Notícias literárias

De casa nova

postado em 1 de mar de 2013 07:06 por Rafa Lombardino


A gente se vê por lá!

Da importância da presença e interação on-line

postado em 25 de fev de 2013 08:24 por Rafa Lombardino


Este texto não está relacionado à literatura e à tradução em si, mas é sobre como se destacar em um setor onde acontece tanta coisa.

Eu dou uma aula virtual chamada Tools and Technology in Translation ["Ferramentas e Tecnologia na Tradução"], que faz parte do certificado profissional de tradutor de inglês e espanhol do Programa de Extensão da Universidade da Califórnia em San Diego. Todo trimestre eu falo para os alunos o quanto é importante criar uma "personalidade on-line" e colocar o seu nome em evidência. A princípio, eles ficam preocupados, especialmente quando param para pensar em privacidade, trapaceiros, golpistas, piratas, vírus e outras coisas horríveis que são o efeito colateral da nossa participação no mundo virtual. No entanto, eles compreendem que precisam promover seus serviços para que os clientes possam vir bater à porta.

Há poucos dias eu também assisti a um ótimo seminário virtual sobre este tópico, apresentado pela querida colega Marcela Reyes. O nome da apresentação dela [em inglês] foi "As tendências de marca pessoal para 2013 e como os tradutores podem se aproveitar delas" e deu uma boa atualizada no que já adoto na minha vida profissional e em todas aquelas dicas que dou aos alunos que estão se iniciando no universo on-line como tradutores.

Dito isso, após conversar com leitores pelo Twitter e Facebook, decidi me mudar para uma nova plataforma, que vai me dar mais flexibilidade e organização, além de permitir que eu saiba mais sobre vocês, que estão lendo este blog, e do que vocês mais gostam de ler. O novo site também vai servir de núcleo para todas as minhas atividades profissionais, ou seja, as apresentações que eu faço, as matérias que eu escrevo, as palestras às quais eu assisto, etc.

Em outras palavras, o Notícias Literárias e o Literary News cresceram e precisam de uma casa maior :)

Logo logo eu volto com o novo endereço.

BOAS NOVAS: Escritor fala sobre tradução

postado em 20 de fev de 2013 07:54 por Rafa Lombardino

Na nossa quarta colaboração para a seção BOAS NOVAS, publico hoje um artigo escrito por Ronaldo Brito Roque sobre como um escritor se sente ao ler seu próprio trabalho traduzido em outro idioma.


Como os escritores enxergam o seu trabalho pelos olhos de um tradutor

Depois que comecei a escrever profissionalmente, acho que uma das minhas experiências mais marcantes foi ver meu conto traduzido para outro idioma. É uma experiência paradoxal. 

Você começa por estranhar aquelas frases, tão diferentes das que você escreveu, e que ainda assim são supostamente suas. Depois você vai reconhecendo a inflexão do personagem, a sequencia de acontecimentos, as metáforas, as pequenas sacadas estilísticas, até que de repente o texto volta a lhe pertencer, porém de uma forma completamente nova. 

Você interioriza o ritmo da outra língua, sente certa familiaridade, certo acolhimento, mas ao mesmo tempo saboreia as pequenas diferenças, admira-se de como o tradutor conseguiu encontrar a frase certa para esta ou aquela expressão local que você mesmo julgava impossível traduzir. É algo como viajar para uma cidade desconhecida, onde tudo é diferente e novo, e de repente encontrar um velho amigo e passar algum tempo rememorando aventuras de juventude. 

Sou muito grato a Rafa Lombardino por ter me permitido essa experiência simplesmente mágica. Hoje, com a facilidade de se publicar, na inernet e em outros meios, vejo que quase todas as pessoas estão se tornando escritores. Se o mesmo fenômeno se passar com a tradução, se, de repente, o mundo sofrer uma multiplicação inexplicável de tradutores, todos os textos terminarão por ser traduzidos, os geniais, os brilhantes, os completamente boçais, os nojentos e os neutros.

Qualquer um passará pela experiência de ver seus próprios personagens falando em outra língua. Assim a experiência deixará de ser mágica e se tornará vulgar como fazer um cruzeiro ou passar uns dias em Ibiza.


