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As Origens do Reino do Kôngo Segundo a Tradição Oral

Patrício Batsîkama[1]

 OBS: Versão completa do artigo com imagens somente em pdf


Resumo: A origem do reino do Kôngo é aqui abordada baseando na Tradição Oral registada ao longo de tempo: as primeiras foram nos séculos XVII-XVIII por autores como Cavazzi, Cadornega, Lorenzo da Lucca; as segundas foram nos séculos XIX-XX por autores como Rafael Vide, Cuvelier, Van Wing. Partindo de algumas convergências dessas tradições e optando por uma metodologia apropriada – paremiológica – analisa-se por um lado essas tradições internamente, para depois comparamos com a cosmogonia dos Kôngo. Por outro lado, comparamos essas análises com os termos ligados ao sentido de “origem”, tal como Deus, nome, entre outros. Desse estudo, as origens do reino do Kôngo parecem situar-se no Sul de Angola, na região que vai da bacia inferior de Cunene até a região fronteiriça entre Angola, Namíbia e Zâmbia. Isto é do ponto de vista da tradição oral.

Palavras chave: História da África - Linguistica - Reino do Congo - tradição oral - Paremiologia.

 

Abstract: The origin of the Kongo kingdom is discussed here based on oral tradition as recorded over time: the first was in the XVII-XVIII by authors such as Cavazza, Cadornega, Lorenzo da Lucca; the latter were in the XIX-XX centuries by authors such as Rafael See, Cuvelier, Van Wing. Assuming some convergence of these traditions and choosing an appropriate methodology - Paremiology - breaks down on the one hand these traditions internally, and then compare them with the cosmogony of Kongo. Moreover, we compare this analysis with terms related to the sense of "origin" as God's name, among others. In this study, the origins of the Kingdom of Kongo appear to be in southern Angola, the region that goes from the lower basin of Cunene to the border region between Angola, Namibia and Zambia. That is, in point of view of the oral tradition.

 

Keywords: History of Africa – Linguistic – Kingdom of Kongo – oral tradition – Paremiology. 


 


I.1. Segundo a Tradição Oral

O ponto de partida das origens do Kôngo, se escutarmos os depositários de tradições orais ancestrais, aparenta uma grande confusão. Todavia, todos reconhecem que “Nsûndi tufila ntu, Mbâmba tulâmbudila malu” ou “Ntu kuna ntându, malu mu mayânda ma nzâdi”, ou ainda, “Mpânzu ku ntu, Kyângala kunnima”. Das transformações substanciais ocorridas na transmissão, essas “frases” dinâmicas salvaguardaram as originalidades do começo.

Estas citações constantemente repetidas pelos depositários dos repertórios orais, talvez por confusão, marcam o movimento-mestre, segundo o qual os antigos – aqueles que são simplesmente descendentes – teriam tomado nas ocupações do país. Mesmo os Missionários que recolhem as tradições orais no século XVII ou XVIII, como Bernardo da Gallo, António Cavazzi, entre outros, ouviram estas frases nos Kôngo.

Então, recorrendo ao mapa geográfico do antigo Reino do Kôngo, conforme debuxado pelos autores, observamos, logo, que Nsûndi fica no Norte, Mbâmba no Sul e Mpêmba no Centro. Por esta via, digamos que Nsûndi tem outras equivalências, nas quais Mpânzu e Mpûmbu intervirem também, e Mbâmba muda-se com Kyângala - pode verificar-se nos livros clásicos da linealogia de Jean Cuvelier e Joseph De Munck.

Comecemos por explicar estes repertórios dispersos e seus contrastes. No seu ilustre Dicionário kikôngo-francês, Laman dá os significados a estas palavras que estimamos como raízes de Nsûndi:

1)    sûnda: estabelecer-se, instalar-se, residir;

2)    sûnda: acabar, cessar, terminar;

3)    sûnda: superar, ultrapassar, ser preferível, superior à, melhor do que, ser o primeiro, estar em frente de uma corrida, um concurso, atravessar a água, nadar, flutuar.

 

Tomamos NTÂNDU, Norte, cujas raízes são:

1)    tânda: flutuar, nadar, passar a nadar ou ir aqui e acolá, andar;

2)    tânda: quem é grande;

3)    tândaba: ir aqui e acolá, num lugar certo, num país;

4)    tândula: largar, tornar grande, esticar, aumentar, cercar um país.

 

Quanto a Mbâmba e yânda (kyângala e Mayânda):

            MBÂMBA:

1)    bâmba: colar, fixado pelo barro, agarrar, fechar, apertar;

2)    bâmbakana: associar-se, juntar-se (num trabalho), apaziguar, amizade;

3)    bâmbakasa (enriquecido por bambakana): separar-se, deixar-se, ir cada um para sua costa.

 

YÂNDA:

1)    (ma)yânda: começo, origem, princípio, razão, causa, fundamento;

2)    yânduka (yândula): sentir calor, muito calor; aquecer-se, derreter-se como a banha (ao sol), aquecer;

3)    yândula: retomar, propagar, divulgar.

 

KYÂNGALA:

1)    ky-ângala: suor, transpiração, calor, atmosfera sufocante;

2)    yângala: o que é grande;

3)    yânga(la)kana (não existe no dicionário Laman): estender-se, retomar-se como uma planta trepadeira. Sinónimo de yânzakana (cf. Laman): estender-se como uma planta trepadeira, variante de yânzama;

4)    yângama (verbo de estado de yângika): flutuar sobre (uma superfície liquida), visível, estar elevado, gigantesco;

5)    yângama: largar-se.

 

Estas contiguidades linguísticas autorizam-nos a afirmar que o mundo dos Kôngo não parece começar na Mbâmba, mas sim no Sul. Na verdade, isto refere-se à concepção da cosmogonia dos Kôngo. (Ma)yânda significa o Sul, para além da origem. Portanto, lembre-se ainda que, neste país do sul, informam-nos essas proximidades linguísticas, «faz-se muito calor» (tal afirmação é apoiada pelas palavras yânduka e Kyângala). Aliás, a tradição recolhida por Bernardo Da Gallo e Jerome de Montesarchio, nos séculos XVII e XVIII, copiada e também registada por Monsenhor Jean Cuvelier, diz directamente que o país onde o primeiro rei Kôngo estabeleceu a sua capital era Nzânz’a Nkâtu (Cuvelier: 1934, pp. 12,17,21,33,37,38). Esta palavra traduz-se literalmente “NÃO TEM GENTE”, gente designando aqui a flora. Os tradutores da Bíblia apoiam-nos verosimilhantemente quando equivalem “DESERTO” a “Nsi’a Nkâtu”[2], sendo NZANZ’A NKATU uma variante. Então, que deserto? O nosso continente tem apenas dois. O Sahara, no Norte, e – a opção menos contraditória – o KALAHARI, no Sul, por outras palavras, no (MA)YÂNDA.

Na toponímia desta região, os autores assinalaram, e continuam ainda a assinalar, o topónimo de MBÂNGALA (Delachaux: 1936, pp.8-9), exactamente na parte meridional de Angola. Acontece que nos Kôngo a palavra mbângala designa a época marcada pela falta de chuva, tempo seco e de grande calor (Agosto - Setembro)[3]. Além disso, em kikôngo (conferir nos Dicionários Laman e Bentley), a expressão kuna mbângala traduz-se por há muito tempo. Deste modo, a palavra MBÂNGALA aparenta guardar as sequelas do seu velho sentido! E quando Jean Cuvelier fala de KÔNGO-DYA-MBÂNGALA NZÛNDU TADI e Jean Van Wing do KÔNGO-DYA-MBÂNGALA como país das origens (Cuvelier: 1972, p.24; Van Wing: 1921, p.155), segundo foram informados, a língua, portanto, confirma-o literalmente. Desta maneira, perguntamos resumidamente: onde se situam as origens do Kôngo?

De acordo com os elementos da língua aqui referenciados, essas origens começam no Kalahari inferior, onde encontramos uma região chamada MBÂNGALA pelos antigos etnógrafos (Delachaux, por exemplo, assinala-o no seu livro). Hoje, esta região é povoada pelos Côkwe, Umbûndu, e subdivisões destes: Nyaneka e Nkúmbe. Os elementos da língua confirmam[4] que mbângala, quer seja palavra abstracta (há muito tempo) quer realidade climática, é a ORIGEM dos primeiros fundadores do Kôngo e que o país teria sido constituído aí pela primeira vez. Assim, foi provavelmente nessa região que se fortaleceram as amizades e as fraternidades a fim de evitar ou prever outros turvos. Na mesma altura, tudo indica que teria sido aí mesmo que, pela primeira vez, houve cismo, cujo objectivo parecia ser a extensão (o alargamento do país) assim como o indica sentido da palavra yângama e yândula acima mencionada.

 

 

 

Fig.1[5] (abaixo)

 

Do outro lado, Nsûndi e Ntându, segundo as suas raízes – sûnda: estabelecer-se, instalar-se, findar, acabar e tândaba: ir aqui e acolá. –, demonstram uma sequência e conclusão de uma obra ou fim de uma História (começada no Mayânda). Ademais, para os Vîli, cidadãos de Lwângu, a palavra Nsûndi significa uma instalação[6].

Vamos abrir parênteses para explicar a palavra LWÂNGU decompõe-se da seguinte forma: lu, prefixo locativo que significa acção e de vângu que deriva de transitivo vânga, isto é, fazer, formar, acabar, cumprir, determinar e terminar. Assim, Lwângu, em relação a Kyângala (mesma raiz e sentido que mbângala, Mbâmba também consta nesta lista, se bem que com raiz diferente), cujo sentido é o começo, a origem parece, de forma verosímil, precisar FUNDAÇÃO DO REINO DO KÔNGO. Lwângu está localizado no Norte e Mbângala no Sul: duas extremidades. Esta é outra prova evidente que Lwângu, semanticamente, significa fim (Norte), em relação a Mbângala, que é o começo (Sul). Fechemos parênteses.

Como afirma Denis Paulme, baseando-se nas vicissitudes das línguas Bantu, “as tradições indígenas são confusas, indicam entretanto que, além dos reinos de Loango e do Congo, os estados poderosos foram constituídos com as soberanias de origem comum. Por causa da cisão, as migrações sob conduta dos membros da família reais[7] propagariam a mesma civilização do próximo ao próximo[8]. No século XV, o Loango e seus tributários foram submetidos ao soberano do Congo ou Manicongo, cuja autoridade se estendia desde Sette Cama do Norte até ao Alto Zambeze” (Paulme: 1961, p.54).

Denise Paulme, apesar de ser cientista que já mereceu o direito nas civilizações africanas, escreve estas linhas tendo em mente todas as ironias a respeito da Tradição Oral. Até mesmo o grande historiador africano Joseph Ki-Zerbo (Histoire de l’Afrique, Payot, Paris, 1979) pensava da mesma forma, isto é, que a tradição oral, por ter conhecido muitas alterações, deve ser escolhida e peneirada. Várias vezes, a falta de método compatível obriga qualquer cientista até sapiente a pensar desta forma. Portanto, ao afirmar que a autoridade de Manicongo, ou melhor, Mani-Kongo foi reconhecida em Alto Zambeze (Yambesi), ala atesta uma ligação histórica ou antropológica entre o Reino do Kôngo e esta região. Os povos daí são Côkwe e Umbûndu na sua generalidade (Nyaneka, Ngânda, Ndômbe, Nkûmbe, …). Alto Zambeze situa-se no Kalahari inferior! (sic!). Voltaremos a estudar nos subcapítulos seguintes as afinidades e filiações entre Kôngo-Côkwe, Kôngo-Nyaneka-Nkúmbe e Kôngo-Umbûndu.

 

I.2. Kôngo-Côkwe, Afinidades ou Filiações?

Para qualquer antropólogo, Kôngo e Côkwe são dois grupos etnolinguísticos diferentes. Para o linguista, cada grupo evoluiu junto com o seu quadro geográfico peculiar. O historiador acredita que os dois grupos, além de evoluírem em zonas diferentes, têm origens heterogéneas. Apesar destes pontos de vista, os especialistas não ignoram os laços de parentesco entre os dois “grupos” caso considerá-los como “Bantu” (Zimbabweyanos).

 

I.2.1. O País das Origens

Dizem que Côkwe e Lûnda coabitaram nas origens, no país chamado IKO ou KOLA (Matadiwâmba: 1988, pp.4, 6-7). A palavra IKO significa LAREIRA em português, escreve Albino Alves, no seu dicionário. No entanto, no Dicionário Umbundu-Português, escrito pelo L.Guennec e Valente, podemos verificar mais sentidos de IKO: FOGO, LAREIRA ou LAR (Alves: p.205).

