Tempo, o que serás tu?

Por Ricardo Moretz Sohn - Fev/2000

Introdução:

        Todos nós sabemos que o ano em que vivemos pertence a um calendário que serve para termos uma idéia de quanto tempo atrás esse ou aquele fato aconteceu ou a quanto tempo para frente esse ou aquele fato deverá acontecer. É nesse ponto que eu me pergunto (e a ti também, caro leitor): Mas o que é o tempo? 
        Para essa questão poderia responder como o fizera Santo Agostinho (354-430 DC): "Se ninguém me perguntar, eu sei. Mas, se eu quiser explicar a alguém, eu não sei". Apesar de não ser uma resposta muito esclarecedora, ela revela a extrema complexidade do tema.    
        Neste artigo, procuraremos fazer uma retrospectiva histórica dos fatos que levaram a humanidade a inventar conceitos como ano, mês, semana, estações, séculos, milênios...

O Conceito de Tempo:

        O conceito de tempo está intimamente ligado à noção de movimento. Não é à toa que todos os inventos para se medir o tempo se baseiam em algum tipo de movimento como o dos ponteiros ou pêndulo de um relógio, da areia na ampulheta, da água na clepsidra (relógios rudimentares no qual o nível de água num recipiente ia baixando continuamente indicando a passagem do tempo), da sombra de um gnômon (relógio de sol) etc. O movimento, por sua vez, está intimamente relacionado à noção de espaço (algo se movimenta quando ocupa ocupa posições diferentes no espaço). Percebe-se, então, que não se pode conceber o tempo ou espaço como entidades isoladas e que, portanto, tempo e espaço formam um conceito integrado de uma entidade que a Física passou a chamar de espaço-tempo quadrimensional (três dimensões para o espaço e uma para o tempo).

O tempo pode então ser concebido como a "distância" que um determinado fato está em relação ao agora.

        Deixemos claro que não obstante esta conceituação tornar visível a conexão entre espaço e tempo, ela é o faz dentro da ótica clássica de tempo qual seja um tempo linear que "passa" inexoravelmente por nossas vidas permitindo-nos classificar os fatos como passados ou futuros separados por um presente pontual e fugaz. Mas o assunto de forma alguma esgota-se aqui ou tem apenas esta concepção. Para lembrar outros aspectos da discussão sobre o tempo, citamos os questionamentos sobre tempo absoluto e relativo, fixo ou elástico, único ou múltiplo, real ou imaginário etc.

A quanto tempo se tem a noção de tempo?

        Atualmente, nossa vida é tão regulada pela noção de tempo que fica difícil imaginar que algum dia tal conceito simplesmente inexistia. Ao saber-se, por exemplo, que se está em janeiro, numa Sexta-feira às 17:00h, pode-se presumir que várias pessoas estão prestes a desfrutar de um "happy-hour" porque no dia seguinte não precisarão acordar cedo já que não há trabalho e assim poderão ir à praia com alguns amigos que vieram passar suas férias...Mas nenhuma dessas informações tinha sentido para o nômade pré-histórico que, apesar disso, já contava com um relógio natural facilmente perceptível: o nascer e o pôr do sol.
        Há cerca de 10.000 anos atrás, surgia o período neolítico, com grupos humanos passando de nômades a sedentários, evolução que iria substituir o extrativismo pela agricultura e passou a surgir a necessidade de um melhor avaliação das estações climáticas a fim de que se soubesse o melhor período para o plantio. É desse período o primeiro calendário que se tem notícia, foi gravado num osso há 13.000 anos em Le Placard, na França.
        Como as estações climáticas eram cíclicas e naturais, era preciso observar fenômenos também cíclicos e naturais para que se pudesse aferir em qual estação se estava. Assim sendo, um fenômeno utilizado para o caso foi o ciclo lunar. Durante tal ciclo, a lua passa por quatro fases básicas, da invisibilidade à visibilidade máxima e desta, à invisibilidade novamente. Esse período é de 29 dias e meio e com ele surgiu o mês para representar o conjunto de dias que englobaria um ciclo lunar completo (O ciclo lunar como foi descrito acima, também chamado de lunação, não deve ser confundido com o ciclo lunar, elemento do cômputo eclesiástico, que corresponde a um período de aproximadamente 19 anos).

