Hipólito de Roma - Santo Hipólito

postado em 26 de abr de 2012 08:03 por Antonio Gazato Neto


Hipólito de Roma

Santo Hipólito

Nascimento:    170 em Roma

Morte:               236 (66 anos) em Sardenha

Festa litúrgica       Igreja Católica: 13 de agosto

Igreja Ortodoxa: 30 de janeiro

Padroeiro:   Bibbiena, Itália; cavalos; carcereiros; policiais carcerários; funcionários de prisão.

Hipólito de Roma foi o mais importante teólogo do século III d.C. na Igreja antiga em Roma, onde ele provavelmente nasceu.

Fócio o descreveu em sua Bibliotheca (cód. 121) como sendo um discípulo de Ireneu, que se acredita ter sido discípulo de Policarpo e, pelo contexto da passagem, supõe-se que o próprio Hipólito assim se considerava. Porém, é duvidoso se esta afirmação de Fócio seja verdadeira.

Ele entrou em conflito com os papas de sua época e parece ter sido líder de um grupo cismático como um bispo rival de Roma. Por isto, ele é considerado como o primeiro Antipapa. Ele se opôs aos bispos de Roma que afrouxaram as regras de penitência para acomodarem um grande número de novos convertidos da religião pagã. Porém, muito provavelmente ele já estava reconciliado com a Igreja quando morreu como mártir.

Ele é a pessoa que a quem usualmente chamamos de Santo Hipólito. Porém, iniciando no século IV d.C., várias lendas surgiram sobre ele, identificando-o como um padre do cisma novaciano ou um soldado convertido por São Lourenço. Ele também é muitas vezes confundido com um mártir de mesmo nome.

Vida

Como um presbítero da Igreja em Roma sob o Papa Zeferino (199-217 d.C.), Hipólito se destacou por sua erudição e eloquência. Foi nesta época que Orígenes, então um jovem, o ouviu pregar.

Ele acusou o Papa Zeferino de modalismo, a heresia que ensinava que Pai e Filho eram apenas nomes diferentes para o mesmo sujeito. Hipólito, por sua vez, defendia a doutrina do Logos dos apologistas gregos, que distinguia o Pai do Logos ("Verbo"). Um conservador do ponto de vista ético, ele se escandalizou quando o Papa Calisto I (217-222 d.C.) estendeu a absolvição aos cristãos que tinham cometidos pecados graves, como o adultério. Foi nesta época que é possível que ele tenha se permitido ser eleito como um rival do bispo de Roma, além de continuar atacando os papas Urbano I (222-230 d.C.) e Ponciano (230-235 d.C.).

Antipapa e o cisma

Hipólito e seu grupo entraram em conflito com o Papa Calisto I (217-220), pôr pensar que o novo Pontífice, ao relaxar a legislação demasiado dura sobre o casamento e a penitência, estava abandonando a tradição católica. Justificando, com este motivo, sua posição irredutível, Hipólito escreveu o tratado sobre A Tradição Apostólica, fonte de primeira importância, para conhecermos a Igreja de seu tempo. Queixou-se também, de Calisto, de que tivesse este papa sendo condescendente quanto ao fato de se cometer um pecado mortal, não ser razão suficiente para depor um bispo, como alegava o contrário a Hipólito. Reclamava também, do fato que o Papa tivesse admitido às ordens a quem se tinha casado duas ou três vezes e que tivesse reconhecido a legitimidade dos matrimônios entre os escravos e mulheres livres, o que estava proibido pela lei civil. Combateu as mais variadas heresias, e foi grande defensor da sã doutrina e disciplina. Hipólito era um homem pouco dado ao perdão. E suas atitudes pouco conciliatórias só poderiam causar problemas no seio da Igreja. Suas “implicâncias” eram tão “ferozes”, suas críticas tão “ácidas”, seu palavreado tão propenso à discussão, que começaram a “minar” a autoridade papal com grandes recriminações que atingiam com francas e amplas censuras diretamente ao papa Zeferino, pôr ser, em sua opinião, não suficientemente preparado para detectar e denunciar a heresia. Por ocasião da escolha de São Calisto I, ele interrompeu as relações com a Igreja de Roma, e, reunindo seus inúmeros seguidores, consentiu ser ordenado Bispo de Óstia, e em ser colocado como antipapa; opositor ao Papa, fundando uma igreja própria, arrastando no cisma parte do clero e do povo de Roma. Sua postura intransigente, acrescentando-se suas divergências pessoais de oposição, e, a não disfarçada inveja, porque Calisto fora o preferido pelo clero a ele como sucessor do Papa Zeferino, fizeram nascer um cisma que durou vinte anos, e, continuou durante o pontificado de Ponciano, que, contudo conseguiu, com a sua magnanimidade reconduzir Hipólito e o seu grupo à unidade da Igreja.

