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Contardo Calligaris

Nada escapa ao olhar clínico do psicólogo e colunista da Folha de S.Paulo: imagem, consumismo, inveja, reconhecimento, sexo, amor... nem a novela das 8 escapou

O clichê é irresistível. A vida do psicólogo italiano Contardo Calligaris renderia um livro. Aos 5 anos, passava as tardes brincando entre os escombros de uma Milão destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e nas férias viajava para países fundamentalistas do Oriente Médio. Aos 15, fugiu de casa e de país para viver o amor por uma canadense na Inglaterra. Em Londres, subiu ao palco de uma casa de strip-tease para interpretar Sansão num número inspirado em Sansão e Dalila. Formado em psicologia, já teve consultório em Boston, Nova York e São Paulo. Todos ao mesmo tempo. Hoje, aos 56 anos, é casado com uma brasileira e escreve todas as quintas-feiras em um dos espaços mais nobres da Folha de S.Paulo. Tanta aventura já rendeu, sim, seis livros. Surpreendentemente, nenhum biográfico.

O tema central de seus livros e de sua coluna semanal na Folha é a vida cotidiana no mundo ocidental. Contardo encara o desafio de procurar no trivial significados que expliquem a que viemos, o que somos. Pode fazer isso comentando um filme de Lars von Trier, um programa do Silvio Santos ou a ascensão e queda de Michael Jackson. Em qualquer dos assuntos a que se dedica, jamais fica na superfície, jamais reproduz o senso comum. Em sua coluna emerge, por exemplo, um posicionamento raro entre intelectuais de origem européia: a opinião pró-Estados Unidos. “A América é o lugar da modernidade. Todos estamos aqui por um sonho. Pode ser meu, do meu pai ou do meu trisavô, mas teve um sonho que nos trouxe para cá. O sonho de deixar o passado para trás e jogar cartas novas. E, como alguém que fugiu de casa aos 15 anos, era inevitável que eu acabasse aqui”, diz. Como bom psicólogo, Contardo enxerga a própria vida pelas experiências e pessoas que fizeram dele quem ele é. O pai, médico, lhe passou a vontade de curar pessoas e o avô, professor de história medieval, o interesse pela história.


Em 1991, escreveu o primeiro livro sobre o nosso país: Hello Brasil! Notas de um Psicanalista Europeu Viajando ao Brasil. O trabalho fez sucesso e foi citado por Caetano Veloso no livro Verdade Tropical. Daí surgiu o convite para colaborar regularmente com a Folha de S.Paulo. Em 1994, foi chamado para lecionar numa universidade dos EUA e teve, então, de viver os nove anos seguintes entre Boston, Nova York e São Paulo, passando dez dias por mês na capital paulista. O último livro, lançado em março deste ano, é uma coletânea das colunas da Folha. E como foram escritas no espaço que existe em aeroportos e aviões, entre as polícias federais de um país e outro, ganhou o título Terra de Ninguém.

Contardo concedeu esta entrevista a Rodrigo Velloso, novo diretor de redação de PLAYBOY, no apart-hotel onde vive e atende seus pacientes. Exceto pelos bustos coloridos de duas camponesas alegres, a decoração do apartamento é espartana. Combina, de certa forma, com o homem que é discreto, mas cheio de surpresas. Surpreende por sua incrível fluência na língua portuguesa, apesar do sotaque carregado e do discurso salpicado com frases em inglês, francês e italiano. E surpreende, sobretudo, pela amplitude e profundidade de suas idéias. Na entrevista, ele fala sobre cultura brasileira, identidade nacional, imagem, individualismo, consumismo, inveja, reconhecimento, sexo, amor, política, novela das 8... enfim, ele fala sobre absolutamente tudo, como faz em sua coluna.

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