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Resenha: "De olhos bem abertos"


 

“De olhos bem abertos”:

Hubert Harrison, visão e voz do Radicalismo do Harlem.

Elena Pajaro Peres[1]

 

Jeffrey B. Perry.  Hubert Harrison. The Voice of Harlem Radicalism, 1883-1918, New York: Columbia University Press, 2009.

     

Politicamente, o Negro é a pedra de toque da moderna idéia de democracia. A presença do Negro põe nossa democracia à prova e revela sua falsidade...” (Harrison, New York Call, 1911). Com essa citação de extremo potencial crítico, Jeffrey Perry inicia o primeiro volume da biografia de um dos mais importantes e, ao mesmo tempo, um dos mais esquecidos ativistas políticos Negros em toda a história norte-americana: o caribenho Hubert Harrison. Intelecutal auto-didata, pensador independente, escritor, orador e educador singular, que chegou aos Estados Unidos em 1900, e transformou-se num dos principais opositores da chamada “supremacia branca”, denunciando todas as suas perversas conseqüências para a América.

Harrison nasceu em 1883 na ilha de Santa Cruz, naquela época território caribenho pertencente à Dinamarca. Apesar da pobreza de sua mãe, uma imigrante de Barbados, e do fato de ter que trabalhar muito cedo para ajudá-la, pôde também dedicar-se aos estudos cursando, até os 13 anos, uma escola não segregada, gratuita e obrigatória. Pouco se sabe sobre a sua infância, mas seu biógrafo conseguiu dados valiosos através do diário deixado por ele e também de entrevistas com seus familiares. Essas descobertas põem em foco o período em que Harrison esteve envolto nas tradições comunitárias originárias da África Ocidental, que forneciam um contraponto à pressão capitalista da economia monocultora com a qual teve também que conviver.

A crença, desde tenra idade, na igualdade entre todos, na possibilidade de promoção social e na comunhão com os oprimidos aparece como essencial para a formação do pensamento crítico de Harrison.  Perry faz uma síntese da história da ilha de Santa Cruz, marcada no século XIX por lutas pela liberdade, primeiro dos escravos, depois dos trabalhadores, permitindo-nos estabelecer conexões, não só para a compreensão da obra de Harrison, mas também para a discussão das diferentes formas de discriminação estabelecidas por contextos históricos diversos.

Perry aponta, através de excelente bibliografia, como se instaurou naquela região uma política de promoção social voltada à uma significativa parcela dos afro-descendentes. Constituindo-se em grupo minoritário, a elite branca necessitava de forte apoio de todos, mas, em especial dos mestiços, para manter o poder e impedir revoltas. Essa estratégia, juntamente com a ausência de um histórico de segregação formal ou de violência institucionalizada contra os negros após a abolição, criava um universo de expectativas particularmente distinto daquele encontrado mais ao Norte.

            Ao tornar-se órfão aos 17 anos, Harrison, cheio de dúvidas, mas também de esperanças especialmente em relação à ampliação de seus estudos, resolveu emigrar para os Estados Unidos, onde se deparou com uma realidade totalmente nova que o fez despertar para a importância da solidariedade afro-americana como forma de libertação. Vivia-se então, no início do século XX, um momento de intensa violência racial contra os Negros e de crescimento do que foi por Harrison depois chamado de “tendências imperialistas do capitalismo americano”. Entretanto, também florescia a escrita crítica no jornalismo e das letras. Nesse clima de efervescência de idéias que confluíam para o ambiente diverso de Manhattan, viveu os primeiros anos trabalhando por baixos salários e frequentando a escola noturna, tendo cada vez mais contato com os livros, mas, sobretudo, com aqueles que ele chamava de “as pessoas comuns” ou “minha gente”.

Era neles que ele pensava quando começou, a partir do quarteirão mais populoso do Harlem, a escrever e a proclamar sua crítica alicerçada na consciência de classe e de raça, influenciando uma geração inteira de ativistas e de pessoas que apreciavam ouvi-lo.

Iniciou escrevendo cartas, publicadas no New York Times, em que explicitava sua indignação contra os linchamentos, a falta de liberdade de expressão, sua oposição à supremacia branca e aos estereótipos racistas, ou seja, tudo aquilo que desmascarava a suposta democracia. Depois vieram os ensaios, resenhas, artigos e livros. Fez inúmeras palestras, deu aulas e, ao final, ajudou a desenvolver a sessão da Biblioteca Pública de Nova Iorque no Harlem, especializada em Literatura e História Negra, atual Shomburg Center for Research in Black History.

Mas a vida de Harrison nos Estados Unidos foi, desde o início, marcada por dificuldades. Buscando recursos financeiros a partir de seu trabalho intelectual, em 1908, escrevera para Henry M. Leipziger, supervisor de conferências do Conselho de Educação da Cidade de Nova Iorque, oferecendo-se como instrutor. Teve que esperar 8 meses para receber um convite e 15 anos para ser finalmente contratado, sob os auspícios de um novo supervisor. Além disso, vários dos ensaios literários e históricos escritos por Harrison nunca obtiveram resposta alguma dos editores para os quais os enviara. Perry conclui que, de fato, não havia muitas oportunidades para um crítico literário e escritor afro-americano que cursara a escola noturna.

