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O Garimpeiro (1872)

O que diz o crítico
Hélio Lopes
Estória com desfecho é feliz

Romance "O Garimpeiro" inicia-se, na toada de Bernardo Guimarães, com a descrição de uma paisagem edênica. A natureza é sempre rica de árvores, pássaros, frutas, ribeirões, ares amenos, horizontes tranqüilos. Os personagens são introduzidos neste mundo sem maior delonga e imediatamente postos em ação. Sabemos onde estamos, sabemos o tempo de início dos acontecimentos, e conhecemos logo o Major, suas filhas e escravas. E também Elias, "aquele moço de Uberaba". Lúcia e Elias amam-se.

O episódio da cavalhada no capítulo segundo, página obrigatória de algumas antologias de há alguns anos, aparentemente serve apenas para a defesa dos costumes interioranos, a apresentação de um personagem estranho ao meio, o comerciante Azevedo, e melhor conhecimento do protagonista Elias e do Major.

O pai de Lúcia desencadeia a ação. Embora reconheça as qualidades de seu recomendado, o moço Elias, sobrepõe, a todos os méritos morais, físicos e intelectuais do jovem cavaleiro, o amor da fortuna. Elias é pobre e não poderá casar-se com Lúcia.

Azevedo é pretendente sem maiores possibilidades. O narrador, opondo Corte e Província, litoral e sertão, traça do fluminense um retrato digno dos peralvilhos da cidade. Depois, é sobrepujado por Leonel, o baiano de Sincorá, dono de mais dinheiro. A figura do Major é lamentável. Nem sequer tem nome. Tem um ofício. E, com o ofício, os pequenos preconceitos do tempo e das pequenas sociedades. Funciona à moda de um leiloeiro. A prenda em leilão é a filha. Quem oferecer o maior lance ficará com ela. Afastado Azevedo, restam Alias e Leonel.

Os leitores do romance romântico não se enfadem ao reencontrar o dinheiro, a fortuna, como elemento de tensão no enredo das narrativas. Se, na história dos casamentos, a riqueza influiu em nosso dias, seria estranhável se no século XIX assim também não acontecesse. Não se precisa aqui, nesta obra, recorrer a mudança de estruturas sociais que assinalaram a passagem do século XVIII para o XIX. O caso é muito simples. Quando Leonel aparece, o Major está arruinado. Teme enfrentar o público entregando Lúcia a Leonel para restaurar a posição perdida. A filha é apenas uma mercadoria colocada no balcão. Este é o preço. Quem a poder comprar a levará.

Qual o comportamento de Elias nessas circunstâncias? A conquista de Lúcia exige dinheiro. Corre, então, à procura da fortuna. O meio oferece-lhe a garimpagem. Procura no leito das águas o diamante. A sorte não o favorece em Minas. Demanda às terras diamantíferas da Bahia. Vai para Sincorá. De Sincorá regressa abarrotado ... de notas falsas.

É interessante observar o personagem Elias. Construído dentro da fôrma inteiriça do homem bom, reflete as imposições martirizantes da pobreza como abstáculo na realização do amor. A agitação interna oriunda de seu medo, de suas ânsia, do desespero até à idéia do suicídio e do assassinato provoca naturalmente a agitação exterior manifesta num contínuo transporta-se de lugar a lugar. Elias está sempre em movimento e num movimento de idas e vindas. A comunicação entre os amantes se faz por bilhetes e cartas. Esse movimentar-se, porém, não é desordenado. Possui uma finalidade: derrubar o entrave da pobreza e assim conquistar a mulher amada. Nesse caso, a cavalhada descrita no capítulo segundo está parecendo funcionar como um símbolo. Cumpre superar os empecilhos, derrotar os adversários e receber o troféu da vitória das mãos da amada. O herói atravessa as dificuldades todas exigidas pelas regras do torneio e o romance termina feliz, não obstante se estar ao pé de um sepulcro.

Elias é ajudado na conquista de sua felicidade por forças superiores. Temos a promessa feita a Nossa Senhora do Patrocínio e temos o prognóstico de uma cigana: a estrela de pedra no leito do rio. Essa heterogeneidade de crenças ajusta-se perfeitamente na cabeça de Simão, o misto de índio e africano, cafuzo no rigor das palavras e não caboclo assim como será chamado um pouco depois. Salva-se, no entanto, o romancista com um "parecia ser...". Simão servira ao pai de Elias em Diamantina. A fidelidade ao moço, a perseverança no trabalho e a fé em Deus fazem surgir o diamante salvador.

O velho Simão, moribundo, é assistido e quase roubado por uma criatura estranha que aparece e desaparece de cena sem maiores explicações do narrador. Chegamos a conhecê-la pelos terríveis epítetos que recebe: bruxa, harpia e demônio.

Dessa forma, a cigana é esquecida. O diamante é prêmio do céu e do céu é a exigência, por conseguinte, do casamento a realizar-se.

