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Escrava Isaura

Enredo e personagens
 
Filha de um branco, o ex-feitor da fazenda, Miguel, e de uma escrava negra que a jovem mestiça não conhecera, Isaura não conhece em menina a crueldade da escravidão. Sua senhora a criou como filha da casa, oferecendo-lhe o mesmo tipo de refinamento, modos e educação que uma moça branca e abastada teria.

Mas quando a senhora morre, a fazenda e todos os escravos tornam-se posse do filho, Leôncio, a vida de Isaura vai sofrer uma reviravolta. Leôncio tem por ela uma paixão irrefreável, primária, autoritária. A narrativa assume tons de sensualidade primitiva que se misturam aos relatos de castigos de escravos pelos quais Leôncio, frustrado por não conseguir possuir a mulata, impõe a Isaura.

Leôncio é casado com Malvina, a qual tem por Isaura o mesmo tipo de afeto que lhe dedicava a sogra. Malvina é bonita, elegante, educada, polida, caridosa. Mas seus predicados empalidecem diante dos de Isaura. A paixão de Leôncio vai se tornando doentia, ele exige a posse da mestiça que quer manter sua virgindade. Malvina descobre as intenções do marido e volta para a Corte (a cidade do Rio de Janeiro). Abandonada ao destino, a escrava Isaura precisa fugir.

Isaura foge para Recife com a ajuda do pai. A essa altura, a narrativa assume um ritmo eletrizante. Leôncio sai em perseguição.

Sem saber que Leôncio está em seu encalço, Isaura chega em Recife. Lá conhece Álvaro, moço bonito, abastado, ex-estudante de Direito, generoso e, principalmente, republicano e liberal. Álvaro não tem preconceitos quanto ao nascimento em cativeiro de Isaura e abomina a escravidão. Eles se apaixonam.

Depois de uma longa jornada, Leôncio descobre Isaura em Recife. Submete Miguel e obriga-os a voltar para a fazenda. Isaura sente-se miserável.

Dois meses depois, quando não sabe mais o que fazer para preservar sua virtude, Álvaro, após manobras em que em compra todos os bens de Leôncio, irrompe na fazenda para libertar Isaura do cativeiro e casar-se com ela. Desesperado, Leôncio comete suicídio. O espírito da liberdade triunfa sobre o da tirania.

Nota: A 1ª edição de A Escrava Isaura foi publicada a primeira vez em 1875, pela Casa Garnier, Rio de Janeiro.

Personagens

A obra apresenta a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína e herói. E, graças à ausência de profundidade com que são construídos, os personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.

Isaura, a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter nobre e demonstra "conhecer o seu lugar": do princípio ao fim, suporta conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar.

Permanece emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade. Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor de Álvaro e termina como a própria imagem da "virtude recompensada".

Vejamos como Guimarães descreve sua heroína:

"A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (.) Na fronte calma e lisa como o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração."

Leôncio é o vilão leviano, devasso e insensível que, de "criança incorrigível e insubordinada" e adolescente que sangra a carteira do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso, casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser "um meio mais suave e natural de adquirir fortuna". Persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.

Álvaro é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável, que "tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista"; um jovem de idéias igualitárias, idealista e corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua conduta moral é assim descrita pelo autor:

"Original e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionaável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados."

Apaixonado por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio. Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio, adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.

Nos demais personagens o processo de construção é o mesmo. Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio. Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não mede esforços para isso.

Martinho é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras e "no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,. reluz constantemente um raio de velhacaria". Por querer ganhar muito dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada.

Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta: feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti Proença aponta "o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil."

O Dr. Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo, mostrando-lhe a realidade dos fatos.

Quando Álvaro, revoltado com a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão, dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade, Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá independência para "satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua imaginação romanesca". O que não é, na verdade, característica restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.

Preconceito

Este romance já foi considerado, com bastante exagero, uma espécie de A Cabana do Pai Tomás (1851) nacional. Porém, Bernardo Guimarães, ao contrário da romancista americana Harriet Beecher Stowe, detém-se muito pouco na descrição dos sofrimentos provocados pelo regime escravocrata.

Ele coloca, na boca de alguns personagens, como Álvaro e seus amigos, estudantes no Recife, algumas frases abolicionistas, mas parece tomar bastante cuidado em não provocar a fúria dos seus leitores conservadores. Está mais preocupado em contar as perseguições do senhor cruel à escrava virtuosa e, assim, conquistar a simpatia do leitor.

Bernardo Guimarães faz questão de ressaltar exaustivamente a beleza branca e pura de Isaura, que não denunciava a sua condição de escrava porque não portava nenhum traço africano, era educada e nada havia nela que "denunciasse a abjeção do escravo".

