08 Rocha: História de vida ... na escola?


HISTÓRIA DE VIDA NA EJA: QUEM É ESTUDANTE DE CIÊNCIAS NA ESCOLA?

 

Aurilene dos Reis Rocha[1]

 

RESUMO

O presente relato versará sobre minhas experiências vividas no estágio supervisionado I, numa escola municipal situada na zona leste de Manaus–Am. Relatarei sobre a modalidade de ensino de Jovens e Adultos - EJA, dando ênfase à história de vida dos alunos, e relacionando minhas observações com critérios que considero de grande importância.   

Palavras-chave: EJA, História, vida, modalidade de ensino.

 

ABSTRACT

This report will focus on my experiences in supervised I, a municipal school located in the east of Manaus-Am. Will report on the mode of teaching for Youth and Adults - EJA, emphasizing the life story of the students, and my observations relating to criteria that I consider of great importance.

Key words: adult education, history, life, teaching modality.


 

1 CONTEXTO DO RELATO

Esse relato versa sobre minhas experiências vividas em meu estágio supervisionado I, disciplina oferecida no curso de Licenciatura Plena em Ciências naturais. O estágio ocorreu no período de julho a setembro de 2013 e foi realizado em uma escola municipal localizada na zona leste de Manaus– AM. As atividades aconteceram no período da noite com as turmas da Educação de Jovens e Adultos - EJA e com as de ensino fundamental do 8º e 9º ano.

A EJA que é uma modalidade de ensino nas etapas do ensino fundamental e médio da rede escolar pública e privada para jovens e adultos. Seu objetivo é permitir que pessoas que não tiveram oportunidades de frequentarem a escola na idade convencional possam retomar ou iniciar seus estudos. Este direito é amparado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação  9.394/96 presente na constituição de 1988

O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: ensino fundamental obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria (LDB BRASIL, 2010, p. 51).

Diante disso, o governo brasileiro tem tentado solucionar alguns problemas da educação historicamente construídos. Entretanto ainda são muitas as dificuldades a serem enfrentadas, por exemplo, na escola em que estagiei é o primeiro ano que se trabalha com a EJA e segundo a pedagoga foram encontradas muitas dificuldades, dentre as quais a evasão escolar é a mais preocupante.

Os alunos da EJA trazem consigo uma história de vida influenciada pelas desigualdades que os atingiu desde muito cedo. Muitos são pessoas marginalizadas que moram em uma área periférica da cidade, não tiveram muitas oportunidades socioeconômicas, pertencem a famílias desestruturadas econômica e emocionalmente. Certamente essa memória de frustrações pode estar relacionada com o quadro de evasão que observei.

Estar na EJA já os torna diferentes, pois são pessoas que tentam recuperar o tempo perdido, trazendo consigo muita experiência de vida. E foram as histórias de vida dos estudantes da EJA que me chamaram atenção. E este será o foco deste relado.

 

2 DETALHAMENTO DAS ATIVIDADES

Durante o estágio aconteceram as seguintes atividades: Observação, participação e regência. Na primeira etapa fizemos o reconhecimento da escola, analisamos o perfil do professor e das turmas e da equipe de colaboradores da escola. Na segunda, já nos familiarizamos com o professor e as turmas, assim, podemos ajudar os estudantes com as pesquisas em feira de ciências e nos exercícios. E por fim cada estagiário se preparou individualmente, fazendo seu planejamento de aula, abordando um assunto sugerido pela professora supervisora.

A pesquisa realizada durante o estágio teve natureza qualitativa. Essa modalidade de pesquisa está associada com o universo dos significados, que se preocupa com questões particulares e com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Dessa maneira meus instrumentos metodológicos foram os seguintes: Observação participante que também pode ser chamada de trabalho de campo é quando o observador está inserido no grupo onde tem a finalidade de realizar uma investigação científica (MINAYO, 2008).

 

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DO RELATO

Os registros da observação participante presentes no caderno de anotações propiciaram os resultados que apresentarei a seguir. Estes estão organizados em trechos retirados do caderno e discussões teóricas. O critério de seleção dos trechos foram os seguintes: não modificar o sentido do texto e estar diretamente relacionado ao foco da pesquisa. O primeiro fragmento diz o seguinte:

“[...] Percebi na turma do EJA que não há uma preparação com a turma, é notório a desmotivação dos alunos e da professora”. (SIC)

Os alunos da EJA têm um perfil diferenciado de qualquer outro aluno de turmas normais, são pessoas que em muitos casos há muito tempo não tinham contato com a escola, com caderno, com provas, muito menos com leituras. Noto que retornar a escola depois de um tempo longe, tornou-se uma tarefa difícil. Nesse contexto, é interessante perceber que o descaso com estudos, da parte dos alunos, não condiz com as suas necessidades e esforço nesse retorno à escola.

O processo de ensino a estas pessoas, com certeza tem que ser diferenciado para que haja realmente o aprendizado, pois eles são dispersos e na grande maioria desmotivados. Percebo que durante as atividades em sala de aula não há uma preparação para tudo que é realizado, tanto no sentido da escolha e tratamento dos assuntos quanto no conhecimento do histórico de cada estudante, de seus motivos para estarem ali. Observei que a forma dos professores conduzirem o ensino nas turmas do EJA não condiz com a realidade dos discentes.