Martírio

Na perseguição aos cristãos do imperador Maximino Trácio, Hipólito e Ponciano foram exilados juntos em 235 d.C. para a Sardenha e é muito provável que lá, antes de sua morte, ele tenha se reconciliado com seus adversários em Roma, pois já sob o Papa Fabiano (236-250 d.C.), seu corpo e o de Ponciano foram trazidos para Roma. Pelo Catalogus Liberianus é possível verificar que em 13 de agosto, provavelmente de 236 d.C., eles foram enterrados em Roma, sendo Hipólito no cemitério na Via Tiburtina e Ponciano, nas Catacumbas de São Calisto. Este documento também indica que, por volta de 255 d.C., Hipólito já era considerado um mártir cristão e lhe atribui a posição de padre e não a de bispo, mais uma indicação de que antes de sua morte ele já tinha sido recebido novamente no seio da Igreja.

Lendas

Tanto os fatos sobre a sua vida quanto as suas obras foram logo esquecidos no ocidente, talvez por causa de suas atividades durante o cisma e também por ele ter escrito em grego.

Hipólito padre no cisma novaciano

O Papa Dâmaso I dedicou a ele um de seus famosos epigramas, fazendo assim dele um padre durante o cisma novaciano, uma visão posteriormente compartilhada por Prudêncio em sua obra do século V d.C., "Paixão de Santo Hipólito".

Hipólito soldado

Nos martirológios dos séculos VII e VIII d.C., "Santo Hipólito" aparece como um soldado convertido por São Lourenço, uma lenda que sobreviveu por um longo tempo no breviário romano. Segundo esta versão, Hipólito seria cidadão romano, nascido na capital, Roma e preparado por sua família para uma carreira das honras. Entretanto, preferiu a carreira da espada: a militar. Recusou ser questor na cidade de Óstia, e em ser nomeado edil na cidade de Prato, para ser soldado pretoriano. Sempre demonstrou predileção às jornadas bélicas às ofertas de seu tio Claudius, que era Cônsul em Roma para que participasse mais ativamente da vida pública, e dos pedidos de seu pai, Valerius Quintus, que frequentasse mais o Fórum. Foi de seu agrado ser nomeado centurião da 3ª Legião de Félix, acantonada na cidade de Arpino, no Lácio, onde sua família tinha uma grande propriedade rural. Uma queda do seu cavalo força-lhe a se imobilizar pôr alguns meses, o que o faz repousar a contra gosto e passa o tempo estudando. Alguns cronistas afirmam que sua simpatia pela causa cristã vem da época das campanhas que participou em Agrigento, onde lado a lado, esteve com vários adeptos desta seita que crescia até entre os soldados. Seu tutor de nome Orestes de Corinto, também era cristão. Sua relação com os cristãos se estreita quando uma vez batizado por Lourenço, é acolhido como igual pela jovem comunidade da Sicília e seus membros no exílio.

O Martirológio Romano classifica este Hipólito como o mesmo mártir citado nos "Atos de São Lourenço" (hoje perdidos). Segundo este documento, Hipólito era o oficial encarregado de tomar conta de Lourenço, quando este estava na prisão, sendo por ele convertido e batizado. Ele presenciou o enterro do mártir, e, por assim ter agido, foi intimado a comparecer perante o imperador, que o censurou por desonrar o uniforme imperial e a missão a ele confiada, mediante uma “conduta inconveniente a um oficial e a uma pessoa distinta”, e ordenou que fosse açoitado. Ao mesmo tempo, Santa Concórdia, enfermeira de Hipólito, e mais dezenove outros foram espancados até a morte com açoites providos de bolas de chumbo. O próprio Santo Hipólito foi sentenciado a ser despedaçado pela força de cavalos. A sentença do imperador só não foi plenamente cumprida, pelo seu desígnio de atender aos apelos da influente família do condenado, composta de membros ilustres da sociedade romana, sendo que apenas deveria ser açoitado e enviado a uma província distante para onde continuaria prestando serviço a Roma.

