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Escritor recomenda romances clássicos aos novos leitores

por Moacyr Scliar

Acontece da maneira mais inesperada. Você está num bar, conversando com amigos, um jantar com familiares, no vestiário do clube, e de repente pessoas começam a falar sobre os livros que já leram. E aí você se dá conta de que é como se morasse em um outro planeta: você não sabe absolutamente nada do que eles estão falando. Isso, é lógico, lhe deixa muito chateado. Você, como milhões ou bilhões de outros, criou-se acreditando que a palavra escrita é coisa fundamental. E, de fato, é. Para começar, muitas religiões têm em livros sagrados o seu referencial mais importante: a Torá para o judaísmo, o Novo Testamento para o cristianismo, o Corão para o islamismo. O livro sagrado é, para seus leitores, uma fonte de inspiração, um guia ético.

Mas a gente lê também por outras razões. Sobretudo quando se trata de ficção. Lemos porque gostamos de histórias: é algo embutido em nosso genoma. Todo pai ou toda mãe sabe que as crianças protestam quando, à noite, são mandadas para a cama; e todo pai ou toda mãe sabe que há uma maneira irresistível de convencer o filho ou a filha a fazê-lo: contando ou lendo uma história.

Ouvir histórias ajuda a criança a vencer a ansiedade inevitável que surge quando ela abandona o convívio da família e penetra no misterioso mundo dos sonhos (ou dos pesadelos). É a mesma ansiedade que explica também a origem dos mitos, aquelas narrativas fantasiosas que, nas culturas ditas primitivas, procuravam dar conta dos porquês dos fenômenos da natureza, do surgimento do universo. Uma ansiedade que  explica ainda as lendas que passam de geração em geração e que serviram de base para as grandes obras. É delas, as grandes obras, que queremos falar.

Mas, por onde devemos começar?

 O melhor é começar... do começo. Isto é, dos clássicos.

Entre os grandes clássicos da literatura universal, é imprescindível citar Odisséia, de  Homero, poeta grego sobre o qual não sabemos muito e que é também o presumível autor de Ilíada. Esses dois poemas épicos foram escritos por volta de 750 a.C. e falam-nos da Guerra de Tróia, travada entre gregos e troianos. Tudo começa, segundo Homero, quando Helena, a bela esposa do rei grego Menelau, é seqüestrada e levada para Tróia por Páris, filho de Príamo, rei troiano. Menelau, como é fácil imaginar, ficou furioso e  mobilizou um exército, pedindo auxílio a seu irmão, Agamenon, e aos amigos Aquiles e Ulisses. Muitas aventuras acontecerão a partir daí - o episódio do cavalo de Tróia é um dos mais famosos. Enquanto Ilíada fala sobretudo da guerra, de Aquiles e do herói troiano Heitor, Odisséia descreve as aventuras de Ulisses voltando para casa. “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, dizia Italo Calvino.

Dissemos que não sabemos muito sobre Homero, o autor de Ilíada e de Odisséia. É verdade. Homero é uma figura um tanto quanto misteriosa. É que, no passado, o autor de uma história não tinha tanta importância assim. À medida que surgiu a modernidade, isso mudou radicalmente. Primeiro porque, na modernidade, houve uma afirmação do indivíduo - a palavra “eu” passou a ser importante. Depois porque, com a invenção da imprensa, o livro virou um produto vendável. E é aí que surgiu o autor. Os temas já não eram apenas a religião ou as aventuras épicas, descritas como se fossem verdadeiras.

Com a modernidade, admitiu-se também a ficção. E o grande gênero para a ficção será o romance, escrito nas línguas derivadas do latim, as chamadas línguas “românicas”, como o francês, o italiano e o português. Daí vem o nome “romance”.

O romance tem origem em vários gêneros da Idade Média, entre eles as histórias de cavalaria, protagonizadas por aquelas figuras de armadura, escudo e lança, que, com o advento dos tempos modernos, tornaram-se figuras caricaturais.

O primeiro grande romance da modernidade (o livro completou quatrocentos anos em 2005) é Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes. Livro concebido apenas como uma sátira das novelas de cavalaria, mas que se tornou uma obra-prima da literatura universal.