Segundo Hoffmann (1998), o olhar do professor precisa ser sensível ao tempo de cada aluno, diferente a cada momento. A aprendizagem dos alunos da EJA pode ser tratada diferente (na qualidade), daquela realizada com alunos do horário diurno. As manifestações dos alunos precisam ser conduzidas pelo professor de forma que eles consigam aprender:

Por certo, o olhar do professor precisa acompanhar a trajetória do pensamento do aluno, fazendo-lhe sucessivas e constantes provocações para poder complementar as hipóteses sobre o seu saber e sobre o seu jeito de alcançar o saber (HOFFMANN, 1998, p. 30-31)

É importante para os professores que trabalham com a EJA considerarem as histórias de vida dos estudantes, principalmente, suas experiências com a escola, seus motivos para quererem estudar, suas dificuldades de aprendizado e os problemas que enfrentam para estarem dia a dia em sala de aula. Sem isso, o que resta para os estudantes é a desmotivação e para os professores a ideia que os alunos da EJA não conseguem aprender.

[...] Algo que sinto é o preconceito com o pessoal [alunos] do turno noturno, os alunos são considerados como desinteressados e realmente são, mas não é feito nada para mudar essa situação”. [...] É triste você olhar para esses jovens e não detectar esperanças, sonhos, vontade de mudar, de ser alguém na vida”

A escola trata os alunos da EJA e do turno noturno em geral, como pessoas incapazes de assimilarem os assuntos mais complexos. Praticamente todos os conteúdos de ciências são lecionados de forma superficial, com explicações ‘inferiores’ que não levam os alunos a pensar, refletir e questionar.  Observei que os alunos são vistos pelos professores e gestores, como ‘coitadinhos’, pessoas que já passaram por muitas dificuldades e não precisam ser cobrados, ou marginais que não podem sofrer nem um tipo de exigência, pois podem ser violentos. Na realidade não é dado nenhum tipo de esperança aos alunos.

Na escola o setor pedagógico os enxergam como ‘infelizes’, pois olham para eles e não detectam capacidade de mudança. É como se não houvesse esperança para com os estudantes da EJA. Freire (1996) ajuda a compreender os problemas que cercam um ensino sem esperança quando diz o seguinte:

Há uma relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. A esperança de professor e alunos juntos podemos aprender, ensinar, inquietar-nos, produzir e juntos igualmente resistir aos obstáculos à nossa alegria. Na verdade, do ponto de vista da natureza humana, a esperança não é algo que a ela se justaponha. A esperança faz parte da natureza humana [...] Sem ela, não haveria História, mas puro determinismo. (FREIRE, 1996, p. 43)

Talvez sem perceber os professores estejam tendo uma atitude de discriminação, pois a forma como são vistas as situações e as pessoas envolvidas na EJA resulta na separação dos alunos capazes de aprender dos incapazes. E isto de certa maneira, destrói a esperança dos estudantes e lhes ‘predestina’ ao fracasso. Como diz Piletti (2004):

Nas escolas, quando um professor acha que um aluno é incapaz, que não sabe nada e não entende nada, ele pode tender a tratar o aluno de acordo com essa percepção. Em consequência, se o aluno não é nada disso, o julgamento do professor, que é uma pessoa com influência sobre ele, pode levá-lo a apresentar comportamentos de incapaz, de acordo com o que é esperado. (PILLETI, 2004, p.82)

O professor é uma referência para os estudantes. Tudo que ele comunica acaba sendo internalizado pelos alunos. Se o professor julgar os alunos como incapazes de aprender, certamente isto será ‘captado’ por eles. Essa falta de credibilidade prejudica a aprendizagem, pois ocasiona uma desmotivação permanente, principalmente, porque esses alunos trazem consigo uma história de vida diferenciada. Reflito que é muito mais fácil fazer uma criança ter esperanças no futuro, do que um adulto que já viveu tantas histórias de exclusão, desigualdade e desistências, na escola e na vida.

“[...] Lembrando do meu tempo de escola, percebo como há grandes diferenças no ensino hoje, eu sempre estudei de manhã e sempre os professores cobravam muito. Sempre tinha tarefa e ela tinha que ser entregue no dia marcado. Hoje o aluno entrega se quiser e quando puder” (SIC)

Durante o estágio, me deparei com uma grande diferença no tratamento dos alunos do período noturno em relação a minha formação escolar, feita em grande parte no período da manhã. Naquela época, o aluno tinha que ter responsabilidade e enfrentar as consequências de seus atos, havia uma cobrança severa por parte dos professores sobre os alunos. Não eram admissíveis certas ‘facilidades’ em relação à entrega das atividades avaliativas, elas deveriam ser entregues na data marcada.

