PRÓ - INCLUSÃO

  • De novo e sempre a equidade...

  • David Rodrigues  *  Coordenador da Pró- Inclusão

  • No dia 10 de Abril deste ano de 2012 foi publicado pela OCDE um relatório sobre Educação.

    Um  relatório sobretudo sobre as reprovações, vulgo “chumbos”. Antes de mais este relatório lembra-nos que Portugal, juntamente com a Espanha, a França e o Luxemburgo, são os campeões dos chumbos. Que triste record! E triste porquê? Por três razões:

    Em primeiro lugar porque o “chumbo” (que lembra a morte de animais selvagens por caçadores),  não tem qualquer relação com a qualidade de ensino. Poderíamos pensar que são os professores mais exigentes os que mais chumbam. Completamente errado! Os melhores professores são os que melhor ensinam e, ensinando melhor, originarão certamente menos chumbos. Lembro um caso verídico em que um colega meu da Universidade se gabava publicamente de ter 60% de chumbos na sua cadeira. Dizia isto com ar ufano e com uma crítica implícita aos “facilitistas” que tinham taxas de reprovação residuais. Foi então que um dos presentes na reunião que tinha estudado nos Estados Unidos lhe disse: “O colega tem muita sorte em ensinar em Portugal: se fizesse isso no MIT era despedido de imediato. Lá não se admitem essas taxas de reprovação”. É preciso e urgente que não associemos a reprovação à exigência ou à qualidade educativa. 

    Em segundo lugar há uma perspectiva ingénua sobre o “chumbo”: ele irá, castigando o aluno, dar-lhe mais motivação para estudar mais. Esta ideia pode estar muito difundida mas é errada.  O "chumbo" não melhora a motivação: piora a auto-estima, potencia o abandono escolar e, falando em tempo de crise, é um enorme desperdício de dinheiro e recursos. Os efeitos da reprovação sobre a criança (abandono do seu grupo/turma, imagem de “burro”, representação da escola como lugar de punição, etc.) são de tal forma gravosos que não se pode chamar senão triste a este record.

    Em terceiro lugar, sabemos que a reprovação tem destinatários anunciados. Sabemos que as crianças oriundas de meios socioculturais desfavorecidos são os alvos preferenciais dos chumbos disparados pela escola. E o que quer isto dizer? Quer dizer que a escola se presta à triste incumbência de certificar e de justificar “objetivamente” a exclusão que estas crianças e suas famílias são vítimas há muito tempo. O chumbo cria exclusão mas, em muitos casos é uma mera certificação da exclusão já existente.

     A alternativa ao chumbo não é o “fechar os olhos e passar todos”. É o contrário: “é abrir os olhos para ver” que as crianças partem de vivências diferentes, aprendem de formas diferentes e que toda a tentativa de as homogeneizar dá asneira. Asneira porque cria chumbos – que são sinónimo de falta de qualidade e de justiça social - asneira ainda porque a procura da homogeneidade impossibilita ver a diversidade. A riqueza da diversidade.

     A alternativa é certamente criar nas escolas melhores estruturas de apoio à aprendizagem. Sabemos que todos os alunos, em diferentes disciplinas e em diferentes fases do seu percurso académico, podem experimentar dificuldades. É preciso responder a essas dificuldades de forma atempada, preventiva e eficaz para que elas não se instalem e possam ser ultrapassadas.

    O caminho para a melhoria da qualidade do nosso sistema educativo é incompatível com a taxa de reprovações que temos atualmente. Era importante que todos nós (responsáveis ministeriais, professores, pais, etc.) soubéssemos que os sistemas educativos que têm uma efectiva qualidade são aqueles que prestam mais atenção aos alunos que, por diferentes razões, podem ter dificuldades. E atender estas dificuldades não é falar mais alto ou dizer o mesmo mais vezes: é ir ao encontro do aluno e ensiná-lo de forma diferente. Penso que esta é uma boa reflexão agora que se fala que os alunos com necessidades educativas especiais vão ser avaliados com a mesma prova de todos os outros. Será para batermos o nosso próprio record?




  • DEPENDE…
  • Por David Rodrigues - Presidente da Pró - Inclusão
  • O grande pedagogo brasileiro Paulo Freire - que tive o privilégio de conhecer pessoalmente numa das minhas primeiras visitas de trabalho ao Brasil - gostava de começar a responder às perguntas mais complexas que lhe eram colocadas como o termo “depende…”. Este “depende…” recolocava a centralidade da resposta nas opções, nos olhares, na responsabilidade de quem dá a resposta.

    Começar por dizer “depende” dá-nos o oxigénio, o espaço, para exprimir e a nossa visão da perspectiva sobre o que é a “realidade”.

    Quando falamos com os professores de Educação Especial sobre de que forma a nossa escola pública se está a tornar mais inclusiva, recebemos respostas frequentemente muito pessimistas.

    Ouvimos relatos em que as práticas escolares sancionam e mesmo aprofundam divisões entre os alunos com base no seu comportamento, no seu aproveitamento e às vezes, mesmo em fatores que pensávamos extintos tais como as divisões com base na etnia e no estatuto sócio-económico.