Não obstante, o que a biografia aponta é que a questão principal era que o jovem Harrison propunha encarar o mundo com os “olhos bem abertos”, com a consciência clara e a possibilidade de manifestação do pensamento independente, contra as opressões do racismo, do capitalismo e da Igreja. Perry infere que talvez tenha sido essa convicção plena um dos motivos que levaram Harrison a nunca cursar uma Universidade, apesar do seu excepcional desempenho escolar. O rígido controle acadêmico certamente tentaria cercear seus mais empolgantes ideais.

O complexo universo de Harrison, descoberto por Perry, foi o de um homem não só de olhos abertos, mas também de voz e letra solta, que não temia as conseqüências da exposição franca de suas críticas. Harrison não parecia dar importância às estruturas assentadas no comodismo intelectual ou na crítica por demais sutil. Ele preferia a fala e a escrita explícita, livre, sarcástica até, mas marcada pelo desejo de discussão racional, acreditando ser essa a única maneira de avançar em questões cruciais para o estabelecimento da justiça social.

Nessa crença sem limites, em vários momentos Harrison entrou em confronto com líderes afro-americanos politicamente mais contidos ou, como ele declarava, subservientes. Esses desacordos trouxeram-lhe desagradáveis consequências, como a perda, em 1911, do emprego que havia conseguido nos correios, por influência direta dos amigos do poderoso republicano e ex-escravo Booker T. Washington. Isso o deixou numa situação de precariedade econômica da qual nunca pôde se libertar.

            A pobreza era algo com o qual ele sempre tivera que se deparar, mas que não temia, enfrentava-a com seu esforço auto-didata, escrevendo aos jornais, falando publicamente, ensinando. Ampliava seus conhecimentos e sua oratória nos encontros entre afro-americanos para a discussão literária, histórica e política nos chamados Lyceums das igrejas católicas e metodistas, no grupo de estudos que criou com seus colegas de trabalho no correio ou nos fóruns especiais.

Com sua liderança já reconhecida, em 1918, organizou com William Monroe Trotter o Congresso Nacional de Libertação, em Washington D.C., o qual teve as reuniões monitoradas pelo governo americano. Uma campanha da agência de inteligência militar das Forças Armadas, arquitetada por Joel E. Spingarn, membro da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) e amigo do intelectual e socialista W.E.B. Du Bois, tentara esvaziar o Congresso. Uma vez mais Harrison colocava-se em disputa com o grupo de um consolidado líder, pregando leis federais anti-linchamentos imediatas e desafiando a idéia de uma democracia condescendente com a discriminação racial. Sua veemente crítica à Du Bois, líder que antes admirara e que tinha uma posição mais branda, fez com que este nunca mais publicasse uma linha sequer sobre Harrison em seu periódico, The Crisis.

Apesar de sua profícua e intensa atividade crítica e do reconhecimento de muitos dos seus contemporâneos, Harrison foi sendo ignorado após sua morte, em 1927, e poucos estudos foram dedicados à sua vida e obra. Suas idéias porém foram constantemente retomadas, inclusive pelo próprio Du Bois, o que Perry aponta com muito interesse.

Esse esquecimento do nome, mas não das idéias, muitas décadas mais tarde, começou a intrigar uma outra mente também inquieta, a de seu biógrafo. Tendo Perry, ele próprio, vindo de uma família de trabalhadores, como relata na introdução de sua obra, preocupou-se sempre em compreender as falhas e esforços em direção à mudança social nos Estados Unidos, denunciando a responsabilidade da supremacia branca em minar as possibilidades alternativas. Buscando esse alvo, dedicou-se na Columbia University, em princípios dos anos 80, à investigação dos textos de escritores pertencentes aos grupos trabalhadores contrários a essa supremacia. Isto o levou ao encontro decisivo com a obra de Harrison, o que fez com que mudasse o tópico de sua pesquisa de doutorado. Com a supervisão de Nathan I. Huggins, grande estudioso da história cultural do Harlem, Perry direcionou sua atenção à redescoberta da vida daquele crítico e ativista. Paulatinamente foi conseguindo acesso e inventariando o acervo de Harrison que se encontrava com os familiares, até que por fim todo esse material foi entregue aos cuidados da biblioteca de livros raros e manuscritos da Columbia University, onde atualmente se encontra.

            Segundo Perry, a denúncia radical de Harrison ao sistema de classes e da religião, além da oposição à supremacia branca, teriam levado propositadamente ao seu esquecimento. Outros fatores importantes seriam sua morte prematura, seu constante estado de pobreza e a falta de alguém para promovê-lo. Pelo que se pode perceber, Harrison era um crítico afiado e bem preparado contra os mais diversos setores e personalidades, sem considerar ofensiva a liberdade da palavra. Ele dizia o que pensava e esperava o mesmo, mas certamente não era sim que o mundo das idéias funcionava.