RONALDO BRITO ROQUE nasceu em Cataguases, Minas Gerais, mas mora no Rio de Janeiro desde 2003. Frequentou a Universidade Federal Fluminense em Niterói, mas não se formou. Trabalhou na Caixa Econômica Federal, mas decidiu deixar o emprego para se tornar tradutor em período integral e tentar a sorte como escritor. Estreou com "Romance barato", publicado pela Multifoco em 2010. A primeira edição se esgotou em apenas seis semanas. Publicou também "Duplo sentido"
 e "Meias palavras" independentemente pela loja Kindle. Seu conto "Gravata" foi traduzido como Necktie para o site Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), especializado em contos brasileiros traduzidos para o inglês. Atualmente continua trabalhando como tradutor freelance e está escrevendo seu próximo romance.

Notícias Literárias é destaque na PLD

postado em 12 de fev de 2013 13:27 por Rafa Lombardino

Aqui vai uma notinha sobre a minha contribuição para a revista editada pela Divisão da Língua Portuguesa (PLD) da Associação Americana de Tradutores (ATA).

A nova edição acaba de sair e, nas páginas 9 a 11, traz o texto que eu escrevi sobre a apresentação de Jayme Costa, "Tradução da prosa do século 21 em inglês", a qual eu assisti durante a 53ª conferência da ATA em San Diego.

Clique no logotipo abaixo para acessar a revista.

RecBLOG: "Não Gosto de Plágio" de Denise Bottmann

postado em 11 de fev de 2013 13:18 por Rafa Lombardino

Dando continuidade à minha lista de blogs
dedicados à tradução literária, aqui está
a quarta parte da série RecBLOG


Hoje eu gostaria de recomendar "Não Gosto de Plágio" da Denise Bottmann, que é tradutora editorial desde a década de 1980. Seu blog se especializa em publicar uma lista abrangente de livros traduzidos publicados no Brasil, na esperança de preservar a memória nacional quando o assunto é quem são os tradutores que contribuíram para a diversidade literária do país. Além disso, sendo algo que talvez tenha mais peso, ela dá nome aos bois e expõe as editoras brasileiras irresponsáveis que estão tentando ganhar dinheiro às custas de tradutores sem pagar um centavo e/ou nem dar crédito a quem merece.

Explico: Muitas editoras no Brasil estão lançando mão do artifício dos "tradutores fantasmas" para editar livros que estão no domínio público, porém utilizando-se de traduções publicadas no passado. Em vez de reeditarem o trabalho antigo dando crédito ao tradutor ―ou, melhor ainda, contratarem outro tradutor para dar nova roupagem aos clássicos― essas editoras estão inventando nomes para os "tradutores fantasmas" e ganhando em cima do trabalho dos outros.


De olho nos detalhes, seus colaboradores têm a ajudado a identificar as tais "novas" traduções que são 99% idênticas a traduções antigas. Essa diferença de 1% é atribuída a "atualizações", ou seja, um editor de texto se deu ao trabalho de sentar-se diante do material para corrigir a ortografia (que já passou por tantas reformas nas últimas décadas) e mudar uma palavra aqui e outra ali para "dar uma modernizada".

Essa questão do plágio é fascinante ―para não dizer revoltante!― e o trabalho dela tem ajudado a desmascarar essa fraude editorial no Brasil. Espero que muita gente, tanto tradutores como leitores, apoiem essa causa para resolver o problema, principalmente quando se derem conta de que algumas dessas editoras estão recebendo incentivo do governo para arrecadar fundos para os seus projetos de plágio.

Para obter mais informações sobre a carreira e as perspectivas da Denise, aqui está uma ótima entrevista dela com o Blog de Literatura do iBahia. Clique aqui para ver uma lista dos outros blogs com os quais ela contribui, principalmente sobre os livros e autores que ela traduz, além do excelente "Tradução Lítero-Humanística", cujo público-alvo principal é formado por iniciantes neste mercado de penetração tão difícil.

OBITUÁRIO: Notícias tristes na tradução literária

postado em 7 de fev de 2013 13:17 por Rafa Lombardino   [ 7 de fev de 2013 13:18 atualizado‎(s)‎ ]

Leda Mileva 
―escritora, editora, tradutora e ex-embaixadora da Bulgária― faleceu no dia 5 de fevereiro, quando completou 93 anos. Filha do poeta búlgaro Geo Milev, foi subdiretora do Departamento de Imprensa e Cooperação Cultural do Ministério das Relações Exteriores e representante permanente da UNESCO Paris. Foi também presidente do Sindicato Búlgaro de Tradutores.
>> Mais informações [em inglês] disponíveis pela agência de notícias de Sofia Novinite.com

