Curso bíblico - Antigo Testamento - Pentateuco

postado em 26 de mar de 2011 14:06 por Antonio Gazato Neto
Curso estruturado para 13 encontros, buscando o conhecimento e aprofundamento do Pentateuco - Material obtido no site "Teologia on-line"

Curso Bíblico

Antigo Testamento - Pentateuco

 

1º Encontro

Introdução

O conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia recebe o nome de Pentateuco. De fato, a palavra Pentateuco, em grego, significa cinco livros. Os judeus chamam estes livros de Tora, isto é, lei. Mas o sentido desta lei é mais instrução, ensinamento de vida e orientação para a caminhada. Os cinco livros do Pentateuco são conhecidos, em nossas Bíblias, com nomes gregos: Gênesis (origem), Êxodo (saída), Levítico (relativo aos levitas ou sacerdotes), Números (estatísticas) e Deuteronômio (segunda lei). Os judeus chamam estes livros, como todos os demais, com as suas primeiras palavras. Essa coleção que hoje conhecemos como Pentateuco ou Tora demorou muito tempo para ser escrita. Colaboraram nessa coleção várias pessoas, contando e escrevendo as histórias. Estão refletidas nelas muitas lutas e leis variadas. São retratos de muitas etapas que o povo viveu, ao longo dos séculos. 

A coleção completa, que hoje temos em mãos, só ficou pronta depois do exílio babilônico, na época de Esdras, lá pelo século 5 antes de Cristo.

Conteúdo do Gênesis

Podemos dizer que o livro do Gênesis, sendo formado de episódios variados que foram reunidos com o passar dos tempos, está organizado da seguinte maneira:

• 1-11 – Trata as questões básicas da vida do povo e da humanidade.

• 12-25 – Lemos histórias em torno de Abraão e Sara, Agar e Ismael; são memórias e tradições provenientes principalmente da região do Sul, ou seja, Judá.

• 26-36 – As histórias de Rebeca, Jacó e Esaú, Labão, Lia e Raquel; trata-se de memórias provenientes do Norte, particularmente da Transjordânia.

• 37-51 – A história de José do Egito, que faz a ligação entre o livro do Gênesis e o do Êxodo. Essa organização geral do livro não nos deve fazer perder de vista as pequenas histórias, cada um dos episódios narrados; neles é que se dá a vida concreta e se discutem os problemas fundamentais. É pela leitura atenta de cada um deles que vamos adentrando nos mistérios e surpresas que o Gênesis nos reserva. De outra maneira, como entender que leiamos, no contexto da ida de José para o Egito, a surpreendente história de Tamar, em Gn 38? Ou ainda a benção de Jacó em Gn 49, que nos faz pensar já no povo vivendo em tribos? Por tudo que foi dito, deve ter ficado claro que a escrita do Gn demorou séculos. E seus textos se referem a tempos incertos: não se sabe exatamente a época em que nossos personagens viveram (certamente em meados do segundo milênio antes de Cristo), até porque os textos se preocupam não tanto com a exatidão temporal, mas com seu sentido para o povo que lê.

Em torno das famílias, na expectativa de novos tempos (daí a importância das promessas), buscando estabelecer laços de proximidade e solidariedade, os textos resgatam histórias passadas, que são vivas e apontam novos futuros.

Enfim, a conclusão disso é que os textos bíblicos, mesmo aqueles que se apresentam em forma de narração, não tem a pretensão de ser reportagens exatas de fatos acontecidos, mas principalmente querem falar ao coração e à vida de quem, às vezes muito tempo depois dos fatos, vai ler tais textos. Afinal de contas, na Bíblia temos testemunhos de um passado que não morreu, mas que se atualiza e ilumina os caminhos dos que vêm depois!

Alguns passos para a leitura comprometida da Bíblia.

1. Ler muito, muito, muito a Bíblia. Mastigar cada versículo. Atravessar o texto. A leitura da Bíblia quando feita com fidelidade vai abrindo, aos poucos os nossos olhos sobre a realidade e nos levará a uma opção pelos pobres e a um compromisso mais firme com a sua causa.

2. Através desta experiência, deixar-se conduzir pelo Espírito, procurando aprofundar cada vez mais, o conhecimento da realidade em que vivemos, refletindo o texto em comunidade. Para entender a Palavra de Deus é necessário criar uma abertura ao amor desse Deus que quer se comunicar com o seu povo. A leitura é feita não só para conhecer melhor o sentido da Bíblia, mas principalmente, para colocá-la em prática.

3. Para muitas pessoas é difícil uma leitura que parta da realidade. A situação da vida do povo é sempre o “chão” da leitura bíblica. Recorrer à Bíblia para iluminar o nosso presente, procurando nela, uma situação semelhante a nossa.

4. procurar descobrir no texto: 

·                     o que o autor do texto quer nos dizer;

·                     qual a mensagem principal do texto;

·                     quais os personagens e os lugares que aparecem no texto;

·                     qual a situação econômica - social – política - religiosa e ideológica que o texto revela.

5. Ter visão de conjunto da Bíblia. Conhecer as grandes etapas da história do povo de Israel. Ter algumas noções sobre a situação do povo daquele tempo.

6. Procurar ver que texto da Bíblia deve ser aprofundado em três ângulos: a Bíblia, a realidade e a comunidade:

·                     levando em conta a situação do povo antigo, no tempo em que foi escrita, para iluminar a situação de hoje;

·                     lendo, refletindo e rezando a Bíblia em grupos, porque ela é o livro da comunidade;

·                     celebrando, na comunidade, a sua caminhada de lutas, de esperanças e de alegrias.

7. Evitar a leitura fundamentalista da Bíblia, isto quer dizer, não ler o texto “ao pé da letra”

8. Estudar o surgimento e a formação dos livros do Antigo e do Novo Testamento.

9. A Bíblia deve ser usada como luz para encontrar a verdade; como alimento da fé; como chave para abrir o coração para acolher os apelos de Deus; como meio que ajuda a ligar a Fé e Vida; como palavra que questiona e exige mudança, resposta e conversão.

10. Procurar não usar a Palavra de Deus como consolo e terapia pessoal, dentro de um misticismo vazio, sem compromissos. São feitas leituras isoladas, frases ou textos fora do contexto, só para tirar mensagens estilo “horóscopo”, ou para tirar mensagens bonitas. A leitura da Bíblia não deve ser leitura de “Doutor”, leitura intelectualizada.

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2º encontro

A Criação do Mundo

Gênesis 1, 1ss: “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A Terra estava...”

O autor tenta contar como podia ser o mundo sem Deus: trevas, deserto, águas. Encontramos aqui três idéias muito importantes. Vamos ver:

Trevas - Deserto - Águas

É a descrição de uma situação de morte e de maldição, uma situação terrível que deveria estar sendo vivida por alguém, pelo autor do livro, por seu povo...

Agora podemos nos perguntar: por que esta história entrou na Bíblia e foi colocada no começo? Como podia um homem tentar descrever o que devia ter acontecido milhares de anos antes que ele nascesse? Para ter uma idéia do tempo que se passou, vejamos:

Começo da criação.....................................1800..................0....................2011

                                                                   Abraão             Cristo                   Nós

O pedacinho que vai de Cristo até nós são os anos de nossa história; o pedacinho que vai de Cristo até Abraão é a história da caminhada do povo hebreu; outros milhares e milhares de anos se perdem longe, no início dos tempos... O autor foi pensando... em 1800 (antes da nossa era) Abraão saiu de sua terra, atendendo a um chamado de Deus; em 1200, Moisés foi convocado por Deus para começar com o povo uma caminhada de libertação; no ano 1000, temos rei Davi e seu filho, Salomão. Assim:

Abraão.........Moisés.............Davi........Salomão............Judá/Israel.............Cativeiro

1800............1200.......................1000.......................................................720....587


O reinado de Salomão, filho de Davi, foi muito duro e opressor. Com o filho dele, Roboão, foi pior ainda. O reino não agüentou e houve separação: Judá e Israel dividiram-se. O reino de Israel, porém, não foi muito longe, e terminou no ano 720 aC. Sobrou Judá, numa situação também muito crítica. O povo reclamava urgentemente reformas por parte do governo, mas o reinado de Manasses resumiu-se em 50 anos de corrupção. A corrupção torna o governo pobre, e tudo o que é pobre é fraco. Assim, quando Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio com um grande exército e invadiu a Palestina, aconteceu o desastre. Era o ano 587 aC. Os soldados cercaram a cidade de Jerusalém, atearam fogo nas casas, destruíram tudo, mataram quantos opuseram resistências e levaram consigo para serem escravos aqueles que sobraram. Aconteceu o “fim do mundo”. Era uma situação horrível, cheia de desordem, de dor e de sofrimento. 

A Palavra de Deus é capaz de mudar a verdade. A mensagem do livro do Gn é esta mesmo. No começo havia deserto, trevas, água. Mas... Deus disse:

Faça-se a luz... separem-se as águas... Produza a Terra...

E tudo isso foi feito. Entra em ação a Palavra de Deus. Começa a luta da vida contra a morte. Em vez de desordem, a Palavra coloca a ordem e nós temos:

A criação - A Vida - A Benção

Deus falou e imediatamente tudo se fez conforme sua Palavra ordenou: a luz vence as trevas, o firmamento vence as águas, o verde vence o deserto! Uma depois da outra, as forças da morte são derrotadas, submetidas ao plano Criador, incapazes de oferecer qualquer resistência. Logo em seguida a Bíblia mostra como a Palavra de Deus foi colocando ordem e desordem. Assim:

1º dia – Luz

4º dia – Sol, lua. estrelas

2º dia - Firmamento

5º dia – animais

3º dia – Terra. Mar, plantas (estruturou a casa)

6º dia Homens e mulheres (mobiliou a casa)

O que nos diz a Ciência

A ciência estuda a EVOLUÇÃO do universo e dos seres durante bilhões de anos até os dias de hoje e tenta prever como será depois.