Porém, IKO não é o único termo. Os Côkwe falam também de LUNDU nyi Senga (Lima: 1966, p.116). A expressão otjiLUNDU significa em Côkwe, e também em línguas dos Umbùndu, “aldeia abandonada há muito tempo”; ULUNDU ou ovoLUNDU (Côkwe e Umbùndu) designa “a montanha onde se vai buscar ou se queima a lenha” ou “ lugar (montanha) onde se fabrica carvão”; OkaLUNDU quer dizer “cemitério”, que é sinónimo de KEMA, isto é, ser carbonizado ou pintar em negro, utilizando o método de queimar[9].

 

I.2.2. A Localização deste País

Marie-Louise Bastin e M. Lima pensam que os Côkwe vêm de Tanganyika, de Leste, de acordo com o repertório oral. Este Leste diz-se NGANGELA. Eis como reza a tradição: “ku Ngangela tangwa cicamene (…) Ku Luanda cangoloshi” (Bastin: pp.272-273).

Eis a tradução votada: NGANGELA, onde o sol nasce e LUANDA, onde o sol vai dormir. Bastin, Lima e outros são letrados e passaram pelo banco da escola onde aprenderam tanto como nós que o Sol nasce a Leste. Essa tradução também já foi assimilada para muitos Côkwe que passaram pelo banco da escola (David Mudiandu, Américo Kwononoka[10] tiveram a amabilidade de traduzir essa frase por nós da mesma forma que Bastin). Eis a razão pela qual, no seu entender, NGANGELA se traduz aqui por Leste. Portanto, como podemos ver, Luanda aqui não significa Oeste. O que demonstra que NGANGELA significaria provavelmente outra coisa. A lógica quer a região contra a região e o ponto cardeal contra o ponto cardeal, como sempre foi.

Vejamos a etimologia do termo. Ngàngela: de N, de gànga e de la. O primeiro é prefixo, o segundo a raiz e último o sufixo. Albino Alves (com o Dicionário Umbûndu) e Adriano Barbosa (com o Dicionário Côkwe-Português)[11] escrevem que o verbo ganga significa brilhar, cintilar, propagar o fogo da vista (ou olhos) e ser cruel. O sufixo la (hala) marca a acção. Assim, NGANGELA significaria onde se faz muito Sol, Sol sendo o fogo primitivo, reza a lenda[12]. Pois Sol passaria a significar ou designar a “região do Sol nascente”, o que implica que Leste seja apenas um dos sentidos. No entanto, como região, confine a IKO, KOLA, LUNDU e MBÂNGALA, porque tem sentido de proveniência, da origem do Sol[13]. Ora, onde se localiza este país onde origina o sol?

Nas suas pesquisas, Lamal constatou que os “Bantu”, que se formaram no círculo zimbabueano, seguiram os rios conforme a direcção destes últimos e fundaram reinos perto das águas. O autor sublinha que “os grandes rios, que serviram de migração, correm do Sul para o norte desde o Kalahari inferior até nas caídas do rio Tsàkàla Mumvîdia” (Lamal: p.6).

Kalahari: deserto. Ora, Ngângela, de onde vem o sol, é um lugar árido! Na actual geografia do Kalahari inferior encontramos nascentes de águas (fontes), que portanto é um dos sentidos da palavra Ngângela (nascente do sol). Assim, fazem excelente correspondência: deserto, sol, calor, região árida. Os Kôngo localizam Mbângala (origem deles) no mayânda (sul-calor). Delachaux situa esta Região-Sul-calor-Sol no Kalahari inferior, justamente na região de que fala Lamal.

Como o indicam os elementos linguísticos, os Kôngo e Côkwe parecem ter as origens idênticas de um mesmo país.

 

I.2.3. O Primeiro Rei

I.2.3. a) Côkwe

“Kònde amaldiçoou seus filhos, assim como as suas descendências; deserdou-os e proclama que doravante a sua filha suceder-lhe-á. Quando sentiu a morte bateu à sua porta, confiou ao seu irmão a bracelete, símbolo do poder, recomendando-o de transmitir a Lueji. Kònde foi enterrado debaixo do rio. SAKALENDE, seu irmão, convoca os Nobres (Tubùngu) que vão ratificar a decisão do defunto”[14].

Insistimos no termo SAKALENDE. Uma primeira hipótese é que este antropónimo signifique PAI DE KALENDE. SA, partícula que significa pai, e KA-LENDE, alguém que é lento e preguiçoso, derivando do verbo lendelela.

De acordo com as versões a respeito deste evento e por escutado vários informadores dessa “família Côkwe”, eis o que a nossa humildade pensa ser uma verdade histórica:

Saka deriva de saka, isto é, agitar (um líquido no vaso, ou objectos no cesto), adivinhar, oscilar e vacilar o cesto[15]. Podemos verificar no dicionário de Adriano Barbosa que sâkula, derivado de sâka, significa escolher, seleccionar, tirar de lado, excluir e eliminar e sâkalwila (de sâka) significa “tratar medicinalmente”. Decerto, verifica-se aqui a questão de NGÂNGA, Padre ou alguém desta classe dos Sacerdotes.

Lende deriva de lende, ou seja, nuvem, confusão, turvo. Adriano Barbosa escreve, no seu dicionário, que lende significa ser preguiçoso, sem actividade e lento. O autor assinala, também, que é uma velha forma e pouco usada, informação verificada por nós nas localidades de Lumbâla na província de Moxico. Este sentido é largamente confirmado pelos verbos: 1) lendila: ser ou ficar muito tempo sem obra ou cobrir-se de nuvens; 2) lendelela: sujeitar ou submeter. Este termo referia-se a Rueji, uma vez que foi muito antes proclamada como sucessora (sem exercer ainda seu poder). Isto é, estava ainda lenta, sem trabalho, sem actividades. E isto diz-se em termo zimbabweyano da sacralogia: ela estava coberta de nuvens. Ora, para sair deste estado, foi necessário a intervenção de SAKA LENDE (ou melhor, Nsaka ja Lende), como o sentido literal do nome o refere (quem trata da medicina tradicional, quem agita os preguiçosos, etc.). Assim, de acordo com as versões acerca desta história, sem o sacramento e/ou a intervenção de Nsaka ja Lende, nunca Rueji sucederia a seu pai.

 

I.2.3. b) Kôngo

“Houve uma grande confusão na Corte e Nsâku Ne Vûnda resolveu a situação do seguinte modo: quem pretender suceder ao trono, deve doravante ser baptizado pelo Sacerdote Nsâku Ne Vûnda, sem o gesto através do qual nenhuma legitimidade será reconhecida” (Cuvelier: 1972, p.114), assim traduzimos o extracto de uma tradição recolhida pelo Monsenhor Jean Cuvelier.

“Na localidade de Mbânza-Kôngo, a tradição assinala a existência de uma autoridade de carácter religioso, possuindo os poderes mágicos e qualquer candidato para dirigir deve necessariamente adquirir o seu apoio, sem o qual nenhum poder será reconhecido. Sem o seu consentimento, nenhum rei pode reinar” (Dos Santos: 1965, p.57), assim diz Dos Santos. 

Passamos agora às similitudes. SÂKA significa, tal como Nsâku, aquele que consagra, que administra um sacramento a alguém, a pessoa que abençoa. Este Nsâku dos Kôngo, lemos acima, possuía os poderes mágicos de carácter religioso, acrescenta. Isto relaciona-se bastante com SÂKA Côkwe que trata de forma medicinal ou que agita os preguiçosos. Ninguém se esquece que a terapia no mundo zimbabweyano requer os poderes sobrenaturais na pessoa do praticante.

Quanto a LENDE, Rueji estava lenta, sem actividade e sem trabalho. O que significa que ainda estava coberta das nuvens. Eis a razão pela qual foi necessário a submissão (lendelela). Observamos que nos Kôngo, este LÊNDE, na lógica, corresponderia a VÛNDA, cujas raízes derivam de: 1) repousar, descansar ou tomar um tempo para descansar; 2) estar desempregado ou tomar o seu tempo sem nada para fazer. Como nome de uma pessoa, escreve Laman no seu famoso Dictionaire Kikôngo-Français, “diz-se também de uma pessoa gravemente doente”. Ora, o sentido de Côkwe de SAKALWILA completa esta ideia Kôngo exposta pelo Laman.

Rueji significa, em Côkwe, “quem se quer inabordável, impagável, que não quer” (Matadiwâmba: 1988). Ora, Luezi, em Kikôngo, lemos nas lexicografias, é uma “pessoa que não quer trabalhar”[16], sinónimo de Lukenyi “que quer ser inabordável, alguém que ninguém pode tocar ”[17].

 

I.3. Kôngo-Nyaneka

I.3.1.O País das Origens

Na oralidade, os Nyaneka particularmente entre os Umbûndu pensam que são donos das localidades que ainda ocupam. Mas, revogam o país das origens como uma região deserta, porém cheia das nascentes. A seguir, enumeramos certas palavras que indicam o país das origens.

EIKO, IKO ou EKALA significa lar, origem materna, família da mãe, mas, também, FOGUEIRA. (Como podemos observar, a mesma palavra que significa ORIGEM, também está ligada ao FOGO, CALOR e FAMÍLIA.)

OMANTHIYA[18] quer dizer LAR ou LAR FAMILIAR onde o fogo aceso durante a noite reúne todos. Também designa “as pedras de suporte para as panelas”[19]. O lar ou lugar onde o fogo reunificador é aceso chama-se OMANTHIYA e fogo em si é EIKO ou IKO, ou seja, EKALA. Curiosamente, tîya, raiz da palavra lunyaneka, significa quente em kikôngo. Desta vez, uma mesma palavra liga as-três-pedras-suportes-das-panelas e a família.

EHOKO (IKO), EKANGELA (N-gângela) e ETUNDA são palavras diferentes que significam deserto, aldeia-não-habitada, terra abandonada e até uma montanha (ekolo). Digamos que um outro sentido da montanha é reduzidamente a pedra-suporte-das-panelas. No sentido da montanha, cujo OMPHUNDA é sinónimo, existe várias lendas de origem. Deste modo, reza a Tradição que a vida iniciou entre três montanhas, assim como a comida começa, antes de mais, entre as três pedras-suportes. Um entre milhares provérbios lembra-lhes isso: “enanthiya like kalinthiki mbiya”, ou seja, uma só pedra (montanha) não pode sustentar a panela. Os Kôngo dizem: «makukwa matatu malamb’e Kôngo». O País do Kôngo foi fundado pelas três pedras - suportes da panela. Nesse provérbio, a palavra enanthiya significa, entre outros, família e montanha-pedra suporte. Como será explicitado mais à frente, makukwa corresponde a enanthiya. De outro modo, partindo desse provérbio, nota-se de que os Nyaneka parecem acreditar que a sua sociedade fundamenta-se em três famílias ou três linhas principais onde o povo se identifica como cidadão.

 

1)     OKAAYA designa a terra sagrada, argila branca para unção ritual. A lenda diz que a argila branca é símbolo dos ancestrais. Onde encontrar? Pergunta uma adivinha. «Depois do fogo se apagar», responde a sabedoria ancestral. Ou outra resposta, mas vulgar: a terra branca foi-se com o vento, (Okaaya kaya n’ofela) quando a adivinha é: onde vivem os bisavôs já ninguém consegue ir para lá viver. Porquê?

2)     OUTUNDILO significa nascente do sol (na linguagem corrente, o sol é ekumbi ou etango). A palavra deriva de tunda, ou seja, aparecer unicamente para o sol. Outro sentido é de DESERTO, ou UMA ALDEIA INABITADA, mas que já terá sido habitada anteriormente. A palavra tem a mesma raiz que MONTE (OMPHUNDA). Em resumo, a concepção bantu estipula que a família é origem de toda a sociedade. Ora, as palavras aqui usadas são EIKO, IKO, EKALA. Isto é Kola dos Kôngo ou Iko(la) Côkwe. Neste último grupo, otji-lundu[20] (também é Umbundu) significa uma aldeia abandonada há muito tempo. Como referência, citamos ETUNDA (outundilo: nascente do sol) que em Nyaneka-Nkumbe significa a mesma coisa.