Hoje, sabe-se que o local designado pelo imperador, foi a Sicília. Na antiga cidade de Agrigento ou Acragas, conhecida na época como Porto Empédocles, costa sul da ilha (hoje porto de Agrigento), local quente e que vivia sua população a provocar tumultos onerosos a Roma, que atendia pelo sugestivo nome de “Molo di Girgenti”. O imperador o enviou para tomar parte no bloqueio a que estava sendo vítima, e que se esforçavam os soldados para tomá-la. Esta cidade só foi submetida pelas tropas romanas em 210.

Hipólito mártir em Portus

Ele também já foi confundido com um mártir homônimo que está enterrado em Portus (na região do Lácio, na Itália), de onde se acredita que tenha sido bispo. Prudêncio parece ter se inspirado na história do Hipólito mitológico ao descrever a morte do santo, mostrando-o sendo arrastado até a morte por cavalos, na cidade de Ostia Antica. Ele descreve a catacumba onde estaria enterrado Hipólito e conta que ele viu lá uma figura representando a execução do santo. Ele também confirma o dia 13 de agosto como a data em que Hipólito seria celebrado.

Esta versão levou Hipólito a ser considerado o padroeiro dos cavalos. Durante a Idade Média, cavalos doentes eram trazidos até Ippollitts, Hertfordshire, Inglaterra, onde uma igreja fora dedicada a ele.

Obras

São Hipólito foi um dos maiores e mais destacados escritores da Igreja de Roma dos primeiros séculos. Pode muito bem ser comparado a Clemente de Alexandria ou a Orígenes. Grande parte de seus escritos foram em grego, e, pelo fato de adotar esta língua (ele a escolheu, porque era uma língua mais difundida na época do que o latim), contribuiu para que a sua memória ficasse bastante diminuída até obscurecer-se quase pôr completo ao latinizar-se a Igreja ocidental a partir do século IV. São Jerônimo o chamava de o “homem mais santo e eloquente”. Os extensos escritos de Hipólito, que pela variedade de assuntos podem ser comparados aos de Orígenes, abarcam as esferas da exegese, homilética, apologética e polêmica, cronografia e direito canônico. Hipólito preservou também a primeira liturgia conhecida sobre a Virgem Maria, como parte da cerimônia de ordenação de um bispo.

Porém, infelizmente, a maior parte de suas obras chegou até nossos dias em uma condição fragmentada e é difícil obter delas qualquer noção exata de sua importância intelectual e literária.

Refutação de todas as Heresias

Sua obra Refutação de todas as heresias (Philosophumena) é um livro conhecido por dar uma descrição do gnosticismo e das sociedades secretas da época e demonstra bastante conhecimento da filosofia grega. G. H. Pember chegou a sugerir que fosse convertido de uma dessas sociedades. Considerada a principal obra de Hipólito, de seus dez livros, o primeiro é o mais importante. Ele é conhecido há muito tempo e foi publicado sob o nome de Philosophumena entre as obras de Orígenes. Os livros II e III se perderam, sendo que os livros IV até X sobreviveram, sem o nome do autor, num mosteiro em Monte Atos em 1842. E. Miller os publicou em 1851 sob o título de Philosophumena, atribuindo-os incorretamente a Orígenes, algo que desde então já foi corrigido.

Comentários sobre o "Cântico dos Cânticos"