A Bíblia não nega nem questiona as descobertas cientificas, porque não pretende fazer um tratado científico, mas transmitir uma mensagem. Seu objetivo é questionar o que ocorre com a humanidade e convocar-nos à conversão ao Deus – Criador. Esse Deus que deu à pessoa humana a capacidade de investigar e de ser co – criadora do universo e, sobretudo, de conviver em harmonia com todos os seres e com seus semelhantes.

“No princípio ERA DEUS. A terra estava SEM FORMA E VAZIA”. A ciência nos diz que era CAOS – confusão – e que só havia uma grande ENERGIA. Que a galáxia explodiu, dando origem às partículas que formaram átomos, moléculas e os primeiros elementos. Depois, nos mares, foi gerando a vida e esta se estendeu por sobre a terra. O cientista seguiu a lógica do 1o capítulo de Gn: Deus criou o ser humano no final de tudo como se lhe tivesse preparado o mundo como um berço.

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3º encontro

A Criação do Homem e da Mulher

Em primeiro lugar não podemos esquecer que o texto foi escrito a três mil anos atrás, e naquela época tinham maneiras de falar cujo sentido não estava nas palavras, mas na compreensão do povo.

“O Senhor Deus formou o homem do barro da terra”

A palavra hebraica pó, poeira ou barro que encontramos neste texto indica a poeira fina do campo, usada pelos oleiros na fabricação das peças mais delicadas. Isso quer dizer que o ser humano não foi feito para ser uma peça qualquer do universo, mas uma peça fina, delicada, de grande valor. A comparação do Deus-oleiro é freqüente na Bíblia. (Je 18,6).

Conseqüentemente, o homem não foi “feito do barro”. Na Bíblia, esta linguagem é poética. Quer nos explicar que Deus colocou tudo de si, que foi modelando como oleiro (ver Is 29,15-16; 45,9-13; Jr 18,1-10).

O autor da narração sobre o paraíso utilizou-se desta imagem já conhecida para mostrar que o primeiro dever da pessoa é o de aceitar-se a si mesma na sua condição de criatura de Deus. 

O plano de Deus era a Harmonia e a Felicidade de todos os seres. O PARAISO terrestre é a figura dessa felicidade.

“O Senhor Deus tirou uma costela do homem... e fez a mulher”.

“Costela” é um símbolo que significa intimidade, igualdade, a mesma natureza.

A simbologia aponta para o companheirismo de iguais, a mulher não é nem mais nem menos que o homem, mas: “Osso dos meus ossos, carne da minha carne” (Gn 2,23). Isto quer dizer que a missão do homem e da mulher é uma só: imitar Deus. Eles devem fazer o que Deus fez: destruir a desordem que estraga a vida e preparar o mundo para ser uma digna morada da humanidade.

Do jeito que Deus organiza tudo pela sua Palavra, para que a vida possa nascer, crescer e ser vida em abundância, assim o homem e a mulher, orientados por esta mesma Palavra e fortalecidos por ela, deverão continuar a organizar todas as coisas a favor da vida.

O ser humano não é dono do mundo. O dono é Deus. Só Ele. O homem e a mulher só tomam conta em nome de Deus. E a preocupação de Deus é uma só: proteger e favorecer a vida.

Ambos foram feitos do pó da terra, isto é, fracos. Também para dizer que ter terra é fundamental para as pessoas. A Bíblia foi escrita por um povo que vivia fora da terra natal e explorado pelos latifundiários da época. Ser feito da terra e ter terra para plantar e morar era sagrado para o povo hebreu, era a essência básica de sua sobrevivência.

O plano de Deus era de que todos tivessem terra e trabalho. Por isso diz que ambos passeavam livres pelos jardins. Tinham trabalho apenas de colher o que a terra produzia. Mas fizeram opção pelo mal e tiveram que trabalhar pesado para sobreviver. É a denúncia do trabalho escravo, contrário ao Plano do Criador.

A BENÇÃO DA VIDA, FONTE DA NOSSA ESPERANÇA

Tudo foi criado por Deus. A vida humana porem, só ela, foi criada e abençoada (Gn 1,22-28). Benção é o oposto de maldição. Benção é bem-dição, é dizer o bem. É pronunciar o bem sobre a vida. Maldição é dizer o mal. É pronunciar o mal sobre a vida.

Benção = palavra bem Maldição = Palavra mal

Ora, Deus não rogou uma maldição sobre a vida, mas sim uma benção.e foi uma benção que pegou. Pois o que Deus fala está falado! Pode confiar! Por isso, esta bênção do Deus criador é a fonte da nossa esperança de, um dia, termos uma vida realmente bendita. Ela é o motor escondido da luta da humanidade contra a maldição. Mas por que então a vida está do jeito que esta?

A tampa da maldição abafa a benção. Os homens colocaram a tampa da maldição em cima da bênção e estragaram tudo. Em vez de benção, a vida na terra tornou-se maldita.

QUEM SÃO OS AUTORES E QUANDO FOI ESCRITO O LIVRO DO GÊNESIS?

O LIVRO DO Gn tem vários autores, e foi escrito em épocas diferentes. Não se sabe quando o Gênesis foi escrito, mas acredita-se que tenha sido em duas etapas:


·                      A primeira, no século X aC., no tempo do reinado de Salomão.

·                     A segunda no século Vl aC., no exílio da Babilônia.


Ao ler Gn 1-11, devemos levar em conta:


·                     A época em que foi escrita, a linguagem e a cultura do povo.

·                     O importante é a mensagem da Criação tanto do homem como do mundo, com as quatro narrativas, cheias de símbolos.

·                     Por trás dessas narrações, encontra-se uma riqueza muito grande que são as doutrinas que devemos conhecer e analisar a luz de um Deus Criador, libertador e Salvador.

GÊNESIS = O LIVRO DAS ORIGENS.

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4º encontro

História da Maldição que estraga a vida Humana

A HISTÓRIA DA MALDIÇÃO É UM ESTUDO QUE A Bíblia faz da realidade, procurando descobrir o que estava estragando a vida humana. Começando em cima, ela foi cavando o chão da vida, tirando uma depois da outra, as camadas de sujeira com que os homens entupiram a fonte da vida e sujaram as suas águas. Conforme a Bíblia, a maldição tem quatro camadas: O pecado de Adão, o pecado de Caim, o dilúvio e a Torre de Babel.

O Pecado de Adão

Desligar-se de Deus e da Sua Palavra (Gn 3,4)

É a revolta do ser humano contra Deus, seu afastamento e recusa a seguir sua Palavra.
Adão é uma palavra hebraica que quer dizer Ser humano. Somos todos nós, desde o primeiro ao último! O pecado de Adão é separar a vida de Deus e Deus da vida. O concílio Vaticano II diz que esta separação entre fé e vida continua sendo o maior mal do nosso tempo!

O Adão existe em todos nós. Adão desligou-se de Deus e perdeu, assim, o único apoio verdadeiro que podia dar segurança à sua vida. Desligado da fonte ficou inseguro e foi procurar um substituto para ocupar a vaga que pertencia a Deus. O Adão de sempre quer segurança. Luta para ser dono da vida. Mas é uma luta perdida.

Por causa deste afastamento cada homem nasce afastado de Deus, num estado que pode ser comparado com o peado. Este pecado, nós o chamamos de Peado Original (Gn 1,11).

O pecado de Adão é chamado de Pecado Original, porque está na origem de todos os males e, através deles, ele se manifesta e se multiplica. É a raiz da maldição (Gn 3,14-19).

O homem e a mulher (Ser humano) abusaram da liberdade, desobedeceram e, pelo pecado, se afastaram de Deus. O homem quer experimentar os frutos proibidos. Esse pecado não tem nada a ver com sexo, nem com “maçã”. Mas sim querer ser Deus, se colocando no lugar de Deus, e coisificando o próximo. Pois o único argumento que nos une a todos como irmãos é o fato de sermos filhos de Deus, mas se eu tiro a Deus da história, nada mais nos une como irmãos, e se eu me coloco no lugar de Deus, a situação fica muito pior, pois me acho no direito de ter poder sobre a vida do próximo, oprimindo-o, explorando-o e até matando-o.

Serpente é utilizada pela Bíblia como símbolo do pecado. Mas, porque a serpente?

Em primeiro lugar, para o povo hebreu como para todos nós, a serpente era um animal perverso e traiçoeiro. Não se pode confiar nele. Todos têm medo da cobra. Ela coloca a vida em perigo. Além disto, para o povo da Bíblia, a serpente era um símbolo de outra religião, da região Cananéia.

Ao cananeus eram um povo que já morava na Palestina antes dos hebreus chegarem lá. Tinham sua religião, feita de ritos centrados em torno do culto da fertilidade. O que eles queriam era ter muitos filhos. Eles acreditavam na existência de Deus, mas seu relacionamento com a divindade, era colocado exclusivamente em termos de cerimônias e de observâncias rituais. Deus para eles era um ser distante que bastava homenagear com uns ritos, com uns cultos especiais e que depois ficava para lá sem ter nada a ver com a vida deles. Eles não tinham, portanto, nenhum mandamento; não procuravam modificar sua vida, fazer uma caminhada, alcançar algo. 

Naturalmente uma religião semelhante era bem mais agradável e fácil do que as duras exigências da Lei de Deus que os hebreus tinham recebido por meio de Moisés no Monte Sinai, quando Deus quis selar sua aliança com o povo.

A religião dos cananeus chegava a oficializar e a sacralizar a prostituição, que passava a ser um rito sagrado. De fato, ao redor de seus templos havia lugares próprios para isso, com pessoas escolhidas e reservadas para essa prática. A prostituição era vista e praticada como tentativa mágica e supersticiosa de vencer a morte e de possuir a vida.

A serpente era o símbolo de todo esse conjunto de magia, ligado ao culto da fertilidade e da prostituição. Para o povo hebreu porém a magia era proibida, por ser exatamente o contrário da atitude de fé e de compromisso que Deus exigia de seu povo. Mas nem por isso esse tipo de religião deixava de ser uma grande tentação para o povo de Deus, que por isso foi chamado muitas vezes à tentação. Aquela religião permitia uma vida mais fácil. O grande perigo, a grande tentação do povo era exatamente essa serpente. Ela levava o povo a refugiar-se no rito agradável e a abandonar as duras exigências da Lei de Deu. Levava-o a procurar a vida, a imortalidade e a força de Deus não através de uma fidelidade constante que exigia abandono, confiança e coragem, mas somente através de ritos e promessas enganadoras, porque davam a eles a impressão de estar manipulando o poder de Deus para seu próprio bem e interesse.