O que parece uma escolha preconceituosa e contraditória - contar as agruras da escravidão criando uma escrava branca - talvez seja melhor compreeendido se se levar em conta que a maior parte do público que consumia romances na época era composto por mulheres da sociedade, que apreciavam as histórias de amor.

Somem-se a isso o modelo de beleza feminino de então, caracterizado pela pele nívea e maçãs rosadas do rosto e, principalmente, o objetivo do autor de conquistar a solidariedade do leitor pela escrava, mostrando a que ponto extremo poderia chegar o regime escravocrata: "fisicamente, Isaura não é diferente das damas da sociedade, mas, por ser escrava, é obrigada a viver como os de sua classe, como objeto útil nas mãos de seu senhor", conforme afirma a crítica Maria Nazareth Soares Fonseca.

O autor claramente conseguiu o que queria. A sociedade brasileira do século XIX, que tanto se apiedou das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela era branca e educada. O autor pôde, assim, demonstrar, através do seu sofrimento, o quanto "é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza". E é claro, a cor de Isaura serve, como afirma o crítico Antônio Cândido, "para facilitar a ação de Álvaro, compreensivelmente apaixonado e decidido a desposá-la, como fez."

Se houve influência, portanto, do romance A cabana do Pai Tomás, talvez tenha sido apenas no que o crítico Alfredo Bosi aponta como referência: a cena da fuga de Campos para Recife, "talvez sugerida pela fuga de Elisa através dos gelos flutuantes de Ohio para a liberdade no Norte e por fim no Canadá". Entretanto, o fato é que, como aponta o crítico, só depois do lançamento de A cabana do Pai Tomás "a literatura brasileira começou a ser povoada de feitores cruéis e de escravos virtuosos".

Linguagem

O tratamento exageradamente romântico que o autor aplica neste livro faz com que ele tenha um caráter mais de lenda do que de realidade, ao contrário de seus outros romances, como O Ermitão de Muquém (1864), O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872), em que a descrição regionalista do ambiente físico e social proporciona mais verossimilhança à trama.

Em A Escrava Isaura, o excesso de imaginação se traduz em "idealização descabida", como afirma Antonio Candido, que se concretiza no plano da linguagem em descrições repetitivas e mecânicas dos personagens, com abuso de adjetivos redundantes.
Observe-se a descrição de Isaura quando senta-se ao piano no salão de baile no Recife:

"A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu."

Literatura folhetinesa


"Os motivos que compõem romance", segundo Cavalcanti Proença, "são filiados nos velhos e perenes topos" - ou temas - "da literatura popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história de um amor, mas dos sofrimentos do amor. (.) Para isso se entretecem os conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)"

Entre esses temas, há um que remonta à literatura medieval e que domina a narrativa como um todo, a partir da descrição de Isaura como pura e virtuosa, lutando contra a luxúria do seu senhor. É o da donzela inexpugnável, que defende sua pureza com todas as forças de que dispõe, preferindo arriscar-se à morte na fuga a se entregar sexualmente.

Entre os precursores da literatura folhetinesca está o romancista e tipógrafo inglês Samuel Richardson (1689-1761). A sua novela Pamela, ou a Virtude Recompensada, publicada em 1741, certamente é uma das fontes de inspiração mais contundentes para a composição do romance de Bernardo Guimarães.

Bernardo Guimarães acrescenta à trama romanesca inventada por Richardson a figura do cavalheiro salvador Álvaro e a temática bem brasileira da escravidão.

Ler também Wikipédia.

 

O que diz o crítico
M. Cavalcanti Proença
Livro é teatro e cinematográfico

A Escrava Isaura pertence àquele grupo de romances cujo número de edições é, hoje em dia, difícil de fixar, tantas são e de tão diversos editores; prova do favor permanente com que o público, geração a geração, vem esgotando as tiragens do livro de Bernardo Guimarães.

Numa literatura não muito abundante em manifestação abolicionistas, é obra de muita importância, pelo modo sentimental como focalizou o problema, atingindo principalmente o público feminino, que encontrava na literatura de ficção derivativo e caminho de fuga, numa sociedade em que a mulher só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos; o mais do tempo ficava retida em casa, sem trabalho obrigatório, bordando, cosendo e ouvindo e falando mexericos, isto é, enredos e intrigas, como se dizia no tempo e ainda se diz neste romance.

Se desempenhou com eficiência o que dele pretendia o escritor, não há estudo a respeito, nem se conhecem dados que orientem o pesquisador; mas certo é que o livro transcendeu o seu engajamento contemporâneo e ainda hoje sobrevive, pelas características populares que nele se acumulam. E sobre isso falaremos um pouco.

