Os enigmas da levitação
Sylvio Ourique Fragoso

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Parte I

Parece evidente que a constatação de um fato precede qualquer tentativa de reproduzi-lo. Antes de se pensar em construir um espelho, por exemplo, foi preciso observar que uma imagem pode ser refletida por uma superfície lisa e polida, como um metal, ou pelas águas serenas de um lago. Qual o caçador que imaginaria construir um "pio", se alguém não houvesse notado, primeiro, que as aves são atraídas pela voz dos de sua espécie? Os exemplos poderiam ser muitas vezes multiplicados, mas cremos não haver necessidade. O que queremos dizer é que buscar uma explicação para a fenomenologia dita paranormal através apenas da acusação de fraude é, de todos os argumentos dos incrédulos, o mais frágil. Claro que fraudadores existiram, existem e existirão por muito tempo ainda. Mas cumpre não esquecer que antes de se tentar imitar um fenômeno, qualquer que ele seja, há que se ter observado primeiro, em algum lugar, em alguma época, uma ocorrência espontânea e autêntica daquilo que se quer copiar. Um mágico não iria se ocupar em meter ganchos por dentro de suas mangas e com eles fazer uma mesinha suspender-se do chão, se não tivesse tido a notícia de que, em alguma parte, as mesas eram movidas sem contato aparente.

Como imaginar que as irmãs Fox, duas crianças educadas dentro dos rígidos preceitos da religião metodista, fossem conceber o método fatigante de estalar suas juntas (como pretenderam alguns) para simular os "raps" através dos quais os Espíritos se comunicariam com elas, no famoso caso de Hydesville, se nunca haviam ouvido falar dessas coisas? Claro que, depois que um fato de tal natureza ocorre, surgem sempre aqueles que se propõem imitá-lo, seja por interesse em negar a autenticidade da ocorrência, seja para obter prestígio, fazendo-se passar por médium, desde que, é claro, seus honorários restem devidamente garantidos. Os irmãos Davenport, que davam espetáculos teatrais simulando materializações e que chegaram a pretender, num rasgo de ousadia, que Kardec lhes desse seu aval, não teriam tido a idéia de tais simulações sem a notícia de que fenômenos assim ocorriam aqui e ali. E o famoso mágico Houdini, não lançou um desafio, dizendo-se capaz de reproduzir todo e qualquer fenômeno mediúnico? Só que, primeiro, ele esperava pelas notícias de um fenômeno autêntico, para depois imaginar um jeito de imitá-lo. E, de fato, imaginação e talento não lhe faltavam. Mas deu-se mal, ao fim de tudo, pois nunca foi capaz de sair flutuando para fora da janela de um prédio, como o médium Dunglas Home, nem pôde nunca meter a cabeça entre as brasas de uma lareira, como esse mesmo sensitivo.

De qualquer forma, parece evidente que a constatação de um fato precede toda e qualquer tentativa de reproduzi-lo. São as artes mágicas que imitam os fenômenos psíquicos, e nem poderia ser diferente.

***

A suspensão de um corpo no ar, sem nenhuma forma aparente de apoio, nem de propulsão ou de atração, não é, talvez, mais estranhável e intrigante que a transmissão do pensamento. Mas não deixa de ser muito mais espantoso, quem sabe por ferir sentidos físicos mais confiáveis, ao menos para a maioria das pessoas. E no entanto, dentre os fenômenos chamados paranormais, é dos mais antigos registrados nos anais da história. Já no livro de Daniel, vemos Habacuc ser levado pelos ares por um anjo, que o agarrava pelos cabelos (15,35). Claro que neste caso, na hipótese de que seja verdadeiro, não teria havido uma verdadeira levitação, já que era o anjo que arrastava o profeta e, diga-se de passagem, de maneira nada confortável e nada condizente com a compostura angelical. Mas Simão, o Mago, conforme narra Sulpício Severo, elevou-se no ar diante de Nero (portanto entre os anos de 54 e 68 de nossa era). Mas o apóstolo Pedro fez o sinal-da-cruz nesse instante e o pobre Simão despencou lá de cima, fraturando a perna.

O mesmo Sulpício Severo também fala de um possesso cujo corpo subiu aos ares ante a aproximação das relíquias de São Martinho.

