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Professor em Congonhas do Campo e Andaluz

por Armelim Guimarães

O presidente da Província, quando menos se esperava, suprimiu a cadeira de Retórica, Filosofia e Poética do Liceu Mineiro de Ouro Preto. Bernardo Guimarães ficou desempregado. De trabalhos forenses, nem queria ouvir falar! Valia-o, a ele e à família, a farta mesa de D. Felicidade. Que felicidade!

Em 1870, deram-lhe interinamente as cadeiras de Filosofia e de Português do colégio de Congonhas do Campo [a cidade passou a se chamar apenas Congonhas - nota do editor do site].Em 1873, obteve o poeta a nomeação de professor de Latim, Francês e Filosofia do Colégio de Queluz, cidade hoje chamada Conselheiro Lafaiete. Voltou para ele o viver de cavalgante, às vezes sob chuva, por estradas lamacentas, e os pousos de favor, em casas de velhos amigos – tinha-os por toda aquela redondeza – nas quais permancia dois ou três dias. Aliás, a vida assim não lhe era nada de dissabores.

Bernardo Guimarães amava os passeios no lombo de cavalgaduras. Era um experiente marialva. Montava e dominava animais xucros sem se lançar da sela, com habilidades e destreza de meter inveja em muitos peões. “Tinha o gênio do boêmio e participava o delírio ambulatório de judeu errante, caminhando sempre;mas a feição do desagrado não aprece no seus versos”, disse de Bernardo o escritor Artur Motta, na “Revista do Brasil” (1920).

Queluz, onde agora era professor, fora um dos cenários da revolução liberal de 41, da qual, nos seus 17 anos, ele participara como combatente das forças legalistas. E fora dali havia então poucos anos, que partira um pelotão de cerca de 25 voluntários destemidos para engrossar a primeira brigada mineira que partiria de Ouro Preto para a guerra com o Paraguai. Era a cidade, pois, que estava na imaginação do poeta, carregando-a de reminiscência, de saudade e de civismo.

E lá estavam, na lendária Congonhas, as estátuas de pedra-sabão de Aleijadinho. O que o romancista ajuizava a respeito dessas esculturas, sobre as imperfeições que lhe causaram aquelas obras do imortal poeta, ele o fixaria numa das páginas de “O Seminarista”. Bernardo não gostadas das obras do escultor, seu conterrâneo.

Pois foi durante esse novo período de judeu errante que lhe nasceu o segundo filho, a 13 de janeiro de 1870. Era o Horácio. Tinha de chamar-se assim, já que estava no Hamlet, ao lado de outro Bernardo...

Se, porém, um berço lhe sorria, um túmulo o magoava profundamente. Falecera, então, o mano padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães. No ano seguinte, outro sepulcro surgiria para entristece-lo: desaparecia Flávio Farnese, al qual dedicou, à guisa de necrológico, um sentida poesia, incluída que foi na “Novas Poesias”.

Embora pouco compensador o magistério, Bernardo dele não se afastaria, nem em troca de atrativos da Corte e dos engodos da magistratura. “O Sr. Bernardo Guimarães – observa José Carlos Rodrigues na crítica às “Lendas e Romances”, publicada no “Novo Mundo”, de 24-6-1872 – ufana-se muito em descrever os costumes de sua Província natal, e, com toda a razão, prefere cultivar o belo, que há neles, a inspira-se na vida de luvas e pelica de lenços almisacarados das rodas parisienses da nossa sociedade”.

“Chamado para fazer parte do corpo docente do Colégio de Congonhas do Campo – recorda-se disso Carlos José dos Santos – deram-lhe a cadeira de Filosofia. Ficou contrariado com o procedimento do Reitor do Colégio, a quem pedira a cadeira de Português e Retórica. Na primeira aula, estavam todos de batina, e Bernardo começou solenemente:

Vou pregar um sermão de São Coelho
Com seu barrete vermelho.
Nos tempos da moura torta,
Viu-se um sapo de espadim
Que perguntava em latim
Pela casa da mosca-morta.
...............................................

Era a maio do bestialógico  que o levava a essas brincadeiras.

Nunca o escritor de Minas se sentira tão atraído pela natureza como nessa quadra de sua vida. As viagens semanais a Congonhas do Campo ou a Queluz avivaram-lhe o plectro e a imaginação. Delineara dezenas de romances, dos quais poucos foram realmente escritos. As ideais desfilavam apressadas em seu cérebro. Todas as suas histórias teriam por cenário a natureza. Nada de salões e de grandes cidades! Tudo seria mesmo no mato, no sertão, nas faisqueiras, nas fazendas.

