O Despertar dos Deuses

Cristina de Sousa Pimentel
[comunicação apresentada na abertura do ano lectivo de 1987/88, na Faculdade de Letras de Lisboa]

Em primeiro lugar, devo dizer que não venho falar em nome do meu Departamento. Aquilo que vou dizer é absolutamente pessoal. E informal, também.

Gostaria de começar por dizer o que acho que são as “Clássicas”, e o que é, hoje em dia, um “Clássico”.

As “Clássicas” são a antiburocracia e a antiestagnação. E são a antimecanização do mundo moderno.

Por seu lado, um “Clássico” é alguém que se recusa a deixar morrer o que os outros muitas vezes nem sabem que existe.

Ora, um “Clássico” tem de ser MAIS.

Tem, pelo menos, de ser capaz de transmitir aos outros o prazer e a alegria que lhe dá convívio com os autores e a Cultura Clássica.

E, ao transmitir esse prazer, é preciso contagiar.

É preciso, assim, e em primeiro lugar, que não nos fechemos na nossa torre de marfim, seja ela a sala de Reservados de uma Biblioteca, o nosso Departamento, ou simplesmente a nossa casa forrada de livros e fotocópias.

É preciso, em segundo lugar, que não tenhamos, como às vezes talvez aconteça, um “orgulhozinho snob” de sermos “poucos mas bons”.

E que queiramos fazer das “Clássicas” — e aqui escorrega o lugar-comum — uma grande família, cada vez maior. Mas que seja uma família saudável e bem-disposta...

Ora, durante muito tempo, não foi nada disso que aconteceu. O Latim e o Grego eram a monumental maçada, o suplício de Tântalo das declinações que cresciam no quadro perante os olhos incrédulos e estarrecidos dos “aspirantes a Clássicos” e faziam desertar a maior parte mesmo dos mais persistentes e curiosos. Durante muito tempo, o Latim e o Grego foram óptimos “papões” para as famílias das inocentes vítimas que se apiedavam do pobre “rebento” sacudido pelas vagas entre Cila e Caríbdis, e assim justificavam “chumbos” e esgotamentos.

As causas não eram poucas nem despiciendas: aulas enfadonhas, professores distantes, cumprindo um dever e não vivendo a alegria de partilhar nem que fosse tão-só a Eneida ou os Poemas Homéricos. Depois, a maravilhosa Literatura Clássica foi seriamente amputada durante séculos. Houve todo um peso de censura, a oficial, laica e religiosa, e a de cada professor/tradutor/leitor que se privava ou, pelo menos, privava os outros de autores fundamentais, fossem eles Aristófanes, ou Safo, ou Catulo, ou Marcial. A essa censura se juntou outra, falsamente estética, que riscou tudo o que dizia respeito à Idade Média e mesmo ao Renascimento.

Assim, toda a gente sabe, as “Clássicas” estagnaram, cristalizaram — e, ainda por cima, mal. Em vez da grande família, casando-se os primos com os primos, isto é, os sábios com os eruditos, a espécie foi rareando e o sangue enfraquecendo.

É, pois, preciso que esta Faculdade se converta num foco donde irradie uma nova luz que faça definitivamente ver a Línguas e Literaturas Clássicas como o legado vivo, sublinho uma vez mais, de culturas e civilizações que, em muitos aspectos, foram superiores às nossas.

Precisamos de trabalhar muito e bem.

Não ficarmos satisfeitos e esgotados com um Colóquio sobre o ensino do Latim.

Organizar outro(s) para o ensino do Grego.

Traduzir, traduzir bem (como faz há muito o “grupo Clássico” de Coimbra e se começa a fazer no meu Departamento).

Traduzir não só os autores mas as obras fundamentais que existem no nosso campo de saber. Divulgar teses de Doutoramento e Mestrado, que ficam quase sempre no “segredo dos deuses” e correspondem geralmente a uma investigação séria e prolongada.

Divulgar as nossas duas revistas, Euphrosyne e Classica, e melhorá-las no que for possível.

Levar os nossos alunos a colaborar nelas com os seus bons trabalhos.

Cativar os alunos com um tipo de aulas que os faça descobrir e enredarem-se no feitiço das Línguas e Literaturas Clássicas.

Sugerir-lhes que deitem fora a maior parte das Antologias e Gramáticas que por aí correm e tentar fazer outras que não os “espantem” mas os atraiam.

Alargar o âmbito dos mestrados, encará-los como a ideal sequência da licenciatura e da investigação pessoal e não como um curso para eleitos.