Consta que Juliano, o Apóstata, ao ser iniciado nos Mistérios de Diana, em Éfeso, teve seu corpo levitado junto com o de seu iniciador.

Albert Rochas transcreve, em sua obra sobre levitação, uma interessante narrativa de um missionário cujo nome, infelizmente, não revela. Ocorreu que esse missionário, ao pretender batizar um indígena, viu-o ser transportado pelo espaço para outro lugar que não a igreja para onde se dirigiam. E o religioso prestou o valioso informe de que esses fatos não são raros nos países idólatras.

Vê-se, portanto, que o fenômeno vem sendo constatado há muito tempo, por várias pessoas, em diferentes lugares.

Mas, com qual força o corpo de uma pessoa se desloca no ar ao ocorrer um fenômeno do levitação? Em alguns casos, pelo menos, parece que essa força é muito grande. O beneditino La Faste, testemunha dos famosos fenômenos ocorridos em Saint-Médard, fala de uma jovem chamada Thévenet, que se elevava a uma altura de mais de dois metros e que nessas ascensões chegou a arrastar consigo duas pessoas que tentavam segurá-la. Lombroso menciona uma possessa de Vervins, Nicoleta Aubry, que teve seu corpo levitado na catedral de Laon, não obstante o esforço de seis homens que buscavam mantê-la no chão.

A força arrebatadora da levitação provoca, às vezes, episódios engraçados (ao menos para quem não participou das ocorrências). São Pedro de Alcântara estava uma vez em seu convento quando ouviu, no jardim, um frade que cantava um hino religioso. Pedro foi tomado de tal arroubo que teve seu corpo levitado e projetado como uma flecha para dentro do mosteiro, transpondo portas estreitas, voando por corredores sombrios, enquanto os demais religiosos, assustadíssimos, corriam em seu encalço, só conseguindo alcançá-lo quando terminou seu vôo, junto ao altar-mor.

Santa Tereza Dávila, para evitar suas levitações, que muito a preocupavam quando ocorriam em público, era obrigada, por vezes, a se agarrar nas grades diante das quais se ajoelhava para receber a comunhão. Já Maria de Agreda, quando flutuava no ar, dava a impressão de ter o corpo tão leve que o mais débil sopro o fazia oscilar como uma pluma.

O fenômeno da levitação parece ter sido muito freqüente entre os místicos que vieram a ser considerados santos pela Igreja. Entre outros, podemos citar São Domingos, São Boaventura, São Tomás de Aquino, Santo Alberto, São Vicente Ferrer, São Francisco de Paula, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loiola, São Luiz Bertrand, São José Cupertino, Santa Catarina de Siena, Santo Estevão da Hungria, Santa Bernadete, São Luiz Gonzaga, São João da Cruz e tantos mais.

A Igreja só vê duas explicações possíveis para o fenômeno: intercessão de Deus em uns casos, e do demônio em outros. No Dicionário Prático que acompanha a Bíblia publicada pela Enciclopédia Barsa, vem escrito: Ainda não se conhece uma explicação satisfatória para este fenômeno. Ao que parece, só Deus pode ser o autor da levitação espiritual. Se o dicionarista não conhece nenhuma explicação satisfatória para a levitação, não se compreende porque lhe "parece" que só Deus pode efetuá-la, como também não se entende a razão do adjetivo espiritual, com que rotula um fenômeno de elevação de um corpo. Contudo, no Ritual dos Exorcismos, onde estão enumerados os sinais que comprovam a possessão demoníaca, está prevista a suspensão aérea do corpo do possesso, durante um tempo considerável. E no Malleus Maleficarum, obra escrita em 1486 por encomenda do papa Inocêncio VIII, a levitação por artes do demônio é um fato inconteste. Nesse livro podemos ler coisas como estas: Não levou o diabo ao Nosso Salvador e o transportou a um lugar alto, conforme testemunha o Evangelho? (...) E aqueles magos que geralmente chamamos necromantes e que freqüentemente são transportados por ar pelos diabos, através de longas distâncias?

Para essa obra, que tanta importância teve nos tempos da Inquisição, era o seguinte o método usado pelas bruxas para seu transporte aéreo:

Tomam elas do ungüento que (...) preparam instruídas pelo diabo com membros de crianças, particularmente aquelas que mataram antes do batismo, e untam com ele uma cadeira ou uma vassoura, sobre a qual são imediatamente transportadas pelo ar (...) E apesar de o diabo, na maioria das vezes, realizar isso por meio desse ungüento (...) freqüentemente ele parece também efetuar o mesmo transporte dispensando o seu uso.

