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Documentação - Um Olhar sobre a "América": experiências afro-americanas nas páginas de O Clarim da Alvorada

Flávio Thales Ribeiro Francisco[1]


Introdução

No mês de janeiro de 1924, surgia o jornal O Clarim da Alvorada, criado por Jayme de Aguiar e José Correia Leite. O periódico fazia parte da imprensa negra paulista, um conjunto de jornais editados por jornalistas negros e voltados para os negros da cidade e do Estado de São Paulo[2]. Já no ano de 1915, eles circulavam pelas cidades para trazer aos seus leitores informações relacionadas principalmente aos clubes sociais da população negra. Os jornais estampavam imagens dos sócios mais ilustres destas instituições e publicavam notas de solenidades e outras atividades recreativas.

Apesar da condição de pobreza de grande parte dos negros que viviam na cidade de São Paulo, a publicação de artigos tratando da penúria destes e do preconceito de cor não era freqüente. Contudo, os jornalistas não deixavam de chamar a atenção para a necessidade do negro se educar e andar bem trajado para que pudesse ser visto com bons olhos pelos outros. Essas publicações das comunidades negras paulistas foram consideradas como uma primeira etapa da imprensa negra, uma espécie de ensaio para periódicos com abordagens deliberadamente políticas que viriam pela frente.

Nesse sentido, O Clarim da Alvorada inaugura uma nova fase dessa imprensa que, se sempre teve uma carência de recursos financeiros, pelo menos naquele momento passou a contar com jornais estáveis e com uma tiragem maior do que a das publicações da fase anterior. Ao invés de se restringir ao universo dos clubes sociais dos negros da cidade, o jornal procurou trazer notícias e opiniões de lideranças negras que problematizavam o papel do negro na sociedade brasileira.

As opiniões publicadas nas páginas de O Clarim da Alvorada eram relacionadas ao papel da população negra na construção da nação brasileira. O argumento dos jornalistas e colaboradores que escreveram para o jornal era o de que, apesar da abolição da escravatura, o negro não havia se integrado à sociedade brasileira de maneira satisfatória. Mesmo com a liberdade em mãos, ele não soube se preparar para uma nova fase que exigia, sobretudo, uma mudança nos seus valores morais, voltados para a ética do trabalho no universo capitalista.

Assim não deixa de ser comum a idéia de que a população negra do período pós-abolição vivia em condições semelhantes, ou piores, do que as da escravidão. Alguns dos textos publicados no periódico sugerem que a geração de jovens negros da década de 1920 colocava em risco todo o legado das gerações anteriores. Tanto os escravos como os abolicionistas negros são considerados como heróis e representantes de um patriotismo negro que perdia o seu significado à medida que a mocidade preta de São Paulo mergulhava em vícios como a bebedeira e a vadiagem.

Os jornalistas de O Clarim da Alvorada e os ativistas do movimento negro que se formara na década de 1920 se apresentaram como uma liderança para elevar o moral dos negros da cidade de São Paulo. Esse grupo se organizou a partir da criação do Centro Cívico Palmares no ano de 1927, espaço onde se reuniam e discutiam a questão racial. No periódico, José Correia Leite e Jayme de Aguiar defendiam uma disciplina rígida para o comportamento dos negros, que deveriam usar a educação formal como um meio de assimilar os valores vigentes da elite paulistana. A instrução, nesse sentido, seria o elemento primordial para a ascensão social dos negros da cidade de São Paulo.

O processo de integração dos negros brasileiros, entretanto, não viria somente com a aquisição de uma boa educação e a conquista de um bom emprego. Era necessário também que a população negra fosse reconhecida como parte fundamental da nação brasileira. Aqui é fundamental lembrar que as idéias racistas e evolucionistas ainda condicionavam de maneira profunda o pensamento de intelectuais, determinando o uso de políticas oficiosas contra as populações negras do país. Nesse sentido, o trabalho dos militantes negros do período era o de criar uma imagem digna e modernizada do negro brasileiro, ou uma imagem que fosse completamente dissociada da natureza degradada da escravidão.

A intenção por trás da publicação de artigos sobre a questão do negro no Brasil era a de afirmar uma identidade brasileira que levasse em consideração o papel do negro no progresso econômico do país. Antes mesmo que Gilberto Freyre estabelecesse as bases da idéia de democracia racial, valorizando o papel do negro na constituição da sociedade brasileira, os jornalistas de O Clarim da Alvorada já refletiam sobre um imaginário nacional onde a população negra, assim como a indígena, pudesse ocupar o espaço de protagonista.

Este negro protagonista deveria ser uma figura moderna, que acompanhasse o desenvolvimento da economia, assim como acontecia no Estado de São Paulo. Por isso, o discurso do jornal deixava de lado a questão da cultura brasileira, pois esta representava o atraso do negro, um conjunto de manifestações que contrastava com a modernidade paulista.

Embora, por volta de 1930, O Clarim da Alvorada começasse a questionar as relações entre negros e brancos no país, deixando de culpar a população negra pela sua própria condição, a idéia de integração ainda continuou pautada pelo ingresso do negro a uma modernidade brasileira. Nesse sentido, a imagem do Brasil enquanto uma comunidade formada pelo amálgama de negros, indígenas e brancos permanecia forte entre as lideranças que publicavam seus artigos em O Clarim da Alvorada. Assim, as experiências negras norte-americanas surgiram aqui como um dos elementos definidores do lugar do negro no Brasil.

 

Imprensa negra norte-americana em O Clarim da Alvorada

Como é possível observar em algumas páginas de O Clarim da Alvorada, a experiência dos negros norte-americanos e os movimentos anti-coloniais no continente africano foram fontes de inspiração para a representação do negro moderno no periódico. À medida que os artigos publicados tratavam mais da questão de raça no Brasil e questionavam uma suposta harmonia racial na sociedade brasileira, passavam a discutir também a importância da política racial entre os negros dos Estados Unidos. O exercício de comparação entre a condição dos negros brasileiros e a dos negros norte-americanos ampliou o debate para fora dos limites territoriais do Brasil, levando os jornalistas a tratar de ações políticas negras pelo mundo.

As principais fontes sobre estes temas foram os jornais publicados pela imprensa negra norte-americana. Os jornalistas de O Clarim da Alvorada recebiam exemplares do Chicago Defender e uma versão traduzida do Negro World. No ano de 1923, ao participar de uma série de encontros com ativistas negros em São Paulo e no Rio de Janeiro, Robert Abbot, editor do jornal afro-americano Chicago Defender, estabeleceu seus primeiros contatos com jornalistas negros do Brasil. Como resultado deste evento, os brasileiros e o editor passaram a trocar exemplares de suas publicações.