Conquistar os colegas de outros Departamentos, de forma a que sintam e façam sentir aos seus alunos que é preciso, como pão para a boca, aquilo que toda a gente sabe que não passa muitas vezes de uma boa intenção “para quando houver tempo” e que é:

— ninguém pode considerar-se um bom “utente” da Filosofia (quanto mais filósofo...) se não souber bastante Grego. Isto já se vai descobrindo. E eu acrescento: e Latim, muito Latim.

— ninguém pode estudar História sem o Latim, sem o Grego também. E a Paleografia, atrevo-me a perguntar o que em certos “cantos” desta Faculdade não se quer encarar, como pode ser um paleógrafo “honesto” sem saber muito e bom Latim?

E no meu “recado” para os colegas de História, porque não, dentro de um prisma de necessária interdisciplinaridade, uma colaboração frutuosa, e que nunca foi feita, no campo das cadeiras que se debruçam sobre a Antiguidade Clássica?

— No campo das Literaturas, nem precisaria dizer nada. Como pode um aluno ler seriamente, por exemplo, Shakespeare, sem tomar conhecimento do teatro de Séneca? E, já que falamos em Séneca, o leitor de Racine não terá necessariamente, pata compreender integralmente a Phèdre, de ler tanto a Phaedra de Séneca, como o Hipólito de Eurípides?

— E no campo da Linguística, que mundo de colaboração não podemos desenvolver!

Não vou alongar-me. Apetece-me dizer que a minha utopia é um mundo em que o comum dos mortais substitua as palavras cruzadas pela escansão de um hexâmetro dactílico (já não peço mais...) e o tricot pela leitura curiosa de um Dicionário de Mitologia, um mundo em que Heródoto mate a telenovela, e Píndaro o programa “Remate”. E que a todos desse o prazer que dá à maioria dos meus alunos descobrir, por exemplo, que “aniversário” e “divórcio” são palavras da mesma família, ou qual é o significado etimológico de palavras tão actuais como “candidato” e “sufrágio”.

Bom, restrinjo-me ao que é importante. Que nunca mais se encare o Latim como um saudável exercício mental que, juntamente com a Matemática, consegue escarolar mentes e desenferrujar definitivamente os mecanismos intelectuais do ser humano. E eu não digo, note-se, que não haja um fundozinho de verdade nisso...

Que nunca mais se encare o Grego como um estudo tão inútil como discutir o sexo dos anjos quando nos estão a arrombar a porta de casa...

Que sejam os nossos colegas e os nossos alunos os primeiros a irem”lá abaixo” e a trazerem-nos “cá acima”. Ou melhor: que sejam os nossos colegas e os nossos alunos a irem “lá atrás” e a chamarem-nos “cá à frente”, para que não vejam os nossos campos do saber como mundos que se sucedem (e já não é muito mau quando assim se entende...), mas como mundos que se interpenetram.

É agora o momento ideal, já que temos uma reestruturação recém-aprovada e que é, espero, tanto quanto possível, de todos nós. Não esqueçamos que vamos, a partir de agora, formar científica e pedagogicamente os nossos alunos. Não esqueçamos ainda que o Departamento de Estudos Clássicos a que pertenço tem trabalhado anualmente com mais de 600 alunos, número que vai, a partir de agora, aumentar de forma gigantesca, com a extensão de cadeiras de Latim e Cultura Clássica a outros cursos.

Não esqueçam, por fim, os nossos colegas, que nós também nos vamos começando a converter à Linguística moderna, aos computadores, também vamos aprendendo o nosso alemãozinho, quando o não aprendemos na devida altura, como é o meu caso, para ler originais e não traduções...

Para que um dia, não muito longe, espero, haja muita gente a ler Latim e Grego (ou pelo menos a devorar boas traduções) e a impedir (e vou focar apenas, desculpem, o mais comezinho dos objectivos) que se diga na rádio e na televisão que a Torre Eiffel fica no campo de Março, que determinados escritores ganharam um prémio ex a-équo, que se disputaram as provas do declato e do pentlato, que Mecenas foi uma grande família do Renascimento, que se vai transmitir o Anno Domini ou os Carmina Burana ou a já consagrada reunião que ficou adiada “saine dai”.

Por isso, aí vai o compromisso.

Nós não queremos mais fechar-nos no nosso mundo ciosamente guardado dos vulgares seres humanos que não foram tocados pelo esplendor divino e mágico da revelação da beleza e da verdade.

Pedimo-vos, em troca, que não nos olhem como bichos raros que se comprazem com velharias inúteis.

Vão lá ver as velharias a ver se não ficam fascinados...