Cervantes, a propósito, teve uma vida cheia de aventuras. Nascido em uma Espanha que era a nação mais rica e poderosa da Europa, vinha de uma família nobre, mas empobrecida: o pai fora preso por dívidas. Cervantes entrou no exército e participou na batalha de Lepanto contra os turcos, onde foi ferido na perna e ficou com a mão esquerda paralisada. Depois, foi capturado por piratas turcos e só libertado após cinco anos de cativeiro. Apesar de todas essas desventuras, Dom Quixote é um livro cômico; mas é também um retrato da condição humana, tanto que “quixotesco” tornou-se um adjetivo incorporado ao nosso vocabulário como sinônimo de “sonhador”, aquele que é “generosamente impulsivo, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade”, segundo nos explica o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa.

Dom Quixote é um anti-herói, enfrentando os gigantes imaginários que vê nos moinhos de vento. Já Robinson Crusoé (1719), do inglês Daniel Defoe, marinheiro náufrago, encontra perigos reais e mostra qual é a primeira regra da modernidade: “Vire-se”. Aliás, viagens marítimas seriam o ponto de partida para muitos livros, inclusive satíricos, como é o caso de As viagens de Gulliver (1726), do irlandês Jonathan Swift, que conta as fantásticas viagens do médico naval Lemuel Gulliver. Na primeira viagem, a mais famosa delas, nosso herói naufraga em Lilliput, uma terra cujos habitantes são bem pequeninos, o que faz de Gulliver um gigante e faria do termo “liliputiano” mais um adjetivo que a literatura incorporaria ao vocabulário universal como sinônimo de alguém ou algo extremamente pequeno” e, no sentido figurado, de quem tem “falta de grandeza”, isto é, de quem é mesquinho.

Robinson Crusoé e Viagens de Gulliver não são livros para crianças?

Curiosamente, alguns dos maiores clássicos da literatura universal, por causa das muitas adaptações que foram feitas ao longo dos anos, são vistos hoje, por muita gente, como livros infantis. Mas, no original, atrás das narrativas eletrizantes, esses livros contêm contundentes reflexões políticas e filosóficas.

Aos poucos, o romance em geral foi se transformando em um gênero literário extremamente popular. Numa época em que a psicologia e as ciências sociais ainda estavam engatinhando, a literatura ensinava as pessoas a viver. Exemplo clássico são Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (1796), o chamado “romance de formação” do alemão Johann Wolfgang von Goethe, que acompanha um jovem no seu aprendizado da vida. Mas o grande século do romance será mesmo o XIX. E aí temos, em inglês, uma espécie de equivalente de Wilhelm Meister: Oliver Twist (1837), que o inglês Charles Dickens publicou quando tinha apenas 25 anos.

Oliver Twist conta a história do garoto Oliver, que, recolhido a um asilo de órfãos, cansado da tirania do administrador do lugar, resolve fugir, mas descobre que a vida nas ruas de Londres também não é nenhum piquenique. Para sobreviver, tem até de se juntar a uma gangue infantil liderada pelo velho Fagin. Dickens conhecia bem essa situação. De família pobre, jornalista de profissão, escrevera inflamados artigos em jornais denunciando a miséria na Inglaterra. Oliver Twist foi publicado na forma de folhetim, isto é, em capítulos diários no jornal, aguardados pelos leitores da época com tanta ansiedade quanto hoje os telespectadores aguardam os próximos capítulos de uma novela de TV.

Vinte anos depois de Oliver Twist, surge na França uma obra-prima do gênero: Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, que conta a história de Emma Bovary, mulher de um patético médico do interior francês, Charles Bovary. Cansada do tedioso casamento, ela procura emoção em aventuras extraconjugais, o que termina em desastre. Flaubert era um estilista perfeito e um grande conhecedor da alma feminina. Quando lhe perguntavam quem havia inspirado a personagem, respondia: “Madame Bovary sou eu”.

A essa altura, o romance era tão popular que os leitores (e escritores) já não se contentavam com um só volume: surgiu então o roman-fleuve (“romance-rio”), seqüência de obras que se desenvolvem em um longo espaço de tempo e que abarcam várias  tramas, formando um verdadeiro painel da sociedade da época. O melhor exemplo de todos é A comédia humana, do francês Honoré de Balzac, composta por 17 volumes, incluindo mais de 80 obras, entre romances e contos.

