favorável com respeito aos transplantes (veja-se, por exemplo, Alfredo Mordechai 
Rabello, "Donazione dei organi. Comunicato dell’Assemblea dei Rabbini d’Itália", Tem Keillah, junho de 2000, págs. 12-13; Riccardo Dei Segni, "Il ponto dei vista dell’ebraismo", em "A donazione e il trapianto dei organi e dei tessuti", Ponto 
Omega, dezembro de 2000 [anno II, n. 4], pág. 34).

O Conselho Religioso Muçulmano recusou a doação de órgãos numa data tão tardia como 1983, ainda que mais tarde mudou completamente sua posição e agora se aceita.

O povo cigano não tem uma religião própria, mas suas crenças tradicionais tendem a opor-se à doação ainda hoje em dia, pois pensam que o corpo deve permanecer intacto durante um ano depois da morte.

No Xintoísmo, a religião tradicional do Japão, costuma considerar-se um grave crime mutilar um corpo morto, segundo E. Narnihira em seu artigo "Shinto Concept Concerning the Dead Human Body" (“O Conceito Xintoísta Sobre o Corpo Humano Morto”). No mesmo artigo, adiciona: "Até o dia de hoje, é difícil obter o consentimento das famílias que perderam a um ser 
querido para fazer uma doação ou uma dissecação”.

Por conseguinte, muitos grupos religiosos se opuseram em algum momento aos transplantes e a maioria mudou seu ponto de vista com o tempo, como sucedeu com as Testemunhas de Jeová. Ainda que, como também vimos, as Testemunhas de Jeová nunca foram obrigados a aceitar tal postura sob ameaça de expulsão.


Era aceitar um transplante uma questão de vida ou morte?

Apresentar a rejeição das Testemunhas de Jeová (ou de qualquer outro grupo) para os transplantes nos anos 60 e 70 como uma postura suicida é um sério erro de perspectiva histórica. Como já se mostrou, até 1975 os transplantes se encontravam ainda em fase experimental, e por tanto eram intervenções de alto risco.  Um médico tratou o assunto de se era ético utilizar uma técnica tão arriscada em Annals of Internal Medicine, citando 
os resultados de 244 operações de transplante de rim; na maioria dos casos, o receptor faleceu antes de decorrer um ano. 
Depois, comentando sobre os perigos para o voluntário que doa um de seus rins, o doutor perguntava: “Está bem submeter a uma pessoa sã (…) à possibilidade (…) de encurtar a duração de sua vida em 25 ou 30 anos para alongar a vida de outra pessoa 25 ou 30 meses, ou menos?” A revista Newsweek de 2 de março de 1964, pág. 74, diz que o doutor “não oferece nenhuma resposta concludente, senão que sugere que a pergunta deveria propor-se mais com frequência.”

Ainda no final dos anos 60, o transplante de rim, que era um dos que mais avanços tinham experimentado, tinha uns resultados tão limitados, que entre um 30 e um 40% dos transplantados faleciam durante o primeiro ano, e a percentagem de rins funcionantes ao ano do transplante era muito baixo. 
Inclusive entrando na segunda metade dos anos 70, superada já a fase experimental, o risco de rejeição ao transplante de rim era de entre 15 e 20%. A situação era ainda pior no caso de outros tipos de transplante mais complexos.  

Em 1963, Thomas Starzl realizou o primeiro transplante de fígado entre humanos, a um menino de três anos que sobreviveu cinco horas. Como se disse antes, em 1967 se considerou um sucesso que o primeiro receptor de um transplante de coração sobrevivesse 18 dias à operação. Em 1968 se praticaram 107 transplantes de coração no mundo, mas só 22% sobreviveu ao primeiro ano. Em 1978, o doutor Frank J. Veith publicou um trabalho no que recompila os resultados de 38 pacientes de transplantes de pulmão em 20 anos, dos quais só 2 sobreviveram a médio prazo (1 a 6 meses); os demais morreram cedo. Só 12 sobreviveram mais de 2 semanas.

O principal problema dos transplantes é a rejeição do organismo receptor a um corpo estranho, e os potentes medicamentos que se empregavam para suprimir a rejeição eram precisamente os que provocavam sérias infecções que levavam em muitos casos à morte do paciente. Como se explicou na introdução, foi em 1976 quando se descobriu o valor imunosupressor da ciclosporina e depois de vários experimentos se aprovou seu uso médico em 1983, o que causou uma revolução no uso dos transplantes. Sirvam estas cifras como exemplo para mostrar que na época em que as publicações das Testemunhas de Jeová se expressavam contra os transplantes, estes não eram senão experimentos médicos de alto risco, e não a terapia relativamente segura e eficaz que é hoje em dia.

Há casos reais de Testemunhas expulsas ou mortas por esta questão?

Pese ao risco que supunham naqueles anos os transplantes de órgãos, pese a ser uma terapia experimental que se realizava em contadas ocasiões e pese a que as Testemunhas de Jeová por então mal contavam com um milhão de membros em todo mundo, alguns detratores não duvidam em suas campanhas de desinformação em afirmar que muitas Testemunhas de Jeová morreram prematuramente ou foram expulsos por esta postura 
contrária aos transplantes.

Se isto fosse verdadeiro, seria fácil apresentar evidências, pois falamos de anos relativamente recentes, e sem dúvida muitos ex-Testemunhas ressentidas estariam encantados em apresentar seus depoimentos. Mas, é realmente o caso?