            Já o jornal Negro World, publicação do ativista negro de origem jamaicana Marcus Garvey, se transformou em fonte de informações sobre as experiências negras internacionais para O Clarim da Alvorada através de Alcino dos Santos e João Sótero da Silva, que foram até a redação do jornal para propor a tradução de matérias pan-africanistas. Com a ajuda de Mário Vasconcellos, que se responsabilizou pela tradução, O Clarim da Alvorada introduziu uma coluna em 1930 no jornal sob o título de “O Mundo Negro”, tradução literal do título do jornal norte-americano [3].

Ou seja, durante a trajetória de O Clarim da Alvorada, várias informações relacionadas às experiências negras fora do Brasil foram selecionadas no sentido de ajudar a delinear atitudes, ações, compromissos e, por sua vez, uma identidade da população negra de São Paulo. Tudo indica que grande parte das notícias publicadas sobre a vida dos negros nos Estados Unidos e, curiosamente, na África vieram dos dois jornais afro-americanos acima mencionados. O Clarim da Alvorada então usou estes periódicos como fontes de informação, imagens e símbolos para refletir sobre a experiência dos negros de São Paulo.

            Não há dúvida de que a comparação entre os padrões de relações raciais brasileiro e norte-americano não foi um fenômeno que se manifestou pela primeira vez nas páginas de O Clarim da Alvorada. Nas obras de Joaquim Nabuco e Nina Rodrigues, no final do século XIX, já é possível perceber a preocupação dos brasileiros em conduzir a integração do negro à sociedade brasileira de modo a evitar a violência que se deu nesse mesmo processo na sociedade norte-americana[4]. Nesse sentido, a Guerra Civil e a Reconstrução norte-americana apareceram como eventos definidores de uma diferença entre os dois países. O primeiro evento desmontou a sociedade escravocrata no sul dos Estados Unidos no conflito entre os estados sulinos e o resto da União. Já a Reconstrução foi marcada pelo processo violento de integração do negro à sociedade norte-americana[5].

            Os resultados destes eventos, tratados pelos brasileiros como desastrosos, ajudaram a delinear a já tradicional narrativa das três raças, presente desde a obra de Francisco Adolfo Varnhagen, considerada como a primeira história do Brasil. Enquanto o país se transformara em uma nação com relações harmônicas entre negros e os brancos, os Estados Unidos caminhara para o segregacionismo, mantendo a população negra distante dos recursos materiais e políticos para a reprodução de riqueza. Mesmo com a presença da escravidão, e com a crença de inferioridade da “raça negra”, ainda se considerava que os negros no Brasil viviam em condições melhores do que a dos norte-americanos.

            A questão da diferença entre os dois países apareceu, naturalmente, nas páginas da imprensa negra paulista. O Clarim da Alvorada não foi a primeira publicação a discutir tal assunto, jornais publicados anteriormente já traziam uma pequena quantidade de artigos que comparavam as experiências dos negros da América do Norte e da América do Sul. Na sua edição de 28 de dezembro, por exemplo, A Liberdade publicou um artigo sobre o preconceito contra a raça negra. O autor, que não se identificou, comentava sobre a condição infeliz dos negros pelo mundo. Aqui, a simples menção aos negros da nação norte-americana serviu para retratar uma experiência comum aos negros brasileiros e norte-americanos. Mesmo vivendo em uma nação civilizada, os negros dos Estados Unidos estavam sujeitos às inconveniências do preconceito que também afligia os brasileiros[6].

No artigo mencionado acima o autor reconhece o preconceito de cor na sociedade brasileira e enxergava semelhanças entre as experiências de negros brasileiros e norte-americanos. Contudo, na coluna de título Vagando, publicada na mesma página, Matuto enfatizava as diferenças entre os conflitos raciais dos dois países. O autor criticava efusivamente os mulatos e negros de pele clara que não reconheciam a sua identidade racial e procuravam se afastar de suas famílias negras. Diferente do outro artigo, Matuto negava veementemente o preconceito de cor na sociedade brasileira. Este tipo de conflito era comum nos Estados Unidos onde “a luta é do branco contra o preto”. No caso do Brasil, a preocupação do negro não deveria ser dirigida aos brancos, de fato eles não eram preconceituosos, mas sim ao próprio preto que renegava a sua “raça”[7].

Em O Clarim da Alvorada, apesar de o jornal ter sido criado no ano de 1924, a primeira referência aos negros norte-americanos aparece na edição de julho de 1925. Aqui, como no artigo Hypocrisia da cor do periódico A Liberdade, a experiência dos negros dos Estados Unidos é usada de forma a delinear uma narrativa histórica comum a todos os negros do mundo[8]. Booker questionava a justificativa religiosa da diferença entre as raças, que afirmava que os negros faziam parte de um povo historicamente amaldiçoado. Ele retornou aos tempos do Egito clássico para mostrar como na história da humanidade a raça negra já havia sido soberana e criadora de conhecimento. Os brancos e outras raças haviam bebido muito dos ensinamentos dos negros, mas continuavam a maltratá-los, principalmente os “brancos selvagens da Norte América” que trucidavam os negros de lá.

Este artigo deu início a uma série de outros que trataram do preconceito de cor no Brasil, nos Estados Unidos e, conseqüentemente, em outras partes do mundo.  Na maioria das vezes, as experiências negras norte-americanas surgiram nas páginas do jornal como um meio de caracterizar e, até mesmo, de mensurar a natureza harmônica das relações entre negros e brancos no Brasil. Ao mesmo tempo em que os jornalistas e colaboradores de O Clarim da Alvorada exaltavam o caráter pacífico das relações raciais do Brasil, criavam um outro ambiente permeado pela violência racial que afligia a sociedade norte-americana .

Na edição de novembro de 1926, Gervásio de Moraes, um dos principais colaboradores do jornal, fez uma crítica contundente aos Estados Unidos. O jornalista condenou o espírito intolerante dos cidadãos norte-americanos, que apesar de responsáveis por grandiosas obras da modernidade, estavam por trás dos espetáculos mais violentos de conflito racial. “(...) em meio àquele progresso que assombra e àquela civilização que intimida, desdobra-se o manto negro de ridícula intolerância”[9]. Moraes defendia que os negros brasileiros estavam em vantagem em relação aos negros dos Estados Unidos, pois não alimentavam nenhum tipo de ódio em relação aos brancos.

Até o momento em que os artigos e notícias não contavam com as informações vindas dos jornais negros norte-americanos, o debate em torno da diferença entre ser negro nos Estados Unidos e no Brasil se restringiu a oposição entre um ambiente violento e outro harmônico. Mesmo assim, ainda é possível encontrar alguns artigos sobre a contribuição importante de inventores negros e a presença do Jazz entre os bailes dançantes dos clubes recreativos negros da cidade de São Paulo.