Um dos romances mais famosos de A comédia humana, de Balzac, é A mulher de trinta anos. Daí vem o termo “balzaquiana”, adjetivo utilizado no mundo todo, até por quem nunca ouviu falar de Balzac.

Há outros clássicos fora da Europa ocidental?

De fato, até aqui, só falamos em autores da Europa ocidental. Mas na Europa oriental, na Rússia sobretudo, também surgiram grandes romancistas, a começar por Leon Tolstoi.

De família nobre, Tolstoi foi militar, participou em combates, mas depois se tornou um pacifista, descrevendo em várias obras os horrores da guerra. O exemplo maior é

Guerra e paz (1865), um épico com quase seiscentos personagens, históricos ou ficcionais. Tendo como cenário a guerra que colocou a França de Napoleão contra outra nações européias, incluindo a Rússia, a narrativa move-se do campo de batalha para a vida familiar dos personagens. Anna Karenina (1877), também de Tolstoi, conta a história de uma mulher aprisionada por convenções sociais.

Outro grande romancista russo foi Fiodor Dostoievski, autor de Crime e castigo (1866): Raskolnikov, estudante pobre, decide resolver seus aflitivos problemas de dinheiro matando a velha e repelente dona de uma casa de penhores, que ele vê como uma parasita desprezível e descartável. O castigo começa com remorso, mas vai bem mais além, e o livro acaba resultando em uma profunda reflexão sobre dilemas éticos.

Outros livros de Dostoievski: Recordação da casa dos mortos, Memórias do subsolo, Os possessos, Os irmãos Karamazov, O idiota.

Enquanto isso, do outro lado do oceano, um país começava a mostrar seu poder. Poder econômico, poder militar, mas também poder cultural: os Estados Unidos. Um país jovem, com muita gente e com um grande escritor para o público igualmente jovem: Samuel Langhorne Clemens, mais conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain, um sujeito que fez de tudo na vida para sobreviver. Depois de abandonar a escola, foi tipógrafo, piloto de barcos (“Mark Twain” era uma expressão para indicar a profundidade de um rio), soldado, mineiro, jornalista. Publicou dois livros que o tornaram rico e famoso: As aventuras de Tom Sawyer (1876) e sua continuação, As aventuras de Huckleberry Finn (1884). Tom e Huck fazem parte de uma galeria de personagens que Mark Twain conheceu nas suas andanças. Os dois livros comovem-nos pela autenticidade e divertem-nos pelas pitorescas aventuras.

Dez clássicos indispensáveis: Ilíada – Homero, As aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain, As ilusões perdidas – Balzac, As viagens de Gulliver - Jonathan Swift, Crime e castigo – Dostoievski, Dom Quixote - Miguel de Cervantes, Guerra e paz - Tolstoi, Madame Bovary – Flaubert, Oliver Twist - Charles Dickens, Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister - Goethe

E quais os autores fundamentais do século XX?

A transição do século XIX para o XX se fez sob o signo do progresso, da renovação. As ferrovias se expandem, surgem o automóvel, o motor a diesel e o avião; o telégrafo e o telefone; o cinema e a psicanálise. Novas correntes de pensamento, novas formas de expressão artística e cultural emergiam. Nas artes, é a época do impressionismo, do expressionismo e do cubismo. Mas é também uma época de conflito: o novo século verá, já em seu início, a eclosão da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, de 1917.

Conflito e renovação é o binômio que também vigorará na literatura. Merecem aqui destaque especial, inicialmente, três renovadores do romance universal. O primeiro deles é o francês Marcel Proust, autor de sete romances, que, tendo um só narrador, formam um conjunto: Em busca do tempo perdido (1913-1927). Proust traça um quadro da sociedade francesa em sua época, ao mesmo tempo em que reflete sobre a memória e o efeito do tempo na condição humana.

Os sete volumes de Em busca do tempo perdido: O caminho de Swann, À sombra das moças em flor, O caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva, O tempo recuperado.