 

A Base de elevação de terreno chama-se EKOLO. A Causa, “foi por causa dele” OKOMBANDA yae, dizem os Nyaneka, isto é, OMBANDA significa causa, sinónimo de base. Também se utiliza o verbo k’ombanda como FUNDAR[21]. Na verdade, OMBANDA, tendo estes sentidos, significaria a mesma coisa que MAYANDA dos Kôngo. (O bilabial ma + o velar ya produzem geralmente MBA). Se bem que mbânda significa CIMA (homem que vem do céu e a crença dos Nyaneka[22]). Pelo menos, temos um testemunho de que a causa ou a base da sociedade não foi apenas EKOLO, mas também OMBANDA que, em Kikôngo, teria mayânda como variante se consideramos os princípios da metamorfose morfológica. Ambos os termos significam origem.

Assim, nesta amálgama de Iko (Côkwe), Mbângala ou Kôla (Kôngo), Ekangela (Nyaneka-Umbûndu) para significar DESERTO, a semântica extensa revela que o lar primitivo (IKO) estaria ligado ao clima ou à região árida. Mbângala (kúna Mbângala dizem os Kôngo para indicar há muito tempo), que intervém nas expressões, além de significar clima caracterizado pela ausência das chuvas, confirma que EKANGELA e Nyaneka-Nkumbe designassem as ORIGENS.

Onde estaria localizado este país das origens? Os Nyaneka e os Nkumbe localizam-se nessa região chamada MBÂNGALA pelos antigos etnógrafos (ver Delachaux). É um deserto um pouco húmido. Portanto, mais ao Sul temos a continuação do Kalahari e das populações Nyaneka (Umbûndu em geral) que, segundo quase todos etnógrafos desde Estermann, Westernam e Baumann, que sustentam que os seus primeiros ancestrais vieram do actual ONDIVA. A tradição é tal que esta região é caracterizada pelas fontes ou nascentes dos rios. É verdade que ONDYIVI-NDYIVI significa fonte, nascente de água, ou melhor, terreno restrito, onde rebenta facilmente e, por isso, geralmente cheio de poços. Nesta região do Sul de Angola, inclusive o Norte da Namíbia, Botswana e Sudeste de Zâmbia, encontramos muitos poços e fontes de água. E lá temos um clima desértico húmido. Eis alguns poços e fontes de água que podemos encontrar: Kushi, Kwebe, Kwîtu, Kwându, Kwânza, Huvala, Quembo, Lomba, Utembo, Luengue, Liana, Mussuma, Lwanguinga, Keve, Kwîlu, Okavângu, Yambesi, Cunene, entre outros. A semântica de alguns desses rios indica a formação do país, tais como Kwîtu, Kwându, Lomba, Lwanguinga, Okavângu, Yambesi.

Virgílio Coelho, ao estudar os elementos da língua a respeito das origens Kimbùndu, afirma junto aos repertórios orais que, pelo menos, uma palavra serviu para designar o povo inteiro pela primeira vez. Este termo traduz-se por AMIZADE, PARENTE e ADERENTE. Esta é a opinião dos Lunda (Côkwe) na opinião de Vansina. Vamos tentar explorar a correspondência linguística Nyaneka e Kôngo com objectivo de tentar interpretar esta ideia no entender dos Kôngo/Nyaneka.

Amizade, em Nyaneka, traduz-se por Oupangi. No entanto, deriva do verbo pangiya, ou seja, fabricar, criar, construir, formar algo, família (casa) e tem a mesma raiz que Lwânguinga e Okavângu. Aliás, parente, em Nyaneka, diz-se OMBUNGA ou ainda wotyikumba. Ombunga vem do verbo hungu, tunga, lunga, isto é, fabricar, criar, formar, modelar. Na dimensão palávrica, as relações são interpessoais, pois quando consideramos a “amizade institucionalizada” compreendemos portanto que esta amizade que gere um parentesco artificial e regula através de várias instituições de socialização (ritos, por exemplo), compreende-se que os hidrónimos desta região conservassem ainda noções da “fundação” duma sociedade de várias famílias.

É realmente curioso ver nos sentidos desses hidrónimos da “amizade institucionalizada” que conquistar se traduza também por sokola, além de punda e hakana. Ora, sokola, kolesa, kolisa ou, simplesmente, kola significa criar, fabricar, fazer, formar e construir, sinónimos de pangiya e ombûnga.

«Tumbunga»: somos parentes, dizem os Nyaneka. A filologia informa-nos de que esse facto de ser parente resulta eventualmente dos pactos de casamento, isto é, «fabricar ou formar uma família»[23], de outra forma, a “amizade institucionalizada” aparenta ter suportes da sua inviolabilidade (ritos aos ancestrais dinamiza-se por isso, dando sequência aos outros ritos de afiliação, por exemplo) e dispositivos da sua efectivação (virilocalidade ou uxorilocalidade[24], ou ainda exogamia, endogamia ou ainda poligamia ou poliandria, são entre outros os dispositivos que funcionam como leis).

O caso não é diferente nos Kôngo. Mpângi quer dizer amigo ou irmão e deriva do verbo vânga, que significa criar, fabricar, formar, etc. Eis o porquê se adoptou logo Kôngo como nome de país. Porque significa unidos, juntos e deriva do verbo kônga ou kôngesa, ou seja, juntar, unir, pôr junto, misturar, fazer círculo e inclinar. É sinónimo de kolesa (kola) que significa cercar, inclinar, formar um círculo, construir, fazer uma barragem ou círculo. Aliás, kôngola, em Nyaneka, sinónimo de toteka, designa juntar e unir muitas pessoas (amizade institucionalizada). Como veremos mais adiante relativamente aos monarcas do Kôngo, o título de NTÔTELA evoca que o rei deve preservar a união, sendo, deste modo, a pessoa que simboliza a união do povo.

As palavras parecem dizer mais. Panga(na), em Nyaneka, traduz-se por «ficar MUITO TEMPO, UM TEMPO CONSIDERÁVEL». Isto é equivalente a «Kuna Mbângala» nos Kôngo. OUMPANGI afirma que AMIZADE terá sido o resultado de muito tempo de convivência das populações que se teriam finalmente juntado. Desta maneira, torna-se difícil acreditar num simples acaso, sobretudo quando a expressão «nos tempos antigos» se diz, em Nyaneka, kohale-ale ou, simplesmente, kohale ou kola. Kola, designa, como já vimos atrás, o país de origens, tanto nos Kôngo, como nos Côkwe e Nyaneka (Umbûndu, em geral).

Essa correspondência ensina que a AMIZADE foi a base das novas sociedades que se criaram depois das conquistas. Eis o porquê de a AMIZADE e PARENTE terem as mesmas raízes que FABRICAR (a sociedade), JUNTAR (as pessoas), MISTURAR (diferentes povos) ou MUITO TEMPO. De igual modo, encontramos rios com nome semelhante, como por exemplo Okahangulu (Okavangu), Lwangingua, Yambêsi, Kwuito, Kwilu, Kuhandu (Kwându)[25]. Semanticamente, esses rios, citados precedentemente, são testemunhos das origens, ou melhor, das amizades criadas. Adágio afirma que «as árvores indicam as nossas proveniências e os rios lembram-nos das nossas infâncias (origem?)». Mulembeira, embondeiro e figueira foram algumas das árvores que, depois de fundar uma região, tiveram de ser plantadas a fim de testemunhar a amizade como origem comum dos fundadores. Os rios, portanto, pelo facto de fornecer água para beber, banhar, pescar, cultivar e outros trabalhos domiciliares de primeira necessidade, são muito especiais. Por essa simples razão, lendas e mitos das origens não se esquecem de mencionar nomes de rios. Isto porque os mesmos rios que marcaram as primeiras sociedades foram, neste caso, imortalizados ou antropomorfizados (personificados) através de canções de ritos, de pesca, de agricultura, da infância, etc.

Falando das características deste país, notamos que a palavra CRIAÇÃO, em Nyaneka, traduz-se, também, por EPOMBO, EHOMBO. A mesma palavra ou, melhor ainda, ONDOMBO, designa em geral «os dias de calor antes da chuva». Na verdade, é curioso notar que, além de NDYIVI-NDYIVI (Ondyiva), os Nyaneka têm outro termo que designa estes «poços de água geralmente com NASCENTE», isto é, cacimba: ONYOMBO. Ora, como iremos ver, CASAR (ou casamento) é, na nossa humilde opinião, uma das palavras mais adequadas para explicar as primeiras fundações dos países[26] porque torna-se uma meta ou um dispositivo social poderoso para celebrar a “amizade institucionalizada”. Em princípio, a família é o núcleo da sociedade. Deste modo, na concepção dos Nyaneka, Kimbûndu, Umbûndu, Côkwe e dos Kôngo, esta família começa pelo acto de CASAR, isto é, juntar duas pessoas diferentes, misturar duas famílias ou ainda “institucionalizar amizade” de dois “povos” diferentes. Eis a razão pela qual o casamento é um assunto não de duas pessoas, mas um engajamento de toda a sociedade. CASAR diz-se HOMBOLA, tendo a mesma raiz que a palavra que significa «POÇO DE ÁGUA geralmente com NASCENTE» e «Dias de CALOR antes da chuva». Também caracteriza a actividade das origens a palavra caçar = yômbela, em Nyaneka e, curiosamente, diz-se kônga em kikôngo.

 

Fig.2[27]

I.4. As Origens do Kôngo Consoante o Calendário Kimbùndu

De facto, Kôngo e Kimbùndu são, hoje em dia, grupos etnolinguísticos simplesmente vizinhos e, por conseguinte, há possibilidades de laços entre eles. Alguns sobas de Malanje em 1910-1917 afirmavam que “Kimbûndu vêm das famílias chefiadas por Me-Zînga”[28]. Aqui vamos tentar mostrar o que podiam ser as origens Kôngo, segundo o calendário Kimbùndu.

Um dos autores mais autorizados a respeito dos Kimbùndu escreve:

Meses

Designação

Épocas

Novembro

Dezembro

Kutanu

Chuvas

Janeiro

Kyangala

Pequena Estação Seca

Fevereiro

Março

Abril

 

 

Kusamanu

Grandes Chuvas

 

 

Maio

Junho

Julho

Agosto

Setembro

 

 

 

 

Kaxibu

Grande Estação Seca

 

 

 

 

Outubro

Transição

 

Eis um pequeno comentário do autor: «durante o período das grandes chuvas, entre os meses de Fevereiro e Abril, as águas do rio Kwânza aumentam de volume, transbordam e inundam as suas margens e toda savana (principalmente a região do Sul do rio, na Kisàma), imergindo todas as aldeias situadas nas terras baixas. Estas inundações obrigam as populações a instalarem-se nas terras altas, onde constroem habitações provisórias à base de “bordão” (ditombe). As populações estabelecem-se aí durante o período das cheias, esperando poder regressar ao seu “habitat primitivo”, após a baixa das águas, em fim de Maio ou início de Junho. O mais tardar em Julho. Este acontecimento marca anualmente a vida das populações e constitui o signo de uma forma de adaptação ao meio»[29].

Na verdade, o período das grandes chuvas está na base ou é causa da emigração provisória das populações para as terras altas. O regresso ao habitat “primitivo” nas terras baixas está fixado em fim de Maio ou início de Junho. O mais tardar em Julho.

O que significaria isto? A reinstalação no habitat “primitivo” é o verdadeiro recomeço da vida normal. Ora, isto é possível em Maio, Junho ou, ainda, em Julho. Por outras palavras, é durante a época marcada pela ausência da chuva ou estação seca, na linguagem de Virgílio Coelho, ou melhor, KIXIBU, em kimbundu. Na verdade, este tempo é chamado MBÂNGALA nos Kôngo, que, como vimos atrás, lembra as origens (kuna mbângala: há muito tempo).

«Os Ndôngo cultivam durante a estação seca (kixîbu)», escreve V. Coelho[30]. Mesmo para a pesca, isto torna-se possível depois da chuva, isto é, na estação seca. Uma coisa é PERÍODO DE SEMENTE que se situa em Agosto-Setembro, quer dizer, em MBÂNGALA na linguagem dos Kôngo. Vamos explicar melhor ainda:

«Introduzir a semente debaixo da terra tem um termo em Kimbùndu (até Còkwe, Umbùndu). Este termo é SUMIKA: semear, plantar, tirar daqui para pôr acolá». A mesma é sinónimo de toteka que significa também queimar. Temos tendência a voltar a Mbângala que é a estação seca (kixíbu). De facto, princípio diz-se dimatekenu, ndonda ou, ainda, lunda (lundu nyi senga[31]). Mas, kutoteka (queimar) tem laços com 1) mateka (primeiro); 2) dimatekenu (origem) ou 3) kuandeka (começar).