Na edição de março de 1926, por exemplo, Booker apresentou aos leitores do jornal os inventores do “primeiro relógio da América”, do auto-piano e de um aparelho que registrava chamadas telefônicas. Ele deu destaque a Joseph Hunter Dickinson, que além de ser inventor do auto-piano e portador de doze patentes, se revelara um excelente empreendedor com sua grande fábrica de pianos[10].  Em um outro artigo nas mesma página, um autor que se identificara como Tuta comentava como o Jazz e sua estética “futurística” havia influenciado desastrosamente a juventude negra. Ele manifestava o seu sentimento nostálgico ao criticar a atual geração que perdia o seu tempo com uma música barulhenta ao invés de valorizar os ritmos musicais que revelavam “o lirismo do verbo amar”[11].

O debate em torno da experiência negra nos Estados Unidos ganharia novos contornos em 1928. A partir desse ano é que é possível perceber a prática jornalística em torno desse tema. Embora a passagem do editor do Chicago Defender pelo Brasil tenha acontecido no ano de 1923, o intercâmbio de informações entre o jornal norte-americano e O Clarim da Alvorada só apresentou seus resultados alguns anos depois. A primeira referência que se faz ao jornal de Robert Abbot nas páginas de O Clarim da Alvorada somente ocorre em 1926 como resposta a artigos publicados no Chicago Defender. Gervásio Moraes relembrava a passagem de Abbot pelo Brasil para fazer uma crítica à falta de sensibilidade do editor norte-americano à realidade brasileira. Ao que tudo indica, o jornalista brasileiro teve acesso a esses artigos publicados no Chicago Defender em 1923. Moraes condenava Abbot por não se preocupar em aprofundar o seu conhecimento sobre o Brasil, já que o jornalista da “América irmã” havia retornado ao seu país e feito alguns comentários inapropriados sobre alguns dos costumes dos Brasileiros. Sem especificar quais deles, Gervásio Moraes acusava Robert Abbot de semear a intolerância racial norte-americana no seio da sociedade brasileira[12].

 

Diáspora jornalística

Ainda no ano de 1928, a maioria dos artigos publicados por O Clarim da Alvorada estava baseada em opiniões abstratas sobre as relações entre negros e brancos nos Estados Unidos. Sem citar especificamente os eventos do conflito racial do país, os jornalistas brasileiros se restringiam a tratar de maneira sumaria fatos como a violência racial ou a organização dos negros norte-americanos. Na edição de dezembro de 1925, Horácio da Cunha fez uma comparação entre as experiências negras no Brasil e nos Estados Unidos. O jornalista argumentava que o problema de instrução da população negra era compreensível, já que faziam apenas 36 anos que a Lei Áurea havia sido assinada pela Princesa Isabel. Para reforçar a sua idéia de que a culpa pelo problema da educação do negro no Brasil era do governo, Cunha teceu um rápido comentário de que nos Estados Unidos, apesar dos transtornos das relações de “raça”, o negro teve acesso à educação e se desenvolveu. Por isso, aqueles que afirmavam que a própria população negra havia sido responsável pelo seu trágico destino estavam equivocados. Cunha utilizou a experiência americana, sem entrar em detalhes, para ilustrar o atraso dos negros brasileiros em relação à sociedade brasileira e ao negro norte-americano[13]

Podemos encontrar esta mesma lógica em um artigo escrito por Luis Barbosa em 1926. Ao discutir a relação entre trabalho e riqueza na história da humanidade, o jornalista citou de maneira sucinta a nação norte-americana como o grande exemplo de país moderno. Regressando até o suposto período em que os homens viviam na caverna, ele procurou demonstrar a importância do trabalho e como ele estava associado a um ideal de progresso, que somente poderia ser alcançado pelas nações de povos perseverantes. Aqui os Estados Unidos, país que considerava como a grande potência, aparecia em oposição a um país asiático (que parece ser a China) mergulhado em vícios. Luis Barbosa considerava a nação norte-americana como a terra do trabalho e o exemplo a ser seguido por outras nações[14]. Aqui já encontramos a reprodução daquele imaginário sobre os Estados Unidos que retorna sempre para delimitar as fronteiras entre a nação brasileira e norte-americana.

A leitura de artigos sobre outros temas poderiam indicar que o modo como as informações sobre os Estados Unidos tratadas por O Clarim da Alvorada não seriam diferentes de outros como a escravidão e a marginalização do negro no período pós-abolição. A prática de sumarização da informação seria muito mais da natureza de um pequeno jornal do que a falta de informação sobre os Estados Unidos e as experiências negras norte-americanas. Contudo, à medida que as referências sobre os jornais norte-americanos aumentavam, os temas relacionados aos “irmãos da América do Norte” foram tratados com uma maior variedade. Não há dúvida de que muitas das vagas referências sobre a nação norte-americana continuaram ser reproduzidas por alguns artigos de O Clarim da Alvorada, contudo a prática jornalística deu espaço maior a assuntos como o linchamento, as organizações racistas, o movimento negro norte-americano e a cultura negra nos Estados Unidos.

            A mudança em relação à questão do negro brasileiro e à influência do Chicago Defender foram anunciadas pelo próprio jornal. Na edição de junho de 1928, O Clarim da Alvorada trazia um artigo em que o autor, não identificado, comparava a publicação brasileira à norte-americana. O Clarim da Alvorada “retornava na quarta edição daquele ano para levar adiante a luta dos negros do Brasil, assim como o jornal norte-americano lutava em defesa dos negros dos Estados Unidos”. Embora “os negros tivessem o direito à cidadania no Brasil, diferente da condição dos negros da grande Republica Americana, era necessário que o jornal se fizesse presente para manifestar a opinião da população negra de São Paulo”[15].

            A referência direta ao Chicago Defender apareceria em outras edições como fonte de informações, ou, até mesmo, como revelação dos interesses dos norte-americanos nos rumos do ativismo negro no Brasil e na cidade de São Paulo. No mês de setembro de 1928, a edição de comemoração à Lei do Sexagenário trazia mais um artigo que homenageava a Mãe Preta[16]. O interessante, entretanto, foi o fato de o autor, Cônego Olympio de Castro, fazer menção ao Chicago Defender que já há algum tempo demonstrava interesse na campanha pela “canonização” da imagem da Mãe Preta. Castro reproduziu uma frase de uma carta enviada pelo Robert Abbot em que o jornalista pedia mais imagens e informações sobre a organização em torno do monumento à Mãe Preta. Para situar o jornalista norte-americano, o cônego enviou uma edição de O Clarim da Alvorada do mês de maio do mesmo ano[17].

            Já no ano seguinte, na edição de março, O Clarim da Alvorada publicou uma nota sobre erros de uma notícia do Chicago Defender sobre a presença do presidente norte-americano Hebert Hoover no Brasil. O jornal havia noticiado uma solenidade no palácio do governo brasileiro em que Hoover havia comparecido. Com a presença de pessoas de diferentes tons de pele, o evento foi retratado pelo Chicago Defender como um aprendizado para Hoover, pois o episódio revelava ao presidente a possibilidade de convívio harmonioso entre pessoas de diferentes “raças”. Entre eles estaria João Cândido, herói negro da Revolta da Chibata. A nota de O Clarim da Alvorada, entretanto, questionava a presença do almirante negro. O jornal, sem provar, alegava que era infundada a notícia veiculada pela publicação negra norte-americana[18].