Das personagens poderemos dizer que são estereótipos, de uma coerência rígida, associando, sem mistura, defeitos ou virtudes. Só à figuras secundárias o autor permite um pequeno conflito entre aparências da educação e caráter inato. Assim é Malvina: "posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis toda a nativa bondade de seu coração". As principais, como Leôncio, Isaura e outros são monolíticos, inconsúteis, não se lhes vê emenda ou costura. Leôncio foi "mau aluno, criança incorrigível, turbulento e insubordinado, andou de colégio em colégio". 

Homem feito, volta da Europa "com a alma corrompida e o coração estragado por hábitos de devassidão e libertinagem". Isaura, além do físico, sobre cujas perfeições passaremos em silêncio, além da voz educadíssima, tem, para resumir, características de anjo: Cantando, "se não é sereia, só um anjo pode cantar assim"; "das mãos de Deus saiu um anjo digno de respeito e adoração de todos"; o apaixonado contava com a proteção divina, pensava, "porque protejo um dos seus anjos". Álvaro, o enamorado, para que leve o seu papel, sem desvio, até o fim, é "alma original, cheia de grandes e generosas aspirações", "um desses entes privilegiados sobre quem a natureza e afortuna parece terem querido despejar à porfia todo o cofre de seus favores". 

O amigo que faz equilíbrio com os rompantes de Álvaro é o Dr. Geraldo, "espírito prático e positivo, como deve ser o de um consumado jurisconsulto, prestando o maior respeito às instituições, e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo antagonismo com as idéias excêntricas e reformistas do seu amigo". E há o ignóbil Martinho: "o todo da fisionomia tosca, e quase grotesca revela instintos ignóbeis, muito egoísmo e baixeza de caráter. O que, porém, mais o caracteriza é certo espírito de cobiça e de sórdida ganância, que lhe transpira em todas as palavras, em todos os atos". E recordando aquele grotesco, aparecido lá no começo da descrição, deixemos desde logo estabelecido o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil.

Os motivos que compõem romance são filiados nos velhos e perenes topos da literatura popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história de um amor, mas dos sofrimentos do amor. História de amor há de ser Iaiá Garcia, de Machado de Assis. Para isso se entretecem os conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)

A heroína é beleza, quase a de "Vênus nascendo da espuma do mar"; e, um em seguida ao outro, todos que a vêem se apaixonam por ela. Como no soneto de Maciel Monteiro: "Quem pode ver-te sem querer-te amar-te,/ quem pode amar-te sem morrer de amores?"

Coincidências, com um destino capaz de infligir as maiores derrotas e as mais emocionantes vitórias podemos ver em anticlímax o capítulo XVI, e em clímax o último que suspende a ação, sem prolongar-se em desenlace. Quando as coincidências se acumulam, sente-se o autor obrigado a explicações, o que faz em homenagem ao leitor.

Não faltarão no livro os desmaios de emoção, a heroína caindo desfalecida nos braços do herói, que procura onde colocar, carinhosa e cuidadosamente, o doce fardo. E há um sinal preto no rosto, e uma cicatriz de queimadura acima do seio, o que logo evoca D. Zinevra da novela de Bocácio, Ulisses, de Homero, sendo reconhecido através de uma cicatriz na perna.

Bastante teatral e até cinematográfico, o livro termina bem, happy end, com o vilão castigado e a vítima enaltecida. No cinema haveria o beijo conclusivo; no romance não há.

Isaura é uma criatura a que se aplicaria o adjetivo imbele. Aceita conformada o cativeiro, crê na fatalidade de sua condição, não se revolta contra a instituição do cativeiro, tudo afazendo simpática à sociedade escravagista do tempo. Pois o próprio Bernardo Guimarães que, em vários momentos, inclui digressões parentéticas antiescravagistas, ou escravocratas, como diz, não foge ao preconceito que inconscientemente recebe do ambiente. Ao comentar o caso do senhor devasso, libertino e cruel, que "tendo a seu favor a lei e a autoridade, o direito e a força", vai retomar a escrava que fugira no assédio de sua libidinagem, ele conclui: "Assim, por uma estranha aberração, vemos a lei armando o vício e decepando o braço à virtude". 

Entretanto, apesar desses belos e justos conceitos, censura claramente a presença de Isaura, uma escrava, no baile da alta sociedade do Recife. Preconceito inconsciente, como o de Castro Alves ao falar das tetas das mulheres negras, quando o termo não mais se usava na aplicação que lhe deu Camões, ao descrever a deusa Vênus: "Andando, as lácteas tetas lhe tremiam". (Ou teria sido tirania da rima?) Em Bernardo Guimarães, romancista, o pretexto não cabe: não há rima, haveria mesmo preconceito inconsciente.