Muito claramente, como em outros casos precedentes, a origem está ligada com o fogo, o calor. Para dizer queimada, kimbùndu usa esta expressão: «kitúmba kia uama» (literalmente matakitumba, acendeu ou pegou fogo). Kitûmba pega anualmente o fogo, ficando, assim, em convergência com wâma (acender). Essa expressão[32] dá a kitûmba o sentido de queimadas, que, normalmente, é seguido das chuvas[33]. Ora, Tûmba é o nome do ancestral principal, que está ligado com o calor ou fogo. Mas não só. Além dos sentidos fornecidos pelo V. Coelho[34], túmba deriva de 1) túmba: semear, plantar, meter ou introduzir na terra (planta ou semente); 2) tûmba: nascer, formar-se, desenvolver e 3) tumba: assentar, pôr apoiando-se sobre a BASE (mbetekete). Como podemos observar, o primeiro ancestral túmba está ligado com esta “época de queimar-e-semear”, época que V. Coelho chama de kixíbu e que outros autores em matéria dos Kôngo deram o nome de Mbângala.

Voltando a kixíbu, V. Coelho informa que é uma época de semear. Os sinónimos são, de acordo com o Dicionário Português-Kimbùndu-Kikôngo escrito por Maia[35], 1) BEXI; 2) PIXI; 3) PEXI. Portanto, FIXI, variante destes termos, significa ORIGEM na linguagem corrente. Mas não só. KUBÀNGA, o outro nome da estação seca (kixíbu) em Kimbûndu, além de Kyângala – também mencionado por V. Coelho – deriva de kubângesa que significa originar, começar. Carvoeiro, em Kimbûndu, diz-se Mukua-KUBÀNGA. Ora, a sua especialidade – fogueira – está ligada com o fogo, o que quer dizer que a maioria das palavras ligadas à origem tem laços íntimos com o fogo ou calor.

Ora, o ano Kimbùndu parece começar com kutanu. Será por esta razão que V. Coelho começa por Kutanu? Maia informa que esta palavra exprime a ideia de «rompimento, dilaceração, rebentamento», tal como as chuvas. Essa também é uma pressão que as populações têm, visto que a palavra deriva de: 1) tánuka[36]: rasgar-se (como o pano), fender-se (como a cana), rebentar (como a câmara-de-ar); 2) tánuna: rasgar, fender, estalar, rebentar (sinónimo de vúla). Em Kimbùndu e até nos Umbûndu e no Côkwe, úla ou wúla significa ser, estar ou tornar-se desalentado, abatido, desmoralizado, sem actividades ou energia ou MORTIÇO.

Na realidade, kutanu é um período SEM ACTIVIDADES. E, neste período, as «inundações obrigam as populações a instalar-se, temporariamente, nas terras altas», escreve V. Coelho. Será por esta razão que, em Kikôngo, mayânda significa Sul, terras baixas e, ao mesmo tempo, origem, derivando do verbo yândula ou yanduka: aquecer ou aquecer-se? Pelo menos, V. Coelho faz-nos entender que Kutánu é período das chuvas e de rompimento, que precede a normalização ou o verdadeiro (re)COMEÇO (KYÂNGALA deriva também do verbo kubângesa). E, logo no COMEÇO, deve-se semear, plantar a semente. Aqui, já estamos no kixibu, isto é, estação seca. Porém, neste preciso caso, a estação seca seria o verdadeiro começo na concepção dos Kimbùndu no seu código cosmogónico. Linguisticamente, kutánu parece não ter nada a ver com a primeira época do ano, mas com o período que precede o verdadeiro começo, o um tipo de “princípio autêntico”. «Semeia-se», «planta-se» logo no período kixìbu ou Mbângala. Ora, semear e plantar relacionam-se com começar. Depois do fim das actividades de «kitumba kya wama» (Mbângala), como presenciamos nas zonas de Kasanda[37], vêm as chuvas que são assimiladas no período de kutanu – período sem actividade e de exílio.

Vamos insistir neste autor. Escreve que «alguns marcos da toponímia e da antroponímia, como por exemplo, KALUNGA ou MAZANGA NA LUANDA, encontram justificação nos «mitos» mais antigos[38] destes povos, assim como nas ideias que procuram justificar o lugar de PARTIDA, algures em Matâmba, justamente na BAIXA ou no vale (Samba), de onde é originária a linhagem Samba, materializando, assim, uma ideologia dos extremos: o princípio (a Norte) e o fim (a sul) do território, ambos denominados de Samba» (Coelho: 1996, p.476).

Falar do ponto de PARTIDA deste povo, servindo-se particularmente das narrações recolhidas pelos autores, cria uma grande confusão: uns apoiam Matâmba ou Okânga, enquanto outros pensam à Ganga ou até à Kissama. Aliás, Virgílio Coelho, citando uma das versões de uma região determinada, sublinha esse facto[39]. Fica, portanto, na opinião do autor, que Norte é início e traduz-se por Mundo dos Vivos, isto é, Samba=Kabàsà. De igual modo, o Sul, sendo o fim, traduz-se por Mundo dos Antepassados, ou seja, Samba=Kakùlù.

Vamos tentar interpretar o pensamento contido nestas palavras. Em princípio, entre o mundo dos Vivos e dos Antepassados, a questão primordial seria qual destes mundos serviu de ponto de PARTIDA? Virgílio Coelho observa «na concepção do seu universo religioso que os Ndôngo falam de um MUNDO DE BAIXO (Bóxi), ou seja, um mundo das trevas, das profundezas, a TERRA DOS MORTOS (Kalûnga). Este mundo é presidido por Kálùngangòmbe, personagem que, segundo alguns informadores, representa o ANTEPASSADO MÍTICO - uma espécie de DEMIURGO» (Coelho: 1996, p.471).

Todos os Zimbabweyanos, assim como os Kimbùndù acreditam que a vida teve origem num ancestral comum[40]. Nessa lógica, Kakùlù seria o começo, já que é (pois não passou a ser) o seu país. Os mitos apresenta o mundo dos mortos não como uma “chegada”, mas passou a ser “ponto de chegada” na compreensão física. Na compreensão metafísica, o “Mundo dos mortos” precede o mundo dos vivos, eis porque aquele mundo (dos mortos) é lembrado nos ritos como “começo” da sociedade. Também parece a razão pela qual Virgílio Coelho, um dos especialistas que tem escrito bastante sobre este grupo etnolinguístico em referência, fala de Kalungangombe[41], antepassado mítico, cujo mundo que preside é Bòxi, em Kimbùndu, isto é, o mundo de baixo, a terra dos mortos (Kalunga). Todavia, entre Kabàsà=Sàmbà (o mundo dos Vivos) e Kakùlù=Sàmbà (o mundo dos Mortos), nessa ordem de ideias, KAKULU não significa somente em BAIXO, mas também traduz-se por começo ou lugar de partida. Aliás durante as inundações as populações refugiam para montanhas. Tipificação de “Baixo da montanha” como origem, e “Cima de montanha” como refúgio. O mesmo sentido que leva SAMBA, nome do filho mais velho, verifica-se também como teónimo no sentido em que Deus é o primogénito de todos. O termo tem, entre outras, esta forma verbal que deriva de sàmbà: marcar os caminhos, começar uma obra, iniciar, abrir a pista ou fundar os primeiros pilares. Nos ritos de nascimento e, especialmente dos gémeos, os Kimbûndu cantam que os recém-nascidos provêm dos Antepassados ou de Deus (Kalûnga) do mar. Em breve, os Bantu pensam, inumanamente, que os recém-nascidos vêm dos antepassados (já mortos)[42], do princípio ou ainda da semente da vida.

Como podemos ver, existe uma ligação entre BAIXO e ORIGEM nos Kimbùndu como nos Kôngo que falam de MAYANDA. E, relativo a boxi Kimbûndu, os Kôngo utilizam mbozi para significar mundo inferior ou ainda o mundo de baixo. Deriva do verbo vozula que significa, citando Laman, «glisser au travers une crevasse au fond d’un trou» (Laman: p.1078). Nos Vili do Norte da foz de Mwânza[43], Yâka, Sûku e de outras populações de Kwângu, por exemplo, o termo é usado especialmente para os mortos que, ao morrer vão para fundo das terras, para o fundo da floresta ou Kalûnga, fundo do mar. Consoante nos foi informado desde a infância, essa passagem é somente para aqueles que, enquanto vivos, eram bons, mas erravam. Mas, eles vão descansar em paz. Aliás, na vozila traduz-se por tranquilidade ou, simplesmente, lugar de paz ou sítio de harmonia.

Passamos a outra afirmação fornecida por V. Coelho: «O ano ritual está ligado à estação seca (Kixibu) que, como vimos, começa, aproximadamente, em Maio e se prolonga até finais do mês de Setembro» (Coelho: idem, p.470).

Assim, homenageia-se os antepassados durante kixibu ou Mbângala que é justamente no princípio do ano. Semanticamente, não só esse facto está ligado ao começo, mas também Kubânga está relacionado com as actividades do começo/plantar.

Em resumo, as palavras que estão ligadas às origens são:

1)    Tûmba: primo, a palavra deriva dos verbos ligados a plantar, semear; e secundo de nascer; e tercio para dizer queimar usa-se kitúmba, algo queimado;

2)    Lûnda: (já tratámo-lo com os Côkwe) está ligada com a origem, fogo, calor, Sul;

3)    TEKE: como raiz das palavras ligadas à origem (dimatekenu), aos verbos começar (kuandeka), queimar (kutoteka) e substantivo (mateka);

4)    Kubânga: nome da estação seca, kubângesa: originar, começar, homem da fogueira, ou carvoeiro (muaku-kubânga);

5)    Terras baixas: é lógico que começamos sempre de baixo e depois subimos (para acima). Não somente as terras baixas são reocupadas no período normal de semear, mas também são consideradas como BASE.

 

A origem dos Kôngo está ligada às palavras Sul-Calor (estação seca), semear (final da estação seca). Aliás, mbângala (dos Kôngo) e kubânga (dos Kimbùndu) têm a mesmas raízes, entre as quais kubàngesa (Kimbùndu).

Não é somente curioso ver o ritual dos Ancestrais iniciar em estação seca, mas também certas orações reforçam a hipótese de que os Ancestrais vêm realmente de Mbângala[44], sinónimo de Kânga, ou melhor, di-kânga que significa «o lugar mais profundo[45], mais distante, mais longínquo, onde se encontram os «génios» ituta[46], sinónimo de mbôzi (boxi Kimbûndu), o mundo dos bi-sîmbi (espíritos santos), de Kalûnga (Deus), da Providência (Sûku), etc.

 

I.5. Casamento, Nome e Deus como Vestígios das Origens

I.5.1. O Casamento

I.5.1. a) Princípio da família: O Casamento

O Princípio da família, isto é, o casamento, tem uma correspondência abundante. Esta união de homem e mulher, antes de mais legal, com o único objectivo de construir uma família, tem várias apelações, consoante os casos e circunstâncias, como por exemplo entre os primos cruzados, entre cunhado e cunhada, etc.

Em Umbûndu, Côkwe, Nyaneka-Nkumbe, Kôngo e Kimbûndu, o acto de casar está ligado à casa. O homem nunca estará pronto para se casar sem ter primeiramente a sua casa, um lar. Este lar ou casa é constantemente oferecido (garantido) pelo membro da família (pai, tio, avô, etc). Em Umbûndu e Kimbûndu, onjo e inzo significa casa. Nzo é a forma Kôngo que significa morada, onde se vive, uma casa normal para não confundir com palácio, por exemplo. ONJO, INZO ou NZO é, em princípio, uma casa e esta localiza-se dentro de um quintal, ou numa concessão. O quintal é HÛMBU, em Umbûndu, e WÛMBU, em Kikôngo. Nyaneka, portanto, utiliza EUMBU para casa, e na mesma língua, OHOMBO[47], quer directamente dizer casamento.

Em Nyaneka, temos vários termos que designam casa, como OPATA (dibata= aldeia em Kimbûndu; vata = aldeia em Kikôngo); ONKHANDYO (kanda = grande família em kikôngo; ndyo, nzo em Umbûndu, Kikôngo e Kimbundu) e NGANDA (ngânda = lugar público, principal em Kikôngo, Cokwe, etc). Mais correctamente, diz-se EUMBO para designar CASA em Nyaneka: mwene weumbo (dono da casa), por exemplo. Apesar de entrever a raiz «NDYO» que é nitidamente a variante zimbabweyana de NZO e INJO, a palavra ONKANDYO não significa uma simples casa. Pelo contrário, designa uma concessão, o quintal, tal como podemos ver nesta frase «va nkhandyo o vita, Veumbo ovifwanga»: os da HABITAÇÃO são gente que fazem a guerra, os da CASA são salteadores, citado pelo autor do Dicionário Nyaneka-Português. Claro, ONKHANDYO, em Nyaneka, é uma concessão, habitação, grande quintal onde há coexistência de várias CASAS. Em Umbûndu, chama-se HUMBO e, em kikôngo, WUMBU. De igual modo, temos ONGANDA (casa) em Nyaneka-Nkumbe que em Umbûndu, Kikôngo, Kimbûndu e Côkwe se traduz por concessão, corte, lar público, praça principal. Portanto, na mesma língua, a casa de Deus diz-se ONDYWO YA HUKU.