            Contudo, a coluna de Robert Abbot, editor do Chicago Defender, foi também motivo de elogio do jornal brasileiro. Na edição de novembro do mesmo ano, O Clarim da Alvorada trazia mais uma nota sobre o parceiro norte-americano com o título que reproduzia o seu cabeçalho na língua original: “Chicago Defender, The World’s Greatest Weekly”. Depois de elogiar a publicação pelo papel que vinha desempenhando como uma liderança na “orgulhosa terra dos preconceitos raciais”, o jornal brasileiro assinalou que os negros norte-americanos haviam criado os instrumentos necessários para reinvindicar os direitos da “raça negra”[19].

            Esses casos revelam as conexões entre Chicago Defender e O Clarim da Alvorada.  Tanto um quanto o outro foram utilizados pelos seus pares internacionais como fonte de informação sobre experiências negras em outro contexto cultural. À medida que intelectuais e ativistas negros se organizaram politicamente em suas respectivas nações no período pós-abolição, surgiu o interesse por ações políticas e vivências que supostamente fossem diferentes ou reservassem algumas distinções daquelas experimentadas domesticamente.

            Um artigo escrito por William Du Bois pode ser considerado o grande exemplo do modo como pensadores negros olharam para outras experiências negras no mundo, especificamente a brasileira. Em 1914, o sociólogo e historiador, que naquele momento já era a grande referência do ativismo negro norte-americano, teceu alguns comentários sobre um artigo escrito pelo ex-presidente Theodore Roosevelt, que tratara das relações entre negros e brancos durante sua visita ao Brasil em 1913.  Du Bois, após fazer uma breve apresentação do Brasil como uma nação predominantemente negra, discutiu as observações de Roosevelt. Segundo ele, o presidente havia sido preciso em algumas informações, principalmente quando afirmara que o negro havia sido integrado à sociedade brasileira e que no país não existia qualquer tipo de obstáculo racial à população negra. Contudo o intelectual discordou da afirmação de Theodore Roosevelt de que, apesar do processo de miscigenação, o sangue negro no Brasil era considerado inferior. William Du Bois, a partir de um comentário de João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional brasileiro, demonstrou como o negro participou efetivamente da história brasileira, desqualificando o comentário do presidente de que a “raça negra” era inferior à branca. Du Bois acusou o ex-presidente norte-americano de estimular o racismo e a segregação na sociedade norte-americana ao confirmar a inferioridade racial[20].

            O intelectual, ao contra-argumentar Theodore Roosevelt, utilizou o padrão racial brasileiro para refutar as teses de inferioridade da “raça negra”. O interesse de William Du Bois na experiência negra brasileira revela o modo como imagens e informações de experiências negras internacionais foram incorporadas ao discurso de ativistas negros de diferentes contextos nacionais. Esse trânsito de impressos e de ativistas em busca de outras experiências negras configurou um espaço amplo de circulação de idéias e símbolos entre as populações de ascendência africana[21].

Em 1921, por exemplo, Marcus Garvey desembarcou em Cuba para divulgar os seus ideais de retorno para a África. O ativista jamaicano, radicado nos Estados Unidos, foi recebido de maneira calorosa pelos jamaicanos que viviam na ilha, e com certo ceticismo pelos negros cubanos[22]. Enquanto os primeiros aclamavam Marcus Garvey, os segundos alegavam que a sua presença incitava um racismo que não era comum naquela sociedade. Em vez de retornar à África, os cubanos preferiam seguir com a cidadania cubana, uma conquista garantida com a participação na luta pela independência do país. O fato é que a presença do líder jamaicano irrompeu um debate sobre a questão racial entre a população negra da ilha, levando as principais referências da política negra cubana a se posicionarem em relação aos seus ideais. Mesmo com a discordância em relação ao nacionalismo negro norte-americano e o panafricanismo[23], as organizações ligadas à Garvey continuaram a funcionar até 1930, período em que se iniciou uma forte investida do governo cubano contra qualquer tipo de ação política baseada na idéia de “raça”. A publicação de Marcus Garvey, Negro World, circulou na ilha em versões em inglês e espanhol por cerca de dez anos, o que revela a importância, mesmo que incômoda, de Garvey em Cuba.

O estabelecimento de unidades da UNIA (Universal Negro Improvement Association), instituição responsável por captar recursos para viabilizar o retorno à África, parece ter encontrado resistência também em outros países, principalmente nos africanos submetidos ao poder dos impérios europeus. Nesse sentido, o jornal Negro World serviu como instrumento para a infiltração das idéias de Marcus Garvey onde não eram desejadas. Este foi o caso do Malauí, protetorado britânico onde a publicação circulou de maneira clandestina até o momento em que foi interceptada pelas autoridades em 1926. Na África do Sul, cerca de milhares de exemplares foram distribuídos, sendo que um deles chegou até as mãos do ministro do interior, que se tornaria um assinante da publicação[24].

O Negro World, embora tenha tido uma circulação estável dentro do território norte-americano, tornando-se uma das publicações mais populares entre a população negra na década de 1920, internacionalmente contou com esforços individuais de ativistas ou admiradores de Marcus Garvey, o que determinou uma irregularidade na sua distribuição. Embora não existam registros de como o Negro World chegou até os representantes baianos de O Clarim da Alvorada, podemos sugerir que a publicação de Marcus Garvey chegou até a redação do jornal brasileiro a partir de agentes informais que transitavam pelo Atlântico com o desejo de divulgar os ideais do líder jamaicano.

A primeira vez que O Clarim da Alvorada atribuiu alguma informação ao Negro World foi em 1929. Na edição de fevereiro, o jornal brasileiro publicou a tradução de um manifesto que clamava pela união dos negros. Com o título de “Eduquemos nossas massas” e com um subtítulo que indicava o jornal norte-americano como um órgão “defensor da raça negra disseminado por toda a parte do globo”, o autor, com um argumento que nos lembra em muito o discurso do jornal brasileiro, tratou da necessidade da construção de uma coletividade negra. Relembrando um passado doloroso que despertara o sentimento de vergonha, o manifesto não fez alusão direta à escravidão, mas descreveu um período em que os “inimigos da humanidade” haviam privado o negro dos seus direitos de ser humano. Com um tom que soava como os ideais de Marcus Garvey, o autor finalizava com a mensagem de que a “força da nossa raça” bastava para a conquista do progresso.

