Pedagogia libertária e anarquista

A pedagogia libertária e anarquista leva o naturalismo pedagógico até às suas últimas consequências. Embora Rousseau, com a sua teoria do bom selvagem e a tese do carácter corruptor da ciência e da tecnologia, seja uma das suas fontes mais decisivas, a pedagogia libertária só viria a conhecer uma grande popularidade após a Primeira Guerra Mundial, graças à associação do movimento anarquista com a psicanálise. Os fundadores da moderna pedagogia libertária foram J. R. Schmid e Alexander Neill que procuraram defender uma pedagogia centrada no indivíduo e na livre escolha do currículo num ambiente permissivo e sem quaisquer regras, normas, castigos ou recompensas impostas do exterior.
J. R. Schmid criou, entre 1918 e 1933, na Alemanha, várias escolas anarquistas, cujo relato viria a ser publicado em livro, em 1936, com o título de "O Mestre camarada e a Pedagogia Libertária". Schmid professava uma fé na força criadora da personalidade infantil, no crescimento livre como única lei pedagógica e na crença romântica da bondade natural do homem. Deixar que a natureza siga livremente o seu curso, sem interferências abusivas do professor ou da sociedade, constitui o pressuposto básico da pedagogia libertária. A criança é a medida de todas as coisas e, em certa medida, a infância é vista como a plenitude da vida humana. A idade madura, com os constrangimentos impostos pela sociedade capitalista e pela família, é encarada como um empobrecimento da vida humana, pelo que a educação deve não só respeitar as particularidades da infância, mas também prolongá-la o mais possível. Nas escolas de Hamburgo, criadas sob a influência de Schmid, a infância é a plenitude da vida e a escola é ele própria um espaço de vida que se basta no presente, no dia a dia, sem qualquer finalidade de preparar para um futuro que não se pode prever.
Para a pedagogia libertária, educar não é ensinar a viver, mas viver já e deixar viver. Não é, também, transmitir o legado cultural às novas gerações, uma vez que libertários e anarquistas afirmam que esse legado civilizacional é opressor. A escola é vista como um espaço de vida, onde os jovens convivem uns com os outros, em inteira liberdade, dando seguimento às suas vocações e dedicando-se às tarefas que lhe trazem bem estar e felicidade. Nada está mais afastado da pedagogia libertária do que a ideia de que a escola se destina a preparar para a vida ou a ensinar uma profissão. O facto de os pedagogos libertários não se guiarem nem pela vida futura nem pelas pressões económicas, justifica a inexistência de um currículo estruturado ou de disciplinas de frequência obrigatória. O currículo é construído pelos alunos, tendo em conta as suas preferências e interesses. "Na escola, o adulto não tem nenhum papel activo nem influenciador. Daqui deriva a atitude de independência da escola face
a qualquer influência do mundo adulto e da sociedade tal como está estruturada: independência face à Igreja (escola laica) e face ao Estado (escola apolítica), desligando-se de todos os programas partidários" (1).
O principal recurso educativo do professor é o exemplo e a relação entre o professor e o aluno baseia-se no eros pedagógico, ou seja, numa intimidade que inclui uma grande carga afectiva.
Apesar das boas intenções, "a experiência libertária de Hamburgo resultou num fracasso: houve necessidade de estabelecer um sistema de cursos e classes, uns horários mínimos, e houve também que recorrer a proibições e a sanções para garantir um mínimo de ordem e de trabalho. A camaradagem do mestre sofrei igualmente algumas restrições. Schmid assinala algumas causas externas ou sociais de tal fracasso, mas insiste mais nos erros psicológicos de que partiram as escolas de Hamburgo, cuja denúncia constitui uma interessante crítica ao naturalismo pedagógico feita pelo dito autor e que poderemos resumir assim: 1º A criança, por si própria, não trabalha, quer dizer, não estuda, apenas joga; as crianças agindo espontaneamente não superam o seu diletantismo; 2º A imaginação em si mesma não é criadora; a escola tem de ajudar a formá-la uma base de representações valiosas adquiridas pela experiência; 3º Tal como a escola tradicional tratava as crianças como pequenos adultos, uma vez que pressupõe nelas todas as qualidades existentes nos adultos; o erro, pois, se não é o mesmo, não é menor no segundo caso; 4º A criança não pode prescindir do educador enquanto guia e tão pouco o grupo de crianças, uma vez que têm uma tendência para o conformismo e a falta de responsabilidade; 5º A atitude de camarada no professor vai contra as tendências e necessidades da criança, as quais desejam encontrar nele um apoio e uma segurança; 6º A criança faz acções inadequadas que lhe dão um sentimento de culpabilidade, de que se livram através das sanções; a supressão destas poderia ocasionar um desequilíbrio psicológico e transtornos comportamentais" (2).
A pedagogia anarquista conheceu um ponto alto na obra pedagógica do catalão Ferrer Guardia (3). Para Ferrer, a escola devia levar os alunos a tomarem consciência das desigualdades sociais, demonstrar a falsidade de todas as religiões, inculcar o desrespeito pelas instituições militares, mostrar o carácter repressivo da família e fomentar a recusa da autoridade. Amor à ciência, gosto pelo trabalho social, defesa dos direitos das mulheres, apreço pela igualdade social são alguns dos pilares ideológicos da pedagogia de Ferrer. A acrescentar a esses pilares, Ferrer pugnava pela ausência de coacção, de castigos e de exames.
A pedagogia anarquista teve bastante impacto, em Espanha, nas primeiras décadas do século XX. Essa influência registou-se, sobretudo, nos ateneus libertários, nas associações culturais, nos sindicatos operários e nas instituições de protecção social. Para Ferrer, "o aluno não recebe o seu desenvolvimento pessoal do
exterior, mas a partir da sua actividade interna; por isso, a educação deverá partir das volições e desejos da criança. Para o desenvolvimento das ditas disposições infantis, o educando necessita estar tão perto da natureza como possível. Uma educação científica e racional formará mentes livres e autónomas" (4). Embora os movimentos anarquistas não tenham hoje a força que tiveram no princípio do século XX, "o anarquismo continua presente na nossa sociedade, especialmente em países como a Alemanha e a Espanha, e mostra as suas reivindicações libertárias, sobretudo no sector estudantil, a condenarem as clássicas manifestações da autoridade académica: exames, função docente do professor, disciplina nas escolas, valor reconhecido aos estudos e aos diplomas, etc. Como produto e expoente de tal movimento aludiremos ao "Pequeno Livro Vermelho dos Estudantes", composto por dois professores e um psicólogo dinamarqueses e dirigido aos estudantes de todos os níveis de ensino, a fim de os estudantes terem critérios e atitudes emancipatórias e uma conduta revolucionária" (5). Os movimentos estudantis libertários e anarquistas conheceram uma grande amplitude, na Europa Ocidental, nas décadas de 60 e 70. De comum a esses movimentos, a recusa dos exames, da selecção escolar, da autoridade dos professores, da imposição da assiduidade às aulas e do currículo nacional. A defesa da liberdade na escolha das disciplinas, da autogestão escolar e da liberalização das drogas constituem algumas das principais reivindicações dos movimentos estudantis anarquistas.
Notas
1) Quintana, J. M. (1995). Teoria de la Educación: Concepción Antinómica de la Educación. Madrid: Dykinson, p. 88
2) Idem, p. 88
3) Ver a obra de Ferrer Guardia (1912). La Escuela Moderna. Barcelona: Imp. Elzeviriana
4) Quintana, J. M.(1995). Teoria de la Eduación: Concepción Antinómica de la Educación. Madrid: Dykinson, p. 89
5) Idem, p. 90
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