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Mortimer Adler

Introdução
Mortimer Adler nasceu em 1902, na cidade de Nova Iorque. Estudou na Universidade de Columbia, onde foi professor de Psicologia, de 1923 a 1929. Em 1930, muda-se para a Universidade de Chicago, onde permanecerá até 1952, a ensinar Filosofia do Direito e Filosofia da Educação. Em 1953, aceita o lugar de Reitor do Institute for Philosophical Research, em S. Francisco. Alguns anos antes, em 1945, edita com Robert Hutchins os 54 volumes da colecção Great Books of The Western World. Foi o Editor dos 20 volumes dos Annals of America e o Director da 15ª edição da Enciclopédia Britânica. Escreveu numerosas obras sobre Filosofia e Educação: How to Read a Book; The Differences of Man and the Differences it Makes; Philosopher at Large: An Intelectual Autobiography; The Paideia Proposal; Paideia Problems and Possibilities e Reforming Education.

Desenvolvimento
A teoria pedagógica de Mortimer Adler baseia-se, essencialmente, em três livros publicados na década de 80: The Paideia Proposal: An Educational Manifesto; Paideia Problemas and Possibilities; The Paideia Program. O autor destes livros nasceu em 1902, na cidade de Nova Iorque. Estudou na Universidade de Columbia, onde foi professor de 1923 a 1929. Em 1930, troca a Universidade de Columbia pela Universidade de Chicago, onde permanece até 1952. A sua saída da Universidade de Chicago coincide com a aceitação do lugar de Reitor do Institute for Philosophical Research, em S. Francisco. Foi Editor dos 54 volumes da série Great Books of the Western Books e Director da 15ª edição da Enciclopédia Britânica. Escreveu dezenas de livros e centenas de artigos. Para além da trilogia sobre o modelo Paideia, destaque para How to Read a Book e The Conditions of Philosophy.
Mortimer Adler afirma-se profundamente influenciado pelo pensamento educacional de Horace Mann, John Dewey e Robert Hutchins e uma leitura cuidada dos seus livros leva-nos a considerar as propostas de Adler como uma verdadeira síntese e aplicação à realidade actual, por um lado, da utopia educativa de Platão e da maiêutica socrática e, por outro lado, das ideias pedagógicas de Horace Mann e John Dewey. A filosofia educacional de Adler obriga-nos a pôr em dúvida opiniões até há pouco inquestionáveis. O seu corpo de ideias constitui uma teoria pedagógica pós-Freinet e pós-Rogers. Adler é simultaneamente não-directivo e encontra-se nos antípodas da não directividade. Pela primeira vez, nas últimas décadas, aparece alguém a reclamar-se dos clássicos sem perder a noção da modernidade e do pragmatismo. Adler presta tributo a Sócrates, a Platão, a Coménio e a John Dewey e critica grande parte das reformas educacionais desenvolvidas nos últimos anos. Essa crítica é dirigida, sobretudo, à dispersão curricular, à introdução no currículo de disciplinas de opção de duvidoso carácter educativo, ao ensino profissional precoce e à desvalorização do estudo dos grandes autores e das grandes obras literárias. Quem é este autor que, sem citar Piaget, se revela um eficaz defensor do ensino interactivo? Quem é este americano que se reclama da herança clássica europeia e exige um ressurgimento do classicismo e do humanismo na educação? Como é possível ser-se tão actual reclamando-se da velha ideia socrática da maiêutica e pondo em causa a validade da introdução no currículo de disciplinas sobre educação sexual, condução automóvel ou educação moral e cívica? Como é possível estar na vanguarda do movimento reformador da escola e defender a redução ao mínimo do debate na sala de aula dos problemas que afectam o quotidiano dos alunos, como a poluição e o desemprego, com a justificação de que distraem o aluno das aprendizagens essenciais e dificultam o enfoque das suas energias no estudo dos conceitos básicos das diversas ciências.
Importa ter presente que Adler é um americano que se orgulha da democracia americana, totalmente identificado com as ideias políticas dos fundadores dos Estados Unidos da América, reclamando-se da profunda actualidade política e filosófica da Declaração da Independência, redigida por Thomas Jefferson, da Constituição dos Estados Unidos, dos "Federalist Papers", redigidos por Alexander Hamilton e profundamente influenciado pelo pensamento dos clássicos liberais, como Alexis de Tocqueville e a sua obra Democracia na América, Montesquieu e a sua obra-prima O Espírito das Leis, John Locke e as suas obras Ensaio sobre o Governo Civil, Cartas sobre a Tolerância e Ensaio sobre o Entendimento Humano e Adam Smith, com a obra que verdadeiramente funda a ciência económica, intitulada A Riqueza das Nações. Politicamente, Mortimer Adler é um liberal com preocupações sociais. É favorável ao Estado mínimo e a uma sociedade civil forte. O Estado deve reservar para si aquilo que a sociedade civil não é capaz de fazer melhor. Para além disso, o Estado deve assegurar a igualdade de oportunidades, dar protecção aos mais fracos e desfavorecidos e assegurar o acesso de todos aos direitos básicos. A educação constitui o mais poderoso instrumento de igualdade de oportunidades. Nessa medida, o Estado tem grandes responsabilidades na criação de uma sistema público de educação de qualidade e acessível a todos. A educação e sobretudo o sistema público escolar são os garantes da igualdade de oportunidades e os principais instrumentos de combate às desigualdades sociais. Pedagogicamente, Adler é profundamente influenciado pelo pensamento educacional de John Dewey. Este tributo a John Dewey e em particular às suas obras Educação e Sociedade e Democracia e Educação, marca uma das componentes principais do pensamento pedagógico de Adler: a importância concedida à educação como instrumento de igualdade de oportunidades e de mobilidade social ascendente e o papel insubstituível da escola na promoção de uma educação para a cidadania. Mortimer Adler é um crítico do sistema dualista de ensino e recusa o ensino profissional antes do final do ensino secundário. A defesa da escola única para todos, com o mesmo plano de estudos para todos, definido a nível nacional e sem disciplinas de opção proporciona: 1) as competências de aprendizagem essenciais para a continuação da aprendizagem e o exercício de uma ocupação; 2) o gosto e a motivação para aprender e pelo conhecimento; 3) o conhecimento das instituições democráticas e o exercício da democracia. Na concepção de Adler, uma escola que não prepare directamente para o exercício de uma ocupação específica é a que melhor serve os interesses de uma economia aberta e avançada, onde as mudanças e inovações são rápidas e constantes e existe uma grande incerteza face à evolução do mercado de emprego.