Anselm Hollo ―poeta, professor e tradutor― faleceu dia 29 de janeiro em Boulder aos 79 anos. Trabalhava com inglês e finlandês e recebeu o Prêmio de Tradução Haold Morton Landon em 2004 pela Trilogia de Pentii Saarikoski.
>> Mais informações [em inglês] no jornal The Independent

Xu Liangying ―defensor chinês dos direitos humanos, físico e tradutor do trabalho de Albert Einstein― faleceu dia 28 de janeiro em Pequim aos 92 anos. Sua tradução de "The Collected Works of Albert Einstein" (《爱因斯坦文集》) é atualmente a versão mais abrangente em chinês do trabalho de Einstein.
>> Mais informações [em inglês] no jornal The New York Times

Lucien Stryk ―poeta, professor, veterano da 2ª Guerra Mundial e tradutor― faleceu dia 24 de janeiro em Londres aos 88 anos. Além de ser premiado como poeta e tradutor, em 2009 a Associação Americana de Tradutores Literários (ALTA) criou o Prêmio Lucien Stryk para promover a tradução de literatura asiática para o inglês. 
>> Mais informações [em inglês] no site da Northern Illinois University

Colaboração com o blog Translation Client Zone de Bianca Bold (continuação)

postado em 30 de jan de 2013 08:38 por Rafa Lombardino

Aqui vai uma notinha sobre a minha colaboração em inglês com o blog Translation Client Zone (TCZ) da Bianca Bold, no qual falo sobre os clientes que pedem desconto em traduções.

Parte II acaba de ser publicada hoje, com mais três desculpas que os clientes usam ao pedir desconto nos nossos serviços.

O texto também se transformou em um novo episódio do podcast TCZ, narrado por esta que vos fala ;-)

Se você perdeu a primeira parte que saiu em meados deste mês, aqui está o artigo e o episódio do podcast para você se atualizar.


BOAS NOVAS: Tradução independente de um autor pouco conhecido

postado em 20 de jan de 2013 08:36 por Rafa Lombardino   [ 21 de jan de 2013 08:10 atualizado‎(s)‎ ]

Na terceira contribuição com a coluna BOAS NOVAS, publico hoje o texto de José Geraldo Gouvêa sobre a sua experiência com a tradução independente de The House on the Borderland, de William Hope Hodson.


Explorando "A Casa no Limiar"

Em 2011, convalescendo de uma colecistomia (também conhecida como "operação da vesícula"), iniciei um projeto mais ou menos ambicioso que tinha por objetivo básico me manter distraído das dores dos pontos: uma tradução do romance The House on the Borderland, de William Hope Hodgson, que nunca havia sido publicado em português. O título escolhido foi "A casa no fim do mundo", apesar de eu achar "A casa no limiar" mais bonito e literal (e eu gosto de traduções bem próximas do literal).

Não foi a minha primeira experiência com traduções literárias. Eu também já havia posto no meu blogue versões de contos de Clark Ashton Smith ("Uma noite em Malnéant") e do próprio Hodgson ("Uma voz na noite"), além de uma letra de música ("Minha alma", de Peter Mayer). Além disso, por volta da mesma época, traduzi algumas obras de Howard Phillips Lovecraft para um projeto coletivo de publicação independente em português de suas obras mais conhecidas. Minhas contribuições foram "O depoimento de Randolph Carter", "O habitante das trevas", "Um sussurro na escuridão", "A busca de Iranon" e "O inominável". Sem falar das vezes anteriores em que traduzira, em troca de dinheiro e sem segurar o crédito, vários tipos de textos técnicos.

As razões da escolha deste romance em especial são prosaicas: está em domínio público, eu o estava relendo na época e tinha tempo de sobra. Por tudo isso eu imaginei que o projeto seria digno de alguma atenção — e eu certamente ando em busca de oportunidades para divulgar a existência e o conteúdo do meu blogue, embora não sonhe em viver da remuneração do AdSense.

Quando a tradução começou a sair, em capítulos semanais, algumas pessoas chegaram a me escrever ou a comentar no blogue, tanto com elogios quanto com críticas. Umas ficaram surpresas com a qualidade literária de um texto quase desconhecido, outras me indagaram por que trazer ao público nacional um texto tão "irrelevante literariamente". 