A nudez que aparece no texto significa: fraqueza, incapacidade, humilhação.

A fuga de Deus, a fuga da nossa própria consciência, nos torna infelizes. Perdemos a harmonia interior, a felicidade, a paz.

O pecado de Adão, ou pecado original, é o pecado de raiz, pois está na origem de todos os males, que é o individualismo, a negação do outro.

O Pecado de Caim

Odiar, Matar e vingar (Gn 4,1-26)

CAIM - o filho mais velho, representa os donos de terra que matavam, sob duros trabalhos, os inocentes do povo. Caim era lavrador, ferreiro malhador (= povo egípcio).

ABEL - o filho mais novo, representa o povo nômade, sem terra, que vivia do pastoreio e, de terra em terra, levava seu rebanho para pastar e sofria toda exploração. Abel era pastor (= povo de Deus/ Ab = Pai e El = Deus, logo Deus é Pai).

Todas as vezes que na Bíblia vemos o homem cometendo HAMAS = violência, sujando as mãos de sangue, também vemos que Deus reprova, e puni o homem lhe destruindo. Ver: (Gn 6,11-13; Ez8,16-18; Jz9,16ss). No entanto, por que Ele não puniu Caim por ter matado Abel? Será que Caim não cometeu HAMAS? Por que será que ao invés de punir Caim, Deus o marca com um sinal para que aquele que lhe matasse fosse vingado sete vezes? (Gn4,15).

Vejamos então:

Abel representa o projeto de Deus, pois sendo nômade, tudo o que pertence a ele, também pertence ao restante dos que viviam com ele (tribo). Não tinham terras só para eles, pois a terra pertence a todos, quando matavam um animal do rebanho para comer, todos tinham direito a comerem juntos. Embora a vida fosse difícil, tudo era dividido em comum, viviam em solidariedade uns com os outros, as leis eram para favorecer a vida, e não acumulavam bens, pois se alguns tem muito é porque muitos têm pouco para sobreviver.

Caim era sedentário = agricultor, ganha a vida acumulando bens, produz cada vez mais para ganhar muito, fazendo com que outros passem e morram de fome. Com a ajuda do boi, consegue triplicar suas lavouras, fazendo assim com que aqueles que não tem a posse do boi, vendam suas terras para ele por preços muito baixos e vá trabalhar de empregado, ganhando muito pouco para isso. No projeto de Caim o que importa é o individualismo, ele odeia quem compete contra ele, e só é oferecido para Deus o excedente da produção, enquanto no projeto de Abel, se oferece o que se tem.

Deus, ao nos criar, estabelece um projeto de vida para o homem, (ABEL).

Mas o homem rejeita este projeto matando Abel, e cria o seu próprio projeto, (CAIM).

Deus não puniu o projeto de Caim pois tem sempre a esperança de que um dia o homem retorne ao projeto de Abel. E você? O que esta fazendo de sua vida? Está vivendo o projeto de Caim ou o de Abel? 

Existe uma outra forma de cometer HAMAS, chama-se MIRMA = destruir o outro com a língua, e quem comete HAMAS é punido // destruído por Deus.

O dilúvio

Usar a Religião e Deus em proveito Próprio (Gn 6)

Os homens tinham perdido a noção de Deus e achavam que Deus fosse igual a eles, um Deus com filhos. Pensavam até que pudessem casar com estes filhos de Deus, para assim ganharem a proteção divina e ficarem famosos (cf. Gn 6,4). Botaram tudo de cabeça para baixo. Deus, em vez de Pai e Criador, virou instrumento nas mãos dos interesses dos homens para dar fama aos “heróis da antiguidade” (Gn 6,4). A religião era usada para satisfazer os desejos dos homens.

Diante disso Deus “se arrepende de ter criado o homem” (Gn 6,6) e disse: “vou varrer da terra o homem que eu criei” (Gn 6,7). Por isso o Dilúvio – uma tremenda inundação que acabou com tudo – foi explicado pela Bíblia como castigo de Deus. E foi uma explicação boa! De fato o mundo estava de pernas para o ar!

Lembram do que vimos em nosso primeiro encontro? Ler o texto primeiro no contexto histórico em que foi escrito! Pois bem, este texto provavelmente tenha sido escrito durante o exílio na Babilônia, logo após a invasão e a destruição do templo de Jerusalém.

Os soldados de Nabucodonosor invadem Jerusalém destruindo tudo e todos, como uma verdadeira inundação (dilúvio), traz o caos para a cidade, muitos são mortos, e os líderes do povo foram levados para a Babilônia, chegando lá, muitos se encantam com os deuses babilônicos, se esquecendo das promessas de Javé. Mas alguns continuam fiéis a Javé, recebendo o nome de Noé. A Arca feita de madeira e contendo três andares é a lembrança do templo de Jerusalém, que também era feito de madeira e com três andares, era a maneira de se manterem unidos em terra estranha.Os quarenta dias e noites de chuvas representam o tempo de cativeiro. O fim das enchentes e a chegada da Arca em outra terra é a esperança de um dia voltarem a ser livres, sendo resgatados por Javé assim como foram antes na experiência do Egito. Aqueles que descem da Arca no final do dilúvio e se espalham novamente sobre a terra são os que sempre continuaram fiéis a Javé, e agora sonham com a reconstrução de sua cidade, sua crença, sua fé em Javé Deus.

A Torre de Babel

Dominar e explorar os outros (Gn 11,1-9)

A situação não era nada boa. Bem perto de onde Abraão morava, lá mesmo na mesopotâmia, alguns homens decidiram ser donos do mundo. Disseram: “Vamos construir uma cidade e uma torre que alcance o céu. Assim, criamos fama e não precisamos andar dispersos pelo mundo” (Gn 11,4). Queriam chegar até o céu e ocupar, eles mesmos, o lugar de Deus. E foi aí que se deu a grande confusão, a confusão da Torre de Babel. Pois o homem não é Deus, e nem é dono do mundo. Pretender tal coisa só pode dar confusão. Porque aí cada qual só fala a linguagem de seus próprios interesses egoístas, e um já não entende o que outro quer dizer.

No tempo em que foi escrito este relato, também na Babilônia, o povo era dominado pelo poder militar, que tinha como símbolo uma Fortaleza. Essa fortaleza representava o orgulho humano que pretendia atingir Deus, “tocar o céu”, comandar e submeter as pessoas, para tornarem-se famosos. Por isso, os pobres trabalhavam sem descanso como escravos de uns poucos.

À medida que a consciência de seus direitos crescia, o povo reagia contra essa dominação e se desentendia.

Este texto tem uma linguagem popular, e é facilmente reconhecido como sendo de alguém que é contrário ao crescimento da cidade, portanto é escrito por alguém do campo, que é obrigado a trabalhar na edificação da cidade,(construção da torre).

A torre representa o poder Político, Militar e ideológico da época, que oprimem o povo em nome de Deus, fazendo que as pessoas trabalhem como escravos, sem direito a descanso, e atribuem essa opressão à vontade do próprio Deus.

A destruição da torre simboliza a tomada de posição dos mais fracos contra a edificação destes poderes, reconhecendo que Deus não é conivente com esta situação, e agirá em seu socorro. O texto apresenta outra explicação para a diversidade de povos e línguas: é um castigo contra a pretensão coletiva (Gn11,6-8) . O castigo é a resposta de Deus contra a pretensão do homem de se igualar a Deus, dominando e explorando o seu próximo.

Os grandes continuam construindo a Torre de Babel que os impede de enxergar o outro lado da humanidade. Para destruir essa Torre, Deus ensina a linguagem da fraternidade.

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5º encontro

A História de Abraão e Sara

A história de Abraão começa em UR, na Babilônia, mais ou menos, 1750 aC. Naquela época, era comum as migrações dos caldeus rumo ao norte da mesopotâmia. Nem a civilização avançada, nem a fertilidade das terras conseguiram criar um ambiente para a vida destes pastores nômades. As muitas invasões criaram tensões que provocavam migrações de diversas tribos em busca de uma maior liberdade.

A religião é um reflexo da situação política e cultural. Uma multidão de divindades são cultivadas e temidas: o sol, a lua, as estrelas, as águas misteriosas e temíveis, a tempestade, a chuva, a serpente e outras. O povo que conseguia o domínio político impunha o seu deus e o povo tinha que adora-lo. Cada tribo tinha um Deus como protetor.

Abraão se distinguia dos demais habitantes de Haran, por adorar a um Deus único, enquanto todos ali eram politeístas, quer dizer, tinham muitos deuses. Um dia, estando Abraão adorando a Deus que Ele tão pouco conhecia, sentiu no intimo de seu coração algo de extraordinário, que dizia:

“Sai da tua terra, da tua casa paterna, e vai para a região que eu te mostrarei. Farei sair de ti um grande povo e te abençoarei”. (Gn 12,1-2).

Abraão acreditou em Deus e partiu, acompanhado de Deus que ele sentiu no íntimo de seu ser. Mas isto não foi fácil. Para ele a migração foi uma experiência de fé.

A promessa de Deus: “ser abençoado e ter uma grande descendência” era a promessa da Aliança.

Aliança é um pacto de amizade entre Deus e os homens. É esse mesmo o significado da palavra Testamento = pacto de amizade, de amor mútuo.

A aliança de amor entre Deus e os homens, prometida a Abraão e a seus descendentes se estenderia, no Novo Testamento, a todos os povos do mundo.

Abraão foi o iniciador de um grande povo, de uma grande nação. A promessa de Deus não se refere apenas a um reino material, mas acima de tudo a um reino espiritual. É por isso que Abraão é chamado “pai dos que crêem”; por sua experiência de fé, ele é o pai de todos aqueles que crêem e amam a Deus. Por sua fé, Abraão é reconhecido “justo”. Justo é a pessoa que se “ajusta” no projeto de Deus, que adere à sua Palavra. Porque a fé não é simples acreditar em “mitos”, histórias ou verdades acerca dos deuses, nem mesmo acreditar em verdades sobre Deus.

