Evolução da escrita

Sabemos que, nos primórdios, ainda no tempo das cavernas, o ser humano tentava exprimir seus pensamentos por meio de desenhos. Portanto, num primeiro momento, a escrita seria caracterizada como logográfica.

Após esse momento, essa forma de expressão foi se desenvolvendo e adquirindo um caráter mais arbitrário, como afirma Langacker (1972):

Desde o início, os sinais de palavras passaram a ser usados como sinais silábicos através do princípio dos enigmas. Suponhamos, por exemplo, que houvesse sinais para as palavras ray e sing, mas não para racing. Seria a coisa mais natural quando surgisse numa mensagem escrita a necessidade de representar a palavra racing, fazê-lo através da combinação dos sinais existentes para ray e sing. Seguindo-se com regularidade esse sistema, os sinais perdem seu valor representativo de palavras e assumem um valor puramente fonético. Assim, um sistema basicamente silábico pode se desenvolver a partir de um sistema basicamente logográfico.

Com o decorrer do tempo, as sociedades foram mudando e, com elas, novas formas de escrita surgiram. Além disso, a cada nova tecnologia, novas possibilidades de concretização do pensamento em palavras se configuraram. Seguindo o pensamento de Bolter (1991), o espaço de escrita é “o campo físico e visual definido por uma determinada tecnologia de escrita”. Soares (2002) utiliza-se dessa definição de Bolter para refletir sobre o condicionamento que o espaço impõe à escrita:

Todas as formas de escrita são espaciais, todas exigem um “lugar” em que a escrita se inscreva/escreva, mas a cada tecnologia corresponde um espaço de escrita diferente. Nos primórdios da história da escrita, o espaço de escrita foi a superfície de uma tabuinha de argila ou madeira ou a superfície polida de uma pedra; mais tarde, foi a superfície interna contínua de um rolo de papiro ou de pergaminho, que o escriba dividia em colunas; finalmente, com a descoberta do códice, foi, e é, a superfície bem delimitada da página – inicialmente de papiro, de pergaminho, finalmente a superfície branca da página de papel. Atualmente, com a escrita digital, surge este novo espaço de escrita: a tela do computador.

Com os gregos, surgiu a escrita alfabética, que nos permite dividir as palavras em signos ainda menores, as letras. Com esse sistema, pudemos fazer muito mais combinações para a expressão de nossas ideias e sentimentos, e é por essa razão que esse sistema faz tanto sucesso até hoje, embora haja outros sistemas de escrita (Langacker, 1972). Para alguns teóricos, como Havelock (1988), a história da linguagem humana se divide em antes e depois da escrita alfabética, pois possibilitou uma maior abstração no estudo e na compreensão do fenômeno da linguagem. O autor descreve quatro consequências do surgimento da escrita alfabética grega: a facilidade de reconhecimento de elementos discretos: palavras, morfemas, fonemas; a diminuição de sobrecarga da memória, já que sofre menos pressão do que em culturas orais; a substituição do auditivo pelo visual; e a possibilidade de estudo da linguagem concretamente.

Outro autor a trabalhar as diferenças entre a cultura oral e a escrita é Ong (1998), que considera a oralidade um processo natural da linguagem, enquanto a escrita é vista como tecnologia subsidiária da fala. Dentre as formas de escrita, valoriza especialmente a escrita alfabética.

Há também pesquisadores que criticam a supervalorização da escrita alfabética. Street (1995) é um deles. O autor afirma que sistemas de escrita pictográficos e ideográficos são considerados “menos importantes”, segundo a visão de Ong (1998) e Havelock (1988), e que essa seria uma visão preconceituosa, baseada nos valores ocidentais.

A escrita alfabética é sequencial, linear. A relação com outros textos se dá essencialmente pela paráfrase, pela citação, pelas notas, e, embora as possibilidades de intertextualidade sejam enormes (e, dependendo de quanto se expande o conceito de intertexto, sejam mesmo inevitáveis), a progressão da leitura obedece ao padrão da linearidade e a um fio condutor que pode ser momentaneamente quebrado, mas ao qual se retorna.