Central no pensamento pedagógico de Adler é a defesa da escola única para todos. A escola única proposta por Adler consiste no mesmo plano de estudos e os mesmos objectivos educativos para todos, desde o 1º ao 12º ano de escolaridade. O mesmo plano de estudos para todos significa também a ausência de qualquer tipo de formação profissional e de disciplinas de opção, com excepção de uma língua estrangeira. Uma escola deste tipo é simultaneamente geral, liberal e humanista. Ou seja, é igual para todos, não prepara directamente os alunos para o exercício de uma profissão e dá igual relevo à educação humanística, à educação científica, à educação tecnológica e à educação artística.
Adler parte do pressuposto de que todas as crianças são educáveis. Um sistema com várias vias tem, forçosamente, de ter objectivos diferentes, contrariando o princípio de que os objectivos da escolaridade básica de 12 anos devem ser iguais para todos. E os objectivos da escola única devem ser: 1) preparar os alunos para continuarem a aprender durante toda a vida e a procurarem o contínuo crescimento pessoal nos domínios intelectual, espiritual e moral; 2) prepara os alunos para o exercício da cidadania, ou seja, para o desempenho dos deveres e responsabilidades públicas; 3) preparar os alunos para, na vida adulta, ganharem dignamente a vida, numa ocupação. Mas, a escola básica deve preparar os alunos para esta última tarefa, não treinando-os para uma qualquer profissão específica, mas concedendo-lhes as competências comuns a todas elas, ou seja, competências de escrita, de leitura e de cálculo, uma sólida cultural geral, um carácter bem formado e um gosto pela aprendizagem. E porquê estas três grandes finalidades? Porque cada pessoa é simultaneamente um cidadão, um profissional e o membro de uma família. Toda a gente precisa de saber ler, escrever, ouvir e falar bem, isto é, empregando frases bem articuladas, com riqueza semântica, com correcção sintáctica e com conceitos rigorosamente definidos. Toda a gente precisa de compreender como funcionam as instituições democráticas, bem como as linhas de orientação da Constituição da República. É impossível ser-se um cidadão consciente e um bom profissional sem se aprender como continuar a aprender fora da escola, sem ganhar o gosto pelo estudo e sem possuir uma sólida cultura geral.
Uma escola básica, com os mesmos objectivos para todos, pode, aparentemente, ser a negação do respeito pelas diferenças. Mas tal não é assim. Ainda que os currículos sejam iguais - e Adler defende a existência de um currículo nacional - é admissível e necessário o ajustamento dos conteúdos às realidades locais, não havendo imposições com respeito aos manuais, metodologias e distribuição dos tempos lectivos. Embora defenda o currículo nacional, Adler é totalmente a favor de uma adaptação do currículo às necessidades locais e, portanto, de um ajustamento dos programas às diferenças individuais manifestadas pelos alunos. Os alunos chegam à escola portadores de percursos diferenciados e não é correcto que fiquem privados dos apoios necessários para que consigam alcançar os objectivos educacionais. Uma forma de garantir uma maior igualdade nos percursos escolares é generalizar a oferta da educação pré-escolar. Outra forma, é a diversificação das estratégias de ensino e a oferta de apoios educativos aos alunos com necessidades educativas específicas.
A qualidade do ensino e da aprendizagem é, nas palavras de Adler, a questão central. Tendo em consideração as três finalidades enunciadas atrás, Adler propõe um modelo de ensino que compreenda três formas de ensinar e três formas de aprender. Os três modos de ensinar compreendem a aquisição organizada de conhecimentos, o desenvolvimento de competências intelectuais e a compreensão e desenvolvimento de ideias e valores. O modo de ensinar a aquisição organizada de conhecimentos inclui a exposição da matéria pelo professor. O modo de ensinar o desenvolvimento de competências intelectuais é através do treino e da prática. O modo de ensinar o desenvolvimento de ideias e valores é através da maiêutica socrática, da discussão e do debate de obras literárias, filosóficas e científicas. O primeiro modo de ensinar proporciona ao aluno os conceitos básicos das diversas disciplinas. O segundo modo de ensinar proporciona competências de escrita, leitura e de cálculo. O terceiro modo de ensinar proporciona competências parlamentares, desenvolve o raciocínio moral e alarga a cultura geral e a capacidade de reflexão. Para o primeiro modo de ensinar, Adler reserva 60% dos tempos lectivos. Para o segundo modo, 30% e para o terceiro modo 10%. O ensino dos conceitos básicos pode ser feito com grupos de mais de 30 alunos. O ensino das competências intelectuais deve ser feito em pequenos grupos de 10 alunos. O ensino das ideias e dos valores deve realizar-se com grupos que não excedam os 20 alunos. Enquanto o ensino dos conceitos básicos pode fazer-se em aulas de 50 minutos, os outros dois modos de ensinar exigem períodos lectivos de 2 horas.