    São apresentadas também boas notícias mas estas, normalmente mais circunscritas e mais episódicas. Por exemplo a realização de um excelente evento na escola/agrupamento sobre o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. As boas notícias são muitas vezes mais esparsas e raras do que as notícias de boas práticas sustentadas, apoiadas e parte integrante do património da escola.

    Por isso é sempre difícil responder à questão “Mas a inclusao nas escolas está a progredir ou não?”. E eu responderia evocando o Mestre Paulo Freire: “depende”. As pessoas que há mais tempo conhecem o sistema de apoio aos alunos com dificuldades ou o mundo da Educação Especial, não poderão deixar de dizer que há muitos progressos feitos. É certo que há alguns anos havia práticas excelentes e que em alguns casos se perderam. Mas é certo também que essas práticas eram muito circunscritas a certas escolas a certos projetos e pessoas. Hoje, em Portugal, as práticas que se reclamam da Educação Inclusiva estão muito mais disseminadas e a Inclusão tornou-se um assunto de discussão em todas as escolas. 

    Estamos a progredir na Educação Inclusiva? “Depende!”. Mas depende também de nós, depende da convicção, da energia, da determinação que tivermos para continuar a lutar para que a Inclusão não seja um acontecimento quase folclórico na escola mas que seja uma prática de e para todos, todos os dias.

    É ao trabalho sério e visionário de milhares de profissionais que vamos buscar inspiração para alimentar o nosso compromisso de fazer com que a Educacao Inclusiva seja cada vez mais fruto da reformulação, dos valores e práticas de ensinar e aprender nas nossas escolas.




  • A “Revisão da Estrutura Curricular” e a Educação Especial

"É certamente do conhecimento dos nossos associados  que o Ministério da Educação colocou à discussão pública um documento sobre modificações na estrutura curricular do 2º, 3º ciclos e secundário (este documento pode ser consultado no sítio do Ministério da Educação). A nossa Associação foi convocada para uma sessão de discussão na Assembleia da República e aqui lhes deixo as posições que, em síntese, a nossa Associação lá manifestou.

1. Uma reorganização curricular é um assunto sério e global. Como alguém disse, os erros que se cometerem em Educação não são corrigíveis pelo menos na vida das crianças que eventualmente os sofram. Por isso é preciso, em lugar de mudanças que os próprios proponentes chamam de “cirúrgicas”, encarar as reformas curriculares de uma forma global e sobretudo para que sejam coerentes, articuladas e justificadas através de uma fundamentação credível e sólida. Ora não é isso que se passa nesta proposta.

2. Um currículo, ao contrário de uma casa, constrói-se de “cima para baixo”. Quer isto dizer que a primeira tarefa é a de delinear quais são os objectivos que queremos atingir. Ora esta proposta apresenta-se “de baixo para cima” modificando cargas horárias e composição disciplinas sem uma delineação clara dos objectivos a que se propõe (exceto talvez dizer que se propõe a objectivos “claros, rigorosos, mensuráveis e avaliáveis”).

3. A área de “apoio ao estudo” substitui no 2º ciclo o “estudo acompanhado”. Ora o “apoio ao estudo” é uma área facultativa e é muito provável que, no atribulado quotidiano das escolas, venha a ser puramente esquecida. A função do apoio ao estudo é trabalhar para melhorar a equidade da escola, isto é, dar a todos os alunos – e sobretudo aos que mais precisam de apoio – oportunidades semelhantes. Serão certamente os alunos com mais dificuldades que serão mais prejudicados com o carácter ”facultativo” desta área disciplinar.

4. O conceito de “disciplinas estruturantes” é particularmente sensível no ensino de alunos com NEE. Na verdade, diz-nos a experiência e o conhecimento disponível, que para muitas crianças com e sem NEE o currículo pode-se estruturar com base noutras disciplinas como por exemplo as Ciências Naturais, ou a Música, ou a História e Geografia. Não nos parece correto eleger o Português e a Matemática como as únicas disciplinas estruturantes do currículo.

5. Há aspectos que continuam silenciados e que estes sim nos parecem ter uma flagrante urgência. Entre estes está qual a resposta que as escolas estão a preparar para os alunos com NEE tendo em vista que a escolaridade obrigatória vai aumentar para 12 anos? Como dissemos nesta reunião, é muito meritório que exista uma discussão sobre estes assuntos. Lembro aos nossos associados que infelizmente esta  é uma prática que não foi seguida num passado muito recente em que as políticas, na melhor das hipóteses, eram comunicadas. Mas não basta colocar à discussão, é necessário que o que é dito e contra-argumentado tenha resposta e que a participação franca e de boa vontade seja entendida, respeita e valorizada no delineamento de políticas educacionais."






Porque respeitar a diversidade?

Não há nada melhor para sabermos se as nossas ideias são claras do que tentar transmiti-las e explicá-las a alguém que esteja fora do contexto em que habitualmente elas circulam. Há muito que costumo dizer aos meus estudantes de investigação que o tema que se procura investigar só está “maduro” quando o conseguirmos explicar a uma criança de dez anos.