A linguagem de Bernardo Guimarães, neste romance, às vezes atinge o caráter de paradigma romântico, compreendendo-se paradigma como acumulação de caracteres, e não um modelo que tenha realidade. Sem aspecto de valor, nem de aprovação. Dois parágrafos podem exemplificar: No primeiro, Isaura, falando de sua condição de escrava, e desmaiando "como lírio ceifado", o escritor comenta: "Uma escrava!... estas palavras, soluçando no peito de Isaura, como o estertor do arranco extremo, murmuradas de boca pela multidão estupefacta, ecoaram largo tempo pelos vastos salões, como o rugir sinistro das lufadas da noite pela grenha do fúnebre arvoredo". No segundo refere ao asco e ao desespero de Isaura, ao saber que a querem casar com o grotesco Belchior: "E uma risada convulsiva e sinistra desprendeu-se dos lábios descorados de Isaura, e reboou pelo lúgubre aposento, como o estrídulo ulular do mocho entre os sepulcros".

Um exame do vocabulário nos mostra que era bem rico o de Bernardo Guimarães, não só o do acervo do romantismo, como o de caráter regional, este último autêntico, tanto sob o ponto de vista formal, como semântico. Assim, a moça irrequieta é "espevitada"; o mexerico, ou "fofoca" da linguagem atual é "enredo" ou "intriga"; homem farrista é "valdevinos"; tarefas que não custam suor são "levianos e delicados serviços"; a curiosidade pode ser "atiçada", como o fogo e, metaforicamente, o cão.

Anote-se, também, por um lado, certo desleixo, que transpõe os limites da virtuosa simplicidade; está neste caso o uso de sintagmas, transformados até em versos feitos, como o dizer que o casal vivia "na mais perfeita harmonia". E, por outro lado, diga-se que esse descuidoso escrever nos dá o registro de nuanças da linguagem oral, tanto reproduzindo a fala dos escravos, como usando a mudança de tratamento nos diálogos em que a segunda pessoa do singular, como até hoje, é recurso de ênfase: "Invejoso!... você é que queria ser o boto, por isso é que está aí a torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era o que o nhonhô te desse de dote à Isaura". Sem esforço o leitor encontrará outros exemplos.

Ficam registrados, como sugestões de trabalho, alguns aspectos do artesanato e composição, bem como da mensagem contida neste romance que um lugar-comum de crítica vem comparando ao Uncle Tom's Cabin, de Beecher Stowe, A Cabana do Pai Tomás, de ampla divulgação no Brasil. Resta, como final de notícia, proclamar com honestidade que análises e anotações não impedem que se renove a comoção do leitor, com pena da escrava Isaura, com raiva da escravidão que ajuda Leôncio, com simpatia pelo arrebatado Álvaro, com...

E por isso que se sucedem as edições de A Escrava Isaura, desde a primeira, em 1875, como um rio perene em que muitas gerações de leitores bebem o seu gole de literatura. Simples, ingênuo, com cheiro e gosto de Brasil.


O que diz o crítico

Carlos Alberto Vechi

A Escrava Isaura: uma ópera em três tempos

O romantismo no Brasil, semelhantemente ao que ocorreu em outros países que, como o nosso, não conheceram a explosão cultural do século XVI - a Renascença -, foi um movimento enciclopédico. Alie-se a isso o fato de ser aquele o momento em que vivíamos a euforia da Independência recém-proclamada. Esse perfil cultural teve como resultado uma literatura empenhada em valorizar nossa terra em todos os sentidos.

Embora o movimento romântico, a partir da chamada "segunda geração", buscasse a exploração de outros temas e, portanto, diminuísse o interesse pelas questões nacionais e nacionalistas, os nomes mais importantes nesse período de nossa literatura são daqueles que estabeleceram, em termos de criação literária, os mitos que motivaram a construção da idéia de Brasil entre nós: Gonçalves Dias, na poesia, e José de Alencar, na prosa. Quanto ao último, é, sem dúvida, quem melhor representa a prosa romântica brasileira em todos os sentidos, a ponto de eclipsar os demais nomes que, por isso, são relegados a segundo.

Nesse aspecto, a História da Literatura Brasileira mereceria uma revisão, pois, entre os escritores colocados em segundo plano, há alguns que não podem ser esquecidos, se quisermos ter uma visão global do que foi a narrativa romântica em nosso país.

Bernardo Guimarães, mineiro de Ouro Preto, constitui-se num dos nomes a ser reavaliado pelo leitor. Até hoje nossa crítica assume uma posição um tanto dúbia diante do escritor de A Escrava Isaura,obra para que convergem agora nossas atenções.

Como toda narrativa romântica, a trama desse romance se desenvolve em torno do Amor. As situações armam-se em função de incidentes que, desde o início, dividem as personagens em dois grupos distintos e irreconciliáveis: o dos bons e o dos maus. De posse dessa estrutura básica, o narrador tece a intriga em que vemos desfilar os contratempos que afligem Isaura até o momento de sua redenção final.