Ali não esta “a própria natureza – pergunta Machado de Assis – opulenta, fulgurante, vivaz, atraindo os olhos dos poetas, e produzindo páginas como as de Porto Alegre e Bernardo Guimarães?” (Críticas Literárias”, edição Jackson, página 75).

Dedicando-se agora mais à prosa que ao verso, o romancista mineiro deitou, por uns tempos, a um canto, a sua harpa, esquecendo-se das aguais de Hipocrente, para empunhar a paleta do pintor. Notou-o Machado de Assis.

Foi a época em que Bernardo escrevia sem parar, às vezes até mesmo a cavalo, fazendo de mesa o Atlas de Géographie de Grosselin-Delamarche, que ele apoiava no santo-antônio d sela. Distraía-se tanto nessas tarefas que, às vezes, segundo Sousa Ataíde, o animal “ficava à deriva”, levando-o por outro caminho, e “quando o romancista imaginava estar chegando a Congonhas ou a Ouro Preto, é que percebia estar em outra localidade, na qual, no entanto, sempre havia amigos que lhe garantiam hospedagem, de braços abertos e a qualquer hora”.

Em 1871, publicou três histórias, enfeixadas em um só volume a que deu o título de “Lendas e Romances”, lançamento de H. Garnier.

O primeiro destes trabalhos é “Uma história de quilombolas”, sobre o qiaç asso, opina José Carlos Rodrigues: “Este romance, como o “Garimpeiro”, é notável pelo vigor e riqueza das cores, em que o autor pinta os seus quadros de vida do campo e da roça, no Brasil”. (“Novo Mundo, de 24-6-1872).

Nesta obra, Jacques Raimundo colheu vocábulos para o seu estudo “O Elemento Afro-Negro na Língua Portuguesa”. Mateus Cobra e Anselmo gostam de uma mesma beldade, a Florinda, daí o drama de aventuras e mil peripécias no quilombo do Zumbi Cassange. Parte desta obra foi vertida para o francês por Victor Orban.

O segundo trabalho é a “Garganta do Inferno”. baseado numa lenda corrente em Lavras Novas. É a história sinistra de Lina. Segundo assevera Basílio de Magalhães, foi baseado nesse conto que Otávio compôs o drama “Sonhos Funestos”, publicado em 1895, na “Revista Brasileira” e editado em volume pela Casa Laemmert. A Lina de Bernardo é a Luísa de Rodrigo Otávio; Gertrudes, a Mariana; Daniel, o Fernando. Frederico dos Reys Coutinho inclui esse trabalho do vila-riquense entre os “Mais belos contos de Amor”, edição de 1945, da Editora Vecchi.

A terceira parte de "Lendas e Romances" é um interessantíssimo conto intitulado "A Dança dos Ossos". Cirino, o barqueiro do Paranaíba, conta como foi a aparição do esqueleto de Joaquim Paulista, à beira do caminho. Teria Bernardo Guimarães encontrao a inspiração na visão bíblica de Ezequiel? Como causo do Cirino, vem o da vaca, na estrada, à noite, que deu a ilusão de dois negros carregando um defunto numa rede. Já neste século, o primoroso estilista Hugo de Carvalho Ramos, contista goiano. nas suas "Tropas e Boiadas", reproduziria, sem cerimônias, sob o título de "À beira do pouso", esse episódio imaginado por Bernardo Guimarães, aproveitando-lhe integralmente todo o entrecho. Plágio indubitábel, não há dúvida.

Remetidos ao Garnier os originais de "Lendas e Romances", principia imediatamente Bernardo uma outra novela. Agora é "O Garampeiro". Aproveita o escritor os lugares que conhecia nas suas andanças pelas bandas de Catalão. Elias é o novo herói, que se torna garimpeiro para merecer a mão de Lúcia, a filha do orgulhoso Major. 

Esse romance foi vertido para o francês por Victor Orban. Para o teatro, adaptou-o Joaquim Costa Mattos, com o título de "Artur e Leonor", representado pela primeira vez em 1896, na cidade de Barbacena. "Além disso, "O Garimpeiro" já teve a honra de ser posto em filme cinematográfico", observa Basílio de Magalhães.