 

E bastante essa experiencia para remédio de nossos males. Rechacemos as offertas lisonjeiras que quotidianamente nos offerece, as quaes aniquillam as iniciativas do progresso que começam a sentir-se no seio de nossa collectividade. Digamos com orgulho: Nossas forças nos bastam! Não esperemos glorias que outros nos offerecem; adquiramos estas estas por nosso proprio impulso. Ellas garantirão nosso porvir e de nossas gerações vindouras, que robustecidas com o nosso labor econômico, chegarão mui breve á cobrir a restaguarda no campo de acção de nossa raça, e occuparão o posto que lhes correspondde na vida da civilização[25].

 

As notícias que tinham o Negro World como fonte, inicialmente foram publicadas em meio aos artigos que tratavam de outros assuntos, porém logo elas foram reunidas juntamente com informações de outros jornais em uma coluna especializada nas experiências negras. Em 1930, no mês de dezembro, foi inaugurado O Mundo Negro, um espaço que, de acordo com o jornal brasileiro, publicaria “notícias, trabalhos transcritos e traduzidos para O Clarim da Alvorada dos mais importantes órgãos negros da América”[26].

O que observamos aqui é uma entre as várias práticas que configuraram uma rede de trocas de informações e idéias no Atlântico. Se por um lado havia um trânsito de intelectuais norte-americanos, caribenhos e africanos como William Du Bois, Claude Mckay, Léopold Sédar Senghor que estava relacionada a um circuito pautado por relações acadêmicas e por um mercado editorial ávido pela produção de pensadores negros, por outro existia esse circuito pautado pela atividade jornalística de ativistas negros[27]. As traduções de textos do Negro World e a troca de exemplares entre as redações de O Clarim da Alvorada e o Chicago Defender revelam como os ativistas brasileiros ingressaram no Atlântico Negro como produtores de conhecimento.

 

Paraísos e infernos raciais

Embora algumas das idéias propagadas pela imprensa negra norte-americana fossem publicadas em O Clarim da Alvorada, nem todas elas foram aceitas pelos jornalistas brasileiros. A idéia de retorno à África talvez tenha sido a que mais se chocou com os ideais da publicação brasileira e do ativismo negro da época. A luta pela soberania do continente africano e sua concepção como a nação para a “raça negra” espalhada pelo mundo comprometia a intenção dos negros de São Paulo de promover a integração à sociedade brasileira. Segundo José Correia Leite, o grupo responsável pela tradução dos jornais e pela coluna Mundo Negro de O Clarim da Alvorada era reconhecido como uma ala garveísta, mas com muito pouca influência na redação. Ainda assim, não havia nenhum tipo de menção a um retorno ao continente africano, o que mais interessava em Marcus Garvey era a sua mensagem que estimulava a autodeterminação entre os negros brasileiros:

 

O movimento garveysta entre nós ficou restrito, mas serviu para tirar certa dubiedade do que nós estávamos fazendo. Procurávamos fazer doutrinação, uma espécie de evangelização. As idéias de Marcus Garvey vieram reforçar as nossas. Com elas nós criamos mais convicção de que estávamos certos. Fomos descobrindo a maneira sutil do preconceito brasileiro, a maneira de como a gente era discriminado[28] [...]

 

Mesmo com a presença do preconceito de cor e a introdução de discussões sobre a questão racial, a idéia de que as oportunidades aos negros no Brasil estavam abertas ainda era muito forte. O apelo racializado dos negros norte-americanos em meio ao ambiente segregado significava o desvio de um projeto de nacionalização do negro no Brasil. As histórias de linchamento dos Estados Unidos já eram bem conhecidas pelos jornalistas de O Clarim da Alvorada, o que requeria qualquer tipo de cautela por parte deles antes de fazer um comentário positivo sobre o modo de vida dos “irmãos” da América do Norte.

Entre 1890 e os primeiros anos do século XX, uma massa de trabalhadores brancos afligidos pela pobreza nos estados do sul do território norte-americano se levantou contra a população negra que havia sido alçada ao nível de cidadãos pelos programas do governo dos Estados Unidos durante o período da Reconstrução na década de 1870. Em Lousiana, por exemplo, esse período foi marcado pela cassação do direito de votos dos negros. A partir da evocação de uma superioridade racial branca, limites rígidos de cor foram estabelecidos entre negros e brancos. O estado que, diferente dos demais, tinha uma tradição de classificação racial que considerava o mulato como figura intermediária no universo birracial norte-americano, logo se transformara em um terreno de conflito entre a “raça branca” e a “raça negra”[29].

O receio dos jornalistas de O Clarim da Alvorada de que um apelo acima da medida pudesse criar um quisto racial entre os brasileiros se manifestava nos argumentos de que os negros eram parte integral de uma sociedade harmônica racialmente. Na edição de junho de 1925, o jornal publicou um artigo sobre a gratidão que o povo brasileiro devia aos africanos e seus descendentes que trabalharam forte para a construção da nação. Aqui eles tiveram mais oportunidades, os senhores eram mais benévolos que os dos Estados Unidos, e formaram uma classe de negros formidáveis. Enquanto nos Estados Unidos brancos e negros se separavam até na morte, no Brasil os obstáculos raciais eram vencidos desde o período colonial:

 

[...] Já nos tempos coloniaes, determinava o rei (provisão de 9 de Maio de 731) que o accidente de cor não constituia obstáculo para que um homem exercesse o cargo de procurador da corôa. Por alvará de 12 de janeiro de 733, approvava ter um governador alistado, nos corpos de infanteria de ordenanças, pardos com brancos, sem distincção, confiando que os primeiros o servissem com o mesmo zelo e fidelidade dos segundos. Nos Estados Unidos, mesmo agora, a desigualdade social entre pretos e brancos subsiste até depois da morte; em certos lugares ha cemiterios defferentes para uns e outros! Durante o reinado de D. Pedro II vários descendentes de africanos mereceram condecorações e titulos nobiliarchicos. Que bella galeria de negros e filhos de negros illustres a que apresenta o Brasil[30] [...]

 

José Correia Leite reforçaria tal idéia ao afirmar que no Brasil não existia o preconceito de cor. Diferente dos Estados Unidos, onde negros e brancos viviam separados, cada qual cuidando de suas “coisas”, no Brasil todas as coisas eram dos brasileiros. O jornalista procurava demonstrar que O Clarim da Alvorada lutava pela “evolução moral dos pretos de São Paulo sem carregar nenhum tipo de ofensa aos cidadãos brasileiros”. Ao fazer a comparação com o ambiente segregado da sociedade norte-americana, Leite manifestava o sentimento patriótico que permeava a maioria dos artigos de sua publicação.

 

[...] O dia que grupos escolares não acceitarem mais os nossos filhos, se as academias não receberam mais a nossa mocidade, para maior gloria da raça, que descendemos, então os homens pretos do Brasil se unirá para a formação de tudo quanto necessitamos. Lá na América do Norte, onde o preconceito é um fato, o que é do preto é do preto, o que é do branco é do branco. Aqui não, tudo quanto é do Brasil, é nosso com excepção de qualquer cousinha que se não pode qualificar preconceito[31] [...]