Alguns destes comentários me deixaram até chateado, por que percebi que são muitas as pessoas que atrelam a popularidade à qualidade ou, pior que isso, não veem relevância na literatura em si, a menos que seja "importante" (e importante é o que sai na mídia). Algumas pessoas talvez achassem desimportante traduzir Platão para o português se ele ainda fosse inédito...

REFERENCIAL ― Este desconhecimento da obra de Hodgson é meio injusto, se considerarmos a força da influência que ele exerceu sobre diversos autores posteriores. Não só Lovecraft, mas Stephen King (especialmente em sua série "A torre negra"), Robert E. Howard (o criador de Conan), Clive Barker (autor e diretor de "Hellraiser") e outros. 

Traduzir a obra de Hodgson, portanto, é algo relevante, mas eu não a traduzi pensando em sua relevância ou querendo mudar a história da literatura brasileira. Traduzi porque gostei da obra, porque me deu prazer traduzir, porque aprendi muito no processo. Compartilhei porque eu acredito em compartilhar o conhecimento e porque acreditei que muitas pessoas teriam prazer em ler o que eu havia traduzido com prazer. Felizmente, o tempo foi me mostrando que eu estava certo. Aos poucos a minha tradução vai aparecendo em citações de outros blogues literários. Vai atraindo visitantes, sendo elogiada, sendo fruída com prazer pelos que a descobrem.

Acredito que existem dois tipos de tradutores: os que são pagos para traduzir aquilo que interessa a quem paga e os que traduzem o que querem traduzir. Os primeiros são frequentemente forçados a verter obras que lhes dão desprazer ou com as quais não se identificam. Os segundos têm o prazer, mas depois precisam convencer os outros de que vale a pena difundir, editar ou mesmo meramente ler aquilo que traduziram. 

Já estive dos dois lados. Em certa época de minha vida eu ganhei dinheiro fazendo monografias e traduzindo textos técnicos. Ainda lembro com horror de um longo artigo de uma obra de oncologia que eu tive que traduzir para um estudante de medicina. Algumas frases que eu tive que traduzir ainda assombram alguns de meus pesadelos com muito mais vividez do que os episódios mais cruéis dos filmes de terror mais pesados.

DESCOBRINDO HODGSON ― E traduzir Hodgson certamente é um prazer. Por se tratar de um autor praticamente desconhecido, o tradutor tem um grau de liberdade maior do que aquele que se encontra na tradução de nomes consagrados, de forma que ocasionais emendas não serão vistas como "violações" da pureza do original. O processo se torna criativo, interativo, em vez de uma tentativa mecânica de transcrever em outro idioma o que o autor disse. E olha que tem muita gente traduzindo mecanicamente texto literário, tanto quanto há quem escreva mecanicamente e diga que é literatura.

Hodgson é, também, um autor que merece ser traduzido. Se não por suas qualidades intrínsecas, que podem ser experimentadas em contos concisos e interessantes, como o citado «Uma Voz na Noite», certamente pela influência que teve em autores posteriores. Foi, aliás, seguindo a trilha desta que eu comecei a me aproximar dele. 

Tudo começou quando ouvi falar de um romance chamado The Night Land (algo como "A terra noturna", traduzindo com fidelidade ao contexto da história). Havia um sítio dedicado a promover fanfic inspirada nele. Lá encontrei alguns artigos sobre o livro, alguns mapas e ilustrações, algumas fac-símiles de capas. Gostei dos contos ali e logo imaginei que se os fãs andavam escrevendo coisas tão interessantes baseadas na ideia original ela certamente seria boa. Lembrei então que o autor e a obra haviam sido profusamente elogiados por Lovecraft no seu ensaio "O Horror sobrenatural na literatura" e decidi ler. 

Seus conceitos, apesar de desenvolvidos na primeira década do século XX, ainda são originais em face do que se escreve na nossa literatura fantástica, tão dependente de romances americanos da moda. Não chego a afirmar que Hodgson é um clássico esquecido ou um gênio incompreendido da literatura, mas me parece bem óbvio que é um autor que vale a pena ler, mas quase ninguém no Brasil leu. Obtive, então, uma edição eletrônica no Project Gutenberg e mergulhei nas trevas do futuro distante. Isso foi ainda em 2002.

