Número 23 Outubro de 1999
 
Apesar da violência natural e humana e das grandes perturbações que preenchem este final do século XX d.C., as “coisas” clássicas parecem prosseguir, e bem, o seu percurso no nosso país. Novas revistas, novos cursos de Licenciatura e de Mestrado, profusão de Congressos e Colóquios nacionais e internacionais, sobrevivência dos antigos cursos e das velhas revistas (algumas remodeladas) — mesmo que, como no caso da CLASSICA, tenham sido obrigadas a quebrar a periodicidade da sua edição —, inúmeras publicações, defesas de muitas dissertações de Doutoramento e de Mestrado, reconhecimento internacional… Tudo parece indicar um clima de abundância e de fortalecimento.
É evidente que as referências feitas são consequência directa do trabalho de alguns que, principalmente no meio universitário, se agitam e persistem em pugnar na defesa de uma cultura fundamentadora em que acreditem e que consideram indispensável. De facto, e olhando com realismo o outro lado do panorama nacional, o Grego está moribundo, confinando-se o seu ensino a algumas — muito poucas — Escolhas Secundárias e Universidades. Quanto ao Latim — mal-amado por muitos, principalmente pelos detentores de um saber tão moderno e tão especializado que confina com o limes de uma ignorância cabotina –, assistimos à diminuição crescente do número de alunos inscritos no Ensino Secundário e à fragilização da sua docência no Ensino Superior.
O Grego e o Latim — termos genéricos que englobam as línguas mas também as respectivas culturas — são, talvez, desnecessários neste nosso tempo. Já falámos disso e os novos dados apenas acentuam os anteriormente adquiridos. Não deixa, contudo, de ser cada vez mais evidente o vazio cultural que é criado com o abandono do cultivo dos litterae humanitores. Não deixa de ser curioso verificar como a “sociedade global” é cada vez menos culta e, em consequência, menos criativa e qualitativamente menos produtiva. A fundamentação cultural é uma mais-valia em qualquer época; ignorá-la é um risco demasiado grande e de consequências negativas e irrecuperáveis. Compreender o mundo moderno é, necessariamente, conhecer e integrar o passado, os actos e os artefactos tradicionais.
Repara-se no modo confrangedor como a língua portuguesa é tratada pela incompetência dos utentes responsáveis, consequência da ignorância das línguas e valores clássicos. Uma experiência comprova-o: a televisão, fenómeno de comunicação e divulgação de massas não recente, adquiriu, em Portugal, uma dimensão maior. A concorrência entre os vários canais para a conquista de audiências e o aparecimento da televisão por cabo assumem-se como cúmplices no crime cultural. Pseudo-tradutores — maioritariamente habilitados com diplomas do ensino superior — enchem as legendas de dislates, disparates e outras barbaridades, fruto do desconhecimento das línguas originais e da incompetência em Português. E, principalmente, de uma imensa fragilidade cultural, que não permite sequer que tomem consciência das asneiras que escrevem.
O diagnóstico da situação está feito há muito; mas piorou. A situação é hoje mais grave porque as reformas pragmáticas em todos os graus de ensino pretendem ignorar a Cultura Clássica, desprezando o ensino das línguas e desconhecendo o da cultura. Em nome de curricula actualizados, impedem-se os alunos de se matricularem em Grego; em defesa de uma pedagogia de ponta, suprime-se o Latim. É a geração McDonald’s da cultura: os carnívoros que nunca comeram um bom bife, acham que o mundo da carne se extingue no cheeseburger… por vezes feito com minhocas.
A situação hoje é mais grave também porque é defendida em nome de uma política oficial de ensino e de perspectivas, comerciais, de afirmação do ensino superior. Há Universidades que pugnam pela supressão do Latim porque… se calhar, são muito novas, demasiado novas para saberem o que é o verdadeiro sentido do saber universitário (ou foram afectadas pela proximidade da praia…); o Ensino Superior Politécnico – embora copie os modelos curriculares humanísticos das Universidades –, não tem lugar para a Cultura Clássica por ser poli-técniko… Quanto aos Ensinos Básico e Secundário, continuam, embora o neguem, em fase experimental de definição e procura, definitivamente afastados dos valores fundamentares e dos saberes essenciais, embalados na descoberta da mais recente novidade importada, por vezes velha de séculos. As excepções confirmam a tendência generalizada.
Não somos, de modo algum, contra a inovação, a invenção, a definição de novos quadros epistemológicos ou a introdução de matérias diferentes, actuais e práticas. Somos, também, a favor do não aniquilamento daquilo que é culturalmente formador e indispensável para todos, seja qual for o grau de especialização tecnológica. Defendemos, mais, que as duas perspectivas são conciliáveis e, mesmo, compatíveis. Não é novidade, não é original. A CLASSICA procura ser, há mais de vinte anos, uma forma de continuação.
O balanço pessimista dos Estudos Clássicos não é apenas nacional. De facto, um pouco por todo o lado, assistimos, de forma mais ou menos acentuada, ao enfraquecimento do interesse pelas “coisas clássicas”. Os modernos planos curriculares não têm espaço para o Grego nem para o Latim, o homem moderno deixou de estar disponível para as coisas profundas, o stress do quotidiano e o exaspero acelerado da vida moderna impedem a abertura de espaços de fruição e enriquecimento culturais. Mas surgem, também, indícios de sinal contrário.
A problemática da actualidade do Latim volta a ser equacionada em livro acabado de publicar — Le Latin ou l’Empire d’un signe. XVIe-XXe siècle de Françoise Waquet (Paris, Albin Michel, 1999) —, actualizando de forma pertinente o discurso acerca do seu interesse. O competente dicionário de Gaffiot conheceu uma reedição em 1999. No seu número 235 (Setembro de 1999), a revista L’Histoire dedica a Tribuna da última página (grande destaque) a um artigo de Bernard Sergent com o sugestivo título “Sauvons le Grec”. O Presidente da Sociedade Francesa de Mitologia, depois de analisar o lugar do Grego no sistema escolar francês e de realçar a sua importância para a língua e para as ciências, aponta duas medidas de solução para ultrapassar esta fase crítica, uma delas “progressista”: “… visto que os cursos ditos “europeus” se multiplicam em França [e em Portugal, diríamos], é necessário impor o Grego como matéria obrigatória. Pela simples razão de que a cultura grega é a única que foi comum à Europa Ocidental e à Europa Oriental.” O Grego é, em suma, a herança cultural que partilhamos com toda a Europa.
Fica, é claro, uma última pergunta: terão os classicistas alguma culpa na concretização do estado negativo? Os classicistas, creio que não; grande parte das pessoas que andam pelas clássicas, sim. A prova positiva está nos exemplos com que iniciámos estas breves palavras de abertura; a negativa, cada um terá a sua…
Victor Jabouille

Sumário:

Séneca, Brecht e o Teatro Épico, J. A. Segurado e Campos (p.9)

A Mediatio Mortis nas Tragédias de Séneca, Cristina de Sousa Pimentel (p.27)

Expressões da Morte na Mitologia Grega, Victor Jabouille (p.47)

Vergílio e a ideia de kosmos, J. Ganzarolii de Oliveira (p.61)

Intraduzíveis e Semitraduzíveis, Custódio Magueijo (p.71)

A Sofística e a Educação Ateniense no séc. V a.C., Adriana Freire Nogueira (p.87)

Sobre o Trágico, Mafalda de Oliveira Viana (p.107)

Roma e o cinema, para uma abordagem da história da antiguidade, Nuno Simões Rodrigues (p.113)