O segundo renovador é o irlandês James Joyce, que em Ulisses (publicado em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo, que revolucionou a cultura brasileira) faz uma espécie de paródia de Odisséia de Homero, da qual falamos antes - os escritores sempre se influenciam mutuamente. É um livrão, um tijolaço, mas toda a ação se passa em um único dia, 16 de junho de 1904. Ao longo desse dia, Joyce acompanhará a trajetória dos dois personagens, Leopold Bloom e Stephen Dedalus, em vários lugares de Dublin, capital da Irlanda. Ao fazê-lo, cria e combina palavras, muda a forma de narrativa e no final introduz o fluxo de consciência, o monólogo interior de uma terceira personagem, Molly Bloom, antes de adormecer. É um livro tão inovador que, apesar de sempre citado, foram poucos os que realmente conseguiram lê-lo até o fim.

O terceiro renovador é o tcheco Franz Kafka, que era advogado de uma companhia semi-estatal de seguros, por isso bastante familiarizado com a burocracia que viria a se tornar o pesadelo de nosso tempo. Em O processo, Kafka narra a história de Josef K., que está sendo processado. Não se sabe quem é o acusador, não se sabe de que o réu é acusado, não se sabe nem mesmo onde fica o tribunal. Mas, no final, o coitado é executado assim mesmo.

Franz Kafka é autor ainda de A metamorfose, que conta a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que, numa certa manhã, acorda de um sono intranqüilo e se vê  transformado em um inseto monstruoso. O livro é, na verdade, uma metáfora para denunciar os mecanismos de alienação e de dominação da mente humana. Do nome de Franz Kafka vem o adjetivo “kafkiano”, que, segundo o Dicionário Houaiss, “evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo, especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade”.

Aliás, a violência grotesca, sem sentido, passará a ser tema recorrente da literatura no século XX. Exemplo disso é O coração das trevas (1902), de Joseph Conrad. O autor viveu na Inglaterra, mas não era inglês, era polonês (seu nome de batismo era Jozef Teodor Konrad Korzeniowski). Órfão, muito cedo deixou a Polônia e acabou por radicar-se na Inglaterra. Apaixonado pelo mar, engajou-se na marinha comercial britânica e chegou a comandar seu próprio navio. Viajou pelo mundo todo e subiu o rio Congo, na África, jornada que inspirou O coração das trevas. A obra gira em torno a uma figura trágica, o demente Kurtz, que, em meio à selva africana, vivendo numa cabana decorada com crânios humanos, comanda os nativos como se fosse um deus, uma versão enlouquecida do colonialismo, então no auge.

O livro O coração nas trevas, de Joseph Conrad, inspirou Apocalipse Now, filme de Francis Ford Coppola, que transferiu a narrativa original do Congo para as selvas do Vietnã.

Mas, além de mergulhar no coração das trevas, o gênero romance continuou fiel à sua premissa de mergulhar no coração humano. É o caso de A montanha mágica (1924), do alemão Thomas Mann. Visitando um primo num sanatório para tuberculosos, Hans Castorp contrai a doença. Hoje provavelmente ele seria tratado e curado, mas naquela época tuberculose significava uma longa internação, durante a qual Castorp e outros personagens mantêm um permanente debate de idéias filosóficas contraditórias.

Já Doutor Fausto (1947), do mesmo Thomas Mann, é uma espécie de biografia maginária do compositor Adrian Leverkühn, tal como vista pelo amigo Serenus Zeitblom. O livro é, e novo, uma profunda reflexão, desta vez sobre a arte.

Outro escritor alemão importante no período é Robert Musil. O jovem Törless (1906) tem como cenário uma elitista academia militar e os conflitos entre os jovens alunos. Já em O homem sem qualidades (1930), Musil apresenta-nos o ex-oficial Ulrich, homem de  grandes potencialidades intelectuais, mas incapaz de aplicá-las à vida real: uma reflexão sobre a crise social e espiritual do século.

Em matéria de decadência de elites, O leopardo (1958), do italiano Tomaso di Lampedusa, com sua memorável frase  (“É preciso que tudo mude para que tudo fique como está”), é outra obra fundamental.

