Piodermite (piodermatite, piodermia, pioderma).


Artigo: PIODERMITE.
Autora: Profa. Dra. Cibele Rossi Nahas Mazzei, médica veterinária.
Currículo da autora: clique aqui.
Fonte: ANCLIVEPA-SP – clique aqui.


PIODERMITE

Qual a conduta a ser adotada diante de um caso de piodermite canina?

A piodermite situa-se dentre as dermatopatias mais frequentemente observadas na clínica de pequenos animais, principalmente na espécie canina, e o seu manejo vai muito além da escolha do antibiótico correto e do período de duração da terapia.

O primeiro passo consiste em confirmar, efetivamente, o suposto diagnóstico de piodermite, pois as lesões cutâneas inerentes a este quadro mórbido assumem inúmeros aspectos, podendo mimetizar outras dermatites, tais como a dermatofitose, a dermatite seborréica e as dermatites auto-imunes. Tal confirmação pode ser feita mediante exame citológico do conteúdo presente no interior de vesículas íntegras ou, ainda, do material colhido a partir do raspado das lesões. Faz-se um esfregaço em lâmina, que é submetido à coloração por corantes citológicos (Rosenfeld, Gram, Giemsa ou Novo Azul de Metileno). Ao exame microscópico, observam-se cocos ou bastonetes, intra e extra-celulares, bem como neutrófilos degenerados.

Uma vez confirmado o diagnóstico, e tendo sido observada a presença de cocos, procede-se a escolha correta do antibiótico sem a necessidade, inicialmente, de se proceder um cultivo bacteriológico, baseando-se no conhecimento prévio de que o Staphylococcus intermedius é o agente etiológico envolvido em cerca de 99% dos casos de piodermite canina. Portanto, deve-se utilizar antibióticos b-lactamase-resistentes, isto é, que resistam à ação inativadora desta enzima produzida pela grande maioria das cepas de Staphylococcus sp. Dentre estes, incluem-se os seguintes grupos: quinolonas, cefalosporinas, aminoglicosídeos, penicilinas b-lactamase-resistentes, sulfas potencializadas, macrolídeos e lincosamídeos, lembrando que estes três últimos grupos são mais eficazes para o combate de piodermites primárias superficiais. As penicilinas não b-lactamase-resistentes são, portanto, completamente contra-indicadas. Quanto ao período de tratamento, para as piodermites ditas superficiais, reserva-se um intervalo de 10 a 15 dias, e para as profundas de 15 até 60 dias. Paralelamente ao uso de antibióticos sistêmicos, é de grande auxílio a utilização de xampus anti-sépticos e anti-seborreicos, bem como de compressas com soluções anti-sépticas e cicatrizantes.

Caso, no exame citológico, haja um predomínio de bastonetes em detrimento de cocos ou, ainda, diante da ausência de resposta frente ao protocolo terapêutico correto, é indicada a realização de cultivo bacteriológico e antibiograma.

O passo seguinte, e ainda mais importante que o anterior, fundamenta-se na identificação das possíveis causas de base da piodermite. Em 90% dos casos, as piodermites são secundárias a outras dermatopatias, tais como as de origem alérgica (atopia, alergia alimentar, dermatite alérgica a picada de pulga, dermatite de contato alérgica), parasitária (demodiciose, escabiose, pediculose, ixodidiose) e fúngicas (dermatofitose, criptococose, esporotricose). Uma vez identificadas, estas causas devem ser controladas, a fim de se evitar possíveis recidivas.

Em dermatologia, quando se deve solicitar cultura e antibiograma, e como interpretar seus resultados?

Como disposto anteriormente, a solicitação destes exames é indicada quando:

– mediante o exame citológico, previamente realizado a partir do exsudato das lesões, observa-se um predomínio de bastonetes (bacilos alongados, em forma de charuto ou bastão) em detrimento de cocos (bactérias arredondadas, dispostas isoladamente, em duplas, em cadeia ou em cacho de uva);

– não se observa resposta eficaz da terapia corretamente adotada (isto abrange a escolha adequada do antibiótico, da dose, do intervalo de administração e da duração da terapia);

– há risco de vida ao paciente, quer seja diante de piodermites graves e profundas, ou de otites bacterianas, média ou interna, crônicas e recidivantes.

Deve-se salientar que, nos casos em que ocorre uma evidente melhora clínica das lesões, após a antibioticoterapia corretamente empregada e, subsequentemente à interrupção desta terapia, observam-se recidivas, não é indicada a realização de cultivo bacteriológico e antibiograma, mas sim a identificação e o controle das causas de base envolvidas na etiopatogenia do quadro, cujo negligenciamento constitui-se no principal fator responsável pela ocorrência de recidivas.

No tocante à interpretação dos resultados, primeiramente devemos lembrar que, tanto a flora cutânea quanto a meatal, é composta de inúmeros microorganismos, residentes e transitórios, incluindo-se as bactérias dos gêneros Staphylococcus sp, Streptococcus sp, Pasteurella sp, Pseudomonas sp, Proteus sp e, ainda, E. coli. Portanto, o exame citológico deve sempre anteceder a realização do cultivo, pois através deste podemos identificar se as bactérias ali presentes estão desempenhando um papel patogênico (neste caso observam-se fagocitose, neutrófilos degenerados e íntegros, e células inflamatórias, como eosinófilos) ou não (quando se evidenciam cocos extra-celulares e neutrófilos íntegros).

