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Josi

Relato de um parto natural de cócoras na casa de parto de sapopemba

Muito antes de sonhar em ficar grávida, um dia 
zapeando na televisão comecei a ver uma reportagem no super pop sobre partos naturais, doulas e fiquei encantada com tudo aquilo, pensei "quando ficar grávida, quero um parto assim".
Engravidei em Agosto de 2008, não tive enjôos como toda grávida, só suspeitei pelo atraso menstrual mesmo, fiz um exame de farmácia que deu negativo, mas dentro de mim, eu já tinha a certeza desde o primeiro dia de atraso de que eu estava grávida. No dia em que devia ter ficado 
menstruada senti uma leve cólica e tive um pouquinho de sangramento, na mesma hora pensei isto parece sinal de gravidez
Esperei até Setembro e fiz um exame de sangue que só confirmou minhas suspeitas, 
gravidissima! Eu engravidei num momento complicado, estava na faculdade, tinha acabado de ser promovida no trabalho e fazia um mês que tínhamos ido morar juntos, o pai do Arthur e eu. Eu não estava me adaptando ao lugar onde morávamos, a vizinhança e família dele, gravidez, falta de companheirismo da parte dele, somando tudo isto, cheguei ao meu limite e decidi voltar para casa da minha mãe, mas mesmo assim minha gravidez foi meio conturbada, apesar de estar fisicamente ótima, emocionalmente eu estava muito instável, mas apesar de tudo isto estava curtindo muito a gravidez.
Sempre quis engravidar e ser mãe.
Imediatamente, comecei a pesquisar sobre gravidez, parto natural, 
doulas, então encontrei o site do Gama e lá encontrei minha doula Camila Vieira, e conheci também a lista materna_sp, onde eu me encontrei de verdade, conheci também as Casas de Parto, que eu nem imagina que existiam e a cada dia que passava eu me sentia mais preparada para um parto natural.
Visitei a maioria das maternidades do meu plano de saúde e nenhuma delas havia a possibilidade de um parto natural, continuei fazendo o pré-natal com a minha médica do plano que ria quando eu falava de um parto natural, possivelmente em uma casa de parto, ela me questionava como eu 
iria em trabalho de parto do morumbi, para sapopemba, onde fica uma das duas únicas casas de parto de São Paulo, eu inventava uma desculpa qualquer, mas na realidade, nem eu mesma sabia como ia ser.
Aos seis meses, mesmo não querendo saber, acabamos descobrindo no exame de 
ultrassom que era um menino, na hora em que o médico foi mostrar a perna, apareceu nitidamente um pipizinho, eu fiquei super feliz, intimamente eu sentia que era um menino.
No sétimo mês, decidimos reatar, ma isto só durou um mês, neste meio tempo fizemos o curso de preparação para o parto natural com a Ana Cris, foi maravilhoso!
Apesar dos pesares, curti muito meu barrigão, fui muito mimada no trabalho, fiz hidroginástica, tirei fotos todos os meses, fui 
a praia, tinha meus encontros com a Camila para planejar o parto, lia todos os relatos de parto e conversava diariamente na lista.
As 37 semanas comecei a fazer o acompanhamento na casa de parto de 
Sapopemba, ia sozinha de ônibus, pensando em como seria meu parto e em tudo que estava acontecendo, o percurso era de no mínimo duas horas, mas chegando lá, eu era sempre muito bem recebida, além dos exames, tinha muito bate papo, e ficava um tempão lá conversando com as enfermeiras. Com 39 semanas, como não aceitei fazer a cesária indicada pela minha médica, na minha ultima consulta pré-natal, ela escreveu no meu cartão "alta pré-natal", acho que ela não agüentava mais me ouvir falar em parto natural, depois conversando na lista descobri que isto não existia, mas aquela altura, eu não estava afim de brigar.
Com 39 semanas, no dia 04 de Maio sai de licença maternidade, eu estava ótima, descansei bastante, terminei de arrumar as coisinhas do Arthur e continuei com o acompanhamento na casa de parto.
Com 40 semanas a Camila sugeriu umas sessões de acupuntura e mocha,pois ela achava que eu não estava me entregando totalmente ao parto, por estar separadas e um montes de coisas a resolver, inconscientemente eu achava que não era o momento do Arthur vir e não me permitia deixar acontecer, eu queria ter o controle de tudo.
