Número 15 Maio de 1988

Direcção: Victor Jabouille, Arnaldo do Espírito Santo, Manuel dos Santos Rodrigues.

Entre os vários documentos preparatórios da “Reforma do Sistema Educativo”, sobressai a “Proposta de Reorganização dos Planos Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário”, elaborada por uma comissão constituída por J. J. R. Fraústo da Silva (coordenador), Roberto Carneiro, Manuel Tavares Emídio e Eduardo Marçal Grilo. A Proposta, bem apresentada e enunciadora de grandes princípios sociais e éticos, é, apesar disso, perigosa. Perigosa porque afirma generalidades sob a aparência de opinião douta; perigosa porque transforma lugares comuns em verdades científicas; perigosa, ainda, porque afirma sem justificar e porque justifica sem precaução.

Apreciamos, evidentemente, os grandes princípios morais, a afirmação da necessidade de desenvolvimento técnico, científico e económico ou da melhoria da qualidade de vida. Já que aderimos à CEE, devemos ser Europa Comunitária e consideramos que o nivelamento deve ser feito por cima. Só que, acentuando a tónica do sucesso, da modernidade, do progresso, da compreensão, a Proposta acaba por proteger a priori aquilo que afirma não pretender, isto é, a ausência de qualidade, de rigor, de nível científico.

O aluno formado no esquema proposto arrisca-se a ser um “generalista” relativamente ignorante e de intelecto preguiçoso, abúlico, com falhas graves de conhecimentos e com problemas de afirmação e definição.

É este o momento de esclarecer que nem concordamos com o “sistema” em vigor nem achamos que tudo é mau na Proposta. Não calamos é os aspectos negativos, em particular aqueles que proporcionam um abandono dos valores culturais a favor de um pretenso tecnicismo já em desuso em países inspiradores da Proposta. E este desinteresse pelo investimento cultural — que fundamenta, de facto, a originalidade de um Povo — é particularmente sensível na área da Línguas e Culturas Clássicas.

Apesar do “rebuçado” de uma variante de cultura clássica na área de Estudos Humanísticos, o Latim e, mais ainda, o Grego, saem particularmente maltratados.

Há opções e a cultura é uma opção cara, sem cotação na Bolsa e sem anúncio de OPV. O analfabetismo velado da miopia cultural não pode justificar erros.

Depois dos debates políticos, CLASSICA quer renovar o alerta tantas vezes repetido (...): é necessário desenvolver (não proteger como espécie em extinção) o estudo das línguas e culturas da Grécia e de Roma antigas, elementos primordiais do património comum ocidental (e, por isso, também português). O Latim é a basezinha que não deve ser espoliada do Grego.

Sumário

Editorial (p.3)

Variações sobre um tema: A cegueira humana, Maria do Céu Novais Faria (p.5)

Ulisses: esboço de uma ficha de caracterização, Maria do Céu Novais Faria (p.45)

A visão dantesca de Ulisses e a sua integração numa concepção de Inferno, João Daniel Lourenço (p.52)

O platonismo em Camões, António Monsanto Registo (p.69)

O Portugal da Mensagem (sobre a Mesangem de F.P.), Cristina Sobral (p.84)

A Proposta de Reorganização dos Planos Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário:

I. Posição da Faculdade de Letras de Lisboa (p.101)

II. Que furuto para o Latim e o Grego à luz da Proposta?, Cristina de Sousa Pimentel (p.107)

Perspectives des études classiques au Portugal, Aires Nascimento (p.118)