Para melhor situarmos nossas idéias a respeito da obra, faremos um resumo da história. Isaura, filha natural de Miguel e de uma escrava do Comendador Almeida, é a protagonista. Criada como se fosse filha da casa, aos dezessete anos Isaura vê-se cortejada por todos os homens que dela se aproximam. Entre a galeria de seus admiradores encontramos, inicialmente, Leôncio, filho do comendador, e Belchior, jardineiro dos Almeida, figura de aspecto disforme. Ao assédio de ambos, Isaura responde sempre negativamente. Ao primeiro, porque, além de casado, é uma pessoa para a qual o que vale é apenas a satisfação dos desejos carnais. O segundo, Isaura rejeita pelo fato de não ter com ele afinidade de qualquer espécie.

A situação complica-se quando, morto o pai de Leôncio, este, desobedecendo mais uma vez a última vontade da mãe, recusa-se a alforriar a bela escrava. Vendo-se senhor absoluto da situação, Leôncio investe toda a sua concupiscência em cima da indefesa moça. Quando tudo parece perdido, o pai de Isaura vem em seu socorro. Aproveitando-se da ausência de Leôncio, Miguel leva a filha para longe do tirano.

Com a fuga, inicia-se uma segunda fase na vida de Isaura. Em Recife, protegida pelo falso nome de Elvira, conhece o belo e voluntarioso Álvaro. A paixão entre os dois é imediata. Perdidamente apaixonado, o jovem recifense resolve apresentar Elvira/Isaura para a sociedade pernambucana. No baile em que se dá a apresentação, a vida da infeliz jovem complica-se outra vez. Entre os presentes, encontra-se Martinho, que, através do Jornal do Comércio, soubera da fuga de Elvira/Isaura. Movido pela ambição, resolve reencaminhar a escrava a seu dono, a fim de fazer jus à régia recompensa prometida. Entretanto Álvaro impede que tal fato ocorra ao se dispor a tutelar a fugitiva, enquanto a justiça decide seu destino. Mais uma vez a maldade de Leôncio atinge Isaura. Este, ao saber que sua escrava estava em Recife, vai até lá, para levá-la de volta ao cativeiro.

Tem início, então, o terceiro momento da narrativa. De volta à propriedade dos Almeida, vemos Leôncio, que, diante da recusa constante de Isaura, está pronto a desferir seu golpe mortal contra aquela que ousou repudiá-lo. Ele se mostra desejoso de dar liberdade à escrava; mas sob a condição de que ela se case com Belchior. Convencida pelo pai, Isaura aceita o sacrifício. Miguel mostra-lhe uma carta na qual Álvaro dizia ter-se casado. Mais uma trama sórdida de Leôncio.

Porém, no momento em que todos, na sala principal da casa-grande, esperam a chegada do padre e do tabelião para que o casamento seja realizado, ocorre a grande surpresa: Álvaro, munido de documentação que o torna proprietário de todos os bens de Leôncio, enfrenta a desfaçatez do tirano. Frente ao inesperado, Leôncio, desarvorado, sai da sala, apanha uma arma e se mata.

A estrutura narrativa d'A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa, onde a própria vida é colocada em risco. O Amor, epicentro onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio. O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem. E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente.

O demoníaco e o divino medem forças. Isaura, "a perfeita brasileira", é quem com perseverança exemplar dá forças para que Álvaro vença Leôncio. O instinto bestial e a sensibilidade angelical também aparecem sustentando o entrecho narrativo. Leôncio, como o próprio nome indica, é a força bruta e irracional que se move apenas por impulsos primários. Isaura, Miguel e Álvaro representam o antídoto que neutraliza o demonismo que emana da figura de Leôncio.

A Natureza corrobora o caráter edênico que se anuncia desde o início da história. Mais uma vez, romanticamente, o contraste se faz necessário: campo versus cidade. O urbano aparece eivado pela malícia, pela maledicência e pela inveja. O campo, com algumas exceções, é o espaço onde vicejam os nobres caracteres.

Talvez, motivado pelo título da obra, o leitor pudesse cobrar uma tese abolicionista, principalmente considerando o movimento literário que a envolve. Os horrores da escravidão, a não ser em rápidas cenas, ou em algumas falas de Álvaro, ficam relegados a um segundo plano. A heroína, por sua vez, não é negra, é a "perfeita brasileira", mais próxima dos traços físicos e do estereótipo da mulher branca, segundo os padrões da classe dominante. Uma leitura embasada nos princípios de uma tese social, a nosso ver, não só minimiza a pluralidade de conteúdos da obra, como também compromete ideologicamente a fruição do romance. Para ler Bernardo Guimarães sem preconceito, é necessário respeitar a visão do mundo romântica.

