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sarah

Nascimento do André - 24 de maio de 2005

Demorou para eu postar um relato porque desde que o André tinha três dias fiquei sem Internet, só hoje pude me reconectar (ele está com 17 dias agora). Mas mesmo assim, acho importante contar como foram as coisas. Entendi muita coisa nesse processo, sobre dor, sobre a maneira como as pessoas encaram certas coisas, sobre o excesso de racionalismo, e, principalmente, sobre como funciona a Casa de Parto do Sapopemba. Porque não adianta, cada casa é uma casa, e não dá para o pessoal falar mal sem conhecer, como acontece muitas vezes.

O final de semana foi um inferno. Eu estava com uma sensação de iminência, de que ia acontecer logo, e a ansiedade estava começando a incomodar. No domingo, meu companheiro já estava atendendo as perguntas no telefone sobre se o bebê já tinha nascido com palavras ofensivas, mas mesmo assim, aquilo tocava de cinco em cinco minutos. Sem contar os scraps no orkut, as mensagens no MSN e no ICQ, os emails. E as pessoas que ligavam no número da minha mãe. Na segunda de manhã, estava começando a sentir mais seriamente as contrações, e fomos dar uma passada lá na casa só por desencargo de consciência (i. e., eu estava enlouquecida de ansiedade e precisava falar com alguém). Lá, pude escutar o coração do bebê batendo e ver que estava tudo bem. Ficamos enrolando por lá um tempo, e a parteira disse que se eu quisesse ficar, seria muito mais um castigo para mim do que qualquer outra coisa, que em casa eu podia dormir, ficar a vontade, e quando realmente fosse a hora, eu voltava. Aceitei, não que eu quisesse voltar para casa (por causa do telefone), mas ela falou de um modo tão confortante que até relaxei um pouco.

Em casa, confirmei se estava tudo ajeitado. No sábado a noite já tinha arrumado tudo, por causa da insônia. Não sabia o que era dormir direito desde sexta feira, porque minha barriga estava muito baixa e positivamente enorme. Acertei as mudanças do lay out do meu blog, tentei dormir, fiz auto massagem.

Estava bem melhor. Perto da meia noite, as contrações estavam com o tempo que deviam ter para eu ir para lá. Chamamos meus pais, pegamos a mochila e fomos. Comecei a ter uma trip muito louca sobre o sentido mítico da dor, baseado no curso de mitologia que faço e nas teorias de Jung que o professor tem explicado para a gente.

Chegando lá, a Cris, me examinou, e mandou encher a banheira. Aquela banheira foi minha grande amiga aquela noite. Fora da água, a dor parecia muito, muito maior. Mas dentro dela eu ficava dando uma de golfinho e a dor acabava indo embora. Meu companheiro ali, do meu lado, segurando minha mão, conversando, me apoiando. Conversamos sobre a dor da cólica de rim, especialidade dele. A enfermeira fez chá para a gente, delicioso. De vez em quando, a Cris ia ouvir o coração do bebê, que estava calmo, tudo de bom. A dor ia apertando cada vez mais, e eu perdi a noção de tempo lá pelo meio da madrugada. Entre uma contração e outra eu dava uns “cochilos”, não chegava a perder a consciência, mas desligava um pouco, dava para descansar um mínimo. Acordava quando chegava outra contração. Ele o tempo todo ali, só saiu para ir no banheiro. O pessoal da casa, a Cris e a enfermeira (não lembro o nome da enfermeira do primeiro turno, só o nome da segunda, Teresa), eram muito doces, pacientes mesmo. E eu tudo pedia desculpas, e elas riam dizendo que eu não estava dando trabalho nenhum, que eu não sabia o que era dar trabalho. Lembro de o meu companheiro me mostrar pelo vidro pintado que o dia estava clareando.

Eu assumo meu medo. Tive medo sim. Medo de não ser capaz, de fraquejar e elas dizerem que eu devia ir para o hospital. Porque o bebê estava ótimo, só quem dava sinal de cansaço era eu. De manhã, ouvi no saguão da casa a voz do meu pai, ele, minha mãe e minha sogra tinham voltado.

A essa altura eu estava com a bexiga muito cheia e isso estava atrapalhando, porque me causava mais dor. Fui para debaixo do chuveiro, na bola. Depois de um tempo na bola, fiz todo o xixi que estava encalhado na minha bexiga, o que facilitou um pouco. Fiquei lá não sei ao certo por quanto tempo. Como eu disse, minha noção de tempo tinha ido embora.