MODOS DE APRENDER

modos de ensinar

espaços

tempos

relação prof./aluno

aquisição de conhecimentos

aula expositiva

salas com carteiras em fila

50 m.

1 para 30

desenvolvimento de competências intelectuais

treino e prática

pequenos grupos

2 horas

1 para 10

compreensão e desenvolvimento de ideias e valores

maiêutica socrática e debates sobre grandes obras

carteiras em semi-círculo

2 horas

1 para 20

Vejamos agora o como é que se relacionam os três modos de ensinar com as áreas disciplinares e as competências intelectuais.

COLUNA UM

COLUNA DOIS

COLUNA TRÊS

aquisição organizada de conhecimentos

desenvolvimento de competências intelectuais

compreensão e desenvolvimento de ideias e valores

exposições, leituras de textos, fichas de trabalho, livros de texto

treino, exercícios, prática supervisionada

maiêutica socrática, discussão e debate sobre grandes obras

Matemática, Ciências, História, Geografia, Artes, Línguas

ler, escrever, ouvir e falar

cálculo, resolução de problemas, observação, análise e avaliação

discussão de livros envolvimento dos alunos na produção artística

Mortimer Adler considera que os currículos actuais privam os alunos dos modos de ensinar e de aprender mais necessários ao crescimento intelectual. Se tivermos como referência a taxonomia de Benjamin Bloom (conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação), é fácil verificar que a escola actual privilegia os dois primeiros níveis (conhecimento e compreensão) e desvaloriza os três últimos. Com efeito, as práticas de ensino dos professores raramente acentuam objectivos complexos e quase nunca visam a realização de actividades que exijam operações mentais de análise, síntese e avaliação. No modelo de ensino proposto por Adler, essas operações mentais são melhor desenvolvidas recorrendo aos modos de ensino das colunas dois e três. O primeiro modo de ensinar (coluna um) resulta no conhecimento do que, ou seja, é predominantemente informativo, factual e descritivo. O segundo modo de ensinar (a coluna dois) resulta no conhecimento do como, ou seja, é predominantemente do domínio das competências, do saber-fazer e das técnicas. O terceiro modo de ensinar (coluna três) resulta no conhecimento do porquê, ou seja, preocupa-se fundamentalmente com os fundamentos dos fenómenos, a explicação das coisas e as relações entre os factos.