Os defeitos do Major são por ele mesmo jogado às costas da "sociedade (que) tem tais exigências...". Isto é: não se casa por amor, casa-se por dinheiro. As desculpas do Major, sua auto-reabilitação se fazem com um belo diamante -- o diamante encontrado por Simão -- luzindo entre os dedos!...

Cumpre assinalar ao lado de Simão, fiel amigo de Elias, a escrava Joana, fiel amiga de Lúcia. São os confidentes dos amantes. Joana é alforriada aos rogos de Lúcia. O major, em suas aperturas econômicas, não a poderá vender. Joana é alforriada aos rogos de Lúcia. O amor da branca vem a conservar, ao seu lado, a escrava. O amor da escrava-livre a faz conservar-se ao lado da branca-senhora. É otimista o relacionamento entre senhores e as poucas escravas negras no sítio do Major. Não aparecem outras menções à escravatura. O romance publicado em 1872, apenas pela rama toca no problema que, já nessa época, agitava-se no Brasil: a abolição da escravatura, em que 1888 viria a realizar-se. Neste ano já estava morto Bernardo Guimarães (1825-1884).

O romancista mineiro escreve como conhecedor perfeito do espaço onde localiza a ação e as figuras que movimentam a história. Embora pague sua dívida às imposições da ficção romântica estereotipando os personagens e os eventos, há um sentido profundo de realidade naquilo que narra. Talvez esse sentido profundo de realidade se perceba com maior nitidez nas obras de Bernardo Guimarães por nelas não aparecer aquele verniz de "literatura" no mau sentido da palavra.

A procura da realidade em Bernardo Guimarães, ao que parece na propositada, mas natural, é arma de dois gumes: se, de um lado, oferece ao leitor pouco ou menos exigente a impressão da realidade perfeita, de outro a negligência de quem escreve, como se falasse, mancha-lhe o estilo de senões perfeitamente evitáveis. Se o autor se desse ao mínimo cuidado de cortas as excessivas repetições, apagar os ecos e outros pequenos defeitos de seus discurso, teria evitado a censura de desleixo com que sempre o acusam.

Não obstante a justiça das corrigenda, as narrativas de Bernardo Guimarães, breves e movimentadas, conduzem o leitor quase sempre a um desfecho feliz com o prêmio para a virtude e o castigo para o vício. Quase nada se percebe nos romances do espírito folgazão do romancista. Quase nada se percebe nos romances do espírito folgazão do romancista. Faz da ficção uma escola de bons costumes e para isso reveste-se da compostura de um diretor de consciência.

Bernardo Guimarães não é apenas o defensor de nossos hábitos interioranos, das virtudes caseiras, de nossas tradições. É o defensor do homem naquilo que nele encontra de melhor: o caráter. E o exemplo está em Alias, o garimpeiro.


O que diz o crítico
M. Cavalcanti Proença
Bernardo sabe do que fala

"O Garimpeiro" é uma narrativa regional e -- podemos acrescentar, sem exagero -- tradicional. Aí estão as festas na vila do Patrocínio, a vida sertaneja, um capítulo inteiro sobre a existência nos garimpos, onde o homem se identifica tanto ao solo que o escritor exprime a recíproca, quando diz "esperançoso cascalho" lavado pelos garimpeiros. Esperança dos homens que se transfere à terra em cujo âmago se oculta o diamante.

Parece que foi Orville Derby quem primeiro chamou atenção para o fato de haver no Brasil possibilidade de assistir à história, pela simultaneidade de estágio sociológico, bastando poucas horas de viagem, alguns quilômetros de estrada, para que o observador se transporte da civilização industrial à vida mais primitiva. Este livro serve bem para documenta a tese. Escrito em 1872, o processo de trabalho, o ambiente social, os costumes que descreve são os mesmos que, ainda hoje, mais um século transcorrido, regem a vida dos garimpos. Diferenças, quando as há, são mínimas.

Bernardo Guimarães é autor que fala do que sabe. Suas paisagens são verdadeiras, hábitos e mentalidade de suas personagens não inspirados na realidade e, por isso mesmo, aparecem aberturas de sol realista na bruma romântica da escola.

O Garimpeiro é romance de amor, e, como era de preceito, um amor que vai seguindo sua correntezinha de riacho e, de repente, reboja e espuma e encontra a sua cachoeira. Amor contrariado. O mocinho e a mocinha, que tanto já merecem de nós, encontram o que será para ele o poderoso rival, e para ela o futuro carrasco. Luta, lágrimas, gemidos, mas, no fim, a exaltação dos oprimidos; por processos normais, se possível, por milagre, se for premente a necessidade. O final restabelecerá o equilíbrio temporariamente pelo enredo e pela ação do romance.

Assim ocorre nos filmes "far-west", cujas peripécias só não matam de ansiedade os espectadores, porque há confiança no "happy end", restaurador da justiça, reparando até as lesões físicas dos heróis que simbolizam o bem. Comercialmente seguros.

Um pouco dessa garantia de término feliz, mas também a simplicidade no apresentar as suas narrativas, a habilidade de dispor a efabulação, tem feito de alguns romances de Bernardo Guimarães -- este entre eles -- livros de permanente consumo, inabaláveis e imutáveis, através de gerações sucessivas de leitores.