O clima de desesperança que invadiu a Europa - e que se agravou com a Segunda  Guerra Mundial - foi retratado por dois grandes escritores franceses. O primeiro é Jean-Paul Sartre, em A idade da razão (1945). O outro, Albert Camus (na realidade nascido na Argélia, então colônia francesa na África), criador de dois personagens paradigmáticos: Meursault, de O estrangeiro (1942), que chega ao crime numa tentativa desesperada de vencer a alienação; e o Dr. Rieux, de A peste (1947), que, ao contrário, esforça-se por salvar as vítimas de uma epidemia: “Nós nos recusamos a desesperar da humanidade. Mesmo renunciando à irracional ambição de recuperar os seres humanos, ainda assim queremos servi-los.”

As obras de Jean-Paul Sartre e de Albert Camus seguem os pressupostos do existencialismo, escola filosófica surgida em meados do século XX, com o pensador dinamarquês Kierkegaard, e que atingiu seu apogeu nos anos 50 e 60. Para os existencialistas, “o homem não foi planejado por alguém para uma finalidade; ao contrário, o homem se faz em sua própria existência”.

Boa parte da ficção do século XX é obra de militantes políticos. Foi o caso do russo Isaac Babel. Judeu, membro, portanto, de um grupo perseguido, Babel viu na Revolução Russa, de 1917, a esperança de um futuro melhor para sua gente. Combatente de primeira hora, relatou suas experiências nos contos de Cavalaria vermelha (1926). Apesar disso, acabou morrendo num campo de concentração stalinista.

O inglês Eric Blair, que escreveu sob o pseudônimo de George Orwell, também foi militante comunista e igualmente passou por uma amarga desilusão, da qual dão testemunho duas obras tão fantasiosas quanto satíricas. A primeira é A revolução dos bichos (1945), que, publicada no início da Guerra Fria entre o Ocidente e os países comunistas, fez enorme sucesso. A história ocorre na fazenda do cruel Mr. Jones. Os animais se revoltam, tomam o poder, mas o resultado é uma tirania ainda pior: uma alusão ao que aconteceu na época de Stalin. A segunda, publicada em 1949, tem como título 1984. Nesse ano, segundo Orwell, o futuro já teria chegado sob a forma de distopia, ou seja, uma utopia transformada em pesadelo: um mundo em que o Estado, governado por um ditador, o Big Brother (sim, daí vem o título do programa de TV), controla todas as pessoas. Frases como “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais” ajudaram a transformar Orwell num autor imensamente popular, num mundo em que o autoritarismo, sob variadas formas, ainda se faz presente.

O comunismo traduziu-se em uma revolução política, mas revoluções culturais também não faltaram no século XX. Uma delas foi a psicanálise, tema de A consciência de Zeno (1923), cujo autor é Italo Svevo, pseudônimo do triestino Aron Hector Schmitz. No romance, acompanhamos o frustrado namoro de Zeno com a psicanálise, “tola ilusão, um truque capaz de comover apenas solteironas histéricas”, que no entanto o motiva a empreender um doloroso processo de autodescoberta, não no divã, mas no texto. A propósito, o tema da psicanálise seria retomado por muitos outros escritores, entre eles o norte-americano Philip Roth em O complexo de Portnoy (1969), no qual o protagonista queixa-se ao psicanalista de sua dominadora mãe judia.

Dez clássicos do século XX: 1984 - George Orwell,  A idade da razão - Jean-Paul Sartre,  A montanha mágica - Thomas Mann,  Em busca do tempo perdido - Marcel Proust,  O complexo de Portnoy - Philip Roth,  O coração das trevas - Joseph Conrad, O estrangeiro - Albert Camus,  O homem sem qualidades - Robert Musil,  O processo - Franz Kafka, Ulisses - James Joyce

E as mulheres?

Tem razão. A esta altura de nosso muito rápido passeio pela literatura, você deve estar se perguntando se as mulheres só entram na literatura como personagens tipo Madame Bovary, ou tipo mãe do Portnoy, ou ainda a ninfeta que em Lolita (1958), do russo naturalizado americano Vladimir Nabokov, atormenta um sisudo professor.