Lendo The Night Land ―que aparentemente está inédito em português― compreendi a relevância de Hodgson para a "literatura fantástica" (aqui um rótulo abrangente para incluir ficção científica, fantasia, terror, mitologia, ficção histórica e outros temas que se cruzam facilmente na obra de seus maiores expoentes). Hodgson foi um pioneiro do que hoje é chamado de new weird, que consiste em justamente empregar com liberdade os temas acima mencionados, e outros inclusive, em uma obra que trafega, inclassificável, entre as fronteiras dos nichos literários. Há cem anos, este inglês mesclava reencarnação, piratas do Caribe, cosmologia, histórias de marinheiro, romances platônicos, literatura gótica, lendas célticas, arquétipos mitológicos, teorias de psicologia, devoção cristã e outras coisas, resultando em um universo caótico e rico.

No caso específico da "A terra noturna", a leitura me impressionou sobretudo porque a imaginação do autor concebeu todo um universo, até mesmo leis físicas próprias, recorrendo à teologia, à cosmogonia, à mitologia e uma ampla variedade de conceitos físicos e metafísicos para contar… uma história de amor. Não uma história de amor qualquer, mas uma que se passa no fim do mundo, em um planeta moribundo, cercado por ameaças inomináveis que podem destruir… a alma.

UNIVERSOS COMPLEMENTARES ― Depois de «A terra noturna» eu fiquei um bom tempo sem ler outras obras de Hodgson até que um dia topei com a resenha de um conto dele que tinha a interessante tese de que a pronúncia correta das últimas palavras de Jesus na cruz seria, na verdade, uma poderosa arma de destruição em massa, capaz de fender os montes, rasgar o véu do templo e abrir as sepulturas ―metáforas para um grande terremoto. Um bandido qualquer tentava por as mãos num pergaminho que explicava a coisa toda e o protagonista tentava impedir. Procurando este conto para ler, deparei-me com The House on the Borderland, que era citado como uma obra complementar do mesmo universo de "A terra noturna". Parei, então, de procurar pelo tal conto sobre as palavras de Jesus e fui ler Borderland.

Existem, de fato, semelhanças entre ambas as obras, principalmente no terreno do imaginário (estilisticamente falando elas são bem diferentes, ainda que ambas recorram a um narrador intermediário entre o original e o leitor). Refiro-me a uma cosmologia pessimista, que parece refletir o estado de espírito dos homens da Belle Époque. "A casa no fim do mundo" narra a história de um nobre irlandês (cujo nome não é nunca dito), que se isola em uma antiga e estranha mansão no extremo oeste do país, o chamado Gaeltacht ―região onde todo mundo falava (pelo menos na época em que a história se passa) apenas o gaélico. A casa ele comprara por um preço irrisório, devido à fama de mal-assombrada que lhe havia deixado sem moradores por quase um século.

 
Nesta casa encontramos o narrador, cuja história nos chega através do “manuscrito” achado pelos senhores Tonnison e Berreggnog (uma estranha dupla de ingleses que, sabe-se lá por que motivo, resolveu acampar bem no meio do nada, em uma região da Irlanda cujo povo nem sabia inglês). O narrador se vê então diante de um mistério: a aparição de misteriosas criaturas de aparência suína, que passaram a atacá-lo desde um transe durante o qual obtivera um vislumbre do universo. 

Acompanhamos este irlandês sem nome, que ali vive sozinho com uma irmã mais velha, chamada somente de “Mary”, enquanto enfrenta os tais caras de porco. Depois o seguimos em suas explorações do terreno e, ao seu lado, fazemos interessantes descobertas sobre sua casa até, por fim, mergulharmos com ele em um gigantesco pesadelo cósmico que vai além de tudo quanto podemos imaginar e cujas consequências fogem não apenas às leis básicas da ciência, como vão até contra os princípios mais comuns da lógica narrativa.

Tão poderosa e estranha é a narrativa da segunda parte do romance, cujo tom quase psicodélico deixa o leitor a maior parte do tempo “sem chão”. Não são poucos os leitores que a rejeitam, não são poucos os que dizem que o romance “teria sido melhor” caso tivesse somente a primeira parte. Gosto é gosto, uma afirmação tautológica até inútil, mas é verdade que, sem a segunda parte, o romance seria bem menos interessante, seria só uma história de horror comum sobre um esquisitão recluso enfrentando porcos espertos. Certamente menos interessante do que o redemoinho de ideias a que a segunda parte tenta nos levar.