COLUNA UM

COLUNA DOIS

COLUNA TRÊS

aquisição de conhecimentos

desenvolvimento de competências intelectuais

compreensão e desenvolvimento de ideias e valores

o que informativo, factual e descritivo

o como saber-fazer e técnicas

porquê fundamentos, explicações e relações

Como é fácil de constatar, os modos de ensinar que correspondem às colunas dois e três não são muito usuais, não só pela falta de tempo para cumprir programas extensos, mas também por falta de preparação dos professores para ensinar o desenvolvimento de competências intelectuais e a compreensão e desenvolvimento de ideias e valores.
É possível traçar uma correspondência entre os três modos de ensinar e a taxonomia de Bloom. Como se pode verificar pelo quadro seguinte, a escola desvaloriza o ensino dos níveis mais complexos da taxonomia de Bloom, criando poucas oportunidade para o ensino das operações e para a realização das actividades de análise, síntese e avaliação.

EXPOSIÇÕES ORAIS, FICHAS DE TRABALHO E LEITURAS DE TEXTOS

TREINO, EXERCÍCIOS E PRÁTICA SUPERVISIONADA

DISCUSSÃO DE LIVROS E MAIÊUTICA SOCRÁTICA

AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTOS BÁSICOS

DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS INTELECTUAIS

COMPREENSÃO E DESENVOLVIMENTO DE IDEIAS E VALORES

CONHECIMENTO E COMPREENSÃO

APLICAÇÃO

ANÁLISE SÍNTESE E AVALIAÇÃO

A par da crítica à desvalorização das colunas dois e três e à consequente pouca importância dedicada pela escola aos níveis superiores da taxonomia de Bloom, Mortimer Adler opõe-se igualmente a uma avaliação que utilize apenas ou maioritariamente os testes sumativos de escolha múltipla e respostas de sim e não. Ao invés, Adler é inteiramente favorável à realização de testes com perguntas abertas, complementados com a elaboração de composições e de ensaios. Para além dos testes com perguntas abertas, Adler aconselha o uso de "portfolios", diários e projectos realizados pelos alunos na sala de aula.
Vejamos, de seguida, um quadro que estabelece a relação entre os modos de ensinar e os processos de avaliação.

COLUNA UM

COLUNA DOIS

COLUNA TRÊS

Conhecimento e Compreensão

Aplicação

Análise, Síntese e Avaliação

Testes Sumativos

Testes Sumativos Portfolios

Ensaios e Composições

Quantos professores é que se sentem suficientemente preparados para utilizarem a maiêutica socrática e para desempenharem o papel de moderadores na discussão de grandes obras? A maior parte dos professores apenas se sente confortável a fazer exposições orais sobre os assuntos, quer seja por causa da extensão dos programas de ensino quer seja por falta de preparação na utilização dos outros dois modos de ensinar. Quantas escolas estão suficientemente preparadas para flexibilizarem os horários escolares, de modo a proporcionarem períodos lectivos de 2 horas para a realização dos modos de ensinar típicos das colunas dois e três? Quantas escolas possuem espaços e equipamentos (carteiras distribuídas em pequenos grupos e carteiras distribuídas em semi-círculo) adequados para a realização dos modos de ensinar típicos das colunas dois e três?
Como é que o modelo Paideia pode ser implantado nas escolas? Como é que a escola deve ser organizada? A aquisição de conhecimentos básicos (coluna um) pode ser feita com grupos de mais de trinta alunos, em períodos lectivos de 50 minutos. O desenvolvimento de competências intelectuais (coluna dois) pode ser feito em salas de aula tradicionais, desde que as carteiras se possam agrupar. Este modo de ensinar exige um professor para cada grupo de dez alunos. No entanto, basta um professor para supervisionar o treino e a prática de dois ou três grupos de alunos. Os seminários de discussão (coluna três) podem realizar-se com um grupo de 20 a 30 alunos em volta de uma mesa redonda. Na coluna um, os alunos são agrupados por ano de escolaridade, de forma heterogénea. Na coluna dois, os alunos são agrupados por grupos de nível, tendo em consideração a competência. Na coluna três, é de aceitar um grupo moderadamente heterogéneo. A primeira coluna deve ocupar 60% do horário semanal, a segunda coluna 30% e a terceira coluna, apenas 10%. Vejamos, em baixo, um horário semanal típico para uma escola do 2º ciclo e 3º ciclos do Ensino Básico.