No século XIX, o escritor se reconhece capaz de atuar junto à sociedade como formador de opiniões. No entanto nem sempre esse objetivo se realiza, pois o autor incorpora à sua escrita conteúdos, mitos e expectativas próprios da classe dominante. Assim é que se, a princípio, se motiva por algo que venha denunciar e mudar o status quo, o artista acaba por confirmá-lo. Aqui se encontra, se não o cerne da questão, pelo menos uma justificativa para a natureza da narrativa de Bernardo Guimarães: adequar o mundo das personagens ao ideal desejado pelo leitor.

Por outro lado, os românticos criaram em suas obras uma série de arquétipos que confirmavam o imaginário de seus leitores. Para fugir de uma realidade medíocre, pois pautada pela mesmice, passam a criar heróis que conduzem os leitores para um mundo onde sonho e realidade se mesclam. A leitura torna-se sinônimo de catarse, na medida em que possibilita ao leitor liberar sua libido e dar expansão à sua fantasia.

A música, dramaticamente explorada, desempenha papel importantíssimo em A Escrava Isaura. Os diferentes conflitos da narrativa nos são colocados à semelhança do que ocorre num libreto operístico: a ação é o dado mais importante a ser considerado pelo autor. Narrador e outros elementos pertinentes à estrutura da obra aparecem apenas como índices que sublinham os dramas vivenciados pelas personagens. O narrador exerce mais a função de ponto que de relator propriamente dito. As personagens, após breve apresentação, são colocadas em cena representando o papel que lhes cabe. Além disso, a protagonista da obra, em dois momentos importantes da narrativa, se faz presente pelo canto: no início da história, quando Isaura é introduzida, e em Recife, quando, conduzida por Álvaro, é dada a conhecer pela sociedade.

A dramatização de A Escrava Isaura ocorre em três atos: o primeiro se passa na fazenda de Leôncio; o segundo, no Recife; o terceiro e último, novamente na fazenda de Leôncio. Isaura, figura central em todos eles, nos momentos em que é apresentada como modelo, impõe-se pelo canto. Sua voz, segundo o narrador, lembra a de Malibran, famosa cantora do século XIX. É municiado dos princípios que norteiam a composição operística que Bernardo Guimarães dá seu testemunho do Brasil do início do reinado de D. Pedro II. A burguesia brasileira, que, na época, conhecia seus primeiros passos, é o alvo a ser atingido pelo escritor.

E hoje, apesar do distanciamento temporal que nos separa da época em que a narrativa se desenvolve, podemos afirmar que A Escrava Isaura traz em seu bojo aqueles ingredientes que ainda tocam de perto o imaginário do leitor, haja vista o sucesso nacional e internacional que a adaptação televisiva conheceu há pouco tempo.


O que diz a crítica
Maria Nazareth Soares Fonseca
Fada? Anjo? Deusa? Escrava.

Situando a história "nos primeiros anos do reinado de D. Pedro II" e tomando como assunto o drama de uma escrava aparentemente branca, educada e bela, Bernardo Guimarães pretendeu mostrar ao público da época, 1875, os "abomináveis e hediondos" crimes da escravidão e o aviltamento da pessoa humana pela distinção de classe.

Embora trate do grave problema social e humano, a escravidão negra no Brasil, o tema fundamental do romance é o amor, melhor dizendo, os sofrimentos do amor. Amor da infeliz escrava impedida de amar livremente a quem escolhesse; amor egoísta do seu senhor, incapaz de admitir que, sendo dono da escrava, não era, necessariamente, o dono do seu coração.

No primeiro capítulo o narrador se ocupa em apresentar-nos a heroína. Os versos da triste canção que a moça entoa, acompanhando-se ao piano, reproduzem o seu sofrimento:

"Desd'o berço respirando
Os ares da escravidão,
Como semente lançada
Em terra de maldição,
...................................
Os meus braços estão presos,
A ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios, nem meus olhos
Não podem de amor falar;"

Antes mesmo de apreciarmos a figura da escrava, somos levados a sentir o seu drama. Logo a seguir o narrador nos conduz até a sala de recepção da luxuosa fazenda a que pertence Isaura. As linhas puras e suaves do perfil da escrava, a beleza dos seus cabelos que "despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos", contrastam com a sua condição de cativa. São, como diz a escrava, "trastes de luxo colocados na senzala do africano".

No capítulo II aparece Leôncio, o senhor de Isaura. A minuciosa descrição do seu passado visa a configurar o caráter do personagem: quando criança, "mau aluno e criança incorrigível, turbulento e insubordinado"; adolescente, sangra "desapiedadamente a bolsa paterna" com suas aventuras até que encontra no casamento com a linda e encantadora Malvina "um meio mais suave e natural de adquirir fortuna".