A Fé é o canal que une criatura e criador, é responder a uma vocação, porque toda a nossa vida é vocação. É acolher Deus que quer fazer a sua história junto com os homens. É abrir o coração à vontade de Deus. É o relacionamento de intimidade e amizade com Deus. Abraão acreditou em Deus, e isto foi-lhe atribuído como justiça. Graças a esta fé poderosa, Abraão tornou-se o pai de todos os crentes.

A vocação foi amadurecendo dentro de Abraão, até que se deu o estalo e ele entendeu bem claramente o que Deus queria. Abraão fez uma escolha. Ele representa o primeiro homem que chegou a uma encruzilhada e soube olhar os acontecimentos com os olhos da Fé, sentindo dentro de si a necessidade de uma mudança, de uma conversão. Deus promete a Abraão uma terra. Uma terra diferente, onde a lei não seja a dominação de uns pelos outros, onde a civilização não seja opressora, mas libertadora e humana.

Abraão é chamado de amigo de Deus (Tg 2,23) por que se mostrou capaz de viver a sua vontade. Deus o levou à prova.

Abraão e Sara não tinham filhos. Porém, o povo tinha que nascer de um filho que fosse sangue do próprio Abraão. Mas como podia Sara, a esposa estéril, dar à luz? Sara também não foi capaz de acreditar em si mesma e procurou um outro jeito para garantir a promessa de Deus e encaixá-la dentro de um planejamento humano e realista: ofereceu a própria empregada a Abraão. Para a mentalidade da época, a proposta de Sara era razoável.

Abraão atendeu ao pedido da esposa e teve um filho com Agar. Chamaram o menino de Ismael, que quer dizer “Deus me ouviu”, e acharam que esse fosse o filho com que Deus ia realizar a promessa. Mas Deus não era dessa opinião. O filho devia ser de Sara.

Apesar das dificuldades, a vida continua. Certo dia, sentado na entrada da sua tenda, Abraão recebeu a visita de três mensageiros de Deus, e com eles a nova promessa: “Daqui a um ano voltaremos e Sara terá um filho” (Gn 18,10). De dentro da tenda, Sara escutava a conversa e começou a rir. O mensageiro não gostou muito da risada e disse a Abraão: “Por que Sara deu risada?... Por acaso existe algo impossível a Deus?” (Gn 18,13-14). Aí Sara ficou com medo e tentou defender-se: “Eu não dei risada, não!”, mas o mensageiro repetiu: “A senhora deu risada, sim!” não adianta querer disfarçar a falta de fé. Deus a descobre.

Lá estavam os dois velhos, novamente confrontados com uma promessa muito bonita, mas sem nenhuma garantia palpável, a não ser a própria palavra de Deus. Tinham que acreditar que Deus era capaz de realizar o impossível! Os dois acreditaram e o impossível se realizou! O filho nasceu e foi chamado Isaac, que quer dizer Risada.

Quando tiveram a felicidade da realização da promessa de Deus com o nascimento de Isac, Abraão sentiu como ordem de Deus, sacrificar o seu único filho. A prova passa sempre pelo sacrifício. Abraão deu mais um salto no escuro, sem enxergar nada pela frente. Parecia um suicídio! A verdade é que Abraão confiou totalmente em Deus.

Como pode ter passado uma coisa dessas pela cabeça de Abraão? Isso se explica conhecendo os costumes do povo pagão no meio do qual Abraão foi morar. Esse povo costumava matar o primeiro filho do casal, para enterrá-lo e construir a casa em cima do cadáver. Era assim o chamado “Sacrifício da Fundação”. Abraão chegou lá e topou com tal costume e, portanto pode ter pensado que Deus pedia dele também o sacrifício do primogênito. Mas Deus proibiu logo, porque em Israel a vida humana devia ser respeitada.

Portanto, hoje sabemos que Deus não quer sacrifícios humanos, mas na época em que foi escrita a história de Abraão e Isaac, havia o costume, e o povo hebreu estava se deixando influenciar pelo costume pagão de sacrificar seres humanos, principalmente crianças.

Por isso, a narração bíblica do sacrifício de Isaac trouxe ao povo hebreu a mensagem de que o Senhor não queria sacrifícios humanos, porque o nosso Deus é o Deus da vida.

É importante ler com muita atenção esta história, porque Abraão ainda não morreu. Apenas mudou de nome! Hoje ele se chama Genésio, Luis, Raimundo... Hoje também ele tenta fugir da miséria, larga a vida errante e troca o sertão seco por uma roça verde perto das águas, onde possa trabalhar a terra, criar o seu gado e cuidar da família. Abraão vive ainda hoje! É todo um povo perambulando sem destino. Buscando sem encontrar!

Abraão continua saindo de sua terra, peregrino numa terra estrangeira, nas grandes cidades, nas fábricas e no campo... Ele anda por aí, perdido, pelos terrenos baldios que a assim chamada “civilização” ainda não ocupou ou esqueceu de ocupar.

Dentro de si, ele carrega uma fé, uma esperança e um amor muito grande, mas não encontra lugar para ele neste mundo. O mundo parece ter medo de Abraão, e tem motivo para isso! Pois, se este Abraão, algum dia, conseguir plantar sua fé, sua esperança e seu amor, ele fará nascer uma planta nova que vai mudar a face da terra. Fará surgir um mundo novo, abençoado por Deus, onde existirá o perdão, setenta vezes sete.

Por enquanto, ele não sabe bem qual é a sua missão, nem sabe que é chamado Abraão. Mas eles estão começando a descobrir. A Bíblia pode ajudar nessa descoberta, pois alem de ser história do passado, ela é também espelho do presente.

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6º encontro

Conhecendo o processo de formação do povo de Deus

No encontro anterior vimos que Abraão é uma lição de vida a todos nós por suas qualidades: fé, esperança, obediência e também, pela coragem (deixou o que conhecia), fidelidade à Deus, desacomodação (ia sempre em busca do melhor), etc...

Vimos também que Abraão teve um filho, Isac.

A História de Isaac e Jacó – Gn25

Quando Isac cresceu, casou-se com Rebeca e tiveram dois filhos gêmeos: Esaú e Jacó. Eles lutavam no seio da mãe, profetizando a luta entre dois povos irmãos: os edomitas, descendentes de Esaú, e os israelitas, descendentes de Jacó.

Esaú gostava muito de lentilhas e, por um prato da mesma, trocou com Jacó seu direito de primogênito (Gn25,19-34). O direito de primogenitura assegurava ao filho mais velho a autoridade patriarcal sobre os outros irmãos, e também a parte maior na herança. Não esqueçamos que a ótica é o poder.


·                     Este relato destaca a estupidez de Esaú, que troca seus direitos por um prato de lentilhas. Esta atitude nos leva a pensar em muitas pessoas que vendem seus direitos e até mesmo, a própria liberdade “a troco de banana”.


Num mundo machista, que só valoriza o homem e dava preferência ao filho mais velho, Isac preferia o filho Esaú (peludo e musculoso) mas Rebeca preferia Jacó, o mais novo. Deus atendeu a preferência da mulher. Jacó enganou o pai e recebeu dele a benção preparada para Esaú (Gn 27).

 

·                     Este relato nos mostra também que Jacó, além de se aproveitar da fome do irmão para lhe tirar o direito de primogenitura, para roubar a benção patriarcal, ele se une à esperteza da mãe e aproveita da cegueira do pai.


O texto está preocupado em mostrar a supremacia de Israel, povo descendente de Jacó, sobre Edom, povo descendente de Esaú.

Isto também nos mostra que, o que é importante para nós não é importante para Deus.

Jacó

Jacó fugiu para casa do tio Labão, onde se apaixonou por Raquel. Primeiro teve que se casar com Lia (a filha mais velha) e, só depois de trabalhar 14 anos para o seu tio e que pôde casar-se com a mulher amada, Raquel. Com Lia teve 6 filhos: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon. Com a serva de Lia, Zelfa, 2 filhos: Gad e Aser.com Raquel teve 2 filhos: José e Benjamim. Com a serva de Raquel, Bala, 2 filhos: Dã e Neftali.

Jacó teve doze filhos. Todos serão assumidos como antepassados das doze tribos que formarão o povo de Israel.

A História de José e Seus Irmãos – Gn 37

José era o filho preferido de Jacó, isso gerou nos irmãos uma grande inveja. Ainda mais porque, além de ter sonhos extraordinários como: o sol, a lua e 11 estrelas curvadas diante dele, José não fazia o mesmo trabalho dos irmãos.

Como no caso de Caim, inveja e ódio, fazem com que os irmãos projetem a morte de José. Rúben se sente responsável e procura salvar José. Os fatos porém, se precipitam e eles resolveram vender José como escravo para uns viajantes que iam para o Egito e, todos pensam que José morreu.

José chegou a ser vice-rei no Egito. Numa ocasião em que houve muita miséria no País de Canaã, José mandou que seu pai e seus irmãos fossem morar no Egito.

Esta história mostra o ponto de vista da fé sobre os acontecimentos: Deus age através dos homens e das situações para realizar seu projeto de vida.muitas vezes não compreendemos os acontecimentos e situações porque não nos colocamos à escuta para descobrir o que Deus espera e quer de cada um de nós.

Caminhamos no escuro e precisamos acreditar que Deus vai realizando o seu projeto através da nossa própria incompreensão. Só no fim compreendemos que Deus estava junto conosco durante todo o tempo, encaminhando nossa história para a liberdade e a vida.

Com a morte de José e seus irmãos, termina a história de uma família e começa a história de um povo, conforme a promessa de Gn 46,3.


Este é o livro do Êxodo


Divisão geral do livro do Êxodo 


• libertação do Egito (1,1-15,21)

• caminhada pelo deserto (15,22-18,27)

• Aliança do Sinai (19 – 40) .....