Esse romance, no dizer de Sílvio Romero, "é uma narrativa local, é romance de costumes. Tem boas páginas descritivas, regulares quadros de gênero. Deste número é a 'cavalhada', que corre logo no segundo capítulo". Na Bagagem, palco das cenas emocionantes do romance, e onde Simão colhiai os diamantes, foi, realmente, naquela época, uma região muita rica de gemas. Lá se encontrou, em 1853, a célebre "Estrela do Sul", que deu nome ao lugar, bem como o diamente de Dresden, dividido nas "custosas pedas que fulgem hoje dos escrínios de um príncipes indiano", e ainda o valioso diamante de coroa de Portugal, "maravilhosa luminosa, achada nas grupiaras da fabulosa região, e o número nunca visto de pedas catadas nas margens" do "milionário curso d'água" do lugar. (Waldir Costa, "Araxá", 1950, página 138).

Vê-se, pois, o cuidado de Bernardo Guimarães em emprestar aos seus romances a realidade do cenário. "A cidade de Patrocínio, no Oeste de Minas, situada no alto de um espigão, ao pé da serra do Cruzeiro, donde se divisam, em todas as direções, os mais deslumbrantes panoramas, mercê dessa riqueza de aspectos topográficos, já teve a honra de ser descrita peo grande romancista mineiro Bernardo Guimarães, que ali fez desenrolar parte do enredo de uma das suas histórias mais populares, "O Garimpeiro". (Maria de Melo chaves, "Bandeirantes da fé", capítulo 18).

Em poder do escritor Moacir Andrade ficou uma carta de B. L. Garnier, dirigida a Bernardo Guimarães, datada de 28 de março de 1872, na qual dá notícias sobre o lançamento de “O Garimpeiro” e dos minguados pagamentos de direitos autorais. Essa carta foi transcrita, na integra, no suplemento literário de “A Manha”, de 14 de março de 1943.

Entre as muitas edições de “O Garimpeiro”, inclui-se a lançada pela Editora Brasil-América (Ebal) S/A, do Rio de Janeiro, em formato de revista, e “em quadrinhos”, o que foi uma novidade.

Um dos maiores estímulos para prosseguir, teve-o Bernardo Guimarães  com o prometedor sucesso de “Lendas e Romances”. Naquele tempo, uma venda de dois mil exemplares constituía um best-seller. Animou-se o romancista a remeter ao Garnier um outro volume da histórias várias. De uma assentada escreve a novela “Jupira”, um dos melhores trabalhos do prosador ouro-pretano, que ajuntou à crônica histórica “A Cabeça de Tiradentes” e à novela “A Filha do Fazendeiro”, enfeixando tudo isso em um outro volume, com o título de “Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais”, volume também aparecido em 1872.

“A Cabeça de Tiradentes”, que vem em primeiro lugar, narra a lúgubre aventura de um ardoroso devota da Inconfidência que, a desoras, com um chuço,  derribou do poste de expiação a cabeça do mártir, para com ela correr e sumir-se nas trevas. A história é verídica.

“A Filha do Fazendeiro” é a bela Paulina, filha do Capitão Joaquim Ribeiro, da Uberaba. Tudo aqui acaba em lamentável tragédia, com o suicídio de Roberto, a morte de Paulina e o enlouquecimento de Eduardo. “Romance para comover, e comover intensamente, “A Filha do Fazendeiro” é uma jóia literária de apurado louvor”, opina Dilermando Cruz no seu “Bernardo Guimarães”.

Termina o volume com a histórica de “Jupira”. Aqui o escritor rememora o cenário de Campo Belo, no Triângulo Mineiro, que ele conheceu quando aluno dos padres Lazaristas. É o local onde ora se encontra a cidade de Campina Verde. Baguari é um índio real, pois já se disse que Bernardo conheceu de perto as malocas e as ocaras, no convívio da Farinha Podre, sodalício ao vivo de que nenhum outro romancista participou. “Jupira”, índia civilizada, liquida por ciúmes, ao pobre do Carlito, que andava rodeando a Rosália.

“O Seminarista”

Era em Campo Belo que estava o seminário do Padre Leandro, que Bernardo freqüentou. E nesse ambiente claustral se inspirou para compor outro romance, “O Seminarista”.

