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José Armelim Bernardo Guimarães (1915-2004), neto

Nasci em Itajubá, MG, em 6 de março de 1915. Sou filho de Pedro Bernardo Guimarães, o último filho do romancista e poeta Bernardo Guimarães. Sempre fui um fascinado admirador de meu avô paterno, do qual muito me envaideço de descender, encantado com sua vida inteiramente consagrada à arte literária, com seu talento criativo e seu devotamento a Minas Gerais e ao Brasil, e ainda com seu temperamento do homem desambicioso, inimigo e fugitivo de gloriolas sociais, da pabulagem e da sofomania, mas um genial enamorado da natureza, um entusiasta do viver simples do sertanejo, um escravo da estesia, um boêmio sui generis, à moda d'ele... 

Lamento que Bernardo Guimarães vem sendo, até hoje, um incompreendido. De criticastros incapazes, de cronistas a quo em assuntos de letras e de mérito literário, de comentaristas picarescos que lançam mão de histrionices e ricularias pretendendo falsificar a personalidade do grande romancista, poeta e jornalista ouro-pretano, de todos esses zoilos medíocres e incompetentes publicistas meu avô tem sido vítima.

Não é verdade, como querem tais chalaceiros, que Bernardo Guimarães tenha sido um ébrio inveterado. Se, quando acadêmico, na Paulicéia, participou de algumas libações excessivas na companhia de colegas do curso jurídico, posteriormente, no entanto, sobretudo quando já casado, foi um moderado em bebidas. Se gostava de um bom vinho à mesa, não significa isso que tenha sido um borracho habitual. É o que assegurava minha saudosa avó, Teresa Gomes de Lima Guimarães, falecida em 1934, quando tinha eu 19 anos de idade. Ela veemente protestava contra as lendas inventadas pelos que tentam denegrir a memória do famoso escritor mineiro, atribuindo-lhe um viver de esbórnias até o final de seus dias! 

Com respeito ao romance A Escrava Isaura, surge uma acusação de críticos que chega a tocar as raias da estupidez! Quer parvoíce de alguns analistas improvisados que Bernardo Guimarães tenha sido um racista, porque Isaura é branca... É óbvio que, se Bernardo houvesse imaginado uma escrava crioula, jamais o seu romance, escrito em pleno regime da escravidão, teria alcançado o estrondoso sucesso que teve, ainda hoje lido e admirado, o campeão em número de edições entre  todos os romances brasileiros, e teria sido frustrada a campanha abolicionista do autor.

Quem ler esse livro imortal, encontrará o repúdio de Bernardo pela discriminação do negro e o cativeiro imposto aos nossos irmãos de cor. Quando faleceu seu íntimo amigo negro, o escravo Ambrósio, ele compôs o poema À Sepultura de um Escravo, que foi incluído no volume Cantos da Solidão.

Veja-se ainda o Hino à Lei de 28 de setembro de 1871 (Lei do Ventre Livre), incluído no volume Folhas de Outono, que também não é obra de um racista.

Outras injustiças Bernardo Guimarães tem sofrido. Entre essas outras, a preterição de sua profecia de Brasília. Querem que tenha sido São João Bosco quem primeiro teve uma visão da nova  capital no planalto central do Brasil. É engano. É desconhecer a obra poética do vate de Ouro Preto! Foi Bernardo Guimarães quem previu a construção de Brasília no sertão goiano, que ele bem conheceu, e onde foi Juiz Municipal, muito antes das visões do piedoso salesiano.

O poema O Ermo, que figura no volume Cantos da Solidão, é a miragem surgida aos olhos do poeta, em que viu aquelas matas e incultos campos transformados na grande urbe planáltica, como conta neste trecho:

"Mas, não te queixes, musa; são decretos;
Da eterna Providência irrevogáveis!
Deixa passar a destruição e morte
Nessas risonhas e fecundas plagas,
Como charrua, que revolve a terra,
Onde germinam do porvir os frutos.
O homem fraco ainda, e que hoje a custo,
Da criação a obra mutilando,,
Sem nada produzir destrói apenas,
Ananhã criará, sua mão potente,
Que doma e sobrepuja a natureza,
Há de imprimir um dia forma nova
Na face deste solo imenso e belo;
Tempo virá que nessa valada
Onde flutua a coma da floresta,
Linda cidade surja, branquejando
Como um bando de garças na planície;
E em lugar desse brando rumorejo
Aí murmurará a voz de um povo,
Essas encostas broncas e sombrias
Serão risonhos parques suntuosos;
E, esses rios que vão, que vão por entre sombras
Ondas caudais serenos, resvalando,
Em vez do tope escuro das florestas,
Refletindo no límpido regaço,
Torres, palácios, coruchéus brilhantes,
Zimbórios majestosos e castelos
De bastiões sombrios coroados,
Esses bulcões da guerra, que do seio
Com horrendo fragor raios despejam,
Rasgar-se-ão dos vales os abismos;
Mil estradas, qual vasto labirinto,
Cruzar-se-ão por montes e planuras;
Curvar-se-ão os rios sob arcadas
De pontes colossais; canais imensos
Virão sulcar as faces das campinas..."

Em 1985, sob o título de "E Assim Nasceu a Escrava Isaura", publiquei uma biografia de Bernardo Guimarães pela imprensa do Senado Federal. Infelizmente, foi uma edição com muitos e lamentáveis erros tipográficos, omissões e trocas de palavras. Tenho pronto, e ainda inédito, elaborado com mais amplo material informativo e ilustrações. São 352 páginas datilografadas, à espera de um editor... Uma biografia mais alentada, em que saliento o Bernardo incompreendido, injuriado, esquecido, ignorado, preterido...

José Armelim Bernardo Guimarães - Itajubá, MG, julho de 1998


"O romancista da Abolição, Bernardo Guimarães", livro de José Armelim


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