Com 41 semanas após a sessão de acupuntura, fui a mais uma consulta de acompanhamento na casa de parto (eu já tinha tido consultas suficientes para conhecer "quase" todas as enfermeiras), de tanto eu encher o saco que estava demorando e eu já estava ficando preocupada, a enfermeira Cristiane resolveu fazer o exame com o 
amnoscópio para ver como estava o liquido, e estava clarinho, então fiquei mais tranqüila, naquela mesma noite ela fez uma estimulação do colo do útero, (que diga-se de passagem, doeu mais do que as contrações do TP), saí de lá com 3 cm de dilatação, fui para casa, dormi como Arthur super agitado na barriga, no dia seguinte acordei quase meio dia com muitas contrações de BrackstonHicks (eu já tinha bastante, desde o sexto mês), mas nada como aquelas, eu não sentia dor, mas me incomodava, eu não agüentava ficar sentada, e ficava dançando para um lado e para o outro, o dia transcorreu tranqüilo, estava muito quente e minha irmã Kelly e o marido dela Kleber me levaram para tomar um suco, voltamos para casa, a noite me alimentei bem e deitei cedo para descansar, mais um incomodo e fui no banheiro, uma forcinha para fazer xixi e o tampão saiu inteiro, fiquei felicíssima, sabia que ia ser aquela noite, liguei para a Camila para avisar e voltei para cama, dormi até 02:00 da manhã, acordei com o liquido amniótico escorrendo para perto da barriga, a bolsa tinha estourado e eu já estava com fortes contrações, minha mãe disse que eu já estava gemendo enquanto dormia. Uma vez a Camila falou "meu santo é forte, seu parto vai ser de madrugada, você vai ver" se eu entrasse em TP durante o dia, precisaria ir para um hospital perto de casa, onde semanas antes eu tinha ouvido do diretor do hospital "não trabalhamos com este procedimento de parto natural", e não é que foi mesmo, o santo da Camila é forte mesmo!
Fui para o chuveiro, pedi para ligarem para a casa de parto para avisar que eu estava a caminho, pedi para ligarem para o Marcelo 
Min e Luciana Benatti que iam fotografar o TP, chamei o pai do Arthur no nextel e avisei que tinha chegado aminha hora e pedi para ligarem para a Camila, que me perguntou se eu não queria ficar em casa, mas para evitar o apavoro dos familiares eu achei melhor ir para a casa de parto mesmo e nos encontrarmos lá. Enquanto esperava o Jonathan chegar, lembro de estar na sala, só de vestido, me balançando de um lado para outro e a minha irmã Kelly esquentou rapidamente uma bolsinha de aguá quente e colocou na minha lombar, que era aonde eu estava sentindo as contrações, depois ela me confessou que quando saímos ela ficou chorando.
Meu cunhado Kleber foi dirigindo, minha mãe na frente, o Jonathan atrás me apoiando, eu só conseguia ficar de quatro. Saindo de casa eu vomitei umas 
3 vezes, eu procurava minha inseparável garrafinha de água, cadê minha garrafinha!!!
Eu queria bater em quem tinha esquecido a garrafinha.
O Kleber fez o percurso em menos de 40 minutos, e a cada contração eu dava um grito, cada buraco eu falava, pára o carro
!!!!! Estou sentindo a cabecinha dele!!!! As ruas próximas a casa de parto são super esburacadas, foi a pior parte do percurso)
Teve uma hora que ele estava correndo tanto que bateu nos galhos de uma arvore que estava próximo a av. bandeirantes, aí eu gritei "gente vai bater o carro", desta vez eu gritei de medo de bater o carro mesmo. Quando estávamos passando pelas ruas esburacadas, minha mãe falou, 
Josy, você não aprendeu nenhuma respiração? Respira !!! Foi como se tivesse acendido uma luz, comecei a respirar e me acalmei.