Das obras exegéticas usualmente atribuídas a Hipólito, as melhor preservadas são "Comentários sobre o profeta Daniel" e "Comentários sobre o Cântico dos Cânticos", sendo esta a versão mais antiga interpretação claramente cristã dos Cânticos, cobrindo os três primeiros capítulos até Cânticos 3:7. Esta obra interpreta os Cânticos como se referindo a uma complicada relação entre Israel, Cristo e os gentios da Igreja. Cristo, como o Logos, é representado de diversos modos ricamente simbólicos: como a feminina Sophia ("Sabedoria"), que era o agente de Deus na criação e que depois teria vivido com Salomão e inspirado os profetas, sendo a genitora do vinho (como Dionísio) que alimenta a Igreja com seus seios (a Lei e os Evangelhos), e como o vitorioso Hélio que corre pelo céu e junta as nações. O comentário retorna frequentemente ao tópico da unção do Espírito Santo e foi escrito originalmente como uma mistagogia, uma instrução aos novos cristãos. Estudiosos assumiram que esta obra foi originalmente escrita para ser utilizada durante a Pessach, época preferida pelos cristãos ocidentais daquele tempo para batismos. O comentário sobre o Cânticos sobreviveu em dois manuscritos geórgios, uma epítome grega, um florilégio paleo-eslavônico e fragmentos em armênio e siríaco, assim como em muitas citações patrísticas, especialmente na obra de Ambrósio de Milão, "Exposição sobre o Salmo 118 (119)". Diferentemente de Orígenes, que interpretava os Cânticos como sendo principalmente uma alegoria da alma e de Cristo, Hipólito interpretava o livro como sendo um tratamento tipológico dado à relação entre a Igreja da circuncisão, tipificada por Israel e substituída pela Igreja composta tanto por judeus convertidos quanto cristãos gentios. Hipólito interpretou os Cânticos utilizando-se de um recurso comum da retórica chamado exphrasis, uma forma de persuasão empregada pelos retóricos da segunda era sofista, que consistia em se utilizar de temas bem conhecidos originados em representações populares comuns às paredes de casas (como murais) e, na forma de mosaicos, nos pisos. Ele também forneceu seu comentário com uma introdução bem desenvolvida conhecida como schema isagogicum, indicando seu conhecimento das convenções retóricas dos que discutiam as obras clássicas. Orígenes acreditava que o livro de Cânticos deveria ser reservado aos que já estavam espiritualmente maduros e que estudá-lo poderia ser prejudicial aos novatos. Nisto, ele seguiu as tradições interpretativas judaicas do século III d.C., enquanto que Hipólito as ignorou..

Outras obras

É impossível formar uma opinião sobre Hipólito como pregador, pois as "Homilias sobre a Festa da Epifania", tradicionalmente atribuída a ele, não é dele.

Das obras dogmáticas, "Sobre Cristo e o Anticristo" sobreviveu completa. Entre outras coisas, ela inclui um relato vívido dos eventos que precedem o fim do mundo e foi escrita provavelmente durante as perseguições de Sétimo Severo, por volta de 202 d.C.

A influência de Hipólito foi sentida principalmente em suas obras sobre cronografia e direito canônico. Sua crônica do mundo, uma compilação abarcando todo o período desde a criação do mundo até o ano de 234 d.C., é a base de muitas obras cronográficas tanto no oriente quanto no ocidente.

Nas grandes compilações de leis eclesiásticas que surgiram no oriente desde o século IV d.C., as Antigas Ordens da Igreja, muitos cânones são atribuídos à Hipólito, como os Cânones de Hipólito ou a epítome das Constituições Apostólicas. Quanto deste material é de fato de sua autoria, quanto foi retrabalhado e quanto foi erroneamente atribuído a ele não pode mais ser determinado sem sombra de dúvidas, mesmo pela mais profunda investigação. Uma grade parte destas obras foi incorporada no Fetha Negest, que uma vez já serviu como a base constitucional da lei na Etiópia - onde Hipólito ainda é lembrado como Abulides.

Fonte: Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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SANTO  HIPÓLITO  DE  ROMA


Santo Hipólito foi martirizado entre os anos de 231-235, tido como chefe (presbítero) de uma comunidade de Roma, foi controverso e infelizmente muitos de seus escritos se perderam, mas os que chegaram até nós são confirmados por historiadores e datados do final do século II e início do século III.


No ano de 212, Orígenes, famoso escritor, assistiu a uma pregação de Hipólito, e narra que este era muito sábio e letrado.

Hipólito foi discípulo de Santo Irineu e foi um profundo conhecedor da Doutrina e Tradição dos Apóstolos, defensor ferrenho, e por vezes até ousado, chegando a recriminar o Papa Zeferino (198-217), pois dizia que este era muito condescendente com muitos hereges. Hipólito defendia um combate mais ferrenho para contra as heresias que se espalhavam pelas comunidades.


O Imperador Romano Maximino, em 235, fortalece a perseguição aos cristãos e manda para o martírio os líderes da Igreja Católica, entre eles o Papa Calisto e seu "adversário" Hipólito (adversário por ser este exigente demais para com o Papa Calixto. Alguns alegam que Hipólito foi o primeiro anti-Papa). A caminho da morte, os adversários, por amor a Cristo e a sua Igreja Católica, fazem as pazes, renunciando as suas posições e dando a vida pela Igreja.

Toni Lopes

Fonte: wwwPadre Felix

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TRADIÇÃO APOSTÓLICA DE HIPÓLITO DE ROMA

                                                                                                                                        

 

Hipólito, nascido provavelmente na segunda metade do séc. II, teria sido, conforme o testemunho de alguns Padres da Igreja, bispo, porém não é possível precisar o lugar de sua sede. Sabe-se que ele mesmo afirmou ser discípulo de Ireneu e foi o último escritor a se utilizar, em Roma, da língua grega.