Segunda Terça Quarta Quinta Sexta

exposição - 1 hora mais 1 hora

treino e prática 2 horas seguidas

exposição 1 hora

seminário 2 horas seguidas

exposição 1 hora mais 1 hora

intervalo a meio da manhã

intervalo a meio da manhã

intervalo a meio da manhã

intervalo a meio da manhã

intervalo a meio da manhã

exposição - 1 hora mais uma hora

treino e prática 2 horas seguidas

exposição 1 hora mais 1 hora

treino e prática 2 horas seguidas

exposição 1 hora mais 1 hora

almoço

almoço

almoço

almoço

almoço

exposição 1 hora mais 1 hora

treino e prática 2 horas seguidas

exposição 1 hora mais 1 hora

treino e prática 2 horas seguidas

exposição 1 hora mais 1 hora

ensino tutorial

ensino tutorial

ensino tutorial

ensino tutorial

extra-curricular

Nota: o ensino tutorial destina-se apenas aos alunos que precisam de apoios educativos

Mortimer Adler fornece-nos alguns exemplos de aplicação do seu modelo, no livro Paideia Problems and Possibilities. A Escola Secundária Skyline, em Oakland, Califórnia, aplicou o modelo Paideia desde o início da década de 80. A Escola Secundária Skyline serve 2000 alunos, 40% dos quais de origem africana e 14% de origem asiática. O Director pôs em prática um plano para agrupar as aulas de Inglês e Estudos Sociais em blocos de duas horas. Os alunos passaram a ter, pelo menos, 12 horas semanais para a aquisição de conhecimentos básicos, 7 horas semanais para o desenvolvimento de competências intelectuais e 4 horas semanais para a compreensão e desenvolvimento de ideias e valores. A avaliação passou a ser feita com base em questionários orais, participação na discussão de livros e elaboração de composições e ensaios. A lista de Grandes Obras incluídas nos seminários de discussão (coluna três) foi a seguinte: Ilíada, Odisseia, Declaração da Independência, A República de Platão, A Ética a Nicómaco de Aristóteles, A Divina Comédia de Dante, O Príncipe de Maquiavel, Os Ensaios de Montaigne, Cândido de Voltaire, Hamlet de Shakespeare, O Tartufo de Molière, O Contrato Social de Rousseau, Crime e Castigo de Dostoievski, As Confissões de Santo Agostinho, Orgulho e Preconceito de Jane Austen e Walden Two de Skinner.
A implementação do modelo Paideia pode revestir dois padrões diferentes: a imersão total da escola ou a imersão parcial de um grupo de alunos e professores. Em qualquer dos casos, deve começar-se pela concretização de um projecto piloto que, depois de avaliado, pode vir a ser generalizado a toda a escola ou a um grupo de turmas. Previamente à generalização, é necessário preparar os professores para utilizarem a maiêutica socrática e para moderarem os seminários de discussão. A escola pode começar por envolver um grupo restrito de alunos e professores em actividades que ponham em prática o modo de ensinar e aprender típico da coluna três, através da oferta de seminários, uma ou duas vezes por semana, para discussão de grandes obras, com o objectivo de suscitar o desenvolvimento das ideias e valores Uma outra forma, poderá ser a inclusão nas aulas de Línguas, História e Filosofia de leituras de ensaios e poemas que serão objecto de discussão em seminário.
No 1º ciclo do Ensino Básico, é mais fácil integrar os três modos de ensinar, devido à existência de monodocência. A partir do 2º ciclo do Ensino Básico, torna-se necessário um esforço maior de planificação, atendendo à pluridocência. O horário que se indica, atrás, é um exemplo possível de organização semanal das actividades, no respeito pelos três modos de ensinar.
A preparação dos professores para a utilização da maiêutica socrática e moderação de debates sobre Grandes Obras exige tempo e recursos humanos adequados. Essa preparação não pode ser feita apenas com o recurso às leituras. Exige prática e treino. Pressupõe a presença de um supervisor capaz de exemplificar e corrigir os erros. Vejamos um exemplo ocorrido em Atlanta, no início da década de 80. A Autoridade Escolar de Atlanta solicitou à Danforth Foundation uma bolsa para o pagamento das despesas com as deslocações mensais de Mortimer Adler às escolas de Atlanta. Adler visitou várias escolas da cidade, duas vezes por mês, durante o ano de 1983, para preparar os professores na realização de seminários de discussão e no uso da maiêutica socrática. Durante essas sessões mensais, que duravam cerca de 3 horas, Adler exemplificava como se deve moderar um seminários de discussão e proporcionava a correcção necessária aos professores envolvidos na sessão de trabalho. A metodologia usada consta de três fases: na primeira, Mortimer Adler exemplifica como se deve moderar um seminário de discussão; na segunda, os professores são convidados a desempenharem, à vez, o papel de moderadores; na terceira, procede-se à crítica dos erros e à discussão dos meios para a correcção dos erros. Previamente, os professores procedem à leitura, em casa, da obra literária ou filosófica escolhida, sublinhando as ideias principais, tomando notas à margem do texto e seleccionando duas ou três questões centrais para o debate.
O moderador do seminário deve orientar a discussão em torno de duas ou três questões previamente seleccionadas, deve dar oportunidades a todos os participantes para tomarem a palavra e deve velar para que todos façam uma utilização rigorosa dos conceitos. Quando a questão estiver suficientemente debatida, de tal forma que todos tenham chegado a uma conclusão, o moderador deverá sistematizar as posições em conflito, chamando a atenção para os argumentos associados às várias posições. De seguida, os participantes poderão, de novo, proceder a uma última fase de discussão, com o objectivo de se chegar a uma posição consensual. Caso não seja possível o consenso, o seminário termina com a apresentação das conclusões e respectivas justificações

