sobre o espectáculo

“ensaio.HAMLET” levantou vários desafios ao grupo. Tivemos a oportunidade de trabalhar com mais um encenador profissional de forma a conseguirmos obter formação, dinamismo e novas formas de fazer de teatro.
Muito incentivado pelo encenador, Nuno Pino Custódio, o grupo passou essencialmente por três fases: a formação, a dramaturgia / tratamento do texto e, por fim, a construção de um espectáculo coerente. O primeiro desafio foi, inegavelmente, conseguirmos, num curto espaço de tempo, desenvolver uma técnica que nos era desconhecida: a técnica da máscara. Outros dos desafios seria pôr em cena Shakespeare algo que o grupo nunca fizera em 28 anos de existência. Contudo, a grande ambição residiu na fusão destes dois factores: trabalhar o texto sem palavras a partir das sugestões dos actores.
“Hamlet” é um dos textos mais emotivos da obra de Shakespeare e, apesar das suas situações e personagens complexas, arriscámos transmitir esta história também aos mais novos. O T.A.P. mergulhou no mundo de Hamlet e, com um carácter de disponibilidade e abertura, pretende transmitir uma das mais notáveis peças da história do teatro.
concepção do espectáculo
Nuno Pino Custódio

O convite que me foi feito pelo Teatro Amador de Pombal (TAP) continha mais do que uma mera proposta de encomenda para a criação de um espectáculo. Vivendo eu desta profissão e sendo portador de uma experiência específica na minha actividade, o investimento do grupo passaria verticalmente pela vertente da formação. Na verdade, esta deveria ser a principal premissa não apenas de todas as companhias de teatro amadoras ou profissionais mas do próprio amor: a troca, a partilha de experiências e saberes, a dádiva, o encontro.
Assim, para além da transmissão de conhecimento na área da Técnica da Máscara, uma formação que quis presente em todos os ensaios, fiz questão de apenas assumir uma direcção artística ou, se preferirmos, uma coordenação de todas as práticas e tarefas que estão por detrás de um espectáculo de teatro.
É, então, com orgulho que digo que foi este grupo que criou, na íntegra, com entrega mais que saudável, todo o trabalho. Desde a análise do texto, à construção das improvisações e das personagens, desde as máscaras e adereços aos figurinos, desde a banda sonora ao desenho de luz, passando inevitavelmente pela configuração e estrutura do próprio espectáculo em si. Todo o meu trabalho consistiu em aceitar/rejeitar, desenvolver, re-desenhar ou apurar as sugestões que me eram dadas, aproveitando o ângulo “do lugar do saber”, ou seja, da perspectiva geográfica que melhor pode observar a criação no seu todo: o lugar do público!
Noutra perspectiva, o cariz deste ensaio.HAMLET também não perdeu de vista essa vertente de formação e desenvolvimento da actividade do actor. Por um lado, trabalhámos em cima do ´difícil´, ou seja, levantar um dos textos mais representados de todos os tempos, mais conhecido e crivado de versões e interpretações, seja nas artes ditas do espectáculo, seja ainda na escultura, pintura, literatura. Repetir uma história deverá ser sempre um exercício de originalidade e, não a querendo gratuita, tal não costuma acontecer de um dia para o outro. Por outro lado, trabalhámos em cima do ´novo´, retirando do objecto de trabalho aquilo que ele tem de melhor: o texto. Como fazer a partir desta premissa? Como transpor os novos obstáculos? Como contar visualmente uma história que outrora se contava pelos caracteres inscritos no papel?
Todos estes motivos bastam para falarmos numa experiência muito gratificante. Queremos agora que ela passe para o público, com o mesmo gosto e prazer com que foi feito. Basta isto (e quem sabe apenas só isto) para o teatro continuar tão ligado à vida quanto a existência daqueles que o fazem e daqueles que o percepcionam no público.
ficha técnica
Encenação de Nuno Pino Custódio
Figurinos de Elsa Silva
Elenco Catarina Ribeiro, Joana Aguiar, João Alegrete, Luis Catarro, Tiago Poiares e Rita Leitão
Desenho de luz de Filipe Eusébio
Sonoplastia de Humberto Pinto
Fotografia de Gustavo Medeiros
Design gráfico de Pedro Baptista
de Gustavo Medeiros