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7º encontro

Êxodo e história

Os relatos do êxodo são típicos exemplos de histórias populares, que selecionam os fatos narrados de acordo com o interesse típico das pessoas oprimidas e marginalizadas. Muitas perguntas importantes para nós ficam sem respostas nos textos. Exemplificamos com algumas destas perguntas. As respostas de estudiosos ficam apenas no campo das hipóteses.

• Qual foi a data do êxodo? 

Estima-se que a saída do Egito se deu em torno de 1250 a.C.

• Quem era o Faraó opressor?

Possivelmente foi Ramsés II, megalomaníaco que deteve o governo por 67 anos e expandiu muito o poder egípcio.

• O êxodo foi uma expulsão ou uma fuga?

Conforme os textos, as duas versões são possíveis. Segundo Êxodo 13,17, o Faraó deixou o povo partir, enquanto em Êxodo 14,5, o povo foge e o exército do Faraó sai atrás perseguindo.

• Como foi, historicamente, a passagem do mar vermelho?

Em um mesmo texto bíblico encontramos várias explicações. Começa pela ordem a Israel para que marche (cf. Ex 14,15), logo é a mão de Moisés levantando um bastão que divide as águas (cf. Ex 14,16), e ainda um forte vento oriental que soprou toda a noite e fez o mar se retirar (cf. Ex 14,21). Isso sem contar a ação contínua de Deus, através da nuvem, da coluna de fogo, do anjo ou de sua própria presença emperrando as rodas dos carros do Faraó.

• Qual foi o roteiro seguido, do Egito a Canaã?

Várias localidades disputam a localização geográfica da passagem do mar dos Juncos ou do roteiro seguido pelo deserto.

• Como se deu, realmente, a tomada de Canaã?

As três principais hipóteses variam entre conquista pacífica, invasão violenta ou revolução interna.

• Em que sentido pode se dizer que Javé tirou o povo do Egito?

Ora, os escravos assumiram a fé em um Deus único, libertador, pronto a escutar os seus clamores. Chamaram-no Javé. Era um Deus revolucionário, porque não escutava as conversas dos faraós e reis, mas dava atenção aos gemidos do povo sofredor.

Retrato de muitas saídas

Na busca pelas origens do povo bíblico, já demos alguns passos com as matriarcas e os patriarcas, as tribos e os clãs que pastoreavam seus rebanhos pelas estepes de Canaã. Agora o convite é para conhecermos outros grupos que aderiram ao mesmo projeto e passaram a formar o povo de Deus. Nosso ponto de referencia principal será o livro do êxodo, sobretudo os 15 primeiros capítulos.

Ao relembrar suas origens, Israel sempre voltou à saída do Egito. Muitos textos da Bíblia são reescritos à luz do êxodo, tais como Juízes 2,11-19 e Sabedoria 11-19. os profetas se referem com freqüência a ele, conforme se lê em Amós 9,7-10; Oséias 11,1-6; Jeremias 2,1-9 ou Isaías 43,16-21. no livro de orações do povo, diversos Salmos evocam os fatos do êxodo, como se pode conferir nos Salmos 78; 105; 114; 136, entre outros.

Mas é principalmente ao confessar sua fé que o povo apela para esses eventos. As profissões de fé, conhecidas como credos, são fórmulas litúrgicas, rezadas, mas sempre ligadas a fatos históricos, expressão de uma fé dinâmica e ligada à vida concreta. A libertação da escravidão aparece com muita ênfase nos credos de Deuteronômio 6,20-23 e 26,5b-9, Josué 24,1-13 e Neemias 9, 7-25. Quer dizer que na Bíblia o êxodo foi vivido e revivido, contado e recontado, cantado e celebrado na fé. A própria memória da paixão e morte de Jesus é marcada pela celebração de uma ceia pascal, e sua ressurreição é vista como a Páscoa definitiva. Por esses motivos todos, o êxodo se tornou tão importante na teologia atual. Mas também para nossa vida ele diz muito, sem dúvida, porque a situação em que vicemos possui semelhanças evidentes com a do povo do êxodo. Podemos, dessa forma, concluir que o êxodo foi conquistado por muitos grupos da atualidade, que o tornam próprio, lembrado, entre outros migrantes, sem – terra, desempregados, moradores de favelas e cortiços, doentes, prisioneiros etc...

O livro do Êxodo, conta naturalmente a história da saída dos hebreus do Egito

Para celebrar a libertação do Egito, o povo festejou a Páscoa. Foi a festa mais antiga e a mais importante de Israel (Deus lutará). Nela juntaram-se, na verdade, duas festas: 

Uma era a páscoa, festa de pastores com imolação de cordeiro, e outra a dos ázimos, festa de agricultores com oferta de feixes e partilha de pães. A páscoa permaneceu como a celebração central na tradição judaica. Jesus escolheu essa festa para celebrar a sua aliança definitiva e instituir a Eucaristia. “Cristo, nossa páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). O ato de celebrar a Eucaristia significa, portanto, fazê-lo em sua memória, em compromisso com o êxodo do Egito e com a libertação definitiva.

Para o povo da Bíblia, o acontecimento fundamental foi o êxodo. Está aí a raiz de Israel como nação e o eixo da Bíblia como sua história. O êxodo passou a integrar, como povo de Deus, grupos sofridos que viviam à margem da sociedade. Criou uma nova realidade social e religiosa. Quanto falta, em nosso País, para chegarmos a um êxodo? 

Em casa, você poderá ler os textos bíblicos que relembram o êxodo. Além daqueles que já citamos, do Antigo Testamento, também o Novo Testamento faz muitas referências ao êxodo. Veja por exemplo em Mateus 1-2 quantos elementos recordam essa realidade, e inclusive Jesus é apresentado como o novo Moisés, chamado do Egito (cf. Mt 2,15) também no relato da paixão de João, Jesus é visto como o cordeiro pascal (cf. Jo 19,36). Para Paulo, Cristo é a Páscoa definitiva, que nos convida à vida nova (1Cor 5,9-10). No Apocalipse há muitas menções do êxodo, sendo mais explicita a reedição das pragas para julgar a Babilônia (cf. Ap 16,1-20).

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8º encontro

Moisés: O libertador do seu povo

O livro do Gn contou a história de Abraão que veio da terra dos caldeus e chegou até a Palestina, onde morreu. Depois vem a história de José e dos hebreus morando no Egito durante 400 anos, até que resolveram sair e começar a grande viagem, descrita no livro do êxodo.

Nesta época o Egito era uma civilização muito rica. A vida rural muito próspera: em algumas regiões chegavam a ser feitas quatro colheitas por ano, porque as águas eram represadas tecnicamente. A cultura era muito adiantada.

No Egito, onde os hebreus tinham ido à procura de trabalho, eles foram se multiplicando rapidamente, porque tinham muito mais filhos que os egípcios. Estes, vendo que os hebreus aumentavam tanto, chegaram a se preocupar, mas não queriam manda-los embora, porque eram mão-de-obra barata para suas construções.

Hoje, conosco, está acontecendo a mesma coisa: os paises ricos se preocupam com os países pobres que crescem demais em produção. Dizem que continuando assim não haverá na terra comida para todos; não dizem porém que o que tem está mal repartido. Assim, para diminuírem os nascimentos, distribuem esterilizantes para as mulheres tomarem sem que elas saibam do que se trata. 

Quando, no Egito, os oprimidos se multiplicaram demais, foi dada a ordem pelo Faraó às parteiras de matar todos os recém-nascidos, filhos dos hebreus do sexo masculino (Ex 1,5-22). Num primeiro tempo as parteiras ficaram com pena e não obedeceram, mas depois os meninos começaram a ser mortos de verdade.

No Egito os hebreus eram oprimidos com trabalhos muito duros, porque foram encarregados de construir uma nova capital, assim como Juscelino fez com Brasília. Para isso, precisava de mão-de-obra, e conseguiram isso com os hebreus, explorados em favor dos egípcios.

É sempre assim: quando há algo de grande e difícil para fazer, são aqueles que vêm de fora que devem trabalhar (pensemos hoje nos migrantes, principalmente os nordestinos, em São Paulo e Rio de Janeiro, os brasileiros no Japão, etc..).

Moisés

Moisés nasce no Egito, num período de escravidão do povo hebreu. É um menino da Tribo de Levi. Seu nascimento é o nascimento de um povo, o povo de Israel. O povo conservou na memória que este acontecimento foi obra de Javé, o seu Deus.

Durante algum tempo a mãe o esconde e, para evitar que ele morra, coloca-o numa cesta e o abandona no Rio Nilo (Ex 2,10). Mas, salvo das águas, Moisés é educado em ambiente principesco e “iniciado em toda a sabedoria dos egípcios”. (At 7,22).

Passaram-se anos... Mas um dia Moisés, já crescido, foi visitar seus irmãos e viu os duros trabalhos que lhes eram impostos.

Matou um egípcio e fugiu apavorado para o deserto (Ex 2,1-15). Fica lá muitos anos, como pastor nômade.

A Vocação de Moisés

Moisés toma a iniciativa de libertar o seu povo e de reuni-lo para que se liberte. Fracassa e foge para o deserto.No meio de seus rebanhos, o Anjo do Senhor manifestou-se a ele sob a forma de uma chamada de fogo que brotava no meio de uma sarça. Deus o chamou: “Moisés, Moisés!” (Ex 3,1-6).

Moisés não o vê, mas ouve. Ele sabe que se encontra na presença de Deus. O fio da história é retomado. Chega a hora em que Deus vai realizar as promessas.

Moisés reconhece o chamado de Deus para libertar o seu povo. Esta é a missão que Deus dá a Moisés. Missão difícil. Ele fica com medo, como os profetas que são chamados por Deus. Todos, excerto Isaías, ficaram com medo. Todos desejaram recusar o chamado de Deus porque a missão é dura.

A experiência de Deus é um mistério que está além da compreensão humana. Esse mistério é apresentado aqui como fogo que arde sem consumir. O que interessa é que o “mistério” transforma a vida de Moisés para uma VOCAÇÃO (chamado).