No passado, de fato, mulheres escreviam pouco - aliás, as mulheres faziam pouca coisa além de engravidar, cuidar das crianças, da casa e agüentar os maridos. A presença da mulher na literatura tornou-se, assim, um sinal de afirmação. E de talento. O melhor exemplo é a inglesa Virginia Woolf, que se consagrou com obras como Mrs. Dalloway (1925), Rumo ao farol (1927), Orlando (1928) e As ondas (1931). Woolf tornou-se expoente da literatura feminina. Rumo ao farol, um de seus melhores livros, apresenta-nos a família Ramsay: a senhora Ramsay, seus oito filhos e o culto, autoritário e ausente marido. Ela é uma mulher  muito preocupada em organizar a vida de todos que estão a seu redor, e é nesse cenário que surge a proposta de uma viagem até a pequena ilha em que está o farol. O marido pondera que a jornada é perigosa. A viagem é cancelada, o que causa frustração na família. Finalmente, o objetivo é atingido, mas sem a sra. Ramsay e três dos filhos, que morreram. Uma trama minimalista, na qual o simbolismo é importante. Apesar de tudo, diz-nos Virginia Woolf, há uma luz - a luz do farol - brilhando em meio às trevas.

Muitos livros de Virginia Woolf foram adaptados para o cinema, mas foi a sua atormentada existência que inspirou uma obra-prima da sétima arte, As horas, dirigido por Stephen Daldry, com Nicole Kidman no papel da escritora.

O que significa “realismo mágico”?

O nosso continente, que durante muito tempo foi reduto de pobreza e atraso, foi também o berço de um original movimento literário. Tudo começou quanto o escritor cubano Alejo Carpentier publicou o romance O reino deste mundo (1949), em cujo prefácio discutia o chamado “real maravilhoso” (duas expressões equivalentes surgiriam depois, “realismo mágico” e “realismo fantástico”), conceito que ampliou num artigo de 1964, em que diz: “A América é o único continente onde diferentes eras coexistem”, isto é, onde os avanços tecnológicos da modernidade convivem com o primitivo. Essa situação configura o choque cultural do qual nasce a fantasia que alimentará a nova vertente literária latinoamericana.

Em termos de literatura, é claro, o fantasioso não era novidade. Afinal, a fantasia é a matéria-prima da ficção. Mas o realismo mágico latino-americano tem características próprias. Nasceu do quadro político, econômico e social vigente na América Latina dos anos 60 e 70. É então que o atraso da região fica mais evidente, que os movimentos reivindicatórios crescem - e é o momento também em que ditaduras militares tomam o poder em quase todos os países - uma decorrência da Guerra Fria - e o momento da revolução cubana, vista como ameaça pelos setores conservadores.

Obras como Pedro Páramo (1955), do mexicano Juan Rulfo; Paraíso (1960), do cubano José Lezama Lima; O jogo da amarelinha (1963), do argentino Julio Cortázar; Cem anos de solidão (1967) e O outono do patriarca (1975), do colombiano Gabriel García Márquez, vão chamar a atenção do público mundial e consolidar o gênero, que será também representado por autores europeus como o italiano Italo Calvino de O visconde partido ao meio (1952) e de Cidades invisíveis (1972), o alemão Günter Grass de O tambor (1959), o hindu Salman Rushdie de Os versos satânicos (1988) e o português José Saramago de A jangada de pedra (1988). O realismo mágico é literatura de denúncia, mas não de denúncia carrancuda, é antes uma denúncia satírica, irônica.

Cinco clássicos do realismo mágico: Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez, O jogo da amarelinha - Julio Cortázar, O outono do patriarca - Gabriel García Márquez, Paraíso - José Lezama Lima, Pedro Páramo - Juan Rulfo.

Que brasileiros não podem faltar na nossa lista?

E já que estamos na América Latina, vamos, enfim, ver algo da nossa literatura brasileira. Temos de começar reconhecendo a dívida com o país que nos deu o idioma, Portugal, e com grandes autores portugueses como Eça de Queirós de Os maias (1888), obra adaptada para uma minissérie de sucesso na TV. É uma tragédia que nasce do incesto inconsciente entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda da Maia. Já A cidade e as serras (1901), também de Eça de Queirós, tem como personagem principal Jacinto, um rico aristocrata. Deixando seu palacete de Paris, Jacinto volta a Portugal com o velho amigo Zé Fernandes e descobre na sua antiga mansão senhorial de Tormes as suas raízes, o que o liberta do tédio e dá sentido à sua existência.

