Número 14 1987

Direcção: Victor Jabouille, Arnaldo do Espírito Santo e Manuel S. Rodrigues. Impressão: Associação dos Estudantes da FLL. 

Situação inesperada, talvez mesmo surpreendente, aquela com que deparamos, hoje, em Portugal, no que diz respeito ao ensino do Latim. Após um período que parecia ser de agonia e que se manifestou pelo quase total despovoamento das aulas de latim, somos, nestes momento, confrontados com uma situação de quase exuberância: milhares de estudantes, em todo o país (mas principalmente a norte do Tejo) frequentam esta disciplina. Só nos 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade são cerca de 6000 os alunos inscritos. E o futuro não se mostra menos ridente: já foi afirmada a necessidade de integração da cadeira de Latim em currículos dos cursos de Línguas e Literaturas das Faculdade de Letras e de Ciências Humanas, que, nas reformas actualmente em vigor, não a contemplam. Exige-se, ainda, e com algum eco a nível das entidades oficiais, que a disciplina de Latim passe a integrar os currículos de outros cursos do ensino secundário (História, Filosofia, Direito…).
Tudo parece indicar que o esforço antigos dos classicistas nacionais está a produzir resultados positivos e que, qual Fénix, o Latim renasce como força actuante no panorama escolar, e cultura, português.
Muitos são os motivos que justificam o estudo do Latim — e a referência a Latim e não a Língua Latina é intencional, já que aquela designação pressupõe que, a par da Língua, se concretize um estudo da cultura —, sobretudo se tivermos presente que Portugal é um país que utiliza uma língua derivada do Latim, língua essa que é também veículo de expressão oficial de outras nações, e onde, por outro lado, a cultura latina deixou vestígios evidentes. Razões culturais, científicas e pedagógicas justificam a inclusão do Latim nos currículos médio e superior, razões que, resumindo, vão desde a conclusão de que é uma peça indispensável para o desenvolvimento de uma mentalidade lógica à afirmação de que possibilita o aumento das capacidades de abstracção, memorização e racionalização, passando, evidentemente, pelo papel primordial como elemento de manutenção de uma tradição cultural e de estímulo no sentido estético.
Embora Portugal não seja Roma, a cultura nacional passa, obviamente, de uma forma directa ou indirecta, embora não predominante, pela latina. Se Portugal aposta no futuro — e a integração na CEE parece querer provar a adesão a um espírito de novidade e de progresso —, não é possível continuar a desprezar a tradição cultural. Um país não se define apenas pelos seus rendimentos per capita ou pelo seu produto nacional bruto; é também culturalmente que as nações se afirmam e é com base na tradição cultural — que não é sinónimo de revivalismo nostálgico de um passado perdido — que evoluem. Esta tradição cultural não é, em si, um fim, mas, antes, um meio. Um meio de manter e divulgar, de relacional, de permitir a conservação, actualizada, de valores, e de compreender – exige-se principalmente uma tradição cultural que seja um modo de compreensão da vida, do mundo, do homem, do passado e do presente, de um presente que deve ter uma projecção no futuro.
(…)
Consciente da oportunidade do momento e do grande esforço desenvolvido pelo ICALP e pelo grupo de Latim do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa para a preparação do Colóquio sobre o Ensino do Latim (Lisboa, Maio de 1987), CLASSICA decidiu lançar este número especialmente dedicado à situação do ensino do latim. Queremos publicamente testemunhar o nosso agradecimento do Prof. Dr. Peter Wülfing, que autorizou a publicação das comunicações do Colóquio de Tubinga sobre a situação do estudo das línguas clássicas (Romiosini Verlag, Köln, 1986), e à Prof. Dr.ª Maria Helena de Teves Costa Ureña Prieto, que obteve essa autorização e a ofereceu à CLASSICA. Decidimos acrescentar algo sobre o ensino do latim em Portugal, pelo que apelámos para o apoio do Prof. Dr. Aires Augusto Nascimento, do Dr. Manuel Rodrigues e do Dr. Raul Pissarra. Queremos também agradecer aos colegas que traduziram os artigos das línguas originais: Prof. Dr. Manuel Alexandre Júnior, Dr.ª Nazareth Sanches, Dr. Arnaldo Monteiro do Espírito Santo e Dr. Manuel Rodrigues.

Sumário:

Editorial: Fénix ou da esperança e do ensino do latim, Victor Jabouille (p.3)

Situação actual do ensino das Línguas Clássicas na Europa, Actas do XI COLLOQVIVM DIDACTICVM CLASSICVM, Tubinga 1986 (p.7): Grécia, 10; Itália, 13; Áustria, Holanda, 21; França, 24; Reino Unido, 28; Suíça, 32; Jugoslávia, 36; Bélgica, 38; República Federal Alemã, 42; Dinamarca, 47.

Portugal:
- O Latim, uma memória operativa do português, Aires Nascimento (p.56)
- Profissionalização em exercício e rejuvenescimento do ensino do Latim, Manuel S. Rodrigues (p.66)
- Sensibilização para o estudo das Línguas Clássicas, Raul Pissarra (p.76)