Escritor erudito, transmite seus conhecimentos sem recorrer ou citar as fontes.


Na época em que a Igreja tornou a penitência mais branda para os pecadores, Hipólito desentende-se com a autoridade máxima da Igreja, isto é, o papa e acaba sendo eleito antipapa por um pequeno grupo de cristãos moralistas. É exilado pelo imperador na Sardenha e aí morre em 235, juntamente com o papa Ponciano (que também fora exilado), com quem se reconciliou algum tempo antes, voltando, assim, ao seio do Catolicismo.


Muitas obras são atribuídas a Hipólito, mas a "Tradição Apostólica" foi uma das poucas que restaram e, talvez, a mais importante, já que se trata da constituição eclesiástica mais antiga que possuímos.


Entre os diversos destaques desta obra, assinalamos os seguintes: * a existência de ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e não ordenados (viúvas, virgens, leitores, etc.); * as profissões incompatíveis com o cristão; o catecumenato fixado em 3 anos; * o batismo estendido também às crianças; * a oração eucarística e os cuidados devidos ao pão e ao vinho, Corpo e Sangue do Senhor; * a eficácia da oração na vida do cristão (celebrada várias vezes ao dia), em especial o sinal da cruz.

 

TRADIÇÃO APOSTÓLICA

INTRODUÇÃO


Já tratamos de forma conveniente sobre os carismas, esses dons que Deus pôs à disposição dos homens desde o princípio, conforme Sua vontade, atraindo para Si a imagem que Dele se afastara. Agora, movidos pelo amor que devemos a todos os santos, atingimos o ponto máximo da tradição: o que diz respeito às igrejas. Todos, assim, bem instruídos, devem conservar a tradição que perdura até hoje e, conhecendo-a através de nossas palavras, devem permanecer absolutamente firmes, já que o ocorrido recentemente (heresia ou erro) foi motivado pela ignorância e também pelos ignorantes. Que o Espírito Santo conceda a graça perfeita àqueles que creem na verdade ortodoxa, para que aqueles que lideram a Igreja possam saber como ensinar e preservar tudo de forma conveniente.


ESCOLHA E CONSAGRAÇÃO DOS BISPOS


Deve ser ordenado bispo aquele que tenha sido eleito incontestavelmente por todo o povo. Quando for chamado por seu nome e aceito por todos, reunir-se-ão, no domingo, todo o povo, o presbitério e os bispos. Então, após o consentimento de todos, os bispos imporão as mãos sobre ele e o presbitério permanecerá imóvel. Todos permanecerão em silêncio, orando no coração pela vinda do Espírito Santo. A seguir, um dos bispos, por consenso geral, imporá as mãos sobre o que está sendo ordenado e rezará, dizendo: "Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai da misericórdia e Deus de todo consolo, que habitas nas alturas e baixas o olhar para o humilde; tu, que sabes de todas as coisas antes de nascerem; tu, que deste as leis da tua Igreja pela palavra da graça, elegendo a raça dos justos de Abraão, desde o princípio, constituindo-os chefes e sacerdotes; tu, que não deixaste teu santuário sem administração; tu, que desde o princípio dos séculos, te agradas em ser glorificado por estes que elegeste, derrama neste momento a força que sai de ti, o Espírito de liderança que deste ao teu querido Filho, Jesus Cristo, e que Ele concedeu aos santos apóstolos, de forma que constituíram a tua Igreja por toda a parte, o teu Templo, para louvor e glória eterna do teu nome. Pai, que conheces os corações, permita a este teu servo que escolheste para o episcopado, apascentar o teu rebanho santo, desempenhando o primado do sacerdócio de forma irrepreensível perante ti, servindo-te noite e dia. Concede-lhe tornar propícia a tua imagem, incessantemente, oferecendo os sacrifícios da tua Santa Igreja e, com um espírito de superior sacerdócio, possuir o dom de perdoar os pecados conforme a tua ordem, distribuir os cargos [eclesiásticos] segundo o teu preceito, desatar quaisquer laços conforme o poder que deste aos apóstolos e ser do teu agrado, pela mansidão e pureza de coração, para que te ofereça um perfume agradável, por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".