A origem da palavra calendário

        A palavra calendário vem do latim, calendas, que significa o primeiro dia do mês romano. Era o dia do pagamento de contas. Os dias do mês romano não tinham por nomes numerais, mas eram identificados por mais dois nomes além de calendas,  nonas e idos. Os idos eram os dias 15 de março, maio, julho e outubro e o dia 13 dos demais meses. Daí veio a expressão idos de março. As nonas caíam nove dias antes dos idos, portanto, nos dias 4 ou 6, conforme o mês. Entre as calendas e as nonas, os dias eram expressados em relação à sua distância das nonas. Entre as nonas e as calendas do mês seguintes, pela sua distância em relação às calendas do mês seguinte.

O calendário lunar:

        O calendário lunar foi então construído alternando-se meses de 30 e 29 dias (para não se utilizar um mês fracionário de 29,5 dias) e dessa forma a cada dois meses (59 dias) duas lunações se completavam. Esse calendário foi inicialmente usado por babilônios, gregos e egípcios mas não era ainda ideal pois o mês lunar não tem uma correspondência perfeita com o ciclo das estações que é regulado pelo sol. Note que doze meses lunares correspondem a 354 dias (6 vezes 59) ao passo que uma dada estação volta a manifestar-se após 365 dias do seu início. Essa diferença de 11 dias entre o ano lunar e o ano solar gerava uma defasagem cumulativa a cada ano lunar em relação ao solar, o que era resolvido acrescentando-se, de tempos em tempos, um mês extra.

O calendário solar:

         O primeiro povo a construir seu calendário baseado no ano solar (ou ano tropical) foi o egípcio, há cerca de 6.000 anos. O calendário era formado de 12 meses de 30 dias (herança do calendário lunar) e mais 5 dias epagômenos dedicados aos deuses Osiris, Horus, Isis, Neftis e Set. Os egípcios observaram que a estrela Sirius (Sótis, para eles), a mais brilhante do céu, aparecia no mesmo ponto em que o sol nasce uma vez a cada 365 dias e seis horas, fato que coincidia com a cheia anual do rio Nilo. O ano solar egípcio possuía uma precisão incrível se comparado ao ano solar atual que é considerado como um ciclo de 365 dias , 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.

        Diversas culturas diferentes têm adotado calendários diferentes, a maioria destes baseados no ano lunar, solar, misto ou lunissolar e em variações destes. Ainda hoje, convivemos com alguns calendários distintos, apesar de o atual intercâmbio comercial entre os povos ser feito universalmente com o uso do atual calendário gregoriano.

O calendário romano:

        O Primeiro calendário romano foi instituído por Rômulo, fundador de Roma, em 753 a.C. Neste calendário, o ano tem 10 meses, sendo 4 de 31 dias e 6 de 30, totalizando 304 dias. Difere portanto do lunar e solar. O dia inicia à meia-noite e o primeiro dia do ano é 1° de março. O calendário inicia no ano 1 AUC (Ab Urbe Condita).

Os nomes dos meses são:

  1. martius, 31 dias, em homenagem ao deus da guerra, Marte
  2. aprilis, 30 dias, em homenagem ao deus da beleza, Apolo
  3. maius, 31 dias, em homenagem ao deus do Olimpo, Júpiter
  4. junius, 30 dias, em homenagem à esposa de Júpiter, Juno
  5. quintilis, 31 dias
  6. sextilis, 30 dias
  7. september, 30 dias
  8. october, 31 dias
  9. november, 30 dias
  10. december, 30 dias

A Reforma de Numa Pompílio:

        O segundo rei de Roma, Numa Pompílio, altera o calendário de Rômulo a fim de aproximar o ano civil romano do ano solar. Supersticioso, acredita que os números pares são azarados e retira um dia dos seis meses de 30 dias que passam, assim, a ter 29 dias. A esses 6 dias retirados, acrescenta 51 formando 57 dias que divide em dois meses, Januarius, com 29 dias, em homenagem ao deus da paz, Janus, representado por duas faces, uma olhando para o passado e outra para o futuro e februarius, com 28 dias e portanto mês do azar, dedicado ao deus da purificação dos mortos, Februa. Era o mês das febres, doenças, desventuras. 
        Dessa forma, o ano romano passava a ter 355 dias, um a mais que o ano lunar para não ficar par e portanto azarado.