E dizer que o Malleus Maleficarum teve não só todas as aprovações eclesiásticas, mas também o endosso da Universidade de Colônia!

Mas ante de buscarmos teorias que expliquem melhor a levitação, permita o leitor que abusemos um pouco mais de seu tempo, dando uma olhada em alguns outros casos curiosos que, ao menos neste campo, põem em pé de igualdade santos, médiuns e possessos.

fevereiro/1987

Parte II

Havíamos ficado de ver mais alguns casos de levitação, dentre tantos registrados ao longo da história. É o que faremos.

Geralmente imagina-se que a suspensão de um corpo no ar seja um fenômeno de curta duração, a ocorrer esporádica e fugazmente no escuro de uma sessão mediúnica de efeitos físicos. No entanto, em 1555, o bispo Tomaz, de Valença, esteve levitando por nada menos que doze horas. E Pedro Clavet, o chamado apóstolo dos negros, passou uma noite toda flutuando, enquanto sustinha um crucifixo nas mãos.

Mas, entre os levitadores, nenhum parece rivalizar com São José Cupertino. Consta que este piedoso homem era tão pouco brilhante em matéria de inteligência que os capuchinhos, a cuja ordem pertencia, não o aceitaram nem para os serviços da cozinha. No entanto, tinha ele por vezes intuições das coisas espirituais tão notáveis, que diversos membros de sua congregação afirmaram o muito que aprenderam com ele. Mas a pouca inteligência não foi a única razão de ter sido aquele monge barrado em tantas oportunidades. Suas levitações, repetidas ao longo de 35 anos, eram tão freqüentes que seus superiores resolveram proibi-lo de freqüentar o coro, as coletas e até mesmo o refeitório, no mesmo horário que os demais religiosos.

Contudo, embora muito comum entre os santos da Igreja, a levitação, como já vimos, está longe de ser um privilégio da santidade. Delacour fala de um rapaz de 19 anos, tido como possesso, que durante um ritual de exorcismo foi transportado até o teto de uma igreja, onde permaneceu por mais de meia hora, só descendo quando o sacerdote pediu ao "demônio" que o trouxesse de volta, o que foi feito com toda a suavidade.

Na vida de Santa Genoveva consta a levitação simultânea efetuada por doze homens.

A obra Malleus Maleficarum, que já tivemos oportunidade de mencionar, faz algumas referências curiosas sobre os casos de levitação, atribuídos, naturalmente, à ação do demônio. Uma dessas histórias fala de um sacerdote da diocese de Freising o qual, antes de abraçar a vida religiosa, estava com um grupo de amigos, todos desejosos de tomar umas cervejas. Combinaram, então, que quem fosse buscar as bebidas nada pagaria. Um deles, que se dispôs a buscá-las, assim que abriu a porta viu uma densa nuvem diante dela e voltou assustadíssimo. Então, esse que depois foi ser padre, disse, bravateando: - Mesmo que o diabo ali esteja, eu pego essa bebida! E foi mesmo, mas ao descerrar a porta, foi arrebatado e subiu pelos ares, à vista de todos.

Ainda nessa obra há menção a uma bruxa, moradora em Waldshut, às margens do Reno, que foi levitada em pleno dia, à vista de alguns pastores, sendo depositada pelo "diabo" no alto de uma montanha, de onde provocou uma chuva de granizo com a qual pretendeu atrapalhar uma festa de casamento, pelo único motivo de não haver sido convidada. Isto, que soa tão ao gosto dos velhos contos de fadas, difere deles pela dramaticidade de seu desfecho: a pobre mulher foi presa, torturada e queimada em uma fogueira.

Mas deixemos de lado estes casos mais antigos e vejamos, no campo do Espiritismo, o que ocorre a respeito. Será também freqüente a levitação entre os médiuns espíritas?

O célebre físico-químico William Crookes foi um, dentre tantos pesquisadores de reputação insuspeita, que constatou esses fenômenos, os quais considerava tão perfeitamente demonstrados como fatos da eletricidade. Sobre tais ocorrências escreveu o sábio inglês:

Rejeitar a evidência dessas manifestações equivale a rejeitar todo o testemunho humano, qualquer que seja, pois que não há fato (...) que se apoie sobre provas mais decisivas.