A possibilidade de ligação entre textos, o chamado hipertexto, surgida com a tecnologia da informática, transforma o espaço da escrita, antes estático com as páginas do livro. Nas palavras de Marcuschi (2001): “a ordem das informações não está dada na própria estrutura da escrita. Diferentemente do que o texto de um livro convencional, o hipertexto não tem uma única ordem de ser lido.”

Para Ramal (2002), o hipertexto se aproxima de nossos esquemas mentais, pois:

Estamos chegando à forma de leitura e de escrita mais próxima do nosso próprio esquema mental: assim como pensamos em hipertexto, sem limites para a imaginação a cada novo sentido dado a uma palavra, também navegamos nas múltiplas vias que o novo texto nos abre, não mais em páginas, mas em dimensões superpostas que se interpenetram e que podemos compor e recompor a cada leitura.

Marcuschi (2001), relacionando o hipertexto com as formas clássicas de produção textual, o caracteriza como: não linear, devido às várias possibilidades de ligação entre nós constituintes de uma rede; volátil, já que as escolhas são tão passageiras quanto as conexões estabelecidas por seus leitores; topográfico, já que é um espaço de escritura e leitura que não tem limites definidos para se desenvolver; fragmentário, pois é constituído por porções em geral breves, com sempre possíveis retornos ou fugas do leitor; passível de acessibilidade ilimitada, pois acessa todo tipo de fonte, sejam elas dicionários, enciclopédias, museus, obras científicas, literárias, arquitetônicas etc.; multissemiótico, pois interconecta simultaneamente a linguagem verbal com a não verbal de forma integrativa, impossível no caso do livro impresso; e interativo, pois possibilita uma contínua relação de um leitor-navegador com múltiplos autores em quase sobreposição em tempo real, chegando a simular uma interação verbal face-a-face.

Como vemos, a escrita, assim como a fala e outros comportamentos sociais, adapta-se ao contexto em que se vive. O ser humano, no decorrer dos tempos, procura tornar mais prática e inteligível essa forma de comunicação. Desde os primórdios, a escrita é a mesma; o homem é que a adapta ao contexto, conforme afirma Lévy (1999).

O funcionalista Halliday (1994) também alerta sobre a evolução da linguagem verbal:

...a linguagem verbal tem evoluído de forma a se adequar às necessidades humanas; e a maneira como se organiza é funcional no que concerne a essas necessidades; em outras palavras, não é arbitrária (minha tradução).

Segundo a abordagem funcionalista, como o próprio nome diz, procura-se investigar a função da linguagem em um determinado contexto. Parece óbvio, então, que o falante adapte sua forma de comunicar-se ao ambiente em que o faz.

Atualmente, os gêneros que vêm nos chamando a atenção são aqueles emergentes da cibercultura, ou seja, os advindos da comunicação via Internet. Esses gêneros se utilizam de características tanto da escrita tradicional, quanto da oralidade, o que torna esse tipo de expressão um gênero híbrido e diferente dos já utilizados até hoje.

Sabemos que é comum adaptarmos características da oralidade à escrita, como os sinais de pontuação, por exemplo, tentam fazer em relação a pausas e entonação. Porém, os sistemas de comunicação anteriores à web demoraram séculos para se espalharem; com a Internet, a proliferação acontece em anos, como salienta Lévy (1999). Por esse motivo é que essas mudanças na escrita ganham proporções bem maiores atualmente, comparando-se com as mudanças que aconteciam antes da globalização e da web.

Nos séculos passados, a forma mais comum era a manuscrita, e as pessoas acabaram por criar várias formas de abreviação, a fim de alcançar uma maior rapidez ou simplesmente por julgarem desnecessárias as formas estendidas de algumas palavras dentro de determinados contextos da mensagem.

Como trataremos do Internetês, a seguir, veremos alguns tipos de abreviaturas e suas definições, para que se torne mais fácil nossa posterior análise de dados.

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