Dez clássicos brasileiros: A hora da estrela - Clarice Lispector, Dom Casmurro - Machado de Assis, Grande sertão: veredas - Guimarães Rosa, Macunaíma - Mário de Andrade, Mar morto - Jorge Amado, O guarani - José de Alencar, O quinze - Rachel de Queiroz, O tempo e o vento - Érico Veríssimo, Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto, Vidas secas - Graciliano Ramos.

É uma literatura vigorosa, a nossa, e mereceria uma enciclopédia inteira, mas, como temos de sintetizar, vamos começar já no século XIX, com O guarani (1857), de José Alencar, obra conhecida de todo brasileiro que passa pela escola e que marca o apogeu do romantismo no Brasil. Em nosso país, além da valorização do indivíduo, característica geral das obras românticas, o romantismo foi a expressão de um “nacionalismo literário”, identificado tanto no indianismo alencarino quanto na prosa histórica e regionalista.

O guarani é um romance autenticamente brasileiro, colocando - pela primeira vez em nossa história - o índio como herói. Como Oliver Twist, foi publicado em jornal na forma de capítulos, que sempre terminavam com um suspense destinado a manter a atenção do leitor para o capítulo do dia seguinte. E O guarani tem ação para dar inveja a qualquer filme de Indiana Jones. Claro, é linguagem do século XIX, e às vezes a gente tem de ir ao dicionário para descobrir o significado de um ou outro termo. Mas é, sem dúvida, um grande romance.

Quando foi lançado, em 1857, o romance O guarani, de José de Alencar, fez tanto sucesso que se formavam grupos de curiosos na rua para ouvir alguém ler, em voz alta, o capítulo do dia publicado pelo jornal Diário do Rio de Janeiro.

Grande mesmo foi Machado de Assis. O indispensável Dom Casmurro (1900) é considerado sua obra-prima. Bentinho, o narrador, busca obsessivamente saber se sua mulher, Capitu, o traiu. A dúvida até hoje atormenta os leitores e estudiosos que se debruçam sobre o livro de Machado. Em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), o próprio falecido (e isso, diga-se, é originalíssimo: um narrador que já morreu), Brás Cubas, relembra sua vida, traçando um retrato perfeito e mordaz da sociedade brasileira de fins do século XIX. Em Quincas Borba (1891), Rubião, que, tendo recebido uma grande herança do dito Quincas Borba, vagueia com seu cão defendendo uma filosofia que chama de “Humanitismo”, delirante união de todas as teorias existentes.

Igualmente delirante é o Doutor Bacamarte de O alienista (1882), um psiquiatra maluco que mete todo mundo no hospício, naquela que é, em realidade, uma das melhores sátiras políticas já escritas no Brasil, uma tremenda gozação sobre o poder.

Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) é a obra mais importante de Lima Barreto. Nacionalista extremado, como o próprio Lima Barreto, o funcionário público Policarpo Quaresma tem uma proposta revolucionária: adotar o tupi-guarani como idioma pátrio. Acaba internado em um hospício de onde sai para viver estranhas aventuras.

Outro livro delicioso é Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, o romance mais importante do modernismo brasileiro, aquele que surgiu em cena na Semana de 1922. Através de Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, descobrimos uma série de mitos, de lendas e de fatos sobre o Brasil. Mário tem um prazer de narrar que contagia irresistivelmente o leitor. Outra obra importante do movimento modernista é Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade, em que o debochado Miramar evoca suas aventuras na Europa.

Muito diferente de todos esses é Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, livro que fala do Nordeste brasileiro, com sua aridez, sua miséria, mas também seu estoicismo e sua bravura. Vidas secas, sim, mas heróicas, também. Brutalizada pela extrema miséria, uma família (Fabiano, sinhá Vitória, os dois filhos e a cadela Baleia) foge da seca. Já a temática de São Bernardo (1934), também de Graciliano Ramos, é outra: a relação conflituosa entre o autoritário fazendeiro Paulo Honório e sua mulher, a resignada professora Madalena.