Crítica
O modelo pedagógico de Mortimer Adler tem sido criticado por conceder uma importância excessiva aos "velhos fundamentos do currículo", ou seja, à escrita, leitura e cálculo, inserindo-se, dessa forma, nos movimentos pedagógicos que pugnam por um certo regresso ao passado. Este regresso aos fundamentos, manifesto na importância central dada aos clássicos, ao estudo das Grandes Obras e à defesa de um currículo liberal, geral e humanista, tem sido criticado pelos autores que defendem um currículo multicultural, como a única resposta adequada para a fragmentação cultural e o pluralismo étnico das sociedades contemporâneas. O pensamento pedagógico de Mortimer Adler insere-se numa corrente filosófica essencialista e idealista que encara a educação como o conjunto dos padrões culturais, científicos, artísticos e tecnológicos que as sucessivas gerações que nos precederam deixaram como válido para ser transmitido às novas gerações. O que vale a pena ser estudado, na perspectiva de Adler, é o legado cultural e esse legado é aquilo que de mais válido as civilizações construíram. O legado cultural corresponde ao conjunto das disciplinas agrupadas na coluna um e ao modo de ensinar e aprender característico da aquisição organizada de conhecimentos. Contudo, no entender de Adler, para além de saber o que, todos nós temos necessidade de saber o como e de saber o porquê. Para dar respostas ao como e ao porquê, Adler propõe as colunas dois e três, ou seja o ensino das competências intelectuais e a compreensão e desenvolvimento das ideias e valores. Alguns autores, e em particular os autores que defendem modelos de ensino construtivistas, criticam esta separação dos modos de ensinar e aprender, porque consideram questionável a utilização de metodologias directivas e expositivas para o ensino da aquisição organizada do conhecimento.
Convém, no entanto, atenuar a importância destas críticas, dado o carácter ideológico das mesmas. Com efeito, os críticos de Mortimer Adler são, sobretudo, autores que não acreditam no carácter universal da cultura clássica e, portanto, acusam Adler de defender uma escola ao serviço do capitalismo e da civilização que o criou.
Para os autores que apostam no reforço da educação clássica e humanista e que acreditam no papel libertador da cultura e da educação, o modelo de Mortimer Adler constitui uma resposta promissora para os impasses e os problemas que a escola enfrenta.

Referências
Adler, M. (1982). The Paideia Proposal - An Educational Manifesto. Nova Iorque. Macmillan
Adler, M. (1983). Paideia Problems and Possibilities. Nova Iorque. Macmillan
Adler, M. (1985). How to Speak How to Listen. Nova Iorque. Macmillan
Adler, M. (1989). Reforming Education. Nova Iorque. Macmillan
Marques, R. (1985). Modelos de Ensino para a Escola Básica. Lisboa. Livros Horizonte
Marques, R. (1997). Escola, Currículo e Valores. Lisboa. Livros Horizonte
Marques, R. (1997). Educação Social na Escola Básica. Lisboa. Livros Horizonte

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