Leviano, devasso e insensível, Leôncio saíra ao pai, homem de "coração árido e frio" que, atraído pelos encantos da escrava Juliana, mãe de Isaura, e sendo por ela repelido, sujeitou-a a "tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento", que em breve a pobre morreu. Isaura repete, no presente, o drama de sua infeliz mãe.

No capítulo X aparecerá outro personagem importante ao enredo. Álvaro é o rico herdeiro de uma "distinta e opulenta" família, abolicionista exaltado e, como acentua o narrador, "tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais". Conhece Isaura, agora Elvira para escapar às perseguições de Leôncio, e apaixona-se por ela. Quando, tragicamente, Isaura é reconhecida no baile da mais fina sociedade recifense como a escrava fugida da fazenda do Sr. Leôncio Gomes da Fonseca, Álvaro não a abandona e jura livrá-la do seu vil senhor e do estigma do cativeiro.

Forma-se a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína, herói.

Sem escapar ao convencionalismo romântico e associando aos traços fisionômicos do personagem a sua conduta social, fácil será antever o final do romance. O bem sobrepondo-se ao mal conduzirá fatalmente a história ao fim que se espera: a união de Isaura e Álvaro. Está claro que o obstáculo maior a ser vencido pelo "herói" está no fato de Isaura ser escrava e legítima propriedade de Leôncio. Nem isso impede Álvaro de lutar. Parte para a corte à procura de Isaura, descobre a falência de Leôncio, compra-lhe todos os bens, inclusive os escravos, e desmascara o "vilão". Nada mais o separa de Isaura, a quem oferece a mão de esposo, desafiando todos os preconceitos da sociedade escravocrata de então.

Dada a ausência de profundidade com que são tratados, os personagens do romance são planos, estáticos, permanecendo com as mesmas virtudes e defeitos ao longo de toda a narrativa. São "sempre iguais a si próprios e jamais reservando surpresas ao leitor por suas características especificas, mas tão-somente por sua ação".

Isaura é, do principio ao fim, a escrava submissa que sabe reconhecer o seu lugar. Suporta resignada e dócil a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem se rebelar, sem jamais deixar de ser emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como não o foram "muitas ricas e ilustres damas da sociedade":

"... procurava ser humilde como qualquer outra escrava, porque a despeito de sua rara beleza e dos dotes de seu espírito, os fumos da vaidade não lhe intumesciam o coração, nem turvavam-lhe a luz de seu natural bom senso".

Na senzala, em meio à escravaria, "sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova ocupação que lhe davam", suporta passivamente as provocações da escrava Rosa, ferida com o desdém de Leôncio que a preterira por Isaura.

No Recife, amada por Álvaro, tem escrúpulos de passar por branca livre, traindo a confiança do seu amado:

"- Como posso eu, sem cometer a mais vil deslealdade, aparecer apresentada por ele como uma senhora livre em uma sala de baile?..."

E ainda, ao ser obrigada a se casar com o hediondo Belchior, resigna-se diante da imposição de seus senhores:

"Já que assim o quer, sujeito-me humildemente ao meu destino".

Também nos demais personagens o retrato fisionômico corresponde quase inteiramente à sua conduta social. Como já foi dito, os personagens não surpreendem o leitor em momento algum. Suas atitudes estão implícitas no retrato que o autor traça delas.

Quando afirma que Leôncio volta da Europa com "o cérebro vazio, com a alma corrompida e o coração estragado por hábitos de devassidão e libertinagem" já nos insinua o seu comportamento com relação a Isaura e Malvina, sua esposa.

Ao descrever Álvaro, ressalta sua "alma original cheia de grandes e generosas aspirações". Nobreza de caráter e coragem para lutar contra os valores da sociedade a que pertence serão sempre a tônica do seu comportamento.

Nos personagens secundários o processo não se altera.

Miguel, pai de Isaura, é o feitor que foge ao conceito geral. Longe de ser "o mais detestado entre os escravos", é o amparo da infeliz Juliana e o pai extremoso de Isaura, por quem luta até o fim.

E no vil Martinho a identidade traços fisionômicos-caráter procura ser perfeita: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras que revelam um espírito lerdo e acanhado. E "o que mais o caracteriza é certo espírito de cobiça e de sórdida ganância, que lhe transpira em todas as palavras, em todos os atos, e principalmente no fundo de seus olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente um raio de velhacaria".

Símbolo da estupidez submissa é Belchior, "mostrengo afetando formas humanas, cabeludo como um urso e feio como um mono".

E há ainda o Dr. Geraldo, amigo de Álvaro, advogado conceituado, espírito "prático e positivo como deve ser um consumado jurisconsulto, prestando o maior respeito às insinuações e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade". Procura equilibrar em Álvaro as concepções humanas, mas irreais, às vezes, em relação ao ambiente em que vivem.