A respeito das levitações do médium Dunglas Home (aquele mesmo cujos feitos o mágico Houdini não conseguiu imitar, não obstante a isso se propusesse). disse Crookes: Há, pelo menos, cem casos bem verificados de elevação do Sr. Home.

E assim é, de fato. Wason, por exemplo, junto com mais sete pessoas testemunhou quando Home atravessou, flutuando no ar, a mesa ao redor da qual todos estavam sentados, passando por cima de suas cabeças.

Mas o fenômeno de levitação mais famoso efetuado por Home ocorreu em dezembro de 1868, na presença de várias testemunhas. Estando sentado em uma cadeira, em estado de transe, Home levitou e, com o corpo rígido e em posição horizontal, saiu por uma janela e permaneceu flutuando no ar, fora do prédio, a uma altura de cerca de vinte metros. Depois de assim permanecer por algum tempo, tornou a entrar no edifício por outra janela, sendo depositado suavemente em uma cadeira. A distância entre as duas janelas era de pouco mais de dois metros.

Outra médium famosa que também produziu levitações, tanto de objetos como de seu próprio corpo, foi Eusápia Paladino. Certa vez, em Nápolis, ela permaneceu com o corpo absolutamente rígido, flutuando horizontalmente, apenas com a nuca apoiada à borda de uma mesa.

Com esta médium foram feitos rigorosos experimentos, cujos relatos vêm assinados, entre outras personalidades, por pesquisadores psíquicos eméritos como Aksakof, Conselheiro de Estado do Imperador da Rússia, Schiaparelli, diretos do Observatório Astronômico de Milão, Carl Du Prel, doutor em Filosofia, Ermácara, doutor em Física, Charles Richet, prêmio Nobel em Fisiologia, e Lombroso, professor de Medicina Legal. (Quando mais o Espiritismo vai contar com pesquisadores deste gabarito, sabendo-se que ainda há tanto por pesquisar?) Pois bem. Na presença dessa equipe a médium Eusápia, colocada sobre uma balança, teve seu peso alterado de 52 quilos para 42, assim permanecendo por um bom tempo (o que exclui a possibilidade de uma variação do peso indicado em decorrência de um movimento do corpo sobre o estrado da balança). A seguir, a pedido dos pesquisadores, o peso da médium aumentou para 62 quilos.

Em outro experimento, Eusápia, sentada em uma cadeira e segura pelos experimentadores, levitou com cadeira e tudo e foi depositada em cima da mesa.

No Brasil, o médium Mirabelli também realizou levitações completas do próprio corpo, havendo, inclusive, uma fotografia famosa que o mostra, de braços abertos, pairando no ar quase à altura do forro da sala.

O nosso amigo Ranieri (que continua a nos dever a todos a sua Teoria e Técnica das Materializações, há tanto prometida - e aqui vai de público este puxão de orelhas) narra em Forças Libertadoras (edit. Eco) este caso interessante, que resumiremos. O local, Águas da Prata. O ano, 1953. O Ranieri estava lá, como delegado de polícia. Certa manhã chamam-no para atender a um cidadão que "enlouquecera". Era um lavrador, que residia em uma fazenda. Casa pobre, chão de terra. O delegado encontrou-o sentado em um banco e resolveu, antes de mais nada, aplicar-lhe um passe. Mal começara e o lavrador "foi levantado no ar e projetado vertiginosamente em sentido horizontal através das duas portas, percorrendo como um foguete o espaço dos dois cômodos, passando como uma bala na frente do sargento, indo cair no terreiro, no meio da caboclada estupefata". Mas a coisa não parou aí. Quando Ranieri correu para acudir o matuto, foi recebido por uma gargalhada e a pergunta:

- Como é doutor, não está me conhecendo? Em resumo: tratava-se de um pobre infeliz, diversas vezes preso por embriaguez, e que agora alegava ter "morrido" em meio ao capim, junto à estrada de ferro. Sua intenção, ao assediar o caboclo que lhe servia de médium era, exatamente, chamar a atenção do delegado, dizia. Feitas as diligências, o corpo foi achado no local referido.