 

A vontade de afirmar a brasilidade do negro brasileiro e evitar uma identidade fechada como a dos negros norte-americanos provocou reações agressivas como a de Gervásio Moraes. A associação direta no modo como O Clarim da Alvorada discutia a questão racial no Brasil com ideais como o de Marcus Garvey poderia significar um desvio em relação a uma tradição brasileira que surgira do caldeamento entre as três “raças” (negra, branca e indígena). A base do apelo do jornal e do ativismo daquele período era justamente a idéia de que o negro, devido à sua participação fundamental na história econômica brasileira, era o elemento representativo da nacionalidade. De fato, a presença do redator do Chicago Defender no Brasil, há três anos atrás, poderia ser interpretada como uma espécie de conluio entre os ativistas das duas nacionalidades, de modo a criar um quisto racial e transformar a política dos negros em uma mácula da sociedade brasileira.

 

[...] Do formidável paiz de Lincoln, daquella nação sólida e viril, de férrea vitalidade economica , não nos servem os credos e doutrinas sociaes.

A idéa Abbotina, importando capacidades negras para a separação racial no Brasil, equivale a uma desjunção dynamica e violenta.

Enquanto o negro norte americano desabotôa o peito e se atira contra o branco n’uma luta exterminante, barbara e sanguinária, arrastado pelo ódio mortal; enquanto corre pelas sargetas os jactos estuantes de sangues irmãos, o negro brasileiro estende a mão da fraternidade aos brancos e fortallecem o cunho de amisade que os ligam porque, apesar de tudo, do nosso esforço educativo, não nutrimos odio contra quem, em épocas longiquas, dominou pelo poderio e venceu pela chibata[32] [...]

 

Nos comentários de Moraes sobre a presença do jornalista norte-americano no Brasil, podemos perceber duas questões que perpassam os artigos publicados em O Clarim da Alvorada sobre os Estados Unidos: a violência racial das políticas segregacionistas, e a imagem da nação norte-americana como uma potência econômica, a nação que melhor expressava a modernidade tão aspirada pelos paulistas naquele período. Ainda que, nas palavras dos jornalistas, os Estados Unidos fosse uma nação forte e tivesse uma economia vigorosa, estava longe de ser um exemplo para os brasileros, sobretudo para os negros. Na opinião de Gervasio Moraes, os Estados Unidos eram a “a nação pensadora do universo”, contudo os excessos na ordem e na harmonia logo deram origem a uma série de práticas intolerantes. A “terra das originalidades” e do “utilitarismo prático” havia se transformado num cenário de espetáculos deprimentes como as ações da organização racista Klu Klux Klan.

Na edição de fevereiro de 1928, Horacio Cunha fez uma ressalva sobre os negros da América do Norte. Seguindo a mesma lógica do argumento de Gervasio Moraes, Cunha advertia aqueles que demonstravam uma admiração sem limites às conquistas dos negros nos Estados Unidos. Para conter o entusiasmo dos brasileiros, ele fazia a observação de que o progresso dos negros norte-americanos nada mais era do que conseqüência do alto nível de industrialização dos Estados Unidos. Assim que o Brasil, uma nação jovem, atingisse o estágio dos norte-americanos, naturalmente os negros do Brasil chegariam ao nível dos seus “irmãos”. Cunha demonstrava, sobretudo, certa preocupação com a afirmação de superioridade dos negros norte-americanos sobre os brasileiros, de que o caminho a ser seguido deveria ser aquele trilhado pelos irmãos dos Estados Unidos. Horacio Cunha, para rebater a imagem sublimada dos negros norte-americanos, também comentou sobre o caso de alguns deles que vinham para o Brasil e não se preocupavam em aprender o português, demonstrando certa arrogância e indiferença em relação aos brasileiros. O jornalista de O Clarim da Alvorada, assim como alguns dos seus colegas, reforçava a idéia de um convívio singular entre negros brancos, afirmando que o preconceito no Brasil poderia ser facilmente contornado com educação e trabalho.

No entanto, como o jornal recebia artigos de pessoas que não pertenciam ao seu quadro, havia abertura para opiniões diferentes sobre os negros norte-americanos. Numa edição posterior à que Horacio Cunha havia criticado o modo como alguns negros da capital se referiam aos irmãos da América do Norte com certo deslumbre, O Clarim da Alvorada publicou um artigo sem o autor identificado que se opunha ao argumento apresentado pelo jornalista. O objetivo era o de demonstrar que, apesar dos inúmeros atos violentos de racismo, os negros dos Estados Unidos ainda poderiam se orgulhar de suas conquistas. O tal orgulho a que ele se referia era o de encarar o próprio grupo de forma positiva, o de triunfar em momentos de extrema dificuldade. Segundo o desconhecido autor, os norte-americanos haviam chegado a tal nível de organização porque tiveram que encarar o preconceito dos brancos em seu país.

No caso dos brasileiros, a história havia tomado um outro rumo: existia realmente uma comunhão entre negros e brancos. O problema do negro não era o preconceito que sofria da sociedade, caso existisse algum tipo de tensão racial entre os brasileiros, os negros do Brasil já teriam se organizado há muito tempo. No país não existia uma questão racial, o “negro deveria apenas trabalhar para o próprio bem e para o bem da pátria”. Contudo essa situação não privava o brasileiro de admirar os feitos dos negros na nação norte-americana. Apesar de tentar fazer uma comparação que demonstrasse a singularidades de negros brasileiros e norte-americanos, o autor, no entanto, não conseguiu esconder o seu desconforto em relação a uma certa lentidão dos brasileiros. No final de seu artigo, para demonstrar a capacidade dos norte-americanos, ele fez a citação de jornais publicados por negros nos Estados Unidos, demonstrando um grande conhecimento sobre a imprensa negra norte-americana:

 

[...] Não podemos viver toda a vida a esperar... a esperar... e num eterno retrocesso. Os negros norte-americanos têm o direito de ser admirados, a prova está neste bello exemplo. Possuem os negros da América do Norte, actualmente, mais de duzentos jornaes, sem se contar suas revistas. Entre elles destacam-se em primeiro plano o The Chicago Defender, Philadelphia Tribune, The Afro American, The Negro World e The Washington Eagle. Agora, nós aqui? Numa capital como esta, temos o que!... Com grande sacrifício, um minúsculo periódico: O Clarim da Alvorada, e lá em Piracicaba outros patricios nobres e sensatos luctam para a publicação d’O Patrocínio. E aqui fica a mais pura das verdades.