É prova que numa certa idade, ONDYWO significava CASA. Mais tarde, a religião cristã (católica ou protestante) institucionalizou a igreja que designava uma grande casa, onde todos iam rezar vindo de várias casas e de moradias diferentes. Entrevê-se que ONDYWO HUKU contem a ideia de CASA porque é só uma e grande. Ora, aqueles que a frequentam são originários de várias casas, de onde originou a ideia de grande concessão, quintal. Contudo, neste caso, ONDYWO leva consigo um duplo sentido, arcaico e recente. Em Nyaneka-Nkumbe, o «sebe que cerca uma casa chama-se ONGUMBU» (de umbu) ou ONGANDA. Mas o «aposamento de uma casa qualquer» é ONDYWO. Isto prova que, numa certa idade, a casa era chamada NDYWO, variante de ínjo, ínzo e nzo em Umbûndu, Kimbûndu, Kikôngo e Côkwe.

 

I.5.1. b) O Pedido

 O casamento entre os Cokwe, Kimbûndu, Kôngo, Umbundu, Nyaneka e Nkumbi é um processo que leva um certo tempo. Começa pelo pedido, pelo sacrifício gentílico ou ainda pela apresentação. Quem faz o pedido? Como isto se faz? Quem está implicado? Vamos tentar responder a estas perguntas de acordo com o vocabulário de cada grupo etnolinguístico acima enumerado. Essas são respostas que ajudar-nos-ão entender, mais uma vez, as origens do Kôngo disseminadas em usos Umbundu, Kimbundu, Nyaneka e Cokwe.

Geralmente, a família do rapaz dá o primeiro passo, isto é, pede a rapariga em casamento. As palavras confirmam que o rapaz PEDE a rapariga em casamento e, assim, a rapariga É PEDIDA em casamento. Em contrapartida, ela não pode PEDIR o rapaz em casamento.

Nyaneka e Nkumbi têm LOMBA; Kôngo: LÔMBA; Kimbûndu: LOMBA, Côkwe: LOMBA, SOMBOLA e Umbûndu: LÓMBA ou SÓMBOLA.

Esses verbos significam PEDIR (kikôngo, Kimbûndu) ou, mais precisamente, PEDIR EM CASAMENTO (Umbûndu, Nyaneka Côkwe e Kimbûndu). Em Nyaneka e Umbûndu, o homem «LOMBA» (pede) a mulher em casamento, mas jamais pode «LOMBWA» (ser pedido) em casamento. Este verbo não é possível para os rapazes, o que mostra e atesta uma certa «proeminência unilateral» da parte do rapaz (homem) e da sua família. Aliás, existe, por isso, um termo específico usado somente para a rapariga pedida em casamento: Em Nyaneka, «ONDOMBWA» (derivado do verbo lombwa) ou ainda «OMUI-LULWA»; Em kikôngo, «NDUMBA», isto é, rapariga pronta a ser pedida, moça com idade de se casar.

Entre Nyaneka e Nkumbi, o casamento realiza-se de uma forma que instiga os etnógrafos ou sociólogos a pensarem que, em certa medida, a mulher pode também pedir o homem ao casamento. Pois têm por suporte nesta hipótese o facto de após o casamento, quem pede ao casamento deve no fim entregar um símbolo (boi). Ora, as noivas, assim como os noivos, são obrigadas a fazê-lo também. Em princípio, isto não implica que ambas as partes possam pedir em casamento. Quando o homem entrega o seu símbolo, a palavra própria usada é «TONA». Isto é entregar o símbolo. Mas quando a família da mulher o recebe (e sobretudo no pensar dos Nkumbe é a forma conveniente e frequente em uso) usa o termo OMONTHUNYA. O termo deriva de thunya, ou melhor, thunwa, reflexivo.

Contrariamente ao pensamento desta classe de etnógrafos e sociólogos, é certo que a mulher não pode de maneira alguma pedir o homem ao casamento. De facto, os verbos «thuna» e «thunywa» atestam isso: diz-se «thuna» quando o «homem vai entregar o símbolo à família da mulher depois do casamento». Isto significa «começar o pedido com um símbolo». Além deste termo, esta instituição oferece outro para designar o «presente de estilo para o pedido de casamento»: OTYILOMBO. Mas não OTYILOMBWA! Assinalamos que TONWA é usado quando a família da mulher reclama ou ainda obrigam o homem a entregar os bois (como símbolo) depois de casamento, ou seja, «consentir (concluir) o casamento». Pois bem, tanto THUNWA (tonwa) como LOMBWA são verbos reflexivos de THUNA (tona) e LOMBA (sombola), o que confirma, uma vez mais, que a mulher não pode pedir o homem em casamento, mas o contrário é possível.

Não sendo exclusivamente Nyaneka, abraçamos este facto para confirmar o caso dos Umbûndu. OLOHWELA ou OVALA significam casamento e união de homem e mulher. Aí, enrolam-se muitos termos para o casamento:

1)    kwela: unir-se por casamento; kwelula: casar-se mais do que uma vez; kwela utiku: casar sem cerimónias; kwela okulubaka: casar sem a idade requerida; kwelisa: ligar em casamento;

2)    lemuka: unir-se através do casamento;

3)    sokala: casar-se (kimbûndu?);

4)    tulunha: unir-se por casamento;

5)    pisa uvala: fazer o casamento;

6)    litokeka v’olohwela: unir-se por casamento.

Numa primeira observação, OLOHWELA deriva do verbo oku-wela, portanto UVALA não deriva de nenhuma palavra ligado ao acto de casar ou unir. Significa, para já, casamento, união, eis o porquê é sempre necessário empregar o termo PISA (realizar), sinónimo de LITOKEKA (v’olohwela). O sentido é formar o berço da sociedade que é a família (aqui uvala é origem do lar).

Em princípio, a palavra OLOHWELA significa casamento, como união legal para CONSTITUIR UMA FAMÍLIA. Neste caso, o verbo que deriva desta «união legal» é kwèla, pois implica a ideia de casa ou morada (ONJO), onde vão viver os recém-casados, o que compromete toda a sociedade consoante a trama semântica que vimos atrás.

A expressão KWÊLA UTIKU (casar sem cerimonias usuais) faz acreditar que esta união de duas pessoas de diferentes famílias deve acompanhar uma cerimónia.

Quando dizemos UMINGANJO, isto significa o casamento entre cunhada e cunhado depois da morte do irmão. A palavra «Njo» explica que esta união não salta os muros de NJO, ou seja, do quintal, da habitação, do quintalão. Todavia, deparamo-nos com uma curiosidade: porquê somente a morte do irmão faz intervir o cunhado mais novo (irmão do falecido) casar com a cunhada e a morte da irmã não implica que o viúvo case com a irmã da defunta? Seria outra prova de que apenas os homens podiam casar as mulheres e não o contrário.

Entre os Umbûndu, o casamento é, antes de mais, um processo marcado por cerimónias. “Pedir em casamento” é LOMBA ou SOMBOLA, o que significa pedir a, isto é, solicitar solenemente outra pessoa, outra família. No entanto, «ligar em casamento» é KWELA ou KWELISA. No momento em que a primeira palavra faz entrever o engajamento de uma pessoa com a sua família (pedir), a segunda (ligar) ilustra o consumo do acto que supõe um assunto de todos (público) com o objectivo de juntar solenemente duas pessoas, duas famílias. Pressupõe-se que não somente as pessoas são “complementares” mas também as suas famílias oriundas.

Os termos mudam em cada caso. «OBRIGAR O SEDUTOR A CASAR COM A SEDUZIDA» diz-se vuvumbila, ou seja, o sedutor recusa pedir em casamento a mulher que engravidou e, por conseguinte, a família da mulher atira-lhe à mesma. A expressão correcta é vuvumbilwa ou vuvumbwilai e quando o homem recebe a sua «seduzida», utiliza-se vuvumbila. Isto mostra ainda que sempre foi o rapaz o primeiro a dar o passo, a este respeito.

Portanto, cada vez que o homem aceita entregar dignamente os artigos (dote) que a família da mulher «obrigar», o substantivo kwêla presencia. O facto de casar várias vezes «KWELULULA» obriga a cerimónias específicas, desde que não rompa com a normalidade e tendo em conta que os seus filhos vão ter relação de consanguinidade entre mais de uma família. Também kwêla presencie como traço institucional. É o mesmo caso de um homem idoso quando pretende casar, KWELA OKULUMBAKA (implica as cerimónias). Kwêla presencia como nos outros casos. A expressão sugestiona uma união normal acima ou ao lado de uma outra união entre 1) duas pessoas de famílias diferentes 2) entre duas pessoas de gerações diferentes. De facto, a palavra «Kwêla», que é unir naturalmente ou juntar normalmente as partes complementares (mas opostas) implica cerimónias. E estas são especificadas pela aposição: lula, okulumbaka, etc. O contrário é Silula (não casar).

De modo idêntico, o casamento entre os Kôngo começa pela família do rapaz. Na primeira etapa, o rapaz envia o seu símbolo de noivado, kidimbu, símbolo de pedido. Geralmente é a sua tia paterna do rapaz que leva este símbolo de pedido. Se for aceite, uma longa lista de cerimónias se estabelece: n’land’e kidimbu (seguir o pedido). Os Umbûndu dizem okavetapito; depois segue-se mbondekel’e kidimbu (molhar o pedido com malavu), etc. Esse casamento denomina-se ma-longo e o acto de casar é kwêla.

 

I.5.1. c) O Casamento como traço Imigratório

A casa sempre foi o núcleo de toda a sociedade humana. Portanto, o casamento, como ensinam as palavras até aqui diagnosticadas, obriga o rapaz a planificar o lar onde viver com a sua futura esposa. Entre os Kimbùndu, Côkwe, Kôngo, Nyaneka e os Umbundu, as palavras próprias para dizer casa (inzo, nzo, onkhandyo, humbu, ngânda, etc) indicam que o princípio da família REQUER ANTES DE MAIS UM LUGAR, UM LAR BEM SEGURO. Uma vez assegurado o lar, pode-se achar a noiva que, para adquiri-la, deve obrigatoriamente entregar o dote, isto é, uma série de cerimónias.

Na verdade, o casamento é uma instituição não somente antiga, mas também acompanhou as migrações de povos, sobretudo quando duas pessoas de diferentes povos se devem casar. E, sendo o casamento um acto simbólico ou uma dimensão precária da migração, é evidente que a palavra seja, por conseguinte, portador de histórias das migrações, e conquista de terras já ocupadas pelos outros povos. O acto em si, também, testemunha os rituais de “amizade institucionalizada” que está na base de fundações dos reinos angolanos. Eis a razão pela qual o casamento é uma questão de cerimónias – kwela, ele quer um casamento normal, um casamento especial quer casamento visto na dimensão social. Contudo, essa união não se realiza de um só golpe, uma vez que leva tempo. Muitas vezes, nos Kôngo, Côkwe e, sobretudo, nos Umbûndu, os pais faziam casar seus filhos antes de eles nascerem. Isto significa O LUGAR SEGURO que põe em evidência as cerimónias quando os protagonistas (os noivos) ainda não existem, sendo meros projectos. Jan Vansina escreveu que Lûnda significa AMIZADE, porque dois povos diferentes faziam – depois de tantos anos de batalhas com ou sem vitórias – pacto e tornavam-se um só povo, tal seria o caso dos Lunda, se lermos a história a partir das palavras. Isto é, noutras palavras, a institucionalização da amizade na dimensão intergrupal.