Quanto à escolha do antibiótico, caso seja isolada apenas uma cepa bacteriana, deve-se optar por antibióticos de curto espectro e que apresentem intervalos, via de administração e preço convenientes ao proprietário, e que sejam dotados de menores efeitos colaterais. Caso haja uma infecção mista, não havendo a possibilidade de escolher um único antibiótico eficaz, deve-se combater, preferencialmente, o Staphylococcus sp.

É importante salientar que nem sempre os resultados observados "in vitro" correspondem aqueles evidenciados "in vivo", principalmete em relação às sulfas potencializadas e ao cloranfenicol. Para animais muito jovens ou idosos, é preferível o uso de antibióticos bactericidas. Já as quinolonas (enro e norfloxacina) não devem ser prescritas para animais com menos de 1 ano de idade, pois podem promover danos cartilagíneos irreverssíveis. As sulfas potencializadas, por sua vez, são potencialmente contra-indicadas para cães da raça Doberman, podendo desencadear, nestes animais, poliartrite asséptica, glomerulonefrite e ceratoconjuntivite seca. Deve-se atentar, ainda, para o fato de os aminoglicosídeos serem potencialmente oto e nefrotóxicos, sendo contra-indicados para uso prolongado em animais idosos, ou com otite média crônica.

Cibele Rossi Nahas – VETIMAGEM – SERVIÇO DE DERMATO-DIAGNÓSTICO.


Profa. Dra. Cibele Rossi Nahas Mazzei,
Médica veterinária, mestre em Dermatologia Veterinária.
VETIMAGEM – Centro de Diagnóstico Veterinário.
Av. Pompeia, 500 – Vila Pompeia – São Paulo/SP.
Telefone: (11) 3873-6740.
E-mail: contato@dermatopet.com.br

 
Observação: nesta data (06/09/2009), não consta no site www.anclivepa-sp.org.br nenhuma proibição quanto à transcrição total ou parcial dos textos que o compõem.
 


Artigo: PIODERMITE.
Autora: Profa. Dra. Cibele Rossi Nahas Mazzei, médica veterinária.
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Fonte: DERMATOPET – Dermatologia Veterinária – clique aqui.


PIODERMITE

Março 28, 2010.

 

Todos nós que militamos na área de dermatologia de cães e gatos ficamos por vezes estarrecidos e enfadados ao ver tantos casos de uma mesma doença: as piodermites.

 

Piodermite nada mais é do que a infecção bacteriana da pele (pio = pus, dermite = inflamação da pele). Podemos também chamá-las de foliculites bacterianas, pois, via de regra, estas infecções envolvem os folículos pilosos, que são os locais da pele de onde nascem os pelos.

 

Existem inúmeras causas para que elas aconteçam, isto porque a bactéria, principal causadora da doença em cães e gatos, é o Staphylococcus spp, que também faz parte da própria microbiota cutânea, isto é, vive na pele normal dos animais saudáveis sem causar nenhum problema. Então, sempre há um fator desencadeante que faz com que se quebre o equilíbrio entre a população bacteriana e o hospedeiro, levando a uma proliferação bacteriana excessiva e sem controle, o que ocasiona as lesões e os sintomas característicos. Este é o principal motivo que torna as piodermites tão frequentes: o fato de serem manifestações de várias outras doenças que citaremos a seguir.

 

 

Como são as lesões?

 

Embora o nome da doença indique que deve haver a presença de pus, isto não ocorre na maioria das vezes. As lesões se manifestam de múltiplas formas: pápulas (pequenas elevações) avermelhadas recobertas por crostas (vulgarmente seriam “casquinhas”), pequenas bolhas com pus (pústulas), perda de pelame de forma circular recoberta por escamas, úlceras (perda de tecido profunda), erosões (perdas superficiais de tecido).

 

 

Como pode ser dado o diagnóstico?

 

O clínico pode fazer isto através do aspecto das lesões e da citologia do material (análise microscópica). Por vezes se torna também necessária a cultura microbiológica do material obtido das lesões.

 

O mais importante, contudo, não é diagnosticar a piodermite, mas, sim, identificar suas causas. Para isto o veterinário deve fazer uma investigação detalhada quanto a possíveis alergias, seborreia, sarna negra, desequilíbrios hormonais, presença de pulgas ou de outros parasitas, carências nutricionais, micoses, doenças autoimunes, etc. Por fim, há casos em que não se descobre a causa, e estes são chamados de idiopáticos.

 

O tratamento consiste no uso de antibióticos, xampus antissépticos ou antisseborréicos e, principalmente, na identificação e correção das causas de base.


Profa. Dra. Cibele Rossi Nahas Mazzei,
Médica veterinária, mestre em Dermatologia Veterinária.
VETIMAGEM – Centro de Diagnóstico Veterinário.
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Observação: nesta data (23/05/2010), não consta no site www.dermatopet.com.br nenhuma proibição quanto à transcrição total ou parcial dos textos que o compõem.