NOME DE DEUS

Moisés diz a Deus: “Pois bem, vou ao encontro dos filhos de Israel e digo-lhe: O Deus de vossos pais enviou-me a vós. Mas se eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que responderei? (Ex 3,13). No Egito, todos sabem quais são os nomes dos seus deuses. “Se nós, hebreus, também temos um Deus, então, como é que ele se chama?” Deus responde: YHVH (IAHWEH... ‘EU SOU AQUELE QUE É’ ) EX 3,14.

Deus é aquele que caminha conosco, aquele que nos dá assistência. Deus é aquele que se revela na ação; aquele que está ao nosso lado, que está presente em nossa vida.

Moisés se sente incapaz e sem autoridade para ser mediador da libertação para um povo, com quem jamais conviveu. Deus lhe assegura que estará com ele e que a libertação vai se realizar.

Deus dá-lhe o poder de convencer e, para ajuda-lo, põe a seu lado Aarão, seu irmão (Ex 4,14). Aarão tem a facilidade de falar de maneira que o povo entenda, pois vive no meio do povo; além disso, é irmão de Moisés e poderá ser seu porta voz.

“Deus revelou-se ao seu povo Israel, dando-lhe a conhecer o seu nome. O nome exprime a essência, a identidade da pessoa e o sentido da sua vida. Deus tem um nome. Não é uma força anônima. Dizer o seu nome é dar-se a conhecer aos outros; é de certo modo, entregar-se a si próprio, tornando-se acessível, capaz de ser conhecido mais intimamente e de ser invocado pessoalmente”.

“Deus revelou-se progressivamente e sob diversos nomes ao seu povo; mas foi a revelação do nome divino feita a Moisés na teofania (= manifestação de Deus) da sarça ardente, pouco antes do Êxodo e da Aliança do Sinai, que se impôs como sendo a revelação fundamental, tanto para a Antiga como a Nova Aliança”.

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9º encontro

Moisés: Dificuldades na Missão

Quando Moisés foi ao encontro do Faraó (Ex 5) este se recusa a deixar partir os israelitas, por ter necessidade deles como grande “mão-de-obra” para suas construções.

Nos quinze primeiros capítulos do livro do Êxodo trata-se da libertação. Estes quinze capítulos se encontram entre os textos bíblicos mais conhecidos dos cristãos da América Latina. Milhares de círculos bíblicos e de comunidades de base são animados pelos textos que falam de Moisés e de seu povo.

EXODO: ACONTECIMENTO FUNDAMENTAL DA HISTÓRIA DO POVO DE DEUS

O Êxodo = saída dos hebreus do Egito foi um acontecimento de primeira importância na história do povo de Deus. O êxodo é o centro de interpretação da lei e dos profetas, como preparação para compreender a missão e a prática libertadora de Jesus. A libertação do jugo egípcio constitui-se, pois, experiência básica no núcleo do povo de Deus. 

O êxodo é o ponto central no Antigo Testamento

Quando uma criança perguntava pelos motivos que exigiam os cumprimentos dos mandamentos, o pai lhe respondia, contando a história da libertação do Egito. Na libertação está a prática dos mandamentos, em especial da justiça (Dt 6,20-25; Ex 20,2).

Quando um agricultor levava algo dos frutos de seu trabalho para o altar, recitava a história da libertação. A colheita que fizera era fruto do Êxodo (Dt 26, 1-11). Sim, a libertação do Egito era o conteúdo principal do credo dos israelitas. Não só o comprovam os dois textos já mencionados de Dt 6 e 26. outras tantas passagens bíblicas o confirmam, por exemplo: Js 24, 1-7; Sm 12,6; Sl 136.

A PASSAGEM DO SENHOR

Apesar das 10 pragas e dos prodígios de Deus, o Faraó endureceu o coração e recusou deixar partir os israelitas. É então que acontece a décima praga, a mais terrível e, com ela, o acontecimento de maior importância para o Povo de Israel.

Por meio deste acontecimento (a morte dos primogênitos) Deus traz a libertação (Ex 12,29-34). O Faraó deixa o povo israelita partir. Depois de uma caminhada, os egípcios perseguem o povo até o Mar Vermelho. Os israelitas, por graça de Deus, chegam vivos e livres à outra margem do Mar e cantam com gritos de alegria (Ex 15).

Este êxodo, esta libertação, tem grande importância. Antes da intervenção de Deus eles eram escravos, depois se transformam num povo que receberá o nome de POVO DE DEUS. 

O êxodo (que quer dizer “saída”) foi o acontecimento que iniciou a caminhada deste povo.

A saída do povo de Deus do Egito

Tudo o que aconteceu com os hebreus na passagem do Mar Vermelho foi cantado por Miriam, a poetisa irmã de Moisés (Ex 15), e todo mundo sabe como numa poesia as coisas mudam, assumem uma cor diferente. Quando um namorado fala de sua namorada numa poesia, diz que ela tem cabelos de ouro e os olhos de brilhantes. Nós entendemos o que ele quer dizer. O Cântico de Miriam é também um poema de amor. Ela canta as maravilhas que Deus fez para o seu povo do jeito que ela sentiu, procurando imagens que expressassem melhor seus sentimentos de gratidão e de louvor.

Naquela altura, o canal que hoje existe ainda não tinha sido aberto e naquele ponto a água era muito rasa, tão rasa que quando a maré baixava dava até para passar a pé. Pelo que a Bíblia nos conta, parece que até a natureza colaborou para o povo poder sair e se libertar, Todavia, não faltaram dificuldades. A passagem do Mar Vermelho não foi tranqüila. De fato, quando os hebreus perceberam que os egípcios já estavam no encalço deles, tiveram medo e se revoltaram novamente contra Moisés. Deus, porém sabia o que estava fazendo. Deu ordem a Moisés de continuar passando para depois, logo que o último hebreu saísse da água, mandar fechar-se novamente em cima dos egípcios que também tentavam passar.

Sobre esta passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho foi feito também um filme, “Os Dez Mandamentos”, e nesse filme o capítulo do êxodo foi tomado ao pé da letra, para impressionar mais espectadores. Agora, a coisa mais importante é que os hebreus saíram do Egito, passaram o mar e foram continuando numa caminhada de libertação, com Deus andando no meio deles.

O eixo está aí, está na presença de Deus, e não nos pormenores que podem interessar só até um certo ponto.

Esta passagem do Mar Vermelho é mais uma página da Bíblia que pode levantar muitas perguntas, no sentido de querer saber se as coisas se passaram mesmo assim. Será que os acontecimentos seguintes não influenciaram quem escreveu? É claro que aqui também se trata de uma história que foi contada depois que tudo se passou, com toda uma carga de lutas, problemas, dores e alegrias que aconteceram na caminhada. A versão de quem conta depois nunca pode corresponder exatamente aos fatos como eles se passaram, porque vem vista com os olhos de “depois”, numa perspectiva particular. Quando se contam as coisas depois, se tenta dar uma explicação para tudo, uma explicação nossa, como fazia aquele padre idoso que gostava de futebol e tinha seu time preferido. Quando o time ganhava, ele sublinhava a valentia dos jogadores; quando o time perdia, ele apontava a incompetência do juiz!

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10º encontro

A Páscoa Hebraica

A páscoa era uma festa muito antiga de nômades, era primitivamente um ritual realizado por pastores: para proteger dos espíritos maus a família e o rebanho, que tinha as suas prescrições:

·                     eles matavam um animal e com o sangue dele tingiam a entrada da tenda;

·                     comer de pé o pão ázimo e as ervas amargas, com o bastão na mão e tendo desarmado a tenda para partida.

·                     celebrá-la nos grupos e em seguida, na família.

Assim esta festa foi re-interpretada pelo povo israelita: Israel é o povo nômade que Javé tirou do Egito. “Naquele dia, recordareis o fato e o comemorareis solenemente com uma festa em honra do Senhor” (Ex 12,14). E esta grande festa será celebrada todos os anos para a intervenção de Deus ficar na memória do povo. 

O povo sempre recordará esta libertação, nas celebrações, nos Salmos, nos Profetas (Sl 105,23-43; 106,7-12; 135,8-9). A celebração era uma catequese, com perguntas e respostas (Ex 12,26-27). Assim, toda família revivia o processo de libertação.

O gesto memorial mais importante era o sangue nos batentes das portas, que lhes trazia à memória a ação de javé, protegendo as suas casas contra a praga.

A repetição anual deste gesto dava ao povo forças para enfrentar com coragem e fé as pragas exterminadoras capazes de destruir os faraós, os Reis de Israel e de Judá, os opressores assírios, babilônicos, persas, gregos ou romanos. Cada época tinha a sua praga.

A páscoa era celebrada todo ano, na noite de “lua cheia” no início da primavera. Sempre foi a celebração da esperança em tempos de opressão. A passagem do Senhor traz, ao mesmo tempo, sofrimento e alegrias. Assim é a Páscoa: fonte de morte e fonte de vida.

Os hebreus celebravam a Páscoa, com o sacrifício do cordeiro e o uso de pães sem fermento, conforme a ordem recebida quando Moisés convocou todos os anciãos de Israel dizendo:

“Ide e escolhei um cordeiro por família,e imolai a Páscoa... não comereis pão fermentado com essas vítimas; durante sete dias comereis um pão de aflição, porque saístes às pressas do Egito, para vos lembrardes assim, durante toda a vossa vida, do dia de vossa partida... E, quando vossos filhos vos disserem: que significa esse dia? Respondereis: É o sacrifício da Páscoa, em honra do Senhor que, ferindo os egípcios, passou por cima das casas dos israelitas no Egito e as preservou...” (Ex 12,21. 26-27; Dt 16,3).

Tal celebração devia ser feita numa noite de vigília, para lembrar como a noite da passagem do Mar Vermelho foi para Deus uma noite de vigília libertadora, a fim de os tirar do Egito. E essa mesma noite, diz o Êxodo, “é uma vigília a ser celebrada de geração em geração para todos os israelitas” (Ex 12,42).

A celebração da Páscoa, com o sacrifício do cordeiro e o uso dos pães sem fermento devia ser assim, para os hebreus, a lembrança perpétua de sua libertação, uma lembrança a ser “vivida” novamente na mesma celebração conforme a ordem de Moisés:

“Conserveis a memória deste dia, em que saístes do Egito, da casa da servidão. Explicarás então a teu filho: isto é em memória do que o Senhor fez por mim quando saí do Egito. Será para ti como um sinal sobre tua mão. Como uma marca entre os teus olhos...”(Ex 13,3.8-9).