Vem isto a propósito de uma pessoa conhecida que, quando lhe explicava o meu interesse pela educação inclusiva, me disse um pouco espantado: “Mas eu pensava que o papel da escola era reduzir a diversidade em lugar de a respeitar!”. Tentei argumentar que não: a ideia era que a escola reconhecesse as diferenças entre os alunos – diferenças de maturidade, de forma de aprender, de culturas familiares e comunitárias, etc. – não para acabar com as diferenças mas para, respeitando-as, contribuir para formar cidadãos mais competentes.

Este episódio convidou-me a refletir sobre este assunto do respeito pela diversidade. E desta minha reflexão compartilho três aspetos:

1. Qualquer pessoa (isto inclui obviamente as crianças…) tem uma representação sobre o mundo. Esta representação pode ser influenciada por muitos factores: o conhecimento, as emoções, a socialização, a experiência, etc. As representações são por natureza pessoais e extremamente diversas. A questão é: esta diversidade de representações é um erro? Há uma certa e outras erradas? Eu diria que em situações muito estritas (p. ex. ateoria heliocêntrica) há uma verdade aceite que se impõe a representações erradas. Masisto só em situações muito restritas. A criança desenvolve representações únicas e estas representações estão sempre certas em função das variáveis que ela sente, conhece, experimenta, etc. Respeitar esta diversidade de representações é essencial para desenvolver projectos de aprendizagem bem sucedidos.

2. Se todos são diferentes todos têm que ser ensinados diferentemente? Claro que não.

Pensar que a diferença na aprendizagem implica uma inconciliável diferença no ensino conduz-nos a um impasse irresolúvel: não é possível aprender em grupo. Os grupos humanos (tais como uma classe) sendo diferentes, podem (e devem) aprender conjuntamente. Sempre conjuntamente e sempre em grande grupo? Isso não: precisamos para respeitar a diversidade de proporcionar aos nossos alunos oportunidades de aprendizagem diversas: teóricas, práticas, verbais. não-verbais, experienciais, de observação, em pares, em pequeno grupo, em grupo de projecto em grupo de nível, etc.

etc. Ensinar alunos diversos sempre da mesma maneira é um absurdo.

3. A diversidade tem a ver com o respeito pelos outros. Pensar que quem não pensar de uma certa maneira pensa necessariamente mal é uma falta de respeito pelos outros (isto inclui obviamente as crianças). Respeitar os outros é procurar entender (entender mesmo) porque pensam de uma certa forma, entender quais os valores que estão subjacentes a atitudes, a (in)seguranças, a valores...

Ter respeito pela diversidade não significa tomar como certo o bom tudo o que a diversidade nos traz. A ignorância, muitas tradições, a “ordem social”, o fundamentalismo e tantos outros factores constituem verdadeiros obstáculos à diversidade.

Ao fim e ao cabo, quem precisa de respeito não é a diversidade: são os percursos de cada pessoa (isto inclui obviamente as crianças) e, para respeitarmos os outros, nada melhor que assumirmos uma atitude de humildade perante as certezas que temos. Essas certezas são certamente úteis para organizarmos a nossa vida mas são certamente bem menos úteis para ajudar os outros a organizarem a vida deles.

 David Rodrigues - Coordenador da Pró- Inclusão



Vídeo do YouTube




     
2º CONGRESSO INTERNACIONAL
  
                 28 e 29 DE OUTUBRO de 2011  
           Universidade Portucalense - PORTO  
                                   PORTUGAL 

As barreiras ultrapassam-se e os percursos atingem-se numa   verdadeira  dimensão afetiva.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

                                                                                                                                           Laborinho Lúcio [ Porto: 2011]



        O 2º Congresso Internacional intitulado “Derrubar Barreiras.Facilitar Percursos.” decorreu nas instalações da Universidade Portucalense, no Porto, nos dias 28 e 29 de outubro de 2011, promovido pela Associação Nacional de Docentes de Educação Especial 
(Pró Inclusão).

Este congresso foi preparado com o intuito de reunir pensamentos e práticas nacionais e internacionais e a pensar nas necessidades de discussão e formação dos professores de Educação Especial e de todos os outros professores e técnicos que apoiam a aprendizagem e a educação de crianças e jovens com necessidades especiais de aprendizagem.

O Congresso abordou temáticas bastante funcionais da área de Educação Especial. A importância da inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais, a necessidade de criação de laços entre escolas e as comunidades, a necessidade de formação de todos os alunos para uma sociedade que se afirma cada vez mais pela transformação constante e que evolui em termos tecnológicos a uma velocidade fulminante, entre outros…

Falar de inclusão ou educação inclusiva, não se restringe apenas a alunos com necessidades educativas especiais. Ela implica um olhar sobre todos os alunos, pois qualquer criança, em qualquer momento, pode ter dificuldades ou deparar-se com obstáculos na sua aprendizagem. Daí que deva ser proporcionada a igualdade de oportunidades educativas a todos os alunos, incluindo os que se encontram em maior situação de vulnerabilidade.

 As docentes de Educação Especial:

Cristina Ferreira

Sónia Guimarães  

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