Bernardo aqui retrata o ordinando sem a vocação para o sacerdócio, em malograda luta contra a carne, atirando ao convento pela caturrice dos pais, um procedimento encontradiço naqueles idos. Eugênio, seminarista, e Margarida amam-se, mas os pais do moço exigem-lhe a ordenação sacerdotal. E fazem de tudo para que Eugênio não se aproxime de Margarida, mas ele o faz às ocultas. Sabendo-o, Francisco Antunes, o pai desnaturado, expulsa a humilde jovem de sua fazenda, e manda ao seminário de Congonhas do Campo uma carta mentirosa, em que dizia que a moça se casou com um fulano qualquer.

O padre diretor comunicou a Eugênio a falsa notícia. Alucinado, abatido pelo desespero, o moço aceitou a ordenação. Na véspera de sua primeira missa, em Tamanduá, ele é chamado para atender em confissão uma agonizante. Era Margarida! E é ela própria que lhe revela ter sido mentirosa a notícia de seu casamento! No dia seguinte, antes de iniciar o ofício, o recém-ordenado tem de encomendar um cadáver. É o de Margarida! Não suportando tão grande sofrimento, o Padre Eugênio, desvairado, já nos degraus do altar, arranca do corpo os parâmetros, atirando-os longe, e atravessa a multidão que, de joelhos, aguardava o início da missa, sai correndo porta afora, transtornado pela demência, “louco furioso”.

Grande romance, uma das melhores obras do romancista de Ouro Preto. Se assinada fosse por um Shakespeare, se extravasaria, atravessando todas as fronteiras da intelectualidade universal, e hoje culminaria ao lado das maiores concepções da arte literária que o mundo já viu. Mas Bernardo não escrevia em inglês, e seus leitores não são os mesmo do lendário dramaturgo de Stratford On Avon. Obra-prima, não só pela segurança de estilo e das observações, como pela realidade e originalidade dos fatos. “Não estarei longe de acertar, asseverando que “O Seminarista” é a obra-prima de Bernardo Guimarães, no gênero novelístico”, assim ajuíza Basílio de Magalhães. “Este trabalho é bom, sendo o mais bem acabado de Bernardo Guimarães”, opina João Alphonsus na “Revista do Brasil”, de maio de 1941.

Foi essa obra editada em 1872 pelo Garnier.  Dois anos depois, isto é, em 1874, Hugo Leal publicaria um romance com o mesmo título.

“O livro deixa-se ler docemente; não é atordoador e cheio de convulsões; a ação corre serena e vai direta ao seu fim. Tem muita verdade psicológica e muita exatidão de tintas nas cenas locais. Não tem aquele aspecto doutrinário, escavador, científico, técnico, que tem invadido o romance moderno, às vezes levado a tal exagero que antes  ler um tratado de patologia, especialmente de moléstias do sistema nervoso e das faculdades mentais, do que ler tais livros, que, afinal de contas, nem ciência nem arte são. O nosso livro não tem aquele aspecto demonstrativo de uma equação algébrica nem o tom realista de um processo-crime. O romance é vazado nos velhos moldes. Mas tem verdade, dessa verdade que impunha a um homem que tinha os olhos abertos, como Bernardo Guimarães, e sabia observar, ainda que o não ostentasse”, assim escreve Sílvio Romero em sua “História da Literatura Brasileira”.

Basílio de Magalhães, que compara “O Seminarista” ao “Eurico”, de Herculano, faz este comentário: “Os capítulos 11 e 12, concernentes ao mutirão e à quatragem e que se assemelham aos do batuque e da briga do “Ermitão de Muquém”, são admiráveis de fidelidade e de respeito à cor local”.

Bernardo não fez, aqui, uma novela de simples ficção. A história, mais ou menos, ouvira-a da tradição corrente na vila de Tamanduá, atualmente cidade do Itapecerica. “Conheço – diz o mesmo biógrafo – o cenário apainelado com cores reais por Bernardo Guimarães, e em Itapecerica mostraram-me a casa onde residiu e faleceu Margarida. Era uma das mais antigas daquela cidade, e já foi derribada e substituída por um prédio novo”.  Sousa Ataíde diz ter visto, “num canto do cemitério de Formiga, o tumulo de terra, encimado por uma velha cruz de pau, já quebrada, abandonada e apodrecida” que, segundo lhe informaram, era o de Eugênio.

Augusto de Lima, e com eles outros intelectuais, crê que Bernardo Guimarães, em “O Seminarista”, combate o celibato do clero. O próprio romancista faz crer isso, quando põe esta exclamação na boca do desditoso padre:

-- “Ah, celibato!... Terrível celibato!... ninguém espere afrontar impunemente as leis da natureza! Tarde ou cedo elas têm seu complemento indeclinável, e vingam-se cruelmente do que pretendem subtrair-se ao seu império fatal!...”