 

A partir de 1928, se tornaria comum a convivência nas páginas do jornal de uma tendência de sublinhar as singularidades brasileiras, rechaçando o modelo norte-americano, e uma outra de admiração à organização política dos negros norte-americanos, realçando a necessidade de modernização da imagem do negro. Talvez o caso que melhor represente essa convivência tenha sido a publicação de dois artigos que tratavam da violência racial nos Estados Unidos publicados na edição de setembro de 1929. No primeiro deles, Evaristo de Moraes, jornalista do carioca A Notícia e colaborador de O Clarim da Alvorada, discutia, a partir da notícia do linchamento de um jovem negro no estado norte-americano do Tenessee, a onda de violência racial nos Estados Unidos. O evento, que havia ocorrido há seis meses, se tratava de uma reação de dois mil homens brancos ao suposto estupro de uma mulher branca pelo jovem Joe Boxley. Moraes ressaltava que atos como esses eram completamente naturais nos estados do sul, na região que envolvia a Georgia, Alabama, Texas e Mississipi. A intolerância dos norte-americanos ia além da condenação do casamento entre pessoas de diferentes raças, ela também se manifestava na religiosidade, com a proibição do ensino de qualquer outra narrativa da criação do homem que não fosse a da Bíblia Sagrada. O jornalista então procura responder aos argumentos de alguns norte-americanos que evitavam associar a série de linchamentos ao preconceito racial nos Estados Unidos. Reunindo opiniões e trabalhos de alguns intelectuais, Evaristo de Moraes demonstrou com dados que a grande maioria deles havia sido perpetrados contra negros, com a interpretação sempre equivocada de estupro contra mulheres brancas. Após montar um quadro dramático da relação entre brancos e negros nos Estados Unidos, o jornalista ainda lamentou o fato de que em uma nação tão avançada como a norte-americana pudesse existir uma mentalidade intolerante e agressiva[33].

Na mesma edição, O Clarim da Alvorada publicava um artigo de Mario Serva sobre sentimentalismo do brasileiro. O texto sugeria que o orgulho de ser caridoso deveria ser repensado. Na verdade, a caridade nada mais significava do que a falta de caridade. A bondade, que poderia ser considerada como uma das marcas fundamentais do caráter do brasileiro, não passava de uma falácia. No Brasil reinava uma soberba em relação à generosidade e a piedade que era manifestada como prova de que no país a dose de sentimentalismo era muito mais elevada do que em outros países. O grande exemplo era o modo como se comparava o tratamento dispensado aos negros no Brasil e nos Estados Unidos. No Brasil não havia ódio racial e os descendentes de africanos eram tratados de forma benigna devida ao caldeamento de “raças”, diferente dos norte-americanos que “linchavam dezenas de negros por ano”. Contudo, os negros dos Estados Unidos, diferente dos brasileiros, eram muito mais educados. Apesar da segregação da sociedade norte-americana entre espaços exclusivos de brancos e de negros, o acesso à educação permitiu que os descendentes de africanos daquela nação tivessem uma instrução mais elevada do que a dos brancos brasileiros. Para Serva, a caridade brasileira não havia sido suficiente para integrar a população negra. Os brasileiros não lincharam os negros, mas os abandonaram e os deixaram degradar em meio à sífilis, o analfabetismo e a promiscuidade. Desenhando um quadro dramático para a população negra, o autor sugeria que o sentimentalismo brasileiro era homicida, a possibilidade do negro desaparecer no Brasil era muito maior que nos Estados Unidos. Por isso, a “caridade verdadeira consistiria na organização de instituições que protegessem a vida do homem e lhe desse desde a infância caráter e competência”.  Ou seja, a questão racial, para Mario Serva, deveria ser tratada como um problema a ser resolvido pelo Estado, e não pela compaixão do povo brasileiro[34].

Além da já tradicional narrativa de confronto das relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos, outro elemento comum nesses artigos emerge no texto de Mario Serva: o negro norte-americano como representação ideal de negro moderno, ou dos descendentes de africanos na modernidade. Se parte do projeto de O Clarim da Alvorada estava relacionada a reelaborar a imagem do negro paulistano e brasileiro para um novo contexto, os feitos dos ativistas negros norte-americanos eram utilizados como referência de organização política.

Talvez o melhor exemplo desse fenômeno seja o modo como o periódico brasileiro tratou de retratar figuras da arte e do cenário político do meio negro nos Estados Unidos. Na edição de dezembro de 1930, O Clarim da Alvorada publicou em suas páginas uma pequena biografia de Booker T. Washington, proeminente ativista negro na virada do século XIX para o XX. Logo na introdução, havia a indicação de que Washington era o símbolo do progresso dos negros na América do Norte. A sua trajetória não poderia ser melhor referência para os negros de São Paulo: nascido em 1856, foi obrigado em sua infância a conviver com a escravidão, mas o contato com instituições de educação industrial após a abolição da escravatura o levaria a se tornar um bem sucedido líder na área, se responsabilizando pela direção de institutos como o Tuskegee, especializado no ensino de ofícios para estudantes negros. O Clarim da Alvorada destacou justamente o trabalho de Booker T. Washington no instituto, ressaltando a sua função na educação de “senhores e senhoras de cor”, habilitando-os “para serem líderes nas sociedades onde viveriam, verdadeiros chefes de respeito em suas residências”[35].

No entanto a passagem que nos chama a atenção é a que se refere ao Booker T. Washington como o “Moisés da raça”. A sua associação à figura bíblica responsável pela libertação dos hebreus revela claramente a representação de sua imagem como um responsável pela redenção da raça negra. O Clarim da Alvorada voltaria a usá-la no editorial da edição de junho de 1931, na homenagem ao abolicionista negro brasileiro Luis Gama. Aqui, ambos foram evocados como símbolos de orgulho racial, como defensores dos negros contra a usurpação dos escravocratas. No entanto, de acordo com o editorial, Gama não havia realizado no Brasil a “obra civilizadora” de Washington na América do Norte[36]. Tanto o artigo como o editorial sugeriam que os norte-americanos estavam em um processo adiantado, que poderia ser seguido pelos brasileiros.

O jornal brasileiro incorporou a imagem do líder norte-americano a um imaginário composto por “heróis” negros brasileiros para reforçar a mensagem de solidariedade racial. Luis Gama, Booker T. Washington, Marcus Garvey, e outras figuras de importância política, ao serem manejadas pelo jornal, revelaram o olhar dos jornalistas brasileiros para a experiência estrangeira. Nesse sentido, as páginas de O Clarim da Alvorada apresentavam uma convivência entre uma identidade transnacional, olhando as lideranças norte-americanas como referências de organização política, e uma nacional, do negro brasileiro enquanto elemento fundamental da nação. Esses dois elementos combinaram-se de maneira tensa em todos os artigos que comparavam, de maneira direta ou indireta, os padrões de relações entre brancos e negros no Brasil e nos Estados Unidos.

 A publicação de O Clarim da Alvorada foi abreviada em 1932, após um longo conflito com a Frente Negra Brasileira, eminente organização negra que se transformaria em um partido político[37]. José Correia Leite e mais o grupo que comandava a jornal questionavam a centralização da Frente Negra Brasileira nas mãos dos irmãos Arlindo e Isaltino Veiga. Para revidar a contestação por parte dos jornalistas, a milícia da organização invadiu a redação e destruiu todo o equipamento de impressão do jornal, dando um ponto final à história de O Clarim da Alvorada de maneira violenta.

