Eutanásia – procedimentos e métodos.

 
Resolução nº 714, de 20 de junho de 2002, do CFMV – Conselho Federal de Medicina Veterinária.
Assunto principal: procedimentos e métodos de eutanásia em animais.

Onde ler a citada Resolução: clicar aqui.



Artigo: Eutanásia.

Fonte: Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro – clicar aqui.

 

 

Eutanásia

 

O termo "eutanásia" significa "morte fácil" e, assim, possui a explícita implicação de uma morte tranquila, sem dor, medo ou ansiedade. O homem tem, em geral, consciência da inevitabilidade e do significado da morte, enquanto que os animais não sentem tal apreensão, a menos que sejam muito maltratados, mal manejados ou que se sintam ameaçados.

 

Por possuir conteúdo ético considerável, é a eutanásia uma das mais delicadas situações com que se depara o médico veterinário durante o exercício de sua profissão. À eutanásia não é dada a relevância que merece. Muitos profissionais evitam o tema e, levianamente, delegam esta responsabilidade a auxiliares não preparados. Talvez isso se deva a uma deficiente formação universitária, onde não se falou de como, quando e porquê deveria ser realizada a eutanásia, ou talvez porque os futuros profissionais não foram sensibilizados para o conteúdo ético e emocional deste procedimento.

 

É extremamente delicada a posição do médico veterinário que é chamado a decidir sobre a necessidade ou não da eutanásia de um animal frente ao dono do mesmo. Pode ser sentida toda a carga emocional que afeta a relação dono/animal. O médico veterinário deve possuir clara posição moral para poder recomendar a eutanásia, não podendo se deixar levar pelo excesso de emoção e pela insensibilidade. O profissional deve usar de toda a sua diplomacia ao falar com o dono do animal, deve evitar eufemismos (por exemplo, fazer o animal dormir), não incorrer em erros de conceito e, principalmente, deve ajudar o dono do animal a tomar uma decisão.

 

Lembrar sempre que a decisão final compete ao dono do animal. É de sua competência a avaliação de como a eutanásia deve ser executada, quais os métodos apropriados, quais os procedimentos proibidos e como pode ser avaliada a cessação dos sinais vitais. Qualquer erro pode ferir irremediavelmente a imagem do profissional.

 

Mas, quando é a eutanásia necessária? Ela pode ser necessária como um meio de eliminar a dor, o desconforto, os quais não podem ser aliviados por meio de anestésicos, de sedativos, ou de outros tratamentos. No caso de animais de experimentação, os protocolos devem incluir critérios de execução da eutanásia (tais como, grande déficit físico ou comportamental, tamanho dos tumores), critérios estes que permitam uma decisão rápida por parte do médico veterinário ou do investigador, para assegurar que os fins são humanitários e que os objetivos do protocolo foram alcançados.

 

Pesquisa e esforços foram exaustivamente explorados para que fossem encontrados métodos de eutanásia aceitáveis, e grupos de cientistas, filósofos, legistas, leigos se formaram para discutirem e avaliarem os métodos.

 

Já foi amplamente demonstrado que os métodos físicos se cientificamente executados, por pessoas qualificadas, possuem efeito tão rápido quanto o de uma injeção intravenosa de barbitúricos, consequentemente o animal não sente dor, medo ou apreensão. No entanto, os métodos físicos são, em geral, esteticamente desagradáveis para as pessoas que observam o procedimento. No caso da experimentação animal, o uso de procedimentos físicos é indicado quando outros métodos podem invalidar a informação obtida. Por exemplo, pesquisas feitas demonstraram que a exposição de um animal ao clorofórmio ou ao éter causa elevação da corticosterona do plasma, das catecolaminas, enquanto que a decapitação não produz tais efeitos. A eletrocução por meio de braçadeiras e alligators de baterias não é indicada, pois causa paralisia dolorosa antes que o animal esteja inconsciente.

 

Os agentes farmacológicos não inalados são, em geral, administrados por via endovenosa. Alguns, como o T-61, só podem ser administrados por esta via. A administração por outras vias pode resultar, na maioria dos casos, no retardamento do efeito anestésico da droga. A via intracardíaca é contra indicada, a menos que a pessoa seja altamente capacitada, pois a não introdução no coração pode causar hemorragia e uma absorção da droga mais demorada. Quanto ao sulfato de magnésio, não deve ser utilizado como anestésico – não causa depressão do SNC – e a sua administração deve sempre ser precedida por um barbitúrico para induzir à inconsciência.

 

Os anestésicos inalados são de grande valia para certas espécies, nas quais se torna muito difícil a administração venosa. Alguns agentes como o éter não são recomendados, não só por causarem um estado de excitação antes da inconsciência mas, também, por serem inflamáveis e potencialmente explosivos, sendo, portanto, um perigo para quem o manuseia. No caso de sua utilização, devem ser tomadas as devidas precauções. O clorofórmio é carcinogênico e sua frequente utilização constitui um risco para o operador.