A verdade é que o escritor ouro-pretano jamais pensou em combater o celibato clerical, e ninguém mais do que ele admirava e louvava o sacerdote de vocação.

Duas foram as obras de Bernardo Guimarães que tiveram relevante alcance social e um objetivo altruístico: “A Escrava Isaura”, obra de abolicionista destemido, e “O Seminarista”. Sua nobreza de propósito não encontra outro exemplo, entre os demais romancistas nacionais, que o possa igualar nessa feição de penetração doutrinária e humanitária. Quem tem notícias do condenável procedimento dos nossos avoengos, que supunham poder dominar e transformar a natureza, o coração e o temperamento de seus próprios filhos, impondo-lhes a sotaina, compreenderá e aplaudirá “O Seminarista”, sem lhe atribuir campanha anticlerical ou de combate à castidade sacerdotal.

Aos seus amigos de Ouro Preto, o escritor não escondeu o seu verdadeiro intento com a publicação do romance, com o qual se opunha a uma distorção familiar da época. Vivia-se numa era patriarcal de muita devoção e piedade cristã. Havia, então, pais que, para alcançar uma graça, um favor do céu, um milagre, uma bênção do Senhor, faziam a Deus ou a um santo a promessa da dar um filho para o ministério do Altar, às vezes até mesmo antes de o filho nascer, e isso sem atentarem para a vocação, carisma ou chamamento do Alto. E para que esse voto fosse cumprido, exigiam severamente do moço a ordenação sacerdotal, tivesse ou não tendência para o culto divino, e empregavam, para tanto, se preciso, até a violência ou perfídia, para não verem frustrado o compromisso assumido com Deus. Pois era precisamente essa incompreensão e essa imposição desumana daqueles pais de outrora que Bernardo desejou combater, e não o celibato para o sacerdote de vocação.

Hernani de Irajá, em “O Sensualismo na arte” procura descobrir tintas de lascívia nesse  romance nem sempre compreendido, do qual transcreve uma trecho em que divisa a luxúria ilustrativa do tema de sua obra. “Bernardo Guimarães – diz ele --  menos pormenorizador (que Júlio Ribeiro), mas, no entanto, igualmente forte na maneira de tratar os assuntos, tem em “O Seminarista”, que destacamos particularmente de seus outros romances, ´páginas em que pinta bem ao vivo as fraquezas da carne.”

Contrariando o habitual recato do romancista mineiro ao tratar de entrechos eróticos em suas novelas, e criando, ao seu talante, uma cena de cabritismo, o cinema, em obediência à preferência hodierna, acrescentou  ao “O Seminarista” um forte quadro de voluptuosidade, com vistas na bilheteria.

Índio Afonso

Em seguida, escreveu B.G. “O Índio Afonso”. 

Para vingar a irmã Caluta, Afonso pratica as mais atrozes crueldades com Toruna, o cabra que tentou violentá-la. é uma história de banditismo, vivida nos sertões goianos. No prefácio, elucida o autor que Afonso “é personagem real e vivo ainda”. E, por isso, não revelaria o fim de seu bandido. Encontramo-lo, contudo em Almeida Nogueira:

“Na comarca de Bagagem teve (João Correia de Morais) de afrontar os mais graves perigos na repressão ao banditismo que infestava aquela zona. Houve ocasião de travar verdadeiros combates com os facínoras, organizados em bandos armados e sob as ordens do célebre índio Afonso, de legendária e romanesca memória. O herói de Bernardo Guimarães perece na primeira dessas expedições, resistindo com as armas não mãos às ordens legais do juízo para a prisão dele e de seus companheiros. Esses fatos, cujo eco chegou ao Parlamento, causaram grande emoção em toda a comarca de Bagagem e circunvizinhanças, cuja população vivia aterrada pela fama e feitos atrozes dos bandidos”. (“Tradições e Reminiscências”)

João Correia de Morais, que assim deu cabo do índio Afonso, era sogro do escritor Waldomiro Silveira.

O jornal “Reforma” noticiou as façanhas do temido sicário, referindo-se a ele como o “herói de um dos contos de Bernardo Guimarães”, slogan, aliás, encontrado em todos os periódicos da época. Mas o escritor, em resposta, nega a identificação do famoso jagunço com o seu personagem, pois, conforme ele declara no prefácio da novela, apenas se inspirara no célebre faquista.