Do Nordeste vamos para o Sul e aí encontramos a figura gigantesca de Érico Veríssimo, autor de O tempo e o vento, trilogia publicada entre 1949 e 1961, e que se constitui em uma verdadeira saga gaúcha: o pampa dos caudilhos, o pampa dos sofridos seres humanos que, com seu trabalho e seu sacrifício, ajudaram a criar o Rio Grande. Trilogia:  Os livros de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo: O continente,  O retrato,  O arquipélago.

E já que estamos falando em gaúchos, mencionemos outro escritor do Sul, desta vez um escritor urbano (embora nascido numa pequena cidade da fronteira): Dyonélio Machado, autor de um admirável romance chamado Os ratos, que gira em torno de um personagem obcecado com a idéia de que os ratos vão roer o seu dinheiro. Dyonélio, pode-se dizer, é o Graciliano do Rio Grande do Sul.

Agora vamos nos permitir abrir um parêntese e falar de um autor clássico da literatura infantil: Monteiro Lobato, o escritor que mobilizou a imaginação de várias gerações em nosso país. A chave do tamanho (1942), uma fantástica aventura da instigante boneca Emília, poderia lembrar Querida, encolhi as crianças; mas além de ter escrito o livro décadas antes do filme, Monteiro Lobato usa o “encolhimento” da humanidade como base para uma grande e bem-humorada sátira política e social. Um livro imperdível, para crianças ou adultos.

Em 2002, numa enquete realizada com escritores e críticos literários brasileiros, a boneca Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, foi considerada um dos dez principais personagens da literatura brasileira de todos os tempos, ao lado de Capitu, Brás Cubas, Policarpo Quaresma e outros.

O Brasil também produziu um mestre da linguagem. Guimarães Rosa é, acreditem, um demônio com as palavras. Rosa recriou o nosso idioma e trouxe para a ficção o sertão mineiro, com seus incríveis personagens, seus mitos, suas lendas. Grande sertão: veredas (1956) é o melhor exemplo disso. O jagunço Riobaldo narra para um anônimo a história de suas aventuras e de seu amor pelo jagunço Diadorim, na realidade uma mulher, que, para vingar a morte do pai, disfarça-se de homem.

A propósito de mitos e lendas, temos de falar na Bahia. E falando na Bahia, temos de falar do mestre Jorge Amado, consagrado por obras como Mar morto (1936) e Terras do sem fim (1942). Mas imprescindível é também Tenda dos milagres (1969), em que Jorge Amado desmascara alguns empolados doutores baianos, mostrando o ridículo do preconceito racial.

Não estão faltando escritoras, de novo? Claro que sim. E aqui emerge o nome da cearense Rachel de Queiroz, primeira escritora a entrar na Academia Brasileira de Letras e que, aos dezenove anos, surpreendeu críticos e leitores com o romance O quinze (1930), contribuição expressiva à chamada literatura da seca (1915 foi um ano de terrível seca no Nordeste). É literatura engajada, mas combina a descrição do drama social com a análise psicológica dos personagens.

Já Clarice Lispector nos apresenta, em A hora da estrela (1977), aquela personagem patética, sofrida, mas ao mesmo tempo gloriosa, que é Macabéa.

Ler e coçar, é só começar.

O passeio poderia, e deveria, continuar, mas fica aqui o desafio: faça-o por conta própria. O que você viu até aqui foram dicas, e dicas sobretudo de romances: faltou conto, faltou poesia, faltou crônica...

Descubra mais autores. É uma emoção inigualável ler um livro e constatar, no final: “Essa pessoa faz minha cabeça, é uma alma-irmã”.

Literatura é aventura, é emoção, é prazer.

“Há livros de que apenas é preciso provar, outros que têm de se devorar, outros, enfim, mas são poucos, que se tornam indispensáveis, por assim dizer, mastigar e digerir”, disse Francis Bacon.

“Meu Deus, eu não sei nada de literatura!”, você poderia ainda pensar. Sabe, sim. No mínimo dos mínimos, você sabe agora por onde começar. E depois que começar, você nunca mais vai querer parar.

Palavra de escritor. E, principalmente, palavra de leitor.

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