 

Os gases não anestésicos são os mais indicados para a eutanásia de pequenos roedores. O CO2 (dióxido de carbono) é relativamente inócuo quando liberado no meio ambiente, é barato, não é inflamável, não é explosivo e quando bem manuseado não constitui risco para o operador e observadores. A inalação do mesmo produz narcose sem recuperação da consciência. O monóxido de carbono e o cianeto são excelentes para produzir morte instantânea, porém, como são de alto risco para o operador e para o meio ambiente não são recomendados para eutanásia de rotina.

 

Agentes curariformes, estricnina e sulfato de nicotina não devem ser utilizados para eutanásia, porque o animal morre por asfixia devido à paralisação dos músculos respiratórios.

 

Ao abordarmos o tema da eutanásia, não poderemos deixar de mencionar a importância da eliminação dos animais já comprovadamente mortos. Os animais devem ser mantidos em observação por tempo suficiente para que todo e qualquer sinal de vida tenha cessado. Sempre que possível, os animais devem ser incinerados. Deve-se ter o máximo cuidado para que as carcaças não fiquem expostas ao público. As carcaças de animais de fazenda podem ser enviadas a um estabelecimento licenciado, para o processamento das mesmas em produtos derivados. É de extrema importância saber como eliminar as carcaças infectadas, com resíduos tóxicos ou radioativos, por se constituírem em perigo potencial para a comunidade e o meio ambiente. Devem ser seguidas as leis nacionais, estaduais ou locais para a eliminação de carcaças e resíduos.

 

 

Métodos padrões de eutanásia humanitária

 

A) FORMAS FETAIS-LARVAIS E EMBRIONÁRIAS

 

1 – Overdose de anestésico apropriada a todas as espécies: qualquer animal.

 

(i) injetável: todos os animais.

 

(ii) por imersão: peixes, anfíbios.

 

2 – Decapitação: mamíferos.

 

B) Animais, não sendo nas formas fetais, larvais e embrionárias.

 

1 – Overdose de anestésico apropriada a cada espécie.

 

(i) injetável (*): qualquer animal.

 

(ii) por inalação: qualquer animal até 1kg de peso corporal, exceto répteis, pássaros e mamíferos mergulhadores.

 

(iii) por imersão: peixes, anfíbios até 250g de peso corporal.

 

(*) método de eleição para animais maiores (seguido de destruição do cérebro em vertebrados de sangue frio e por sangria ou deslocamento cervical em vertebrados de sangue quente, exceto quando for confirmado o "rigor mortis").

 

2 – Deslocamento cervical (seguido da destruição do cérebro em peixes): roedores até 500g de peso corporal, menos cobaias; cobaias e lagomorfos até 1kg de peso corporal; pássaros até 3kg de peso corporal; peixes até 250g de peso corporal.

 

3 – Concussão cerebral por batida da parte posterior da cabeça (seguido de deslocamento cervical em roedores e pássaros e destruição do cérebro em peixes): poedores até 1kg de peso corporal; pássaros até 250g de peso corporal e peixes.

 

4 – Decapitação seguida de destruição do cérebro: vertebrados de sangue frio.

 

5 – Exposição ao dióxido de carbono em concentrações crescentes usando a técnica apropriada, seguida de sangria ou de deslocamento cervical, exceto quando comprovado o "rigor mortis": roedores com mais de 10 dias de idade até 1 1/2kg de peso corporal; pássaros com mais de uma semana de idade até 3kg de peso corporal.

 

 

Considerações especiais: animais de fazenda e eqüinos.

 

Se os animais conseguirem suportar o transporte, estes devem ser enviados a abatedouros licenciados. Caso necessitem ser submetidos à eutanásia no local, os seguintes métodos devem ser utilizados como alternativas para as injeções de anestésicos:

 

1) Suínos – até 70kg de peso vivo, atordoados eletricamente ou com pistola de ar comprimido, seguido de destruição do cérebro e medula espinhal, ou de sangria. Isto não se aplica para suínos mais pesados.

 

2) Ovinos e caprinos – atordoamento elétrico ou por pistola de ar comprimido, seguido de sangria.

 

3) Bovinos – atordoamento elétrico ou por pistola de ar comprimido, seguido de sangria.

 

4) Eqüinos – tiro, o animal cai morto imediatamente quando foi feito corretamente e não requer outra ação.

 

É enfaticamente recomendado o uso de tranqüilizantes para as espécies maiores, bem como para cães e gatos, antes do procedimento da eutanásia.

 

 

Méd. Vet. EKATERINA AKIOMOVNA B. RIVERA: Diretora do Biotério Central da Universidade Federal de Goiás; Membro da Comissão de Ética Humana e Animal do Hospital de Clínicas da UFG; M.Sc. Laboratory Animal Veterinary College, Universidade de Londres.

 

 

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Observação: nesta data (21/06/2009), não consta no site www.crmvrj.org.br nenhuma proibição quanto à transcrição total ou parcial dos textos que o compõem.