“Tal índio, personagem tirado da realidade, deu ao romancista certa dor de cabeça, num incidente que serve para mostrar a sua honestidade literária, a sua maneira de colher o material e de romanceá-lo, a sua preocupação de exatidão com as paisagens. É que Afonso, depois de posto no conto, viera a cometer um atentado horroroso, acompanhado das circunstâncias mais atrozes e revoltantes”, escreve João Alphonsus.

Que o índio Afonso realmente existiu, confirma-o Cornélio Ramos em “Catalão de Ontem e de Hoje”.

“Era Bernardo Guimarães um bom nadador, nos seus tempos de solteiro, juiz de direito em Catalão, na fronteira de Minas com Goiás, estivesse o Paranaíba calmo ou revolto, atravessava-o a nado para participar de pagodes roceiros do lado de Minas Gerais, onde afirmam  teria ele uma namorada que o trazia apaixonado.

“Índio Afonso” 

“O romancista não tinha preconceito social; com a mesma facilidade com que se relacionava com pessoas respeitáveis, misturava-se e convivia com toda espécie de gente: boêmios, bêbados, pobres, roceiros injustiçados e sofridos, jagunços perigosos e mulheres da vida. Talvez para melhor conhecer a alma humana. Certa vez passou um mês inteiro nas margens do rio Paranaíba pescando, caçando e bebendo cachça ao lado do famoso sicário João Afonso e seus comparsas, ouvido suas aventuras, anotando suas histórias e narrativas de seus crimes, após o que voltou-se para o temido aventureiro e exclamou: 

-- Afonso, tu não és um criminoso, és um herói! 

“Desse colóquio nascia mais um livro: “O Índio Afonso”, tendo como cenário o município de Catalão e que em repetidas edições levou o nome de nossa cidade a todos os recantos do Brasil. 

“Outro livro notável do popular romancista, que teve como cenário o Estado de Goiás, “O Ermitão de Muquém”. de temática indianista como o anterior e cujo principal personagem, de nome Gonçalo, é tido como o fundador da famosa Romaria de Muquém, no norte do Goiás. 

“É em Bernardo Guimarães que se encontra o germe do regionalismo em nossa literatura. Ponto de partida de uma modalidade literária que evoluiria do simplismo bucólico até o seu atual e complicado feitio, quando os problemas políticos e sociais tomaram conta dos tempos regionais.” 

Monteiro Lobato, porém, que sopeava com desdenhativa ironia e humorismo a paleta do Bernardo Guimarães, na qual só via tintas cediças e terra-a-terra, assim dizia numa carta a Godofredo Rangel, em 1911: 

“O livro que você planeja sobre bandidos do sertão, capangas etc., também é necessário. O assunto foi tocado pelo velho Bernardo Guimarães e outros – gente de pouco realismo – e romantismo em dose maior que o quantum satis. O folião está virtualmente virgem. Uma das vantagens do romancista brasileiro é poder lidar só com virgindades. Nenhum tema nosso tem barriga suja. A literatura faz pendant com a lavoura: ambas só lidam com matas virgens, terras virgens. Tudo está por fazer. Aqui em São Paulo, quanto elemento de primeira ordem à espera dos Balzacs e Zolas, pedreiros que saibam assentar tijolos!” (“A Barca de Gleyre”, Companhia Editora Nacional, 1944, página 213).  

O grande Lobato, inexcedível estilista, a pena mais original e precisa de nossas letras, como crítico, porém, foi um “pedreiro” muito hábil. Seus tijolos nem sempre eram colocados em benefício do humorismo. Esquecia que, nos tempos do prosador de Ouro Preto, cá neste nosso Pindorama ainda se vivia na era do sapé e do pau-a-pique, do  pau-a-pique da literatura, sem tijolos. Parece-me que o admirável autor de “Urupês” não leu “O Índio Afonso”. Pois aqui, quanto ao cangaço, Bernardo foi um garanhão! 

Afonso, bandoleiro realmente existente, foi o precursor de Antônio Silvino, de Lampião. Bernardo Guimarães foi, pois, o primeiro escritor brasileiro a levar para o romance a figura de um autêntico cangaceiro. Desde então, o assunto atinente a banditismo já não é mais uma “donzela” para as letras – para não fugir à comparação gaiata de Lobato.

Antes da edição Garnier, que surgiu em 1873, “O Índio Afonso” foi publicado no folhetim do jornal carioca “Reforma”, nos números de 23 a 31 de janeiro de 1872.

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