Numa palavra: Não! Os detratores não podem apresentar praticamente nenhum caso, e os poucos que apresentam, ao analisar-se, resultam ser situações muito diferentes ao que se pretende fazer ver.

Em primeiro lugar, diz-se que um ancião dos Estados Unidos chamado Arvid Einar Moody desenvolveu uma doença renal, pelo que começou um tratamento de diálise, enquanto, devido à postura negativa expressada na revista Sentinela, recusou a idéia de fazer-se um transplante (não se especifica se algum médico o recomendou ou tão somente foi uma ideia que cruzou sua mente). Depois de vários anos de diálise, morreu em 1978, à idade de quase 68 anos.

O relato é narrado por sua filha, uma tal Debbie Shard, atualmente ex-Testemunha de Jeová e opositora ativa de sua anterior religião. Ainda supondo que sua beligerância não tenha influído em sua apresentação dos fatos, devemos ter em conta o verdadeiro contexto histórico da situação: por um lado, o transplante renal era ainda uma terapia de alto risco (mais de uma terça parte dos pacientes morriam antes de um ano), enquanto se reconhece que o Sr. Moody sobreviveu vários anos obrigado à diálise. Por outro lado, como se mostrou também, não existia uma pena de expulsão que influísse para tomar uma decisão ao respeito.

Também se diz que uma Testemunha de Jeová chamada Delores Busselmann morreu em 1971 depois de recusar um transplante. O relato, apresentado por seu marido, quem hoje é também um ativo opositor das Testemunhas de Jeová, não apresenta o assunto em sua verdadeira perspectiva. Delores Bussellmann padecia de leucemia, e se lhe recomendou um transplante de medula óssea. Há ao menos dois aspectos muito importantes que ter em conta: o primeiro, que os transplantes de medula óssea eram também uma técnica experimental e arriscada. Em 1968 se tinha conseguido realizar um transplante de medula entre dois gêmeos idênticos, pois a compatibilidade é maior. Não foi até 1973 (dois anos depois do falecimento da Sra. Busselmann) que se realizou nos Estados Unidos o primeiro transplante de medula óssea em que o doador e o receptor não eram gêmeos. E não foi até 1979 que se realizou o primeiro transplante a uma paciente enferma de leucemia (que morreu dois anos depois). De maneira que, tendo em 
conta o grau de avanço em que se encontrava a terapia dos transplantes de medula óssea em 1971, é mais do que duvidoso que nenhum médico oferecesse muitas garantias para o que não tivesse sido mais do que um experimento médico.

Mas ainda mais importante é o fato de do que um tipo de transplante tão peculiar como o de medula óssea exigia de forma praticamente inevitável, abundantes transfusões de sangue. De maneira que ao final, se damos crédito ao relato, a questão tem mais do que ver com a postura bíblica de respeito à santidade do sangue, que com a rejeição aos transplantes.

Outro caso que se chegou a utilizar é o de um jovem cuja experiência se publicou no número do 15 de maio de 1970 de A Sentinela. Neste caso nem sequer se trata de alguém que falecesse, senão de alguém que relata sua experiência depois de recuperar-se. A questão a que enfrentou esta pessoa não foi a dos transplantes, senão a das transfusões de sangue, ainda que em certo momento de seu relato, os médicos lhe perguntam se estaria disposto a doar um rim. Precisamente, sua reação é um bom exemplo da diferença que era a postura das Testemunhas de Jeová com respeito às transfusões de sangue e com respeito aos transplantes de órgãos. Quando se lhe oferecem duas possíveis intervenções, uma que incluía transfusões e outra que não, o paciente elege a opção sem transfusões. Mas quando se lhe pergunta se daria seu consentimento para doar um rim, esta foi sua reação:

"Disse-lhe que ele receberia uma resposta franca e cabal a sua pergunta depois que eu considerasse com minha família o que a Palavra de Deus dizia sobre aquela questão”.

Não foi até o dia seguinte que lhe respondeu de forma negativa. Isto ilustra claramente que a questão dos transplantes não era comparável à das transfusões de sangue. Os transplantes não estavam proibidos categoricamente, senão as Testemunhas de Jeová não deveriam tomar sua decisão pessoalmente (ou conferindo com sua família, como no caso deste jovem).

Conclusão

Em resumo, ainda que seja verdadeiro que as publicações das Testemunhas de Jeová expressaram uma postura negativa com respeito aos transplantes, temos visto que não há evidência ou atestado médico de nenhuma Testemunha que morresse diretamente por recusar um transplante (e muito menos de “muitas Testemunhas”); temos visto que não foi uma postura fanática nem suicida, pois naqueles anos os transplantes não eram senão experimentos científicos de alto risco; temos visto que por então era uma questão polêmica e que outros grupos religiosos e inclusive médicos estavam na contramão; temos visto que não se tomava nenhuma medida disciplinar contra as Testemunhas que não recusassem os transplantes.

Fato: A acusação lançada por opositores das Testemunhas de Jeová contém alguma verdade, misturada com várias mentiras numa profundidade muita enganosa, com uma perspectiva histórica absolutamente distorcida.

O paralelismo que se pretende criar entre aquela postura sobre os transplantes e nossa 
postura sobre as transfusões é descabida e falaciosa!

Portanto, a acusação não passa de falácia tendenciosa e fora de todo um contexto histórico!



Adaptado por Centurião

abril/2010
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