Em princípio, o facto ou o acto de fundar de um país, quer seja mediante a ocupação pacífica de um espaço vazio, quer seja através da conquista de terras já habitadas, relaciona-se com o casamento. Quando um povo ocupava uma terra (nos Côkwe, Kimbùndu, Kôngo, Umbûndu), a primeira coisa era administrar os cultos dos antepassados destas terras com os novos imigrantes, porquanto o acto legitimava os ocupantes e facilitava as uniões. Isto era o casamento entre os conquistadores e os espíritos ancestrais da terra ocupada. Ora, quando encontrava um povo já implantado, além dos pactos de amizades, a realização das cerimónias entre os conquistadores e os espíritos presididas pelos chefes de terras (do povo conquistado), foi sempre um dos primeiros actos a cumprir. Isto significa unir os recém-chegados com os espíritos das terras. Neste último caso, foi sempre a preocupação dos conquistadores passar pelas cerimónias a fim de evitar incoerências comportamentais sociais com os “recém-chegados” e outras calamidades que pudessem enviar os espíritos autóctones.

Parafraseando esse ponto, fazemos intervir Virgílio Coelho que traz mais luz a respeito daquilo que afirmámos mais atrás:

«É sabido que as fronteiras de um país ou de um Estado são, geralmente, demarcadas por elementos que são afeitos à natureza (rio, lagos ou lagoas, montanhas, florestas, etc.). Mas há casos em que as marcas dessas fronteiras se estabelecem pela produção de discursos elaborados por outros povos que vivem em espaços limítrofes ou contíguos ao território em questão ou então pela produção da informação por outros povos vindos do exterior, como é o caso, dos conquistadores portugueses

«No vocabulário produzido pelos túmùndòngò», continua o autor, «há, pelo menos, uma palavra que inicialmente serviu para designar a unidade dos distintos grupos de imigrantes que se viriam fixar na região da Màtàmbà e que, mais tarde, formaram as primeiras linhagens fundadoras, sob o mando do Ngòlà à Mùsùdi, do “reino do Ndòngò”. Essa palavra é o designativo tùmbà, tùmbù ou ditùmbù (plural: matùmbui) que significa, justamente, parente, conhecido, aderente”. O seu verdadeiro significado pode ser apreendido a partir do nome composto Kímànàwèzè (ou Kímànàwèzè) kya Tùmbà à Ndàlà, que significa dignitário que une os seus parentes, os conhecidos e os aderentes e, ainda, amigo do amigo, constituindo, assim, o princípio da unidade linhageira e, sobretudo, um modelo de conduta e um modelo cultural» (Coelho: 1997, p.137).

Este «Kímànàwèzù kya Tùmbà à Ndàlà foi o primeiro ocupante das terras que se situam entre-os-rios Wàmbà e Lúkàlà. Essa personagem, com o poder de “deus sobre a terra” (Màwèzè ou Nàwèzè), detentor do título Tùmbà à Ndàlà e que tinha por função estabelecer as relações de amizade e de convivência entre os homens (os primeiros grupos a ocupar a terra) e os “génios” ou “deuses” tutelares da natureza, visando contribuir e garantir a harmonia e sobrevivência de ambos os mundos, é um sacerdote (Kílàmbà, plural: Ílàmbà) com esses dons especiais» (Coelho: 1997, p.141).


I.5.1. d) Paralelismos entre Conquistador e o Pedinte

Geralmente, é a família do rapaz que se interessa pela tal rapariga e envia um símbolo a fim de simbolizar o PEDIDO. Nos Nyaneka, por exemplo, tanto a família do rapaz como a da rapariga entregam um símbolo que consiste num boi. Nos Kôngo, o símbolo é o primeiro vestido da noiva. Caso aceite, então será sempre respondido pelo outro símbolo, isto é, duas galinhas (geralmente, fêmea e macho). Este animal simboliza o início do dia e início da nova realidade. Em princípio, esta troca faz-se entre indivíduos singulares e não entre toda família. O que significa que entre dois povos que pretendem viver juntos, a conversa inicial realiza-se entre os embaixadores. Seria destes “encontros diplomáticos” que surtiam os “novos” ritos. Caso que chegassem a um consenso, determinava o “começo das cerimónias” a fim de juntar, realmente, as populações num só povo.

Como já vimos, a família do rapaz é o primeiro a cumprir este acto. Em Kikôngo, o rapaz ou homem, que é competente para se casar, chama-se TOKO ou, mais precisamente, YAKALA (mwâna Yakala). A rapariga, que já está pronta para ser casada, é NDUMBA (literalmente, rapariga pronta a ser pedida?). Comecemos com este simples facto. Na sociedade Bantu, para a passagem de menino (mwâna) para rapaz (yakala) ou de menina (mwâna) para rapariga (ndûmba) é necessário um rito de passagem. No homem é a circuncisão e na mulher é a incisão ou, simplesmente, no caso dos Kôngo, uma prova da virgindade da moça. Esta, também, era repetida no casamento. Se o homem descobrisse que a sua noiva não era virgem, resultava sempre em multas e, muitas vezes, era o caminho de «anular» o casamento[48]. Razão pela qual, numa certa época, a família da rapariga, era obrigada a substituir pela irmã como a segunda mulher, isto é, para não quebrar este laço, esta união. Se o marido morrer, a sua família é obrigada a substituir o irmão ou primo uterino cassula. Assim, o casamento é eterno, partindo do homem, aquele que casa. No caso de infertilidade é a mesma coisa: substituição do irmão ou primo uterino.

Alguns dos Côkwe antigos pagavam dote apenas depois da morte de um dos cônjuges. Geralmente a apresentação do rapaz na família da noiva deve ser acompanhada pelo símbolo da relação que se pretende assumir. Somente depois da morte (de um dos cônjuges) é que se deve pagar o dote pela simples razão que o mesmo não pode ser devolvido. Algumas versões rezam que no casamento de Ruej, Cibind Irung não teria pago o dote, mas honrou a relação dando uma lança. Os seus filhos teriam pago o dote aos tios maternos, assim completam outras versões.

Mas porque é que a família do rapaz é a primeira a dar o primeiro passo do casamento?

Numa primeira observação, quando se fala do pedido, isso implica dois «quocientes», duas realidades em relação ao objectivo, quer dizer, o requerente e a coisa requerida. Aqui, o homem é o requerente e a requerida é a mulher. Mas porque não o contrário? Rapariga pronta a ser pedida chama-se NDOMBWA (Nyaneka) ou NDUMBA (Kôngo). E o homem pronto a casar-se é YAKALA ou TOKO (adolescente, donzel ou donzela), isto é, somente a mulher (espaço) é pedida (ocupado) e o contrário seria anormal (espaço pedir povo[49]).

Mas como vamos ver nos próximos capítulos deste trabalho, Bayâka eram os conquistadores das terras. Quem faz a conquista sente-se obrigado a proceder à paz, logo solicita um culto dos ancestrais com os espíritos locais, ou seja, fazer casamento entre os espíritos locais e os recém-chegados. Como no casamento, a mulher é valorizada numa determinada variedade de coisas a entregar ou símbolos a que chamamos dote. Deste modo, a conquista finda e os conquistadores ou invasores, também, entregam ofertas aos espíritos locais.

É nesse sentido que o casamento arrosta nele todos os elementos da conquista de um povo por outro povo. O casamento é a dimensão precária ou inicial da conquista ou ocupação de uma terra, como se fazia nas migrações (durante e, provavelmente, depois da fundação do Kôngo).

 

I.5.2. O Nome 

Quando um Umbùndu pergunta: «onduku yove?» (como te chamas?) está a dar o seu nome de nascimento. A questão traduz-se literalmente por foi-te imposto que nome? «Ondûku», do verbo nduluka, significa dar o nome ou impor o nome a alguém. Em Nyaneka, acontece a mesma coisa. Aliás, neste grupo etnolinguístico, o nome corrente que uma pessoa leva diz-se constantemente enyina, elinya, elinha ou onduku (ondûku yelye: qual é o teu nome?), mas o primeiro termo, enyina ou elinya, explicita a sua ascendência, dependendo da forma como é colocada a questão.

Em Nyaneka dar o nome é «lûka enyina», em Umbûndu é «lûka» ou «ndúlùka». Em Kikôngo, temos «kulûka» que, também, significa dar nome de alguém ao recém-nascido ou, simplesmente, a uma pessoa. «Lúkulula» é a variante Umbûndu. «Enyina» marca o tempo, a época, o grau de parentesco e a geração nos Nyaneka. «Nkûmbu» kikôngo, além de significar tudo isso, pode vir a ser o sobrenome, a alcunha, a assinatura ou ainda o título. Quando apetece a um Nyaneka identificar-se perante outras pessoas e, muitas vezes, nas regiões distantes, o termo concreto utilizado é «litûmbula[50] enyina», isto é, «dizer o seu próprio nome, a sua ascendência, a sua origem.»

Umbûndu «onduku» deriva de nduluka, luka (dar o nome). Ora, o título em Umbûndu é «otchitúkulo» que deriva de túkula (de túka): nomear a um cargo; elinya ou enyina Nyaneka vem de yînya ou lin(h)a, isto é, ter relação com; e «nkûmbu» Kôngo vem de kûmba: dar a conhecer de todos, ser conhecido universalmente, em todos os sítios. Mas, o nome é o bilhete de identidade para o indivíduo que em todos os sítios em que se pode encontrar será reconhecido como cidadão. No entanto, em Nyaneka, identificar-se perante os outros diz-se «litumbula». É de notar que a raiz deste termo está presente em Umbûndu em geral, Kikôngo, Côkwe e Kimbûndu. Umbûndu tem tumila para empregar. A mesma raiz com tuma (tumila = tumba): designar alguém, ordenar alguém a fazer algo, ou dizer algo; também, em Nyaneka, «litumbula» é, em princípio, a resposta a uma pergunta, a uma obrigação que lhe foi imposta ou concedida anteriormente. Eis porque litumbula, em Nyaneka, significa «ser instigado a fazer algo», cuja variante Umbûndu reduz-se a TUMA: indicar alguém as linhas a seguir; ou TUMISA: instigar a fazer. Em kikôngo, temos TUMA, forma comprimida de TUMBA: ordenar, designar alguém, TUM(B)ISA: excitar, instigar; TUM(B)UNUNA: notificar em resposta. Também TUMBA: fazer ordenação, promover, instalar ou vestir alguém de um emprego, da dignidade, coroar, elixir, etc. Morfologicamente, tumila teria dado origem a tumba consoante a tradição da metamorfose dos fonemas[51].

Como podemos julgar de uma forma simples, o nome na sociedade angolana é princípio de um indivíduo, explicando quem é o indivíduo. Servir-lhe-á de bilhete de identidade em todos sítios a fim de certificar a sua cidadania.

 

I.5.2. a) O Nome como traço das Origens

Vimos antes que Nyaneka tem lina, enyina ou elinya como nome a fim de designar a sua ascendência. Utilizam, também, tukulo, se bem que é um termo vizinho dos Kyâka (ou Umbûndu em geral): ocitukulo. Nesta correspondência retemos etuku (Umbûndu), onthuku (Nyaneka) como não apenas apelação de alguém, mas também causa, fonte, sua ascendência. Outros sinónimos são ekumbi, ehumbi, ekhumbi ligados ao Sol, país-de-grande-calores (?). Kimbûndu e Kikôngo têm tuka que significa: vir, originar de, tirar a sua origem de, etc. É curioso ver Nyaneka lina ou elinya (enyina, elinya, etc) que deriva de «yina» ou «lina» (linha). Esta palavra não só significa «ter relação com», como também a mesma pronúncia significa cozinhar, calcinar, que é sinónimo de pisa. Este último, como vimos em Umbûndu, pisa ovala designa fazer ou cozer ou calcinar o casamento. De facto, «ethuku» e «ekumbi» não só significam origem, ascendência (nome), mas também 1) o calor ou luz que o sol trouxe durante o dia, como a nostalgia ou a recordação, enquanto a noite todos estão reunidos à volta do fogo; 2) simplesmente, o sol.

A respeito de Kimbûndù, falamos de TUMBA, termo ligado 1) «às origens do povo»; 2) à actividade durante a estação seca; 3) plantar, semear, etc., que é sinónimo de PIXI (mesma raiz que pisa Umbûndu) e de Kubânga que significa «estação seca». Ora, como vimos, o termo pisa quer dizer[52] não somente origem, mas também cozer. Kubanga (nome de estação seca em Kimbûndu) vem do verbo kubangêsa: começar, em kimbûndu, mas também calcinhar. As mesmas palavras em kikôngo (tûmba, Kubânga[53]), como já vimos, estão ligadas não só ao nome, mas também à origem, princípio relacionado ao calor, ao sol, ao fogo, a fogueira, etc.

 

I.5.3. Deus como traço das Origens

É correcto que Deus personalize a origem entre os Zimbabweyanos. Vamos, simplesmente, tentar ver no vocabulário produzido pelos Kôngo, inclusive também os «povos» com quem tem afinidades (Ovimbûndu, Nyaneka, Cokwe), a correspondência que há na semântica.