Essa celebração da Páscoa, para os hebreus, foi assumindo com o tempo também uma dimensão futura. Novamente dominados por estrangeiros, os hebreus acabaram celebrando sua Páscoa lembrando o passado, mas pensando no futuro ainda na espera de uma nova libertação, a última e a definitiva, quando, finalmente toda escravidão seria vencida, e começaria um novo mundo há muito tempo prometido. Páscoa, então, para os hebreus, era uma celebração que reunia, numa visão única, três realidades bem distintas:


·                      Uma realidade do passado: o acontecimento histórico da libertação do Egito, quando Israel tornou-se assim o “povo de Deus”;

·                     Uma realidade presente: a memória ritual (celebração) do acontecimento passado, devido à qual todo israelita tomava consciência de ser um “libertado” de Javé, não somente porque o foram os seus antepassados, mas também pessoalmente.

·                     Uma realidade futura: a libertação do Egito era o símbolo de uma futura e definitiva libertação do povo de toda escravidão, libertação que devia se realizar numa nova Páscoa, uma Páscoa que teria marcado o fim de uma situação de pecado e o começo de uma nova era.

·                     A história do êxodo e da Passagem, a história que é figura de nossa Páscoa e de nossa libertação, é a história mais importante da Bíblia.

A Páscoa cristã é a continuação da Páscoa Judaica. Jesus também a celebrou. Ele, porém, amplia-a, realiza-a em plenitude, inaugura uma nova Páscoa. Ele mesmo se transforma no cordeiro Pascal, cujo sangue vai ser derramado para salvar, não algumas tribos que estavam na escravidão, mas toda a humanidade.

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11º encontro

ALIANÇA: O pacto da amizade

Depois da passagem do Mar Vermelho começa a grande caminhada para a Terra prometida. Depois de 50 dias, os israelitas chegam ao sopé de uma montanha, o Sinai. Neste lugar grandioso, Deus vai fazer Aliança com este povo (Ex 19,1-6).

“Deu agora em diante, se me obedecerdes e respeitardes minha Aliança, eu vos considerarei o Meu povo entre todos os povos... um reino de sacerdotes e uma nação consagrada” Êx.19,5-6. Esta é a vocação do povo de Israel.

Um reino de sacerdotes = o povo eleito é chamado reino sacerdotal, nação santa porque era consagrado de modo especial a Deus.

Sacerdócio da Ordem = são representantes de Cristo no meio dos fiéis.

Toda Bíblia gira em torno da Aliança de Deus com os homens. A Aliança é o ponto central da Bíblia.

Ao fazer “Aliança”, Deus sempre usou de intermediários, como: Noé, Abraão, Moisés e outros. mas, a Aliança não era somente com essas pessoas e sim com todo o povo de Deus.

A palavra Aliança tem um conceito muito rico: em hebraico, BERIT e em latim, TESTAMENTENTUM. Traduzimos por: pacto, vínculo, comunhão, união, diálogo, casamento, tratado, compromisso...

Da primeira à ultima página da Bíblia aparece a Aliança que Deus fez com os homens, em seus diversos aspectos: promessa com os Patriarcas, Aliança no Sinai com Moisés, crises... até chegar a Nova Aliança com Jesus Cristo.

A Bíblia é o livro que nos fala da Aliança. As duas partes da Bíblia: o AT e o NT poderiam ser chamados de antiga e nova Aliança.

Deus sempre quis fazer uma Aliança com o homem. Tão forte é este desejo de Deus, que Ele criou o homem à sua imagem e semelhança.

Aliança acontece no casamento. Mas o compromisso entre o noivo e a noiva é invisível, porque é feito no coração. É um compromisso de amor e fidelidade que fazem entre si, para sempre. Mas, para tornar público esse compromisso, eles expressam seu amor por palavras, diante de uma comunidade. Além disso, usam um sinal externo que levam no dedo: uma aliança de metal que serve para lembrar o compromisso de amor.

Assim também acontece na Aliança de Deus com os homens. Existe sempre um sinal externo que vem “selar” esse pacto de amor. Por exemplo, depois do dilúvio, Noé ofereceu um sacrifício ao Senhor sobre o altar. Então Deus disse a Noé e a seus filhos: “Vou fazer uma Aliança com vocês e com os seus descendentes” (Gn 9,8-17). O arco-íris já existia, mas Deus escolheu-o como sinal e lembrança visível da promessa. Esta Aliança abrange toda a humanidade e toda a criação.

Com Abraão, o sinal da Aliança foi feito através das carnes das vítimas, divididas ao meio. Em seguida colocava-se uma parte em frente à outra e os contratantes passavam pelo meio delas invocando sobre si a maldição e a sorte das vitimas (Gn 15,1-18; Jr 34,18-19).

Gn 15,11 = as aves rapinas eram consideradas sinal de mau agouro. O enxotamento das aves indicaria a libertação e a vitória.

Gn 15,17 = o fogo que passa entre as partes das vítimas indica a passagem de Deus para confirmar a sua promessa. Entre os antigos era costume passarem as partes contratantes entre as vítimas esquartejadas, invocando sobre si o castigo no caso do não cumprimento aos termos do contrato.

Gn 17,9 = a circuncisão já era praticada antes de Abraão, mas será assumida como sinal sagrado que recordará a Aliança estabelecida e ao mesmo tempo lembrará aos hebreus os seus deveres de povo eleito, do qual passavam a participar justamente mediante esse rito.

O sangue tirado dos animais servia para o ritual: mergulhavam as mãos e aspergiam o altar e o povo. O sangue é muito importante no ritual da Aliança porque ele era considerado como “alma”, “vida”. A aspersão com o sangue criava entre as pessoas laço de vida sagrada (Ex 24,7-8).

Com Moisés, a Aliança ficou gravada numa pedra da lei, que se chamou Decálogo, os DEZ MANDAMENTOS, que seria a prova e o compromisso da Aliança. A saída do Egito é o ponto de destaque na história de Israel. A partir desta Aliança, as pessoas se constituíram um povo, o Povo de Deus. A aliança do Sinai é a mais importante do Antigo Testamento. 

A aliança do Sinai é diferente das outras alianças: é condicional – Deus é o nosso Deus e nós somos o seu povo, por isso, somos todos irmãos, tendo um único Deus. 

Isso exige uma continua fidelidade, vigilância e compromisso (EX 24,7-8) que se resumia no Decálogo.

A infidelidade à aliança é semelhante a um casamento infiel. Os profetas usam expressões conjugais para alertar esta infidelidade: “comportamento adúltero”, “prostituição”, “Deus é um Deus ciumento”.

Os manuscritos do Mar Morto (Quran) mostram que as idéias da Aliança continuaram a investir grande importância na teologia hebraica até o tempo do Novo Testamento. O próprio Jesus pressupõe que seus discípulos conheçam bem esta mentalidade, quando diz que sua morte inaugura a Nova Aliança (Mc 14,24).

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12º encontro

OS DEZ MANDAMENTOS: A CONSTITUIÇÃO DO POVO DE DEUS

OS DEZ mandamentos (Ex 20,3-17) são como um grande quadro pendurado na parede da vida. O prego que os sustenta são as Palavras de Deus: “Eu sou Javé teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex20,2). Com estas palavras, Deus declara a autoridade e o objetivo dos dez mandamentos.

A autoridade: tirando o povo da casa da escravidão, Deus conquistou um título de propriedade sobre o povo (Ex 19,5-6). Por isso ele tem direito de revelar-lhe a sua vontade, expressa nos dez mandamentos.

O objetivo: fazer alguém sair da “casa da escravidão” para a liberdade não é algo que se faça de um dia para o outro. É um processo que exige sábia orientação (TORÁ, em hebraico) está contida nos dez mandamentos. São pistas que ajudam o povo a continuar no caminho da liberdade, da fraternidade e da justiça, são a negação da escravidão. A observância fiel dos dez mandamentos faz com que o povo se torne a Boa Nova para os oprimidos e amostra concreta daquilo que Deus quer para todos. 

Os dez mandamentos não foram dados a crianças, mas aos adultos. Não são para amedrontar nem limitar a liberdade, e sim para defendê-la e aprofundá-la. Não foram dirigidos, em primeiro lugar, aos indivíduos, mas ao povo. Não têm como objetivo melhorar apenas o comportamento individual. Isto é bom, mas não é suficiente. Orientam também, e, sobretudo, para uma nova organização do povo. Não apenas os indivíduos, mas também o povo, enquanto povo deve observar os mandamentos.

Há pessoas consideradas boas e honestas, que não matam nem roubam, mas que, sem problema algum de consciência, colaboram na manutenção de um sistema que hoje, a cada ano, mata de fome centenas de milhares de pessoas; que legitima o roubo de bilhões de dólares através da vivida externa; rebaixa a mulher, gera a cobiça, etc. Será que estas pessoas observam os dez mandamentos?

Os mandamentos são a resposta de Deus ao clamor do povo oprimido. Os dez mandamentos revelam os grandes valores da vida humana. Defendem os direitos e os deveres básicos das pessoas, dos grupos, dos povos. Deste ponto de vista podem ser lidos assim:

1. Só YHWH como Deus! (Religião e fé como força libertadora)

2. Não usar o Nome de Deus em Vão! (Não manipular a fé a favor da exploração)

3. Observar o Sábado! (O descanso semanal e o valor ao trabalho)

4. Honrar Pai e Mãe! (O uso correto da autoridade e do poder)

5. Não Matar! (0 valor da vida e o respeito que lhe é devido)

6. Não cometer Adultério! (O amor como fonte de liberdade e não de opressão)

7. Não Furtar! (O direito aos bens necessários para a vida)

8. Não Levantar Falso Testemunho! (A verdade como fundamento do relacionamento humano)
9 e 10. Não Desejar Nada do Outro! (O combate à ideologia do sistema opressor)

por isso, em cada mandamento, devíamos perguntar: qual é o clamor que está por trás dele? 
Jesus não anulou esta Lei. Ele veio completá-la (Mt 5,17). E ela vale até hoje para todos aqueles que acreditam em Deus.