O problema é que eu estava muito cansada. Era a quarta noite que eu passava em claro, eu não sou uma pessoa que seja exemplo de força muscular, e o parto já durava muitas horas. Eu fui para a cama, que te deixa bem sentada, uma posição bem apoiada e confortável (pelo menos no estado de cansaço que eu estava, rs). A Cris acabou furando a bolsa, porque eu já tinha dilatação completa fazia um bom tempo mas o André ainda não tinha dado as caras, e pelo jeito estava decidido a nascer empelicado. Depois disso, as coisas começaram a acontecer. Minhas contrações já não estavam tão juntas, e ela ofereceu (percebe isso? ofereceu) soro para facilitar o processo. Eu pedi para esperar, que eu queria tentar mais um pouco. Tentamos mais, o meu companheiro e a Cris às vezes eram meu único elo com o mundo. Parecia que tudo desaparecia, menos as vozes deles. A dor estava realmente mítica a essa altura. Eu já tinha invocado a Deusa de todo jeito (teria mais a acrescentar sobre esse aspecto, mas acho que a maioria do pessoal não vai estar a fim do lance religioso). A Cris ofereceu o soro de novo e dessa vez eu aceitei. Mas ai foram minutos. Mais umas poucas contrações, fortalecidas pelo soro, e ouvi a Tereza dizendo que eu devia parar de fazer força. Senti o André vindo através de mim, e escutei o som do choro dele. Ai tive coragem de abrir os olhos e vi aquela criatura pálida sendo aninhada nos meus braços. Assumo que meu primeiro pensamento ao ver ele não foi uma coisa do tipo “minha vida valeu a pena”, ou coisa do tipo. Foi “como alguém tão grande veio através de mim?”. (Depois fizeram a conta para me tirar o sarro, mas meu “pequeno” nasceu com um terço do meu tamanho.)

Eram exatos meio dia e cinco. Mais de doze horas de trabalho de parto.

Ele ficou comigo um tempão, eu, ele e o pai, mas o dia estava frio e ele foi ficar um tempinho no berço aquecido enquanto cuidavam dele e de mim. Pedi para ver a placenta, e eu e meu companheiro vimos a Cris explicar toda ela, e todo o funcionamento dela. E apesar do estranhamento, ninguém se opôs quando eu disse que queria levar a placenta para casa. A Cris perguntou se eu queria que os meus pais e minha sogra entrassem, e eu disse que queria.

Eles ficaram se maravilhando com o neto e eu e o meu compa tivemos um tempo para nós. Depois eles vieram conversar comigo (bom, eles falaram, eu estava cansada demais para falar muito. Só quis deixar claro pro meu pai que tínhamos uma placenta para enterrar, e ele segurou minha mão de um jeito que me dá vontade de chorar.) De repente, eu tinha perto de mim as três pessoas mais importantes da minha vida: meu pai, meu homem e meu filho. Mas isso foram minutos, e logo o André estava no meu peito mamando, eu ele e o pai ficamos ali, me trouxeram o almoço.

O André nasceu com 52 cm (eu tenho 1,56m), 3.810 kg apgar 9-10, e eu não tomei nenhum ponto.

Houve pontos altos, sabe. Como todo mundo rindo (e eu tentando) porque o André já estava praticamente para fora e o coração dele continuava tão calmo como se nada estivesse acontecendo, confirmando a atitude zen que ele tem tido desde então. Ou eu dando com a cabeça no registro da banheira cinco segundos depois do meu companheiro ter dito “cuidado com o registro” e eu só perceber que tinha batido depois, quando tudo tinha acabado e eu tive tempo de sentir a dor do galo na cabeça. Ou o pai tentando cortar o cordão umbilical e apanhando da tesoura.

Marcou a postura calma e firme da Cris, que me explicava tudo, que perguntava tudo e sabia ficar em silêncio na hora exata em que eu precisava disso. E que sem dar um grito, conseguiu tirar forças de mim de onde eu nunca imaginava existirem ainda. E que horas depois, soube exprimir em palavras para todo mundo ouvir o que era óbvio mas eu não saberia falar: que eu não teria conseguido sem o meu companheiro junto.
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