O calendário Juliano:

        O calendário romano, por determinar um ano civil menor que um ano solar, tinha, periodicamente, que ter um mês acrescido para que a defasagem das estações fosse diminuída. Mesmo com esse recurso, anomalias aconteciam como o inverno, pelo calendário,  cair no outono. Por esse motivo e para unificar os diversos calendários dos povos conquistados, o imperador Júlio César (100 aC - 44 aC), assessorado pelo astrônomo Sosísgenes, reforma o calendário romano em 46 aC ou 708 AUC. Neste ano, a fim de promover a sincronização com o ano solar, o calendário é estendido para 445 dias com 15 meses e é conhecido como ultimus annus confusionis. O calendário juliano nasce em 1° de janeiro de 45 aC.
        Januarius e februarius são colocados como primeiros meses do calendário fazendo com que a denominação dos meses quintilis a december perdessem a correspondência com a posição daqueles meses no calendário. O ano, portanto, inicia em 1° de janeiro e não mais em 1° de março. O ano passa a ter 365 dias e a cada quatro anos, para manter a sincronia com o ano solar de 365,25 dias é acrescentado um dia a mais ao final de fevereiro e o ano é chamado de bissexto. Os meses têm 30 e 31 dias intercalados, à excessão de fevereiro que fica com 28 dias. Posteriormente, o senado romano mudou os nomes dos meses Quintilis e sextilis para Julius e Augustus em homenagem, respectivamente, aos imperadores Júlio César e Caio Otávio (63 aC - 14 dC), sobrinho-neto de Júlio César, recebe em 27 aC o título de Augusto (filho divino), vindo a ser conhecido como César Augusto ou Otávio Augusto.
        É instituída a semana de sete dias (septimana, sete manhãs), originária dos babilônios, que a utilizavam muitos séculos antes de Cristo. Tal semana teria surgido da necessidade religiosa de se oferecer um dia para cada astro-deus conhecido na época. Posteriormente, os romanos cristãos, com o intuito de retirar os nomes de deuses pagãos do calendário, alteraram o nome dos dias da semana que passaram a ser mencionados como prima feria, secunda feria... e terminando no sabbatum, do shabbat hebraico, dia de descanço.  Em 321 DC, o imperador Constantino, considerando que a ressurreição de Cristo teria acontecido numa prima feria, alterou seu nome para dominica (dominus=senhor). O quadro abaixo exprime as transformações sofridas

Astro-deus

Nome do dia da semana

Em latim Em latim eclesiástico
Sol solis dies prima feria
dominica
Lua lunae dies secunda feria
Marte martis dies tertia feria
Mercúrio mercurii dies quarta feria
Júpiter jovis dies quinta feria
Venus veneris dies sexta feria
Saturno saturni dies sabbatum

Origem do nome bissexto:

        O dia extra a ser acrescentado de quatro em quatro anos pelo calendário juliano era acrescentado contando o sexto dia antes das calendas de março duas vezes, assim este dia (que para o mês de fevereiro com vinte oito dias seria o vigésimo terceiro dia do mês), assim esse ano era o ano do dia bi-sexto (bis sexto ante calendas martii), o que resultou na atual denominação de ano bissexto.

Nascimento de Cristo, o marco inicial:

        No século VI d.C., o abade Dionísius Exiguus propôs que o marco inicial da cronologia cristã fosse o nascimento de Cristo, que o mesmo calculou como sendo a 25 de dezembro do ano 753 AUC. A Igreja acatou a data e o dia 1 de janeiro de 754 AUC passou a ser o dia 1 de janeiro do ano 1, século I da era cristã. Os acontecimentos anteriores seriam datados com um sufixo significando antes de Cristo (a.C. em português) e contados de trás para frente. As datas posteriores seriam escritas com o sufixo significando depois de Cristo (a.D. para anno Domini, no latim; C.E. para Common Era, em inglês; d.C. para depois de Cristo, em português)

O calendário gregoriano:

        O calendário gregoriano surgiu da necessidade da Igreja (Católica) em determinar a data correta da Páscoa, que é uma festa com data móvel. No ano de 325 d.C., a Igreja definiu, no Concílio de Nicéia, que a data da Páscoa seria no primeiro domingo depois da primeira lua cheia do equinócio da primavera (no hemisfério norte), que ocorre, com pouca variação, no dia 21 de março.
        Acontece que o calendário juliano, adicionando um dia de quatro em quatro anos, previa um ano solar de 365 dias e seis horas, o que é um arredondamento para mais já que o ano solar é de 365 dias 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Essa diferença em poucos anos não é significativa mas em 1000 anos ela atinge 7 dias.    
Em 1582, para corrigir a diferença entre a ocorrência do equinócio de março com o calendário, o Papa Gregório XIII tira dez dias do ano, fazendo com que a quinta-feira, 4 de outubro, seja seguida pela sexta-feira, 15 de outubro, respeitando a seqüência de dias da semana. A contagem dos anos bissextos continua a mesma do calendário juliano com     a exceção de que o novo calendário não considera bissextos os anos seculares (terminados em 00) que não sejam múltiplos de 400 (como 1700 ou 1800). O ano 2000, por exemplo, é bissexto pois é múltiplo de 400.
        O ano pelo calendário gregoriano, a despeito de estar muito próximo do ano solar, ainda está com um pequeno excesso de 25,96768 s. Para se ter uma idéia, essa diferença equivale a 3 dias a mais a cada 10.000 anos. Também significa que no ano 4.909 d.C., estaremos adiantados um dia inteiro.
        O calendário gregoriano foi logo aceito pelos países católicos. A França o adotou no dia 20 de dezembro de 1582, segunda-feira, que sucedeu o dia 9 de dezembro, domingo. A Inglaterra, no dia 15 de setembro de 1752 que sucedeu o dia 2 de setembro. O Japão o adotou em 1873, a Rússia em 1923 e a China em 1949. No decorrer do século XX todos os países o adotaram sendo atualmente de uso internacional.

Outros calendários:

         O calendário gregoriano é atualmente o único calendário para fins de relacionamentos internacionais entre as nações. Entretanto, alguns povos conservam outros calendários para uso religioso. Como o intuito de não tornar este texto demasiadamente abrangente, citaremos apenas uma correlação entre diversas eras cronológicas, tendo por base o ano de 1999:

Ano

Era

1999 (31 de dezembro) Cristã
7508 Bizantina
5760 Israelita
4636 Chinesa (Ji-mao)
2752 da fundação de Roma ("ab urbe condita" - AUC)
2748 De Nabonassar
2659 Japonesa
2311 Grega
2036 Hispânica (de César)
1921 Indiana(Saka)
1716 Diocleciana (calendário copta)
1420 Islâmica (Hégira)

Solstício e equinócio:

        Solstícios correspondem às épocas do ano em que os hemisférios norte e sul do planeta Terra estão desigualmente iluminados pelo sol. O hemisfério mais iluminado tem duração do dia maior e noite menor, ocorrendo o inverso no outro hemisfério. Isto ocorre devido à inclinação do eixo de rotação terrestre em relação ao plano formado pela órbita da Terra ao redor do sol e é responsável pelas estações verão e inverno.
        Equinócios ocorrem quando os dois hemisférios terrestres são igualmente atingidos pela luz solar. A duração do dia é a mesma da duração da noite. Os equinócios dão início às estaçoes de primavera e outono.

Veja a tabela resumo abaixo:

Data

Fenômeno

Estação que se inicia no hemisfério
sul norte
22 de dezembro solstício Verão Inverno
21 de março equinócio Outono Primavera
21 de junho solstício Inverno Verão
23 de setembro equinócio Primavera Outono

Novo milênio, 2000 ou 2001?

        Assim como não existem, no calendário gregoriano, os dias 5 a 14 de outubro de 1582, também não existe o ano zero, já que, ná época em que o calendário cristão surgiu, não existia o conceito, atualmente completamente indispensável, do número zero. Não existe algarismo romano para o número zero.O primeiro dia da era cristã foi o dia 1 de janeiro do ano 1, século I. 
        Um outro ponto a observar é que as décadas são subconjuntos dos séculos que são subconjuntos dos milênios, dessa forma, quando acontece a virada de um milênio, isso implica na virada de século e década. Ora, como o primeiro século foi o século I, que iniciou-se em 01/01/01 (mês/dia/ano) e terminou em 31/12/100, todos os demais séculos terminarão em 00. O século XX iniciou em 01/01 de 1901 e terminará em 31/12/2000.
        1° de janeiro de 2001 será o primeiro dia da primeira década do o século XXI, 3° milênio.
        Em síntese,  matemática e oficialmente, a virada do 2° para o 3° milênio se dará de 31/12 2000 para 01/01/2001.
        No tocante ao nascimento de Cristo, a historiografia atual registra o ano 4 a.C. para o fato. Assim, pelo menos desde 1997, já entramos no 3° milênio do nascimento de Cristo

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