Finalmente chegamos na casa de parto ás 03:45 
am, eu estava meio assustada, e dei de cara com a enfermeira Priscila que eu não conhecia, super séria, que enquanto me preparavam para o exame de toque, no meio das contrações ficava me perguntando quantas consultas pré-natal eu tinha feito e mais um monte de coisas, lembro de ter ficado com muita raiva dela, aquilo era hora de ficar fazendo um monte de perguntas, nas consultas anteriores as outras enfermeiras já tinham preenchido um monte de fichas com todas as informações! Eu estava com muita dor, mas na verdade estava com vontade de dar umas respostas mau criadas pra ela, eu fiquei nervosa, o exame de toque doeu muito e eu gritava, a Camila olhava bem no fundo dos meus olhos e falava pra eu não gritar que era pior.
Me levaram para o chuveiro, com uma luz bem fraquinha, a Camila logo tratou de colocar uma 
musiquinha de fundo, lá eu fiquei durante bastante tempo, dançando de um lado para o outro e agachando, não consegui sentar na bola, mas me acalmei, quando estava bem concentrada sentia as contrações bem mais fracas, lembro do Jonathan falando comigo e eu mandando ele calar a boca, sentia vontade de bater nele quando fazia comentários desnecessários.
Houve uma hora em que eu pensei que não fosse agüentar, foi a transição dos 7 para 8 cm de dilatação, eu cheguei a dizer que queria ir para um hospital, que queria anestesia, que queria 
cesária, e pensava, pra que inventei isto de parto natural, a Camila dizia que não era aquilo que eu havia planejado que não era aquilo que eu queria, minha mãe entrou no banheiro e disse que se eu quisesse ir era para resolver logo, então eu tratei de ficar quietinha.
E por várias vezes veio a enfermeira e dizia " ela está indo muito bem, está evoluindo 
super bem, não tem por que ir para o hospital", sai do chuveiro e sentei na banquetinha de cócoras e eles ficavam se revezando nas massagens e entre uma contração e outra eu cochilava, naquele momento as contrações estavam suportáveis, como ondas, minha mãe tirou a piranha que estava prendendo meu cabelo e amarrou com um elástico e eu falei com a educação de toda parturiente, "cadê aminha piranha?! Não é pra prender meu cabelo com lacinho!!! Peguei a piranha e prendi meu cabelo de novo! Lembro da enfermeira entrar na sala e dizer que a Luciana Benatti, tinha ligado avisando que não ia poder vir para fotografar, eu eu falei ta bom, ta bom, nem consegui pensar em foto naquele momento, os óleos essenciais que a Camila usava para a massagem me acalmou e quando eu começava reclamar da dor ela me dava algo que não sei para cheirar que me revigorava, eu acho que sentia mais dor quando estava cansada, o dia já estava clareando e como ainda estava com 8cm, mais chuveiro, a água estava meio fria, e precisamos trocar de quarto, nunca atravessar um corredor foi tão longo para mim, eu estava morrendo de frio.
Entrei no outro chuveiro onde fique bastante tempo, até que o dia clareou e eu entrei em desespero, mas aí vinha a Camila com uma essência para eu cheirar e eu acalmava.
Eu deixava cair a água bem quente na lombar e a Camila dizia, "está muito quente, vai te machucar, mas não sei por que eu estava com muito frio, eu já sentia uns puxos e uma pressão e eu senti a vontade de fazer 
cocô, e acabei fazendo uns cocozinhos nos chuveiro, nesta hora lembro da minha mãe falando pra Camila que era muito bonito o trabalho dela, que nunca tinha imaginado um TP daquele jeito (detalhe, ela sempre dizia que eu era louca, com essa história de parto natural, uma vez chegou a dizer "essa doula vai é roubar seu filho" rsrsrsrsrs) saí do chuveiro para fazer mais um exame de toque e finalmente 9 cm, só faltava o Arthur descer, a enfermeira saiu e voltou com outra enfermeira a Maria Cristina, que dias antes tinha me atendido numa consulta de acompanhamento e tínhamos conversado como comadres durante um tempão, nossa, para mim foi ótimo ter visto um rosto familiar, e ela assumiu o plantão.
Ela e a auxiliar de enfermagem Thereza me perguntavam o tempo todo se eu queria um chá, se eu queria comer, mas eu só queria água. Eu perguntei algumas vezes para a Maria Cristina, não dá pra dar uma ajudinha, sei lá, pra ele sair logo, eu não estou agüentando! Ela dizia, não dá não, você 
agüenta!!! Para de falar que você não agüenta, por que você pode sim! Aqui não tem anestesia.