Como se vê, se a levitação for um fenômeno devido à atuação de Espíritos desencarnados, estes não precisam ter conhecimento de como o fato ocorre, tecnicamente, para que possam produzi-lo, o que, aliás, já era do conhecimento de Kardec. No O Livro dos Médiuns, capítulo IV, lemos que (...) alguns Espíritos são tão pouco adiantados e de tal modo materiais (...) que (...) não percebem a verdadeira causa dos efeitos que produzem, como o camponês não se dá conta da teoria dos sons que articula. Pergunte-lhes como tocam o piano, responderão que batem nas teclas com os dedos, porque julgam bater; o efeito se produz instintivamente neles sem que saibam como e, contudo, por sua vontade.

Os exemplos de casos de levitação poderiam ser lembrados à farta. Mas é tempo de verificarmos as possíveis explicações para este fenômeno tão curioso, tão assombroso e de tão longa data observado.

março/1987

Parte III

O leitor, que com tanta paciência tentou vencer o sono, cabeceando ante nossos escritos, deve estar lembrado que, após mostrarmos alguns fenômenos curiosos de levitação, ficamos de dar uma olhada nas teorias que buscam explicar a estranha ocorrência de um corpo humano pairando no ar, numa aparente revogação da lei da gravidade, tão familiar até mesmo aos que lhe desconhecem o princípio.

Mas, antes de mais nada, é bom lembrarmos que o peso de um corpo não é sua propriedade. Um corpo qualquer, pelo menos aqui em nosso mundinho, possui três dimensões (altura, largura e profundidade). Além disso, os corpos possuem massa, que é a sua capacidade para resistir a um movimento. A concentração da massa vai determinar a densidade do corpo e, em conseqüência, o seu peso. Mas o peso não é uma propriedade dos corpos, pois que só existe quando esses corpos, quaisquer que sejam, se encontrem na proximidade de outro, que os atraia. Assim é que um mesmo corpo vai ter um peso quando na Terra, um outro se for levado até a Lua, e um terceiro, se for depositado em Júpiter. O peso, portanto, como bem enunciou Du Prel, é apenas a relação entre dois corpos e não a propriedade de um deles. Isto posto, vejamos algumas teorias que tentam explicar a levitação.

Segundo Rochas, os ocultistas a explicam dizendo que o corpo astral, ao se desprender do corpo físico, carrega-o consigo, tal como um pára-quedas, batido pelo vento, faria com o pára-quedista. Não nos parece válida esta explicação, pois se o fosse, quase todo mundo, ao adormecer, ficaria flutuando pelo quarto. A menos que o desprendimento ocorrido durante um estado de transe difira fundamentalmente do que advém quando os sentidos físicos se entorpecem.

Jacolliot, observando as levitações de um faquir, perguntou-lhe como elas se produziam e obteve, por resposta, que havia necessidade, para tal, de um estado contemplativo e do concurso de um Espírito superior, que descesse do céu. Está aí uma explicação que nada explica. Qual a função do estado contemplativo? Induzir o transe, promover o intercâmbio mediúnico, facilitar o desprendimento? E o Espírito que "desce do céu", faz o quê? Agarra o faquir pelos cabelos, como diz a Bíblia que fez um anjo com Habacuc?

A maioria dos médiuns, como Dunglas Home e Eusápia Paladino, admitiram a necessidade da atuação dos Espíritos para que levitassem, embora não soubessem dizer em quê, exatamente, consistia essa interferência, ou como poderia ela ocorrer.

Crawford explica a levitação de objetos pela teoria da alavanca psíquica. O médium, segundo essa teoria, expele de si um pseudópode ectoplasmático, isto é, uma porção de ectoplasma, em forma de barra (pseudópode quer dizer falso pé, falso membro) que, deixando a organização mediúnica, vai colher, com sua extremidade livre, o objeto a ser levitado, soerguendo-o. Uma prova que esta explicação é válida reside no fato de que, durante a levitação de um objeto qualquer, o peso do médium fica aumentado do peso desse objeto. Por exemplo: se o médium pesar 60 quilos e fizer levitar uma cadeira que pese, digamos, seis quilos, enquanto durar a levitação ele estará pesando 66 quilos. Além disso, a alavanca psíquica foi por diversas vezes fotografada. Mas Bozzano, em Pensamento e Vontade (F.E.B.), contesta a explicação de Crawford, lembrando que o ectoplasma, por ser profundamente influenciável pelo pensamento, ainda que inconscientemente formulado, como ocorre nos fenômenos de ideoplastia, talvez estivesse apenas se amoldando ao que Crawford esperava que ocorresse. É assunto para se discutir. Mas, a estar certa a teoria de Crawford, na levitação do corpo do médium este liberaria uma porção de ectoplasma que, apoiando-se no chão, rigidamente, levantaria o médium, fazendo as funções da vara com que os desportistas saltam obstáculos.

