História


Engenho do Murutucu no século XIX, fotografado por Felipe Augusto Fidanza. Fonte: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/TH_christina/icon827023.jpg

Engenho do Murutucu em 1860, fotografado por Felipe Augusto Fidanza.
Fonte: http://goo.gl/E84hbB






O ENGENHO DO MURUTUCU: UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE BELÉM

Luciana Cristina de Oliveira Azulai

Museologia/Universidade Federal do Pará

 

O Engenho do Murutucu foi um dos mais prósperos engenhos de açúcar surgido no século XVII na região Amazônica. A palavra murutucu é uma corruptela do canto da ave coruja, “murtucu”. A informação escrita mais antiga que se conhece sobre o Engenho do Murutucu data de 1711, quando foi construída a primeira capela pelos padres carmelitas, porém, análises recentes do material encontrado na escavação de 2014 apontam que o sítio possa datar de até 1610. Documentos históricos afirmam que o Engenho foi fundado por João Manuel Rodrigues, localizando-se em terras pertencentes à sua esposa Maria Rodrigues Martins. Em 1780, quem passa a administrá-lo é o herdeiro João Antônio Rodrigues Martins, de forma similar à dos grandes proprietários de terra da região Nordeste do País.

 Em 1766 o Engenho do Murutucu tornou-se propriedade do arquiteto italiano Antônio José Landi, referência histórica e arquitetônica da cidade de Belém e também em âmbito internacional. Ele foi o responsável pela construção do Palácio do Governo do Estado do Pará, Igrejas do Carmo, Mercês, Santana e Rosário. Landi foi responsável também pela restauração da Capela de Nossa Senhora da Conceição já existente, dando-a elementos do neoclassicismo.

No ano de 1835 o Engenho Murutucu esteve relacionado ao Movimento da Cabanagem (1835-1840), quando o local temporariamente foi utilizado como um acampamento das tropas de revoltosos liderados por Vinagre , Angelim e Gavião, que eram os comandantes da revolução. Em 14 de agosto de 1835, a partir de uma caminhada no terreno do engenho do murutucu, iniciou-se a segunda invasão de Belém pelas forças cabanas. No decorrer dos acontecimentos cabanos o engenho provavelmente estava abandonado, sendo por esse motivo requisitado pelo cabano João Antônio Sete para servir de moradia para seus familiares.

Em 1841, o engenho foi comprado por Henrique Antônio Strauss, e constam entre os bens na escritura de venda: uma casa de vivenda, uma casa de engenho, uma senzala, uma roda d’água, moendas de ferro, balança e pertences da capela. O engenho entrou em ruína em 1850, deixando de exercer função.

O Engenho do Murutucu tornou-se monumento histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional- IPHAN em 08 de outubro de 1981. Atualmente, é propriedade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA. O Sítio também passou por pesquisas arqueológicas, sendo realizadas três sequências de escavações nas áreas da capela e da casa grande nos anos de 1986, 1996-1997 e 2000. O material coletado nessas escavações encontra-se no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), no laboratório de análises da área de Arqueologia Histórica. Dentre esse material, encontram-se: louças (faianças simples, faiança fina, grés e porcelana); vidros (de garrafas principalmente); metal (de construção, de armaria); e cerâmicas (vasilhas, vasos).

A partir deste breve histórico, destaca-se o Projeto Sítio-Escola Engenho do Murutucu: UmaArqueologia dos Subalternos coordenado pelo Prof. Dr. Diogo M. Costa do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Pará – PPGA/IFCH/UFPA, apoiado pelo Grupo de Arqueologia Histórica Amazônida - GAHiA e contando com a participação de uma equipe interdisciplinar, dentre bolsistas (graduandos em Museologia e História), voluntários, mestrandos e doutorandos do PPGA/UFPA. Dentre as suas atividades, o projeto realizou uma nova escavação no sítio, desta vez na área correspondente à senzala, em julho de 2014, à qual pretende dar sequência em julho de 2015. O intuito do projeto é não só de pesquisa arqueológica, mas também de divulgação do que vem a ser a Arqueologia e o trabalho do arqueólogo, mostrando a importância do Patrimônio que é o Engenho do Murutucu.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AZULAI, Luciana Cristina de Oliveira. Arqueologia e Museologia: Pensando os Processos Museológicos do Sítio Histórico do Engenho do Murutucu. Relatório de Bolsa FAPESPA - UFPa, 2014.

COSTA, Diogo M. Arqueologia dos Subalternos no Engenho do Murutucu. Projeto de Pesquisa PROPESP- UFPA, 2013.

CRUZ, E. As Ruínas do Engenho do Murutucu: uma bela paisagem da nossa história colonial. Artigo escrito para o jornal “A Província do Pará”, publicado em 15 de fevereiro de 1948. Arquivo da EMBRAPA.

MARQUES, F.L.T. (2004). Modelo da Agroindústria Canavieira Colonial no Estuário Amazônico: Estudo Arqueológico de Engenhos dos Séculos XVIII e XIX. PUCRS, Porto Alegre.

MELLO JUNIOR, D. (1973). Antonio José Landi - Arquiteto de Belém. Belém: Governo do Estado do Pará.

MELO, M.d.S.e. (2007). Geofísica Aplicada à Arqueologia: Investigação no Sítio Histórico Engenho Murutucu, em Belém, Pará. UFPA, Belém.

MOREIRA, N.S.L. (2010). Cidadania e gestão de preservação do patrimônio histórico público sociocultural: o caso do engenho do murutucu em Belém do Pará. Unama, Belém.

RUÍNAS DO MURUTUCU. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária- EMBRAPA, tópico úmido- CPATU, 1988.

WATRIN, Orlando dos Santos & HOMMA, Alfredo Kingo Oyama. Evolução do Uso da terra do Engenho Murutucu: história, geografia e ecologia. Belém, PA: Embrapa Amazônia Oriental, 2007.