ORAÇÃO EUCARÍSTICA


Assim que se tenha tornado bispo, todos ofereçam-lhe o ósculo da paz, saudando-o por tornar-se digno. Os diáconos, então, oferecer-lhe-ão o sacrifício e ele, após impor suas mãos [sobre o sacrifício] dará graças, juntamente com todo o presbitério, dizendo: "O Senhor esteja convosco". Todos responderão: "E com o teu espírito". [Dirá:] "Corações ao alto". [Responderão:] "Já os oferecemos ao Senhor". [Dirá:] "Demos graças ao Senhor". [Responderão:] "Pois é digno e justo". Em seguida, prosseguirá: "Nós te damos graças, ó Deus, por teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos enviaste nos últimos tempos, [Ele que é nosso] Salvador e Redentor, porta-voz da tua vontade, teu Verbo inseparável, por meio de quem fizeste todas as coisas e, por ser do teu agrado, enviaste do céu ao seio de uma Virgem; aí presente, cresceu e revelou-se teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem. Cumprindo a tua vontade, obtendo para ti um povo santo, ergueu as mãos enquanto sofria para salvar do sofrimento todos aqueles que em ti confiaram. Se entregou voluntariamente à Paixão para destruir a morte, quebrar as cadeias do demônio, esmagar o poder do mal, iluminar os justos, estabelecer a Lei e trazer à luz a ressurreição. [Ele] tomou o pão e deu graças a ti, dizendo: 'Tomai e comei: isto é o meu Corpo que será destruído por vossa causa'. [Depois,] tomou igualmente o cálice e disse: 'isto é o meu sangue, que será derramado por vossa causa. Quando fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória'. Por isso, lembramos de sua morte e ressurreição e oferecemos-te o pão e o cálice, dando-te graças por nos considerardes dignos de estarmos na tua presença e de te servir. E pedimos: envie o teu Espírito Santo ao sacrifício da Santa Igreja, reunindo todos os fiéis que receberem a eucaristia num só rebanho, na plenitude do Espírito Santo, para fortalecer nossa fé na verdade. Concede que te louvemos e glorifiquemos, por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na tua Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".


BENÇÃO DO AZEITE, QUEIJO E AZEITONAS


Se alguém oferecer azeite, consagre-o como se consagrou o pão e o vinho, não com as mesmas palavras, mas com o mesmo Espírito. Dê graças, dizendo: "Assim como por este óleo santificado ungiste reis, sacerdotes e profetas, concede também, ó Deus, a santidade àqueles que com ele são ungidos e aos que o recebem, proporcionando consolo aos que o experimentam e saúde aos que dele necessitam". Do mesmo modo, se alguém oferecer queijo e azeitonas, diga: "Abençoa este leite coalhado, unindo-nos à tua caridade. Concede, ainda, que este fruto da oliveira não se afaste da tua doçura por ser um exemplo da abundância que tiraste da árvore para a vida dos que em ti esperam". E, a cada bênção, diga: "Gloria a ti, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".


ORDENAÇÃO DOS PRESBÍTEROS


Ao se ordenar um presbítero, o bispo (e os demais presbíteros) impõe-lhe as mãos sobre sua cabeça e, como citamos acima, rezará dizendo: "Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: baixa o olhar sobre este teu servo e transmite a ele o Espírito da graça e do conselho do presbitério, para que ele possa ajudar e governar o teu povo com o coração puro, da mesma forma como baixaste o olhar sobre o teu povo escolhido e ordenaste a Moisés que selecionasse anciãos, nos quais derramaste o Espírito que tinhas dado ao teu servo. E agora, Senhor, dissipando-nos o Espírito da tua graça, conserva-o eternamente em nós e torna-nos dignos de te servir com simplicidade de coração e de te louvar por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".


ORDENAÇÃO DOS DIÁCONOS


Seja o diácono eleito conforme acima referido e ordenado impondo-lhe as mãos apenas do bispo, como prescrevemos. Somente o bispo impõe-lhe as mãos porque o diácono não está sendo ordenado para o sacerdócio, mas apenas para se por à serviço do bispo, para executar o que este lhe ordenar. Ele não participa do conselho clerical, mas cuida da administração, informando ao bispo tudo o que for necessário. Não recebe o Espírito comum do presbitério, do qual participam os presbíteros, mas o que lhe é confiado pelo poder do bispo, razão pela qual somente o bispo ordena o diácono. Porém, na ordenação do presbítero, também os presbíteros imponham as mãos, em virtude do Espírito comum e semelhante do seu cargo: estes, por terem apenas o poder de receber, mas não o de comunicar o Espírito, não ordenam os clérigos mas, na ordenação do presbítero, imponham as mãos enquanto o bispo ordenar. Sobre o diácono, diga [o bispo]: "Ó Deus, que criaste todas as coisas e as ordenaste pelo Verbo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que enviaste para cumprir a tua vontade e para nos revelar o teu desejo, concede a este servo, que escolheste para servir a tua Igreja, o Espírito Santo da graça, do cuidado e do trabalho, para apresentar em santidade, no teu Santuário, o que te for oferecido pelo herdeiro do sumo sacerdote, para a glória do teu nome, e também para que, exercendo de forma irrepreensível e de coração puro o seu ministério, alcance um grau superior para te louvar e glorificar por teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".