Mas as teorias não param por aí. Fugairon, doutor em Ciências e em Medicina, tem outra explicação, talvez um pouquinho mais complicada. Diz ele:

São conhecidos os movimentos devidos ao fluxo de eletricidade pelas pontas (...) se fixarmos o instrumento sobre o condutor de uma máquina elétrica, vemo-lo girar em sentido contrário ao fluxo da eletricidade. Explica-se esse movimento pela repulsão que se exerce entre o ar eletrizado e a própria ponta, repulsão que expele o ar de uma parte e de outra faz retroceder a ponta.

Seguindo esta linha de raciocínio, Fugairon admite que uma pessoa perelectrógena, estando em pé sobre um assoalho mau condutor de eletricidade e produzindo um fluxo intenso de "fluido elétrico", possa se elevar do solo. É, também, discutível esta explicação, pois que exige um assoalho mau condutor de eletricidade, quando é sabido que as levitações ocorrem tanto no interior de igrejas quanto na sala de visitas de uma residência ou na terra úmida de uma floresta equatorial. E será que a força de repulsão admitida por Fugairon chegaria a ser tão forte a ponto de arrastar consigo seis homens que tentem impedir o vôo do sensitivo, como aconteceu com Nicoleta Aubry? De qualquer forma, esta teoria parece encontrar algum apoio nos comentários do médium Home, de Santa Tereza e dos convulsionários de Saint-Médard, pois todos eles mencionavam uma espécie de formigamento nos pés, no momento em que levitavam. Mas é claro que essa sensação pode ser devida a muitas outras causas.

Segundo Alfred Erny, em O Psiquismo Experimental, os iogues explicam a levitação pela diferença nas polaridades elétricas ou magnéticas entre o corpo humano e a Terra. Estes iogues, ao contrário dos de Jacolliot, não mencionam nenhum Espírito vindo do céu.

Os Espíritos deram a Kardec as linhas gerais do fenômeno. À pergunta de como poderia um Espírito executar o movimento de um corpo sólido, o Codificador obteve a seguinte resposta:

(O Espírito) combina uma parte do fluido universal com o fluido que o médium solta, próprio para este efeito.

E mais adiante:

Quando uma mesa se move sob suas mãos, o Espírito evocado vai tirar do fluido universal o que anima a mesa com uma vida artificial. A mesa assim preparada, o Espírito a atrai e move sob influência de seu próprio fluido irradiado por sua própria vontade.

Dessas explicações Kardec concluiu que se os Espíritos podem erguer uma cadeira, podem igualmente erguê-la se houver uma pessoa sentada em cima. E o Espírito Erasto complementa as informações precedentes dizendo que a massa dos fluidos combinados é proporcional à massa dos objetos.

O leitor já se lembrou que tudo isto consta do O Livro dos Médiuns. Mas, retomando o assunto em A Gênese, Kardec pondera:

Quando a mesa se desprende do solo e flutua no espaço, sem ponto de apoio, o Espírito não a ergue com um braço, mas sim, a envolve e penetra com uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravitação, como o faz o ar nos balões e papagaios. O fluido do qual ela é penetrada lhe dá momentaneamente maior leveza específica (...) Depois disso, compreende-se que não é mais difícil a um Espírito erguer uma pessoa, do que erguer uma mesa.

Temos, então, confirmado pelos Espíritos superiores e por Kardec, que o fenômeno da levitação é, de fato, mediúnico e não anímico, isto é, ele exige o concurso de entidades desencarnadas para ocorrer. Mas é claro que esses Espíritos não têm, necessariamente, que conhecer em profundidade o fenômeno que operam, tal qual um motorista pode pôr o carro em movimento sem saber nem ao menos como vai agir a gasolina.