Românticos são os tipos que desenha, mas, aqui e ali, a ironia de um escritor que convivia com os seus heróis põe alfinetadas, desinflando exageros. A começa pela figura principal: "Lúcia não tenha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem feitos e proporcionados."

Apago o excessivo particularismo da realidade, as paisagens e até o físico dos personagens foram decalcados em vivência do romancista, recriadas pela memória, postas em simetria por um senso estético sem grande complexidade. O enredo vai deslizando em correnteza fluvial, com remansos, itaipavas, cachoeiras, muito mais dramático do que trágico, falando sempre ao leitor que busca na leitura não mais que distração, e certo perigo e certa angústia, de solução garantida ao final do livro.

Esta simplicidade se reflete na linguagem correntia, até seu tanto desleixada, mas em todos os casos concordante com a narrativa. Giros sintáticos e vocábulos regional aparecem sempre, mas não embaraçam a leitura, pois nascem do contexto e nele se integram de tal forma que nele próprio encontram definição.

Em prosa, pelo menos, Bernardo Guimarães não está preocupado com o artesanato da linguagem. É um oralista, lembrando os livros mais espontâneos de José Lins do Rego, Jorge Amado e vários outros menos lidos e menos queridos; merecendo lugar ao lado dos poetas populares, contadores de histórias que, possuindo uma técnica tradicional, ficam entre o folclore e a chamada leitura culta.Brasileiríssimos, portanto. Vem daí, certamente, o prestígio popular de Bernardo Guimarães, há quase cem anos. O povo reconhece e preserva para a imortalidade os que com ele se identificam.


O que diz o crítico
Basílio de Magalhães
BG evoca a época dos dinamantes

Romance de costumes, totalmente mineiro, evoca "O Garimpeiro" a época da cata de diamantes na região de Bagagem, onde se encontrou o celebre Estrela do Sul, um dos maiores do mundo.

Gira em torno da paixão de Elias e Lúcia, e o enredo, simples e despido de interesse a princípio, complica-se e violenta-se no fim, quando a moça, contrariada pelo pai no seu amor, está em vésperas de casas com o falsário Leonel. O devotamento do negro Simão por Elias é um atestado da afetividade característica da raça africana, já desde muito proclamada pelo fundador do positivismo.

Distingue-se esta produção de Bernardo Guimarães pelos quadros de gênero, dois dos quais pintados a primor de verdade e emotividade: o das "cavalhadas" e o do trabalho dos garimpeiros em busca dos carbonos preciosos, no leito dos rios.

Tradição mineira de impressiva teatralidade, que Joaquim Felício dos Santos esboçou em suas Memórias do Distrito Diamantino" e Antonio Olinto dos Santos Pires desenvolveu em conferência realizada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, -- é a de Isidoro, o garimpeiro que Bernardo Guimarães deverá, preferentemente, ter perpetuado em novela ou drama.

Além dos termos técnicos de mineração, como grupiara e pinta, encerra este volume outros de uso popular e singularidade prosódica, assim como expressões sintaticamente anômalas, vulgarizadas em Minas, como janta (por jantar), melcatrefe (mequetrefe), cavaleira (por amazonas), tagarelagem (por tagarelice), ir na vila, ir na desobriga, cavalo doutrinado (em lugar de cavalo ensinado).

Nas comparações, é à fonte nacional que recorre e sempre feliz e original no paradigma escolhido. Exemplo: "Lúcia tinha dezoito anos; seus cabelos era da cor do jacarandá brunido..."

Eis, agora, uma observação constante do livro e que é verdadeira ainda hoje, apesar de extinta a instituição: "No sertão, não há fazendeiro, algum tanto abastado, que não tenha um posto elevado na guarda nacional... Entretanto, não há povo mais essencialmente pacífico, menos propenso à carreira das armas".



Trecho do livro

"Lúcia tinha dezoito anos; seus cabelos eram da cor do jacarandá brunido, seus olhos também eram assim, castanhos bem escuros. Este tipo, que não é muito comum, dá uma graça e suavidade indefinível à fisionomia.

Sua tez era o meio-termo entre o alvo e o moreno, que é, a meu ver, a mais amável de todas as cores. Suas feições, ainda que não eram de irrepreensível regularidade, eram indicadas por linhas suaves e harmoniosas. Era bem-feita, e de alta e garbosa estatura.

Retirada na solidão da fazenda paterna, desde que saíra da escola, Lúcia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em plena liberdade todas as suas graças naturais, e conservando ao lado dos encantos da puberdade toda a singeleza e inocência da infância.

Lúcia não tinha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem-feitos e proporcionados.

Lúcia não era uma dessas fadas de formas aéreas e vaporosas, uma sílfide ou uma baiadera, dessas que fazem o encanto dos salões de luxo. Tomá-la-íeis antes por uma das companheiras de Diana, a caçadora de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso gesto.

Todavia era dotada de certa elegância natural, e de uma delicadeza de sentimentos que não se esperaria encontrar em uma roceira."


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