 

Bibliografia:

1.       EDWARDS, Brent Hayes. The pratice of diáspora: literatura, translation, and the rise of Black internationalism. Cambridge: Harvard University Press, 2003.

2.       FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-1963). São Paulo: FFLCH/USP, 1986.

3.       FONER, Eric. Reconstructon: America’s unfinished revolution (1863-1877). New York: Harper & Row, 1988.

  1. HELLWIG, David J. (org.). .African-American reflections on Brazil's racial paradise. Philadelphia: Temple University Press, 1992.

5.       HILL, Robert A. (org). The Marcus Garvey and Universal Improvement Association papers: Africa for the Africans (1923-1945).  Berkeley, California: University of California Press, vol. X, 2006.

  1. LEITE, José Correia. ... E disse o velho militante José Correia Leite. São Paulo: Noovha America, 2007.
  2. NABUCO, Joaquim. O abolicionismo: conferências e discursos abolicionistas. São Paulo: Progresso, 1929.
  3. PFEIFER, Micheal J. Rough justice: lyinching and American society, 1874-1947. Chicago: University of Illinois, 2004.

9.       OLIVEIRA, André Côrtes. Quem é a “gente negra nacional”?: Frente Negra Brasileira e a Voz da Raça (1933-1937). Campinas, 2006. Tese (Mestrado): Departamento de História do IFCH-Unicamp. (Mimeogr.)

10.    ROBAINA, Tomás Fernándes. “Marcus Garvey in Cuba: Urrutia, Cubans and Black Nationalism”. In: BROCK, Lisa; FUERTES, Digna Castañeda (org.). Between race and empire : African-Americans and Cubans before the Cuban Revolution. Philadelphia: Temple University Press, 1998.

  1. RODRIGUES, Raymundo Nina. Os africanos no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2004.

 



[1] Mestrando do Programa de História Social da FFLCH-USP. E-mail: ffrancisco@usp.br.

[2] FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-1963). São Paulo: FFLCH/USP, 1986.

[3] LEITE, José Correia. ... E disse o velho militante José Correia Leite. São Paulo: Noovha America, 2007, p. 77. Ver também GOMES, Flávio. Negro e política (1888-1937). São Paulo: Jorge Zahar , 2005.

[4] Ver NABUCO, Joaquim. O abolicionismo: conferências e discursos abolicionistas. São Paulo: Progresso, 1929. Também ver RODRIGUES, Raimundo Nina. Os africanos no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2004.

[5] Para entender a abolição da escravatura nos Estados Unidos e a Reconstrução ver FONER, Eric. Reconstructon: America’s unfinished revolution (1863-1877). New York: Harper & Row, 1988.

[6] “Hypocrisia da cor”. A Liberdade. (São Paulo, 28 de dezembro de 1919).

[7] “Vagando”. A Liberdade. (São Paulo, 28 de dezembro de 1919).

[8] “A raça maldita”. O Clarim da Alvorada. (São Paulo, 26 de julho de 1925).

[9] “A inquisição moderna”. O Clarim da Alvorada. São Paulo (14 de novembro de 1926).

[10] “Negro!...”. O Clarim da Alvorada. (São Paulo, 21 de março de 1926).

[11] “Amor e jazz”. O Clarim da Alvorada. (São Paulo, 21 de março de 1926).

[12]A inquisição moderna”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 14 de novembro de 1926).

[13] “Os homens pretos e a instrução”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 27 de dezembro de 1925).

[14] “O trabalho”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 20 de junho de 1926).

[15] “Um jornal pelo interesse dos homens pretos”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 3 de junho de 1928).

[16] Os militantes do movimento negro daquele período usavam a imagem da Mãe Negra como a conciliadora entre as raças negras e brancas no Brasil, símbolo da harmonia racial entre elas.

[17] “Mãe preta”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 28 de setembro de 1928).

[18] “O almirante negro”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 3 de março de 1929).

[19] “Chicago Defender, world’s greatest weekly”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 24 de novembro de 1929).

[20] HELLWIG, David J. (org.) African-American reflections on Brazil's racial paradise. Philadelphia: Temple University Press, 1992, pp. 31-34.

[21] Sobre a definição de um espaço de circulação de idéias entre as populações  negras ver GILROY, Paul. O Atlântico Negro. São Paulo: Editora 34, 2001.

[22] ROBAINA, Tomás Fernándes. “Marcus Garvey in Cuba: Urrutia, Cubans and Black Nationalism”. In: BROCK, Lisa; FUERTES, Digna Castañeda (org.). Between race and empire : African-Americans and Cubans before the Cuban Revolution. Philadelphia: Temple University Press, 1998.

[23] O nacionalismo negro é considerado como toda a ideologia que prega separatismo dos negros em relação ao resto da sociedade como forma de defesa contra o racismo. O panafricanismo, que também teve as suas diferentes versões, oscilou entre um projeto de retorno à África e a solidariedade entre nações africanas contra os impérios europeus.

[24] Sobre a circulação das idéias de Marcus Garvey através de impressos, ver HILL, Robert A. (org). The Marcus Garvey and Universal Improvement Association papers: Africa for the Africans (1923-1945)Berkeley, California: University of California Press, vol. X, 2006.

[25] “Eduquemos nossas massas”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 3 de fevereiro de 1919).

[26] “O Mundo Negro”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 7 de dezembro de  1930).

[27] EDWARDS, Brent Hayes. The pratice of diáspora: literatura, translation, and the rise of Black internationalism. Cambridge: Harvard University Press, 2003.

[28] LEITE, José Correia. ...E disse o velho militante José Correia Leite. São Paulo: Noovha América, 2007, pp. 80-81.

[29] PFEIFER, Micheal J. Rough justice: lyinching and American society, 1874-1947. Chicago: University of Illinois, 2004, p. 71.

[30] “Os negros”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 26 de julho de 1925).

[31] “Quem somos”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 14 de novembro de 1926).

[32] “A inquisição moderna”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 14 de novembro de 1926).

[33] “Mais uma selvagem conseqüência do preconceito racial nos Estados Unidos”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 28 de setembro de 1929).

[34] “O sentimentalismo brasileiro”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 28 de setembro de 1929).

[35] “Eduquemos nossas massas”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 7 de dezembro de 1930).

[36] “O Moyses da sua  raça”. O Clarim da Alvorada (São Paulo, 21 de junho de 1931).

[37] Para conflitos entre lideranças do movimento negro, ver André Côrtes Oliveira, Quem é a “gente negra nacional”?: Frente Negra Brasileira e a Voz da Raça (1933-1937). Campinas, 2006. Tese (Mestrado): Departamento de História do IFCH-Unicamp. (Mimeogr.)

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flavio9397able .,
09/10/2010 11:13
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