Nyaneka tem oito grupos: (1) Huku, Suku; (2) Kalunga; (3) Ndyambi, Panga Ndyambi; (4) Ekhumbi, Matyisa-Kumbi; (5) Omukulami, Nthulame; (6) Hamanene, Kamana; (7) Vile-Vile, Muvile-Vile, Munen-Vile, Muvili wavilo[54]; (8) Mphangele, Mphangaile.

Umbûndu tem seis grupos: (1) Chime; (2) Ngala, Ngala Njambi; (3) Suku[55], Thuku; (4) Kalunga; (5) Omalomata; (6) Ongombe[56].

Comecemos por dizer que Hûku ou Sûku derivam de hûku ou onthûku: causa, fonte, origem de um problema. Aliás, nos Umbûndu (vizinhos dos Nyaneka) esûku ou ehûku significa «germe», «embrião» ou «ovário da planta». Isto é a origem, o princípio e o começo. Muito curioso ainda é de ekhumbi ou Mutyisa-Kumbi[57] ser o nome de Deus e que, ao mesmo tempo, significa sol, origem de calor. Mphangele ou Mphangaile vem confirmar isto: em kikôngo, a expressão kuna Mbângala ou kuna Mpângala significa há muito tempo, além de designar o nome (topónimo) do primeiro país das origens de onde vêm os ancestrais.

Passamos a palavra tûka: vir, provir, originar, tirar a sua origem. No vocabulário Kôngo, esse termo parece imortalizar estas origens certificadas no vocabulário Nkumbe e Umbûndu: Deus, ascendência, princípio, calor que faz ao longo do dia, muito sol (onthuku, Huku, Suku, etc). Até a palavra lyumbundu ongômbe parece ter ligação com a origem: o termo ngômbe significa segredo ou causa, fonte[58]. Porém, o valor semântico de Hûku, Onthûku (onde encontramos tûka) contém a dimensão histórica, teosófica (cosmológica) e sociológica que permite normalmente entender melhor o indivíduo (seu nome) e a sua origem (Deus criador) e, morfologicamente, o Sol como o signifié do país de origens.

No livro de padre Altuna, Cultura Banto, notamos que o autor se alicerça em primeira-mão nas escritas de Esternann (1956, 1957), Cabrita (1954), Carvalho (1890), Redinha (1958), como em múltiplos artigos publicados em Jornais e Revistas Europeias e Americanos na especialidade de História, Antropologia e Linguística, o que cremos ser um resumo relativamente fiel a todos. Em segunda mão, vem as suas próprias experiências no terreno que, ao nosso ver, foram reproduzidas no seu livro apenas aquilo que os seus predecessores teriam já notado. A ele evita choque – a sua linguagem testemunha isso – quanto às experiências. No entanto, consegue, com isso, remarcar que os grupos aqui tratados, nomeadamente Kimbûndu, Kôngo, Nyaneka-Nkûmbi, Côkwe e Umbûndu constituem um mesmo bloco – Cultura Banto – vindo provavelmente do actual Zimbabwé[59]. Mas, na nossa opinião, estes grupos aqui estudados constituíam inicialmente um mesmo povo. Linguística e culturalmente, esta hipótese é a mais concorrida pela simples razão de, através da análise comparativa, cimentar que, em relação aos outros blocos, tais como Luba, Tetela, Kunyi, Mongo, etc., o grupo Kimbûndu-Kôngo-Nyaneka-Nkumbi-Côkwe-Umbûndu, está cada vez mais unificado e tiré-à-part.

 

I.7. Conclusão

Uma diversidade dos elementos da língua ligadas às origens, causa, princípio, fundamento, começar, Deus-origem de todas as coisas, nome, quer entre os Kôngo, quer entre os diferentes grupos etnolinguísticos com quem levam afinidades, é uma prova que, se não o mundo zimbabweyano de onde originou o «grupo da expressão kikôngo», pelo menos, o país Kôngo começou numa região de grande calor e este país está ligado com as actividades relacionadas com o fogo e o calor. Isto é o pensar (cosmogonia) dos Kôngo lido nos elementos da língua tendo em conta os seus actuais vizinhos. Ora, confrontando estes dados com topónimos ou alguns termos ligadas a este país, situámos o primeiro «foyer[60]» na parte meridional de Angola (Kôngo-dya-Mbângala ou Mbângala ou Kôla, ou Lûndu nyi Nsênga, etc.). Mas até prova ao contrário, pretendemos que lá se situariam as origens dos fundadores do Reino do Kôngo.


 

Referências bibliográficas.

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2.    ALVES, A., Dicionário etimológico Bundu-Português,

3.    BASTIN, M-L., Art decoratif des tshokwe

4.    BATSÎKAMA, R., Voici les Jagas ou l’Histoire d’un peuple parricide bien malgrè lui, ONDR, Kinshasa, 1971

5.    BAUMANN, H & ESTERMANN, d, Les peuples et les civilisations de l’Afrique Noire, Payot, Paris

6.    CARVALHO H.A D., A Lunda ou os estados de Muatiânva, Imprensa Nacional, Lisboa, 1890

7.    CAVAZZI DE MONTECÚCCOLO, J. A, Descrição histórica dos três reinos do Congo, Angola e Matamba, Vol. I e II, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1965

8.    COELHO, V., «Em busca de Kábàsà: uma tentativa de explicação da estrutura político-administrativa do “Reino de Ndòngò”», in Estudos Afro-Asiáticos, CEAA da Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Dezembro, 1997

9.    COELHO, V., «Implicações socio-económicos e religiosos numa comunidade Kimbùndù» in Dinâmicas multiculturais, novas faces, outros olhares, 7, Instituto de Ciências Sociais, Lisboa, 1996

10. CUVELIER, J., Nkutam’a mvila za makanda, Tumba, 1972 (4 edit.)

11. CUVELIER J., L’Ancien royaume de Congo, Desclée, Bruxelles, 1946

12. CUVELIER J. & JADIN L., L’ancien Congo d’après les archives romaines. (1518-1540), IRCB., Bruxelles

13. De BOUVEIGNES o., Les anciens rois du Congo, Grands Lacs, Namur, 1948

14. DE MUNCK, J., Kinkûlu kya nsi’eto’a Kôngo, Tûmba, 1953

15. DELACHAUX, Th., L’ethnographie de la region de Cunene, Neuchatel, 1936

16. Dos SANTOS, E., Maza, Edição do Autor, Lisboa, 1965

17. ESTERMANN, C., Etnografia de Sudoeste de Angola, II, Grupo étnico Nhaneca-Humbe, Junta de Investigações de Ultramar, 1957;

18. ESTERMANN, C., Etnografia do Sudoeste de Angola, I, os povos não-banto e o grupo dos Ambos, Junta de Investigação de Ultramar, Lisboa, 1956

19. F. ALVES, J. & ARÊDES, J. & CARVALHO, Introdução a Filosofia. Pensar e Ser, Texto Editora, Lisboa, 1997

20. HAUENSTEIN, A, «Noms accompagnés de proverbes chez les Ovimbundu d’Angola» in Bulletin de la Société Suisse d’Anthropologie et d’ethnologie, nº48 Année, 1971/1972

21. JADIN, L., “Relations sur le Congo du Pere Raimundo Dicomano” in Bulletin des Seances de l’ARSC, T. III, fasc. 2

22. LAMAL, F., Basuku et Bayaka des districts Kwango et Kwilu

23. De HEUSCH, Le roi ivre ou l’origine de l’état, Gallimard, Paris, 1972

24. HEUSCH, De L., Le roi de Kongo et les monstres sacrés : mythe et rites bantous, Gallimard, (Coll. Mythes et Rites Bantu),Paris, 2000

25. FRANQUE, J., Nos, os Cabindas. História, leis, usos e costumes dos povos de Ngoio, Argo, Lisboa, 1940

26. MAHANIAH K., Maladie et la guérison en milieu Kôngo, CVA, Saint Paul, Kinshasa, 1988;

27. MATADIWÂMBA, Phelende-Khobo et l’espace lunda, CEEBA, Bandundu, 1988

28. NADEL, S.F., La théorie de la structure sociale, Editions de Minuit, Paris, 1970

29. OBENGA Th., Les Bantu. Peuples/cultures/langues, Présence Africaine, Paris, 1985

30. PAULME, D., Les civilisations africaines, P.U.F., Paris, 1961

31. REDINHA, J., Etnias e Culturas de Angola, Instituto de Investigação Cientifica de Angola, Luanda, 1975

32. SAUSSURE, F., Cours de linguistique générale, Payot, Paris, 1964

33. SECRETARIADO PASTORAL, Ngangela. O mundo cultural dos Ganguelas, Diocese de Menongue, 1997

 

 

 



[1] Professor de História de Angola na UniMetro, Angola. É formado em História. Publicará um livro em Junho deste ano (2010), intitulado As origens do reino do Kôngo pela Editora Mayâmba, em Luanda.

[2] Cf. a Bíblia, versão Kikôngo publicada pelos missionários Ingleses: Evangelho Segundo São Mateus:4:1

[3] Cf. O dicionário Laman, kikôngo-français. Ver especialmente a palavra mbângala e os comentários do autor. Bentley, no seu Grammar of Kongo language, especifica os sentidos da região de Mbânza-Kôngo, São Salvador.

[4] As análises de Professor Edwar Sapir aumentam a credibilidade nos elementos da língua, porque até então eram isentos ou salvos das intenções subjectivas. Isto é, um documento histórico vivo e credível. A esta referência, aconselhamos os volumes I e II de Benveniste, Vocabulaire des institutions indo-européennes, Editions de Minuit, Paris.

[5] Figura desenhada por Raphaël Batsîkama ba Mampuya ma Ndwâla no seu manuscrito intitulado Histoire du royaume du Congo enseignée au moyen de sa propre toponymie. Le cas du Territoire de Kinsâsa. Publicaremos esse manuscrito ainda este ano.

[6] Podemos consultar outras lexicografias, tal como Bittremieux (les sociétés secrètes de Bakhimba), além de Laman e Bentley que fizemos constante referência.

[7] Pode-se consultar o historiador Congolês Raphaël Batsîkama, um dos autores que escreveu sobre a estrutura social dos Kôngo, assim como as funções de cada classe ou família Kôngo. Voici les Jagas ou l’Histoire d’un peuple parricide bien malgrè lui, ONDR, Kinshasa, 1971.

[8] Sublinhado por nós.

[9] Cf. Alves A., Op. Cit., p.584. Ver também a palavra lùndu no dicionário de Barbosa (dicionário Côkwe-Português).

[10] David Mudiandu é detentor de “diplôme d’État”  (do Congo democrático) e é chefe de Sector dentro do Departamento de Museologia do Museu Nacional de Antropologia. Américo Kwononoka é licenciado em História pelo Instituto de Ensino Superior para Educação.

[11] Alves A., op. cit.,pp.272-273 e Barbosa, Op. Cit., ver yânga: terreno quente e os verbos derivados.

[12] Secretariado de Pastoral Ngangela. O mundo cultural dos Ganguelas, Diocese de Menongue, 1997, ver as lendas; Estermann C., Etnografia de Sudoeste de Angola, II, Grupo étnico Nhaneca-Humbe, Junta de Investigações de Ultramar, 1957; Redinha J., Etnias e Culturas de Angola, Instituto de Investigação Cientifica de Angola, Luanda, 1975, ver as etnias do sul e não-bantu, como os etnógrafos lhes chamam. Chamaremos estas populações de não-zimbabweyanas.

[13] Existe uma boa explicação sobre o sol, terra quente das origens. Normalmente, o sol provoca a quentura, o calor e, por esta razão, relaciona-se naturalmente com terra quente ou deserto. Um duplo uniforme é o signifié e o signifiaint presente nos seguintes livros: Saussure, F., Cours de linguistique générale, Payot, Paris, 1964 ; Nadel, S.F., La théorie de la structure sociale, Editions de Minuit, Paris, 1970; Gougenhein, G., Les mots français et dans la vie, Vol.I., Portíco; Fodor I., The rate of linguistic change, Londres, la Haye, Paris, Mouton &Cie, 1965 ; Coseriu, E. O homem e a sua linguagem, Presença, Rio de Janeiro, 1987; etc.

[14] Versão de Duysters citada por Luc De Heuch, Le roi ivre ou l’origine de l’état, Gallimard, Paris, 1972.

[15] Ver nos dicionários de Alves e Barbosa.