Boa parte do cenário que serve de base para «A Terra Noturna» é reaproveitado, mas em uma história de escopo muito mais amplo e universal, literalmente. Entre as semelhanças temos o encontro de uma estrutura misteriosa e grande em um terreno hostil (o "último reduto" em «A terra noturna» e a mansão misteriosa em "A casa no fim do mundo"). Este tipo de estrutura se tornou com o tempo um tema recorrente na literatura fantástica, a ponto de receber uma denominação, "arcologia" (em inglês "arcology"), popularmente referida pelos fãs como B.D.O. ("big dumb object" ou "grande objeto estúpido"). Famosas histórias que envolvem o conceito são o filme "2001: Uma odisseia no espaço", o romance "Ringworld", de Larry Niven e a parte inicial do filme "Alien".

Apesar das limitações do estilo do autor, que não tinha a prosa fácil de Edgar Allan Poe ou a erudição calculista de Lovecraft, o romance consegue causar uma impressão profunda, graças à originalidade do argumento, a ousadia com que a história é estruturada e o cenário absolutamente massacrante no qual os personagens interagem com o enredo. O ar sinistro, carregado de fatalismo e de inércia que se abate sobre o protagonista faz com que esperemos a cada minuto algum tipo de reviravolta. Algumas sequências, como a visita à caverna à borda do lago, são realmente sufocantes.

Se em "A terra noturna" tínhamos um herói a mover-se por um mundo cheio de ameaças, em busca de um amor quase impossível, neste romance temos um herói imóvel cujo mundo se move em torno de si! Numa obra o amor do passado espera no futuro, através do milagre da reencarnação; na outra o amor do passado existe apenas como uma vaga lembrança, uma voz profética do subconsciente que tenta despertar o protagonista de sua modorra e fazer com que pelo menos tente salvar-se do inevitável. Nas duas obras o começo e o fim se encadeiam como a serpente mitológica que mordia o rabo: em ambas o prazer não está na surpresa do fim, inexistente, mas na força do conjunto. São livros que nos agradam pela experiência da leitura, não pelos sobressaltos da emoção ao antecipar o que poderá acontecer. 

Desde que li "A Terra Noturna", e mais ainda desde que li "A casa no fim do mundo", a minha narrativa se contaminou um pouco com o estilo pesado de Hodgson e eu me aproximei de sua visão cosmogônica pessimista. Descobri com ele que o mundo não tem salvação, mesmo que a danação esteja milhões de anos no futuro.


JOSÉ GERALDO GOUVÊA é graduado em História e pós gra­du­ado em Desen­vol­vi­mento Regio­nal Sus­ten­tá­vel. Pro­fes­sor por for­ma­ção, escri­tor ama­­dor, ban­­cá­rio por pro­­fis­­são, atle­­ti­­cano por des­­tino, român­­tico de cora­ção. Teve um de seus contos traduzido para o inglês ao participar da coletânea Contemporary Brazilian Short Stories Vol. 1 (2011-2012).

NOVIDADE: Cheguei à metade de "Mahko's Knife"

postado em 18 de jan de 2013 08:25 por Rafa Lombardino

Depois de dedicar 78 horas à tradução para o português de "Mahko's Knife" de John O'Dowd desde agosto, acabo de completar 50% do projeto mantendo uma produção de 768 palavras por hora. Quase cheguei nas 60 mil palavras do total de 117.747 deste suspense que segue um ritmo acelerado e se passa em Colorado e no México.

Mahko é um índio apache, fugitivo da lei e com treinamento militar. Ele está tentando proteger seus entes queridos do fogo cruzado entre dois cartéis do tráfico de drogas enquanto, ao mesmo tempo, tenta evitar as autoridades e os mercenários que estão na sua cola para levá-lo de volta para a cadeia.

O que está consumindo grande parte do meu tempo dedicado a pesquisas são termos relacionados a armas de fogo. Tenho visto várias fotos e lido diversas descrições para ter certeza de que a minha tradução vai representar com exatidão os componentes e modelos das armas mencionadas no original.

Logo trago mais novidades sobre o andamento da tradução de "Mahko's Knife" para o português!

Colaboração com o blog Intralingo, de Lisa Carter (continuação)

postado em 16 de jan de 2013 09:24 por Rafa Lombardino

Aqui vai uma notinha sobre a minha colaboração com o blog Intralingo, de Lisa Carter, no qual eu falo um pouco sobre como é traduzir para escritores independentes. 

2ª parte acaba de ser publicada, trazendo mais informações gerais sobre formatos de livros eletrônicos, plataformas de publicação, processos de pós-edição e marketing pelas mídias sociais.


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