OS CONFESSORES


Não se deve impor as mãos sobre um confessor candidato ao diaconato ou presbiterato se este já tiver sido preso por causa do nome do Senhor. Na realidade, a dignidade de presbítero é igual à honra da sua confissão. Porém, ser-lhe-ão impostas as mãos se for ordenado bispo. Contudo, se o confessor não tiver sido levado à frente do magistrado, nem posto a ferros, nem aprisionado, nem condenado a uma outra pena, mas apenas desprezado por causa do nome do Senhor e castigado de forma branda, deve-se impor as mãos sobre ele para qualquer função que lhe seja digno. Que o bispo dê graças, tal como mencionamos. Porém, não é necessário que, dando graças, se utilize das mesmas palavras que mencionamos, como se o fizesse de memória; pelo contrário, reze cada um segundo suas possibilidades. Se alguém tiver capacidade de rezar uma oração mais longa ou mais solene, melhor; contudo, se outro proferir uma oração mais simples, deixai-o pois o correto é rezar de acordo com a ortodoxia.


AS VIÚVAS


Uma viúva, ao ser instituída, não é ordenada, mas eleita pela simples inscrição do nome. Se o seu marido já morreu há muito tempo, seja instituída; contudo, se o seu marido não morreu há muito tempo, não se confie nela; mas se for velha, seja experimentada por algum tempo porque, muitas vezes, as paixões envelhecem com o que as abriga no seu seio. Seja, portanto, a viúva instituída pela palavra e que se junte às demais. Não serão impostas as mãos sobre ela pois não oferece o sacrifício, nem exerce a liturgia. A ordenação é para o clero, por causa da liturgia; a viúva é instituída para a oração, que pertence a todos.


OS LEITORES


O leitor é instituído no momento em que o bispo lhe entrega o Livro. Sobre ele também não são impostas as mãos.


AS VIRGENS


Não serão impostas as mãos sobre a virgem, pois bastará sua decisão para fazer dela uma virgem.


OS SUBDIÁCONOS


Também não serão impostas as mãos sobre o subdiácono. Ele será nomeado para seguir o diácono.


O DOM DA CURA


Se alguém disser que recebeu o dom da cura por revelação, não serão impostas as mãos sobre ele: os fatos demonstrarão se está dizendo a verdade


OS NOVATOS


Aqueles que são trazidos pela primeira vez para escutar a Palavra, sejam direcionados aos catequistas, antes da chegada do povo, e sejam interrogados sobre a razão pela qual resolveram se aproximar da fé. Aqueles que os trouxerem, dêem testemunho deles, informando se estão preparados para ouvir a Palavra. Sejam também interrogados sobre a vida que levam: se possuem esposa, se são escravos... Se algum deles for escravo de um fiel (=irmão de fé) e o seu senhor permitir, que escute a Palavra; mas se o seu senhor não der bom testemunho dele, seja recusado. Se o seu senhor for pagão, seja-lhe ensinado a agradar seu senhor, para que se evite a blasfêmia. Se um homem possui mulher ou se uma mulher possui marido, sejam ensinados a se suportarem, o homem com a mulher e a mulher com o marido. Porém, se um homem não vive com a mulher, seja ensinado a não fornicar, recebendo a mulher conforme a Lei ou permanecendo como está. Se alguém estiver possuído pelo demônio, não escute a Palavra doutrinária enquanto não for purificado.