Penso que a avaliação deve ser usada pelo professor como um instrumento que está a sua disposição para orientar o processo de ensino aprendizagem. Através desta poderá identificar os pontos fracos e fortes do processo de aprendizagem dos seus alunos e assim avaliar sua metodologia de ensino. Esta beneficia tanto o aluno quanto ao professor, quando usada de forma adequada, e não como um dispositivo de amedrontamento e autoritarismo.

“[...] O tempo foi desperdiçado, e ele não voltará, fico a pensar: será que estes alunos têm alguma perspectiva de vida? Será que eles sonham além do que vivem? [...] Como que os professores passam alunos totalmente desqualificados para a série seguinte, qual será o futuro do ensino e aprendizagem no Brasil?” (SIC)

No decorrer de toda pesquisa tentei perceber por que existe tão grande evasão escolar nas turmas da EJA daquela escola. Notei que um dos principais motivos são o desperdício de tempo e a metodologia usada pela professora de ciências, que não está adequada com o estilo dos alunos desta modalidade. Como os alunos, em sua grande maioria, já são pais e mães de família e precisam trabalhar, chegam à escola cansados. Diante dessa rotina, quando chegam e se deparam, muitas vezes, com o atraso dos professores ficam desestimulados.

Além disso, a metodologia usada pela professora de ciências consiste, simplesmente em copiar no quadro o que já está escrito no livro. O tempo de aula tem a duração de 30 a 45 minutos, e, em sua grande parte é utilizado apenas para cópia. Somente quando ocorrem dois tempos seguidos a professora explica o assunto, e isso se repete por todo ano letivo.

Segundo a visão de Arroyo (1997) a evasão escolar dá-se a falta de preparação das escolas para receber alunos com o perfil atribuído a EJA.

[...] Sabemos que a escola atual é preciso estar preparada para receber e formar estes jovens e adultos que são frutos dessa sociedade injusta, e para isso é preciso, professores dinâmicos, responsáveis, criativos, que sejam capazes de inovar e transformar sua sala de aula em um lugar atrativo e estimulador. (ARROYO, 1997, p.23).

Muitas são as desculpas para a evasão escolar que tem tido resultados drásticos atualmente, apesar de terem vários incentivos políticos e sociais. Posso atribuir isso, segundo minha observação, a desestruturação familiar, ao uso de drogas, aos relacionamentos afetivos, aos conteúdos mal elaborados e outros.

[...] Foi bom perceber que os alunos do EJA são Capazes sim, que sem dúvida o que falta é motivação e parar de olhar para eles como incapazes de aprender algo mais difícil e tentar fazer com que eles queiram aprender e repassar o que se tem aprendido”. [...]

A escola pela primeira vez realizou sua feira de ciências naturais e tecnologia, com o tema: “Vivendo a sustentabilidade, o que eu quero para meu futuro”. O tema da turma do EJA foi sobre a compostagem, foi formalizado um projeto, no qual nós estagiárias contribuímos com a pesquisa. No inicio, os alunos não se empolgaram muito com o projeto da feira, aqueles escolhidos para explanarem o assunto durante a feira desistiram um dia antes da mesma acontecer.

A professora supervisora precisou fazer o convite a outros alunos, e o ato surpreendente aconteceu, dois dos alunos, os mais ‘bagunceiros’ e ‘desinteressados’ aceitaram o convite. Eles conseguiram explicar o assunto mesmo estando envergonhados. Isso me fez ver que essas pessoas conseguem! Elas têm sim um grande potencial! Mesmo que ele não esteja sendo trabalhado nas aulas. Percebi que eles fazem tudo correto quando querem e conseguem surpreender demonstrando suas capacidades.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sabendo que a educação é um direito de todos, não podemos esquecer o papel que um professor representa, e que a atitude deste, muda o efeito dos resultados que talvez não esteja sendo significativo, muitas são as diversidades que cooperam para o educador desanimar, mas a profissão escolhida por este não deve estar fundamentada nestas dificuldades e sim na esperança de ver que seu esforço contribuiu para a formação de pessoas idôneas.

Durante o processo de pesquisa, muitas lembranças vieram em minha mente, sentimentos surgiram algo que não consigo explicar em palavras. Decidi escrever sobre o EJA, por que é uma modalidade que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer, e fiquei impressionada com as histórias de vida das pessoas e sensibilizei-me com a dificuldade de alguns e me impressionei com o desinteresse de outros. Por tudo que vi nesses meses, posso dizer que meu olhar para a escola, para os alunos, tornou-se mais humano.


 

REFERÊNCIAS

ARROYO, Miguel G. da. Escola coerente à Escola possível. São Paulo: Loyola, 1997 (Coleção Educação popular – nº 8).

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996 – (coleção leitura).

HOFFMANN, Jussara. Pontos e contrapontos do pensar ao agir em avaliação. Porto Alegre: Mediação, 1998.

MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. (Coleção temas sociais).

PILETTI, Nelson. Psicologia Educacional. 17 ed. São Paulo: Ática, 2004.



[1] Licencianda de Ciências Naturais do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Amazonas. Orientada pela professora da disciplina de Estágio Supervisionado Elizandra Rego de Vasconcelos. E-mail: lene_rocha@hotmail.com

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Saulo Seiffert,
5 de mai de 2014 10:11
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