Tentei deitar na cama para mais um exame de toque, mas eu só conseguia ficar de lado, o Arthur já estava coroando, e ela pediu para eu fazer força, (lembro de estar fazendo força e ouvir a Maria Cristina dizendo, "ai, hoje eu estou com uma azia menina), mas aquela posição não estava boa para mim, me levantei e não sei quem me ofereceu a banquetinha, onde sentei, minha mãe sentou atrás, as enfermeiras, a Camila e o pai do Arthur na minha frente assistindo, eu já sentia os puxos e as contrações não tinham mais espaço entre elas, eu cheguei a empurrar minha barriga, sei lá, pra ver se saia logo, depois eu lembrei que não podia fazer aquilo, mas naquele momento eu só queria que ele saísse logo, eu fazia força durante as contrações e os puxos eram bem forças. Durante algum tempo minha mãe ficou segurando meus braços, mas depois achei melhor apoiar as mãos nas pernas, eu não queria ninguém tocando em mim. Quando eu me sentia fraca a Camila espremia um melzinho na minha boca, o que me deu um 
up! Parecia ter passado muito rápido, mas o expulsivodurou 3 horas, e em vários momentos me senti fraca, pois estava com o estomago vazio.
A Camila falou "ele está vindo 
Josy, passa a mão na cabecinha dele, e eu acariciei os cabelinhos dele,mas tirei logo a mão, queria manter as mão nas coxas perto da virilha, o que me ajudava a fazer força, a Maria Cristina dizia, vem seu Arthur, está saindo, saiu a cabecinha ela falou pra mim, agora não precisa mais fazer força e eu repondo "mais eu sinto vontade!" mais uma contração e saiu de uma só vez o corpinho, que já saiu fazendo xixi e de olhos abertos, elas massagearam as costas dele que estava com um pouco de dificuldade de respirar, depois foi colocado imediatamente sobre o meu colo, e o tempo parou, olhei para ele e ele piscou de uma forma muito sublime e depois espirrou, tinha nascido meu bebê, o Jonathan cortou o cordão, e a minha mãe falava, "que lindo Josy!" A Camila falou, nossa este é o cordão mais longo que eu já vi!
O Arthur foi levado para a salinha ao lado para tomar um pouco de oxigênio, mais uma forcinha e a placenta saiu.
Precisei levar uns pontinhos da laceração que 
tive, logo me trouxeram ele que mamou bastante, todos foram embora, eu tomei banho, dei banho nele junto com a enfermeira e fiquei na cama com ele nos braços sem acreditar que ele tinha nascido, 24 horas depois estávamos indo pra casa pra começar a nossa nova vida juntos.
E o resto é uma outra história.

Algumas considerações:

Ter uma 
doula é fundamental, se ela for naturóloga, melhor ainda.
Massagens são fundamentais no TP.
Ter um parto com alguém que você conhece e tem afinidade é fundamental, faz tudo transcorrer mais naturalmente.
As contrações são ondas, completamente suportáveis, desde que a parturiente fique em paz, num ambiente tranqüilo.
Meia luz, uma 
musiquinha de fundo e silêncio ajudam a suavizar a dor.
Preparar os seios durante toda a amamentação me livrou de sentir dor e de ter os seios machucados nos primeiros dias, conchas de amamentação!

Agradecimentos
Agradeço a Deus por me permitir ter um parto natural, por me dar forças de ir sozinha atrás do meu sonho de parto natural.
Agradeço ao meu filho Arthur que ajudou muito no trabalho de parto, filho EU TE AMO DEMAIS!
Agradeço a minha mãe, por sempre perdoar meus momentos de explosão
Agradeço ao um cunhado Kleber por ter sido corajoso em dirigir com uma mulher em trabalho de parto no banco de trás
Agradeço a minha irmã Kelly pelas energias e vibrações de força e pelo apoio emocional
Agradeço a Camila, que foi paciente e amorosa.
Agradeço as comadres Maria Cristina e Thereza que me ajudaram a trazer meu Arthur ao mundo com muito humanismo e carinho.
Recomendo CURSO DE PREPARAÇÃO PARA PARTO NATURAL PARA MÃES E PAIS, PARTO NATURAL, DOULAS E CASA DE PARTO.
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