PROFISSÕES PROIBIDAS


Deve-se interrogar, também, a respeito dos trabalhos e ocupações exercidos por aqueles que se apresentam para ser instruídos. Aquele que possui prostíbulo: desista ou seja, recusado. O escultor ou pintor: seja ensinado a não produzir ídolos, isto é, cesse ou seja recusado. O ator que representa no teatro: cesse ou seja, recusado. O pedagogo: é bom que cesse, ensinando somente se não possuir outra habilitação. O cocheiro competidor e os que frequentam espetáculos de luta: cessem ou sejam recusados. O gladiador, o treinador de gladiadores, o bestiário e os empresários de lutas gladiatórias: cessem ou sejam recusados. O sacerdote ou guardião de ídolos: abandone-os ou seja recusado. O soldado que recebe o poder de matar: não matará ninguém, mesmo se isto lhe for ordenado, nem prestará juramento. Se não concordar, seja recusado. O que possui poder de gládio e o magistrado da cidade, que se reveste de púrpura: renunciem ou sejam recusados. O catecúmeno e o fiel que desejam se tornar soldados: sejam recusados por desprezarem a Deus. A prostituta, o pervertido, o homossexual e qualquer outro que pratiquem atos indizíveis: sejam recusados por serem impuros. O mágico: não deve ser apresentado para o interrogatório. O feiticeiro, o astrólogo, o adivinho, o intérprete de sonhos, o charlatão, o ilusionista e o fabricante de amuletos: renunciem ou sejam recusados. A concubina, se for escrava do amante, se tiver educado os filhos e se tiver unido apenas a esse homem: pode ouvir a Palavra; caso contrário, seja recusada. Aquele que possuir uma concubina: renuncie a ele e receba uma mulher conforme a Lei; se não o quiser, seja recusado. Se tivermos omitido algo, as próprias ocupações dirão [se são ou não permitidas], pois todos nós temos o Espírito de Deus.


OS CATECÚMENOS


Os catecúmentos devem escutar a Palavra por três anos. Se algum deles for dedicado e atencioso, não lhe será considerado o tempo: somente o seu caráter, e nada mais, será julgado. Cessando o catequista a instrução, rezarão os catecúmenos em particular, separados dos fiéis. As mulheres, sejam elas catecúmenas ou fiéis, permanecerão rezando em particular em qualquer parte da igreja. Ao concluírem as orações, ainda não darão a paz porque o seu ósculo ainda não será santo. Os fiéis, porém, saudar-se-ão, reciprocamente: os homens aos homens e as mulheres às mulheres; os homens não deverão saudar as mulheres. Estas devem cobrir a cabeça com um manto que não seja feito de linho, pois este tipo não serve para cobrir [a cabeça]. Após a prece, o catequista imporá as mãos sobre os catecúmenos, rezará e os dispensará; não importa se é clérigo ou leigo: aquele que prega a doutrina deve assim agir. Se um catecúmeno for preso por causa do nome do Senhor, não deve se desesperar: se sofrer violência e morrer antes de ter recebido o perdão de seus pecados, será justificado por ter experimentado o batismo em seu sangue.


OS BATIZANDOS


Escolhidos aqueles que receberão o batismo, examinar-se-á suas vidas: se viveram com dignidade durante o catecumenato, se honraram as viúvas, se visitaram os doentes, se praticaram apenas boas obras. Ouvirão o Evangelho se aqueles que os apresentaram testemunharem a seu favor, dizendo que assim agiram. Sejam impostas as mãos diariamente sobre eles a partir do momento em que foram separados e sejam, ao mesmo tempo, exorcizados. Aproximando-se o dia do batismo, o bispo exorcizará cada um deles, para saber se é puro. Se algum deles não for bom ou puro, será colocado à parte, pois não ouviu a Palavra com fé, já que não possível que o estranho se oculte para sempre. Sejam os batizandos instruídos para que se lavem e banhem no quinto dia da semana; se uma mulher estiver menstruada, será posta à parte e receberá o batismo num outro dia. Os que receberão o batismo jejuarão na véspera do sábado e, no sábado, serão todos reunidos num mesmo local designado pelo bispo. Serão ordenados todos aqueles que rezarem e se ajoelharem; impondo as mãos sobre eles, o bispo exorcizará todos os espíritos impuros, para que fujam e não retornem mais. Terminando o exorcismo, soprar-lhe-á em suas faces. Após marcá-los na fronte, nos ouvidos e narinas com o sinal da cruz, ele ordenará que se levantem. Então permanecerão vigilantes durante toda a noite: ler-se-á para eles e também serão instruídos. Os batizandos não devem ter nada em seu poder, exceto o que trouxeram para a eucaristia. O que se tornou digno deve participar do sacrifício na mesma hora.

 

Fonte: Padre Felix


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OBRAS DE HIPÓLITO DE ROMA