Quando Álvaro, inconformado com a situação de Isaura, afirma ser a escravidão "uma indignidade, uma úlcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege" e se dispõe a unir-se a Isaura, mesmo sabendo ser uma afronta à sociedade, Geraldo lhe responde com lucidez:

"- És rico, Álvaro, e a riqueza te dá bastante independência, para poderes satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua imaginação romanesca."

Verdade que, consideremos, não se restringe apenas à sociedade escravocrata do século XIX.

As concessões feitas aos preconceitos da sociedade da época não invalidam a posição antiescravagista do autor.

Fica claro no romance que Isaura é escrava apenas quanto ao seu comportamento submisso e indisposto a lutas e reivindicações. Fisicamente em nada difere das damas da sociedade da época. Mas é escrava e tem de viver como os de sua classe: objeto útil nas mãos dos seus senhores. A sociedade brasileira que, no século XIX, tanto se condoeu das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela era branca e educada. Sendo branca e nada havendo nela que "denunciasse a abjeção do escravo" pôde demonstrar com seu sofrimento o quanto "é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza".


O que diz o crítico
Basílio de Magalhães
Livro é um estudo social

É provável que Bernardo Guimarães haja pensado em fazer do seu romance "A Escrava Isaura" uma arma de combate em prol da abolição definitiva da escravidão, nódoa hedionda que, quase ao finandar o século das luzes, ainda enegrecia o auriverde pendão da nossa pátria. Apareceu este livro quatro anos depois da chamada "Lei do Ventre-Livre", e depois dele ainda o nefando instituto durou treze anos.

Em "Isaura", como mais tarde em "Rosaura", ele, que era graduado em direito e exercera a magistratura, tomou por tema, perscrutando-lhe as feições jurídicas e sentimentais, o princípio legal de "partus ventrem sequitur" , à cuja sombra não só crescia vegetativamente o número de escravos, mas também se praticavam execrandas infâmias.

Elogiando aquela produção, apenas venho ela à publicidade, disse o "Jornal do Commercio", de 29 de maio de 1875: "A Escrava Isaura pode bem rivalizar com a célebre Cabana do Pai Thomaz. Mas a verdade é que nenhum dos  dois referidos trabalhos do escritório mineiro teve no Brasil, contra a servidão negra, a mesma salutar influência que na América do Norte se deveu à obra da Beecher Stowe."

Entretanto, "A Escrava Isaura" é, quer pela vivacidade e emotividade do enredo, quer pelo melho alinho verbal, um estudo social que honra o talento de Bernardo Guimarães.

Salvante uma ou outra inverosimilhança, tanto mais quanto não lhe eram familiares os cenários de Campos e Recife, -- a descrição da Fazenda sita à margem do Paraíba e o caráter das personagens revelam mão de mestre.

Em quase tudo alcançou fixar acertadas observações do que mais freqüentemente ocorria nas estancias brasileiras, ao tempo da escravidão: - os trabalhos na senzala e no eito, os castigos corporais, ao lado da predileção do português pela preta, da lascivia do fazendeiro requestando a escrava, dos ciúmes e até da inata sentimentalidade da vítima perdoando ao algoz. Isaura, Leôncio, Malvina, Belchior e Alvaro são figuras em que moral e psicologicamente se vêem conjugados a primor. Quando o autor afirma de Leôncio que este chegou a estimar a morte do pai, -- nada há nisso de inacreditável, pois que o moço, além de oberado de dívidas, era um sensual, em quem já se achavam obliterados os instintos nobres. Em suma, o que mais nitidamente define o intiuito do romance é a seguinte frase do capítulo XV: - "Uma instituição má produz uma infinidade de abusos, que só poderão ser extintos cortando-se o mal pela raiz".

Que esta excelente produção de Bernardo Guimarães, -- na qual a mulher, triufante pela beleza, não passa de um pretexto para a defesa da liberdade humana, -- logrou popularizar-se no Brasil, é ponto fora de dúvida, porquanto ainda a relembra a nova geração, votada às letras, como o patenteia o recente trabalho de Mário de Andrade, "A Escrava que não era Isaura".

Nota.: O texto acima foi extraído do livro "Bernardo Guimarães - (esboço biográfico e crítico) de Basílio de Magalhães. A edição é de 1926 e a editoria, a Typographia do Annuario do Brasil - Rio de Janeiro. 


Trecho do livro
"Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestíbulo ao edifício. Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramosaberta uma larga porta, que dá entrada à sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham-se distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como mármorepolido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairavalhe pelo espaço. Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza,e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único ornamento. Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua canção."  (Capa de Valdir Oliveira/Giuseppina para a Coleção Travessias da Editora Moderna. A edição do livro é de 1994.)        




Subpáginas (1): Isaura: um estudo
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