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- 13/11/15


Mentiroso dialeteísta ou Dialeteísta mentiroso? Considerações sobre a saída dialeteísta do paradoxo do Mentiroso

por Ederson Safra Melo e Jonas Becker Arenhardt

Resumo: O Paradoxo do Mentiroso, ou abreviadamente o Mentiroso, pode ser facilmente evidenciado através de uma sentença que afirma sua própria falsidade: “esta sentença é falsa”. A sentença citada é verdadeira? Se sim, então ela é falsa. Se não, então ela é verdadeira. Portanto, a sentença citada é verdadeira se e somente se é falsa. Temos uma contradição, já que não conseguimos manter um valor de verdade de maneira consistente. Alguns autores, como Kripke, argumentam que a sentença do Mentiroso não é nem verdadeira nem falsa (truth-value gap). Todavia, tal proposta abre espaço para a construção de versões mais fortes do Mentiroso usando os termos da própria proposta: “esta sentença é falsa ou nem verdadeira nem falsa”. Esse fenômeno, conhecido como a vingança do Mentiroso, revela a natureza hidra do Mentiroso: ao lidar com o Mentiroso colocando-o em uma nova categoria, usa-se essa nova categoria para a construção de um novo paradoxo tão contraditório quanto o primeiro. Diante disso, filósofos dialeteístas tomam o Mentiroso como um dos principais argumentos para defender que há contradições verdadeiras (dialetéias). Nessa perspectiva, a sentença do Mentiroso resulta tanto verdadeira quanto falsa (truth-value glut). Priest, um dos principais representantes de tal proposta, defende que o Mentiroso é um argumento correto tendo como conclusão uma contradição (A∧¬A ). Tendo em vista a correção do argumento, temos como conclusão uma contradição verdadeira, como argumenta Priest. A fim de manter a contradição sem trivialização, Priest desenvolve uma lógica paraconsistente, conhecida como LP (‘A Lógica do Paradoxo’), na qual não vale o princípio da explosão (A∧¬A⊨B, para qualquer B). Todavia, como Slater mostrou, a negação de LP não é formadora de contradição, mas sim um operador formador de subcontrárias. Dessa forma, quando o Mentiroso é representado como A∧¬A em LP, não temos uma contradição, como queria Priest. Ora, se o Mentiroso é reconhecidamente um argumento contraditório, como defendem os próprios dialeteístas, então não podemos representá-lo em uma lógica que não é capaz de formar contradição. Em nossa apresentação pretendemos expor as versões mais famosas do Mentiroso, destacando a sua natureza contraditória. Feito isso, faremos algumas considerações sobre a noção de contradição. Por fim, vamos argumentar que a saída paraconsistente não caracteriza o Mentiroso de maneira adequada e que, portanto, não oferece uma resposta satisfatória ao problema.






SELF é a abreviação para Seminário Livre de Filosofia, uma iniciativa de estudantes de pós-graduação em Filosofia da UFSC com o apoio do Grupo de Estudos em Epistemologia Analítica. 


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