Nem mesmo no Partido Socialista, do qual se aproximou após ser demitido dos correios, entre 1911 e 1914,  encontrou a liberdade que esperava. Sua luta dentro do movimento em prol de uma postura firmemente anti-racista levou-o a concluir que o Partido colocava sempre a supremacia dos brancos à frente da questão de classe. Isto, segundo Harrison, era demonstrado pelas atitudes segregacionistas dos socialistas no Sul do país e também contra a imigração asiática. Por esse motivo, após posicionar-se mais à esquerda, Harrison abandonou o Partido, uma vez que era sua convicção apoiar os trabalhadores Afro-Americanos contra qualquer união laboral racista ou até mesmo, se fosse necessário, contra a nação. Para ele era impossível ser leal a um país que se apoiava na supremacia branca.

Fundou a seguir o Radical Forum, sendo pioneiro na tradição da oratória militante nas esquinas do Harlem, conferindo concorridíssimas palestras para os que por ali passavam, defendendo temas polêmicos como a igualdade entre homens e mulheres e a necessidade do controle da natalidade. Suas falas tornaram-se famosas, como também depois dele, as de outros caribenhos, como o jamaicano Marcus Garvey, futuro presidente da Universal Negro Improvement Association, a quem muito influenciou.  No livro Homem Invisível, de 1952, Ralph Ellison descreve uma dessas cenas de brilhantismo oratório como sendo uma das primeiras coisas que o seu jovem personagem vislumbra ao chegar ao Harlem vindo do Sul.

Em 1916, Harrison criou o New Negro Movement pela “igualdade política, justiça social, oportunidade cívica e poder econômico” para todos que sofriam discriminação no mundo e que sentiam o peso da color line, não apenas para os Afro-Americanos.

 Um ano depois, diante do recrudescimento dos linchamentos de pessoas negras, da segregação e dos protestos raciais que acompanharam a Primeira Guerra Mundial e a grande migração do Sul e do Caribe para o Norte, fundou a Liberty League of Negro-Americans, acompanhada pelo jornal The Voice. A Liga, que foi a base para o posterior movimento liderado por Garvey, diferentemente da Associação de Du Bois, não aceitava o suporte financeiro dos brancos, por considerá-lo um aprisionamento.

Para além do radicalismo político, o que a biografia de Harrison nos mostra, por outro lado, é um homem que, antes mesmo do aclamado Renascimento do Harlem, começou a priorizar em seu trabalho a arte, escrevendo resenhas críticas especialmente sobre teatro Negro, o qual via como uma possibilidade futura de livre manifestação. Era preciso mudar a situação de preconceito e discriminação que prescrevia ao negro no palco apenas papéis secundários ou risíveis, tendo-o afastado da atuação em dramas, reservada aos atores brancos. A militância cultural de Harrison foi no sentido de promover novos leitores, escritores e artistas. Para ele, o que estava acontecendo no Harlem era uma continuidade de movimentos culturais iniciados em torno de 1850.

Harrison falou e escreveu sobre os potenciais e os abusos da democracia, considerando sempre que ela só se constituiria com a participação irrestrita do Negro e a destruição da color line imposta pela supremacia branca que, por sua vez, apoiava-se na propagação desenfreada do racismo nas classes trabalhadoras formadas e constantemente aumentadas pelo grande contingente de imigrantes europeus, que não cessavam de chegar.

Autor de outros dois outros importantes estudos sobre a vida e a obra de Harrison: Hubert Harrison: Life, Legacy & Some Writings e A Hubert Harrison Reader, Perry, pesquisador experiente e perseverante, mostra nesse seu mais novo livro como foi ao longo dos anos aprofundando  suas investigações e descobrindo pontos que só agora são revelados. Utilizou para isso uma linguagem fluída, instigante, que preserva a seriedade do estudo analítico e crítico sem abandonar a paixão do biógrafo pelo tema e pela personalidade de Harrison. A mesma paixão que demonstra em suas conferências sobre o assunto, como a que proferiu em fevereiro de 2010 no W.E.B Du Bois Institute for African and African American Research da Harvard University, deixando clara a atualidade e o potencial crítico da obra de Harrison.

            O livro, cuidadosamente produzido pela Columbia Press, está dividido em três partes que relatam desde a infância de Harrison até a criação do Novo Movimento Negro. As notas com comentários bibliográficos são extremamente significativas àqueles que se interessam não só por questões relativas à da diáspora africana na América, mas também pela história do pensamento radical e pela forma como se dão as trocas culturais e a circulação de idéias em ambientes de extrema concentração de pessoas em movimento, como era o Harlem no início do século XX.

Brevemente será lançado um segundo volume que retratará os últimos anos da vida de Harrison, de 1918 a 1927, período em que ele editou a revista militante New Negro, tornou-se o principal editor do Negro World, ligado à Marcus Garvey, e publicou seu livro When Africa Awakes. Dada a qualidade demonstrada no volume 1, será impossível, agora, fecharmos os olhos para sua continuação.

 



[1] Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo.

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Ċ
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flavio9397able .,
09/10/2010 13:29
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