Uma lei é como uma indicação na estrada. Indica o caminho a seguir. É uma grande ajuda na caminhada; é como uma ferramenta no trabalho. Pela Lei dos Dez Mandamentos, Deus indicou o caminho certo para:

1. o povo nunca mais voltar a viver na escravidão.

2. o povo conservar a liberdade que conquistou, saindo do Egito.

3. o povo viver na justiça e na fraternidade.

4. o povo ser um povo organizado, sinal de Deus no mundo.

5. o povo organizado em comunidades, sendo resposta ao clamor de todo o povo.

6. o povo ser anúncio e uma amostra daquilo que Deus quer para todos.

7. o povo chegar à prática perfeita do amor de Deus e do amor ao próximo.

Os dez mandamentos nos fazem conhecer melhor os nossos deveres, os nossos direitos e a nossa missão.

No tempo de Jesus havia alguns fariseus que ensinavam os mandamentos, sem observá-los (Mt 23,4; Mc 7,8-13; Jo 7,19). Só repetiam a letra, mas matavam o espírito da Lei (Lc 11,39-44; 2Cor 3,6). Esqueciam que a lei tinha sido dada para libertar e educar (Gl 3,21) e a transformaram em instrumento de opressão (Lc 11,46; Mt 11,28).

Jesus criticou a interpretação dos fariseus e dos doutores (Mt 5,20; 26,1-36) e deu uma nova explicação (Mt 5,17-48). 

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13º encontro

Levítico - Formação de um povo Santo

Levítico provém do nome Levi, a tribo de Israel que foi escolhida para exercer a função sacerdotal no meio do seu povo. 

Embora situado logo após o êxodo e atribuído a Moisés, o livro do Levítico, na verdade, foi escrito depois do exílio na Babilônia. Concorreram para a sua formação textos elaborados pelos sacerdotes através dos tempos: um ritual para os sacrifícios, um ritual para a consagração dos sacerdotes e critérios para distinguir o que é puro e o que é impuro. A tudo isso foi acrescentado Lv 17-26, chamado Lei de Santidade.

Por trás da repetição monótona das leis, podemos descobrir o ideal proposto ao povo que, no passado, Javé havia libertado da escravidão do Egito e que, no presente, Javé libertou do exílio na Babilônia: cultuar o Deus libertador que vive no meio do povo, reconhecer seus dons através dos sacrifícios, servi-lo através dos sacerdotes e voltar sempre à comunhão com ele através do perdão. Acima de tudo, porém, está a exigência de ser coerente na Aliança: ser santo como o próprio Javé é santo (Lv 19,2). Essa santidade não consiste apenas em oferecer um culto minucioso, mas em viver a justiça e o amor de Javé nas relações concretas. É dessa concepção de santidade encarnada que temos o mandamento fundamental de toda a ética: “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Lv 19,18).

DIVISÃO GERAL

Levítico:

• ritual dos sacrifícios (1-7);

• lei dos sacerdotes (8-10) ;

• lei de pureza (11 – 16);.....

• lei de santidade (17 - 27).


NÚMEROS

A caminho da terra prometida

Este livro se chama NÚMEROS porque começa com um grande recenseamento do povo hebreu no deserto.

Para os hebreus, a saída do Egito foi uma penosa caminhada em busca de uma terra. Neste livro a caminhada se transforma em majestosa marcha organizada de todo um povo, como uma procissão ou um exército. As tribos de Israel estão todas presentes, formando os esquadrões de Deus, cada uma com o seu estandarte e avançando em rigorosa formação. No centro de tudo vai a arca da Aliança.

Isso mostra que o livro não pretende narrar fatos históricos, mas quer nos transmitir mensagens. Assim como os antepassados saíram da escravidão do Egito para chegar à terra de Canaã, do mesmo modo todo o povo de Deus é peregrino e caminha para o Reino prometido por Jesus. A organização mostra que dentro do povo de Deus as funções devem ser repartidas, mas com um único objetivo: realizar o projeto de Deus. E a arca da Aliança no centro indica que, nessa caminhada, Deus está sempre no meio do seu povo.

O livro mostra também, e com muito realismo, que dentro dessa organização existem fortes conflitos (Nm 16), e que seus chefes estão sujeitos a fraquezas e desânimos, por mais importantes que eles sejam na comunidade.

Em números 22 a 24 temos a história de Balaão e a sua burrinha. Essa história mostra como um adivinho estrangeiro se torna um verdadeiro profeta de Deus. Com essa narração o livro quer mostrar que dentro da caminhada do povo de Deus para a Terra Prometida deve haver sempre um lugar para o profeta.

O deserto foi o tempo da grande disciplina e pedagogia para o povo de Deus. Não basta estar livre: é preciso aprender a viver a liberdade e conquistá-la continuamente, para não voltar a ser escravo outra vez. No deserto Israel teve que superar muitas tentações: acomodação, desânimo, vontade de voltar para trás, desconfiança de Javé e dos líderes, imprudência etc. foi no confronto com essas situações que ele descobriu o que significa ser livre para construir uma sociedade justa e fraterna, alicerçada na liberdade e voltada para a vida. Visto sob essa perspectiva, o livro dos Números nos ensina que qualquer transformação profunda exige um longo período de educação e amadurecimento.

DIVISÃO GERAL

Números

·                     organização do recenseamento dos Levitas (1-4)

·                     coletânea de leis diversas e funções sacerdotais (5-6)

·                     oferendas e consagrações em vista da partida do Sinai (7-8)

·                     Páscoa e últimas medidas que precedem a partida (9-10)

·                     Etapas da marcha e do reconhecimento de Canaã (11-14)

·                     Leis sobre os sacrifícios, sacerdotes e levitas (15-19)

·                     Nova seção narrativa de fatos acontecidos na marcha (20-25)

·                     Recenseamento, sacrifícios e direitos da mulher (26-30)

·                     Guerra e partida da terra prometida (31-36)


DEUTERONÔMIO

Projeto de uma nova sociedade

A palavra grega DEUTERONÔMIO significa segunda Lei. Trata-se de uma reapresentação e adaptação da lei em vista da vida de Israel na terra Prometida. Este livro nasceu muito tempo depois da situação histórica que nele encontramos (discurso de Moisés antes da entrada na Terra), e passou por um longo período de formação. Para o autor, porém, o povo de Deus está sempre na posição de quem deve se converter a Deus e viver em aliança com ele, para ter a vida (Terra = vida).

A idéia central de todo o livro é que Israel viverá feliz e próspero na Terra se for fiel à aliança com Deus; se for infiel, terá a desgraça e acabará perdendo a Terra. O livro, porém, não se contenta com idéias gerais. Após relembrar o Decálogo (5,1-22), ele mostra que o comportamento fundamental do homem para com Deus é o amor com todo o ser (6,4-9). A seguir apresenta uma longa catequese, explicando o que significa viver esse amor em todas as circunstâncias da vida pessoal, social, política e religiosa. Essa catequese é apresentada, sobretudo através das leis do Deuteronômio (capítulos 12-26), onde se procura ensinar ao homem como viver em sua relação com Deus, com as autoridades, com o outro homem, e até mesmo com os seres da natureza.

Mais do que nos determos nessa ou naquela parte do livro, encafifados talvez com uma ou outra lei, o importante é perceber o que o conjunto procura transmitir: um projeto de sociedade nova, baseado na fraternidade entre os homens e na partilha de tudo o que Deus concedeu a todos. Notar, sobretudo que Deus é chamado de Pai (1,31), e os membros do povo são chamados entre si de irmãos. A vocação do povo de Deus é a fraternidade e a partilha.

O livro do Deuteronômio é, sobretudo, um modelo de ação pastoral e social. Sua parte central (Dt 12-26) nasceu em meados do Séc. VIII a.C., numa época de grande desenvolvimento econômico, que acabou por acelerar a injustiça e a desigualdade social: uma minoria privilegiada detinha a riqueza e o poder, enquanto a minoria do povo ficava reduzida à miséria. Diante disso os levitas itinerantes (não ligados diretamente a um santuário) desenvolveram uma catequese que mostrava o caminho para superação dos conflitos.

Essa catequese diante de situações concretas se cristalizou nas leis do Deuteronômio. Tais leis não devem ser entendidas no nosso sentido moderno de lei, mas muito mais como orientação, ensino, educação para produzir relações justas e fraternas dentro da sociedade. A intenção básica dos levitas era provocar coerência entre a Aliança que se celebra e a vida que se vive. O esforço deles é um modelo para que também nós saibamos tirar as conseqüências econômicas, políticas e sociais da fé que professamos, a fim de que o fermento evangélico gere de fato uma sociedade nova. 

DIVISÃO GERAL

Deuteronômio

• discurso introdutório (1-11)

• código deuteronômio (12-26)

• discurso conclusivo (27-30)

• final da vida de Moisés (31-34)

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Bibliografia


VALDÉS, Ariel Álvares, Que sabemos sobre a Bíblia, vol 2, ed. Santuário, Aparecida SP. 1997.

Pe. ANTONIAZZI, Alberto; BROSHUIS, Inês; PULGA, Rosana, ABC da Bíblia, 29a ed. Paulus, 1984, SP.

MESTERS, Carlos, Curso Bíblico 1 e 2, distribuição: CCJ- Centro de Capacitação da Juventude, 2a ed. Outubro de 1994, SP.

FAMILIA Cristã, suplemento No 1 A caminho do novo milênio, ed. Paulinas.

BIBLIA SAGRADA. Ed. Pastoral. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.

LIVRO DO CATEQUISTA. Fé, vida, comunidade. Centro Catequético Diocesano. Diocese de Osasco. 9o Ed. São Paulo: Paulus, 1994.

MEDEIROS, José M. de. Panorama da História da Bíblia. 6o Ed. São Paulo: Paulus Gráfica, 1999.

 

Fonte: http://teologiaon-line.blogspot.com/2011/03/curso-biblico.html


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