[16] Luezi: de Lu e de Hezi ou Yezi (pagina 1131 do Dicionário Laman). Outros nomes são 1) Lukeni (Lukenya), isto é, quem não quer comer a carne, do verbo kenya (pag.233 do dicionário Laman): desgostar, fazer pouco, desprezar, etc. 2) Ngôngo: nome de mulher, escreve Laman, na página 422, do seu dicionário. É nome de mulher que não quer.

[17] Insistimos muito no dicionário de Laman, porque parece-nos o mais completo sobre as lexicografias do kikôngo que ainda existem. Também, qualquer investigador, que lê as suas colecções sobre The Kôngo, confirma que o autor merece essa atenção bibliográfica particular que lhe demos. Uma das razões é que Laman terá formado etnógrafos do Kôngo que tiveram a tarefa de escrever a etnografia do seu país. Mais de 500 cadernos da etnografia permitiram a este último escrever The Kôngo, assim como as minuciosas explanações no seu dicionário. No entanto, salientamos que thi equivale ligeiramente a ci, mas, também, a thi para um tii prolongado.

[18] Reproduzimos aqui a ortografia do António, autor do dicionário que consultamos.

[19] Makukwa em Kikôngo. Mais à frente debateremos sobre a significação semântica e a sintaxe da palavra na frase, assim como a sua significação sociológica (histórica).

[20] Oci-tûndu.

[21] Assim escreve António Joaquim da Silva, no seu dicionário Nhaneca-portugues, “lya, K’OMBANDA, yonkhanda ei ndyikaikiloko ongeleya yange”. Isto traduz-se por “é sobre esta rocha que FUNDAREI a minha Igreja”. Ver a palavra FUNDAR e FUNDAMENTO.

[22] A crença é também Zûlu, Shona, Swana, etc.

[23] Sentido literal e sociológico do casamento. Portanto, esse sentido reenvia a conquista das terras, conforme se fazia antigamente. Voltaremos mais tarde ao capítulo que aborda o casamento como vestígio das origens.

[24] Uxorilocalidade é quando depois de casamento o casal fixa a residência nas proximidades da famílias da mulher. Virilocalidade é o inverso.

[25] Okahangulu vem de vanga, hanga: isto é criar, fabricar, fazer em Umbûndu, Nyaneka, Kimbûndu e Kôngo; Lwangingua deriva de Lu e de hangiya, pangiya: fabricar, criar, modelar, fazer; Yambesi, de yambesa, hambeka: criar, formar, inventar; Kwitu, de Ku e de hitu fabricar com as mãos uma estatueta de argila vermelha; Kwilu: de ku e de hila, onthyila (Nyaneka): criar, fazer; Kuahandu (Kwându): de ku, e de handu, começar, principiar, e handyana em Nyaneka quer dizer estar abandonado falando de uma terra. Tal como hidrónimos testemunham, trata-se das origens.

[26] Ora, em Nyaneka-Nkumbi o casamento, os dias de calores e criação diz-se onyombo, ondombo ou opombo que são fonologicamente variante, tendo no então o mesmo valor semântico.

[27] Figura da autoria de Raphaël Batsîkama ba Mampuya ma Ndwâla no seu manuscrito intitulado Histoire du royaume du Congo enseignée au moyen de sa propre toponymie. Le cas du Territoire de Kinsâsa.

[28] O professor Martins publicou na Revista da Universidade internacional, em 1995, o seu artigo que comportavam manuscritos escritos na primeira década do século XX pelos próprios sobas de Malanje.

[29] In Voz igual, «Agostinho Neto: Kilamba kyaxi da nossa esperança», Angolê, Lisboa, 1989, p.176.

[30] Voz igual, idem, p.175.

[31] Ver o capítulo Kôngo e Côkwe.

[32] E tanto outro. Durante esse tempo, as mulheres recolhem as lenhas, carvão, «dixingi», gafanhotos, etc.

[33] Normalmente, as queimadas causam a dispersão dos animais, como pacaça, «bwiji», «dixinji» (rato soberano), «ngulungu», etc.

[34] A tradição informa sobre o fundador da sociedade Ndôngo chamado KIMANAWEZE KYA TUMBA A NDALA. Tumba, Tumbu ou ditumbu (plural: matumbu) que significa justamente PARENTE, CONHECIDO, ADERENTE, escreve V. Coelho.

[35] Mbeji ou Mbexi é o «luar», o mês. Confunde-se com a kimbunduzação da palavra «mês» em português. De facto, é necessário um estudo filológico para esclarecer. Nas nossas expedições de Kalandula e Santa Maria, notamos que a palavra mbexi é pronunciada por adultos e jovens. O estudo das etimologias indica, portanto, que mbexi tem substâncias intrínsecas. De forma rigorosa, o dicionário de Maia não se enquadra dentro dos parâmetros linguísticos (ortografia) utilizados nas línguas africanas, fruto consensual de conferências e simpósios de linguistas. De qualquer forma, o dicionário é rico pela sua comparabilidade entre Kikôngo e Kimbûndu.

[36] Comparação em kikôngo:

1)       tánuka : ser rasgado, destruir, usar ou pôr em pedaços variante de dànuka

2)       tànuna: rasgar, separar, etc. Sinónimo de dánuna

3)       tána: derobar, rasgar; roubar, conquistar, etc. 

[37] Santa Maria, na província (angolana) de Malanje.

[38] Sublinhado por nós.

[39] Cf.Fontes e Estudos, nº4-5, 1998-1999. Conferir as versões que cita o Padre metodista a respeito de Mpûngu’a Ndôngo, uma montanha gemenal.

[40] Pode ler-se os autores que têm falado sobre as religiões de África Negra, tais como Baumann, Estermann, Hubert Deschamps, Denise Paulme (se bem que de maneira superficial), Werlesse, E. Dammann, etc. Existe um Deus único mas conceptualizado em duas potências: Deus celeste e Deus terrestre, tal como pensam os Zûlu, Swâna, Xhosa, etc.

[41] Nesta palavra, encontramos Kalûnga, um dos nomes-títulos de Deus. Está presente, também, Ngômbe, um outro nome/título do mesmo Deus. Ambos têm os sentidos de Mundo-dos-Mortos, o mar (domínio de Deus, na concepção Kimbùndu ou em geral nas populações zimbabweyanas que ocupam todas regiões debaixo da linha equador). Ngômbe encontra-se em Umbûndu e outros falares do Sul, como nome de Deus criador.

[42] Podemos encontrar esse mito em Altuna, R.R.A., Cultura tradicional Bantu, Cooperação Portuguesa em Angola, Luanda, 1993. Aconselhamos conferir, de modo igual, os ritos de nascimento e outros ritos; MUJYNYA E.N., L’homme dans l’univers des Bantu, Presses de l’Université National du Zaire, Lubumbashi, 1972; Heusch de L., Mythes et rites bantous. Le roi ivre ou l’origine de l’Etat, Gallimard, Paris, 1972, 331pp. Aconsehamos a leitura desta obra que explica melhor o pensamento Bantu através os ritos e lendas (mitos na linguagem do autor); por fim, podemos ler V. Coelho no seu artigo publicado na Revista Sonangol e ver as canções que o autor reproduz.

[43] Rio Congo, também, chamado Zaire por Diogo Cão. Mas, na realidade, esse rio chamava-se Mwânza ou, genericamente, Nzâdi’a Mwânza.

[44] V. Coelho cita uma das preces.

«Os ítuta somos nós mesmos! […]

«Aiwé nossos grandes chefes,

«Nossos tios que nos esquecemos,

«Nosso MBANGALA [que] já morreu! […] «Implicações socio-económica…»

[45] O sentido é abismo, alicerces de um poço, mas também assento, sede, etc.

[46] Cf Virgílio Coelho sobre Kyânda, ou qualquer um dos seus artigos, visto que se consagra, desde há mais de vinte anos, à antropologia religiosa dos Kimbûndu.

[47] Aqui o tem o valor fonético de u, salvo o primeiro.

[48] Assinalamos, também, um caso muito excepcional que encontramos entre os grupos de Cabinda, Ba-Nsûnde, Ba-Vîli, Ba-Hângana, etc., de diferentes localidades da região. Nestas zonas do Kôngo, encontramos uma etapa em que as raparigas devem, depois da iniciação, ter um velhote da linhagem do pai como o seu iniciador na vida sexual. Este «pai», assim chamado porque pertence à família (linhagem materna) do seu pai, deve provar a virgindade da sua «filha», caso contrário, resulta num grande «mambu», isto é, problemas litigiosos. A rapariga não-virgem antes do tempo é tida como uma ameaça de calamidades na sociedade, pois deve consultar-se um Ngâng’a Ngômbo ou, geralmente, Ngâng’a Nkisi, para pedir perdão aos Ancestrais furiosos. A semelhança é que a multa que a família da noiva paga depois de o noivo descobrir que não era virgem (no caso de outras famílias Kôngo) relaciona-se com a multa que alguns grupos de Cabinda exigem para a linhagem materna que educou a sua filha.

[49] Assim, torna-se um contra-senso no entender da cosmogonia Kôngo. O espaço é sagrado, domínio dos espíritos. E, por conseguinte, devem o povo precisá-lo e não o contrário. Por essa razão, uma vez realizada a ocupação, os ocupantes devem pagar dote a fim de legitimar a sua demanda.

[50] Dentro do termo, encontramos tûmba. Como já vimos com os Kimbundu, está ligado à origem, queimadas, ou melhor, a Mbângala.

[51] O grupo sufixo ila corresponde a ba quando se nasaliza.

[52] Ou participa na formação das expressões directa ou indirectamente ligadas as origens.

[53] No sentido de começar (sentido kimbûndu), podemos servir da raiz kûmba, no qual deriva nkûmbu, nome (kûmbesa): causar, principiar, originar. Através desse sentido, mostra o que os Kôngo pensam de NKUMB’A WUNGUDI: origem de todos, como reza a Tradição.

[54] Mvîdi significa grandeza em kikôngo (mvîdingi).

[55] Em kikôngo, existe a palavra nsuku que, apesar de não designar DEUS, confirma, no entanto, o sentido Nyaneka: abundância, grandeza, acima, muito alto, escreve Laman no seu dicionário. Nos Umbundu, o mesmo termo tem esse sentido: «o do alto, o do céu». Um provérbio lembra a grandeza de Deus: «Capesela Suku omanu va ci tokoka oku ci loñolola»: o que Deus mediu, os homens não podem controlar. Hauenstein A, « Noms accompagnés de proverbes chez les Ovimbundu d’Angola» in BSSAE p.78. Ou, ainda mais, Suku ka pulua kalunga ka minihilua : não se pede nada a DEUS, a morte (Kalunga=DEUS=Misterioso=Morte) não aceita o presente. In Hauenstein A, O c.p.79

[56] Segundo Eduardo dos Santos, o termo Kalunga vem do radical lûnga do verbo okulungai seja construir. DE acordo com Estermann, este termo que, no entender de Alves, se encontra em 66 línguas africanas, vem do verbo okulunguka e significa «ser astucioso» ou «ser esperto». Ainda na opinião de Estermann, em outros idiomas, este termo poderia originar da palavra ndûngi que significa «inteligente» ou do verbo okulunga que significa «ser atento» ou «vigilante». Nestas diferentes observações, Estermann conclui que Kalunga deveria ser traduzido por «o ser pessoal inteligente». Hauenstein A, «Noms accompagnés de proverbes chez les Ovimbundu d’Angola» in Bulletin de la Société Suisse d’Anthropologie et d’ethnologie, nº48 Année, 1971/1972, p.77.

[57] Em Nyaneka Humbe, ekumbi designa o ancião que sabe tudo; também a palavra significa algo que não se revela por nenhum sentido. Em Umbûndu Kikôngo, este nome de Deus não existe. Portanto, designa (nkûmbi) alguém idoso, que sabe todas coisas, usos e costumes, sábio, vice-rei, chefe adjunto, escreve Laman.

[58] A acção que o especialista ngâng’a Ngombo usa a fim de descobrir as causas de uma infelicidade ou de qualquer problema.

[59] Na opinião de Baumann e Westermann, os Bantu (que chamamos Zimbabweyanos) teriam partido deste ponto: Les peuples et Civilisations Africaines, Payot, Paris, 1965.

[60] Primeira casa materna. Como veremos no segundo Livro, que fala do Herói Civilizador, esse termo de «casa materno» está presente no «nsi», país, ou seja, «pequeno país» quando o termo surgiu nas primeiras instâncias.

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flavio9397able .,
09/10/2010 13:03
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