Mas os Espíritos, dissemos, deram à Kardec apenas as linhas gerais do fenômeno. Não era lícito esperar que fizessem mais, deixando-nos na condição de maus estudantes, cujos pais lhes preparam os deveres escolares. O caminho foi-nos apontado. Mas nós teremos que percorrê-lo. Por isso não concordamos quando alguém diz que a época dos fenômenos de efeitos físicos já passou. A época da vulgarização, por assim dizer, desses fenômenos, sim, já passou. Porque aí o objetivo era chamar a atenção das pessoas para uma realidade que teimavam em desconhecer. Mas a época da pesquisa científica, essa não passará nunca. Por exemplo, com Eusápia Paladino observou-se que, após o transe que lhe facultava a ocorrência dos fenômenos que a celebrizaram, sua urina apresentava uma diminuição de 20% de açúcar e um aumento de até 2% de albumina. O azoto, de 9,53, passava para 11,28 e a sua condutibilidade elétrica crescia de 150,10 para 177,10. Por que tudo isso ocorria? Há, obviamente, um correlacionamento entre todas estas coisas que estamos longe de conhecer perfeitamente, a demandar o concurso de metapsiquistas, psicólogos, fisiologistas, químicos, físicos e tantos mais especialistas, a trabalhar em conjunto.

Alguém pensará que nada disto importa para o aprimoramento moral do homem, com o que concordamos. Mas é bom não esquecermos que a evolução tem que se dar em todos os sentidos. Claro que o principal objetivo do Espiritismo é promover a reforma interior das pessoas. Ninguém seria estulto o bastante para achar que fora da pesquisa científica não há salvação. Mas o Espiritismo tem um tríplice aspecto, e qualquer um deles que se enfraqueça poderá comprometer a estrutura do edifício. As conseqüências religiosas da Doutrina Espírita devem ser um produto da razão e esta só estará satisfeita se palmilharmos a estrada da Filosofia e da Ciência. O que não podemos é, a título de religiosidade, transformar o Espiritismo em uma doutrina de choramingas autocomiserativos, a bater no peito o mea culpa. Foi o próprio André Luiz que disse, sobre o futuro dos fenômenos de efeitos físicos (Mecanismos da Mediunidade - F.E.B.):

A nós, Espíritos desencarnados, interessa, no plano extra-físico, mais ampla sublimação, para que façamos ajustamento de determinados princípios mentais, com respeito à execução de tarefas específicas. E aos encarnados interessa a existência em plano moral mais alto para que definam, com exatidão e propriedade, a substância ectoplasmática, analisando-lhe os componentes e protegendo-lhe as manifestações, DE MODO A OFERECEREM ÀS INTELIGÊNCIAS SUPERIORES MAIS SEGUROS CABEDAIS DE TRABALHO. (destaque nosso).

O fenômeno de efeitos físicos, claro está, não deve ser buscado para entretenimento de ociosos, para servir de combustível a uma curiosidade improdutiva e nem para se prestar de alicerce a uma fé tíbia e manquitola. Mas a verdade é que o homem sabe mais sobre a constituição de uma estrela que está a centenas de anos-luz de distância, do que sobre si mesmo. Aprendemos cada vez mais sobre os anéis de Saturno e não sabemos ainda de que é composto, exatamente, o ectoplasma que expelimos, de cuja existência, aliás, a maioria nem suspeita. E se nós, espíritas, não nos dedicarmos à pesquisa séria, quem irá fazê-lo? Quem estamos esperando que saia a campo para, através da prova científica, despertar consciências modorrentas para as realidades maiores da existência? Os cientistas que empregam seu tempo no aprimoramento de bombas-atômicas? Os que se ocupam em descobrir pílulas abortivas? Os que usam a pesquisa psíquica para, numa distorção infamante da realidade, ver resguardados os dogmas bolorentos de uma instituição agonizante?

Quem?

Além das obras nomeadas no texto, foram consultadas as seguintes:

Crawford, W. J. - Mecânica Psíquica - LAKE.

Crookes, W. - Fatos Espíritas - F.E.B.

Doyle, A. C. - História do Espiritismo - Edit. O Pensamento.

Lombroso, C. - Hipnotismo e Espiritismo - LAKE.

Rochas, A. - A Levitação - F.E.B.

abril/1987

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