O Ensino da Leitura: A Decifração

Autor: SIM-SIM, Inês

Título: Brochura PNEP, O Ensino da  Leitura: A Decifração

Edição: Ministério da Educação. Direccção Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular, 1ª Edição, Maio 2009.

 

RESUMO

A decifração é um processo de leitura que resulta da relação entre uma sequência de letras e a respectiva sequência de sons.

Ler é uma competência linguística que tem como base fulcral o conhecimento da linguagem oral e a sua representação gráfica. Contudo, para que um leitor seja fluente é fundamental que sejam activadas estratégias, distintas, mas complementares, que correspondam, eficazmente, às necessidades de decifração. Estas estratégias podem ser se acesso directo ou indirecto. Directo, quando o leitor está familiarizado com a palavra e antecipa a que se segue. Esta via, via lexical, é automática, rápida e global.

Por outro lado, a estratégia de leitura indirecta, ocorre quando o leitor não reconhece automaticamente a palavra escrita e activa a via sublexical, ou seja, a leitura resulta da correspondência som/grafema, ocorrendo uma tradução fonológica, descodificação sílaba a sílaba.

A aprendizagem destas estratégias compreende um conhecimento, indispensável e determinante da língua de escolarização, bem como da sua representação gráfica, que no caso de Portugal, é o alfabeto.

Isto significa que a escrita tenta reproduzir por sequência de letras os sons produzidos na oralidade, como forma de criar padrões fonológicos, ou seja, palavras, e que contêm um determinado significado.

 Uma decifração rápida, automática e eficiente, resulta de um processo que compila a pronúncia, o significado e ortografia da palavra. Para isso, é necessária memorização da sequência de letras na palavra, de forma a sintetizar os caminhos de acesso à leitura, determinado pela frequência com que o leitor vê a palavra escrita.

O ensino da leitura implica a aplicação de metodologias explícitas, consistentes e sistematizadas, por parte do professor, de forma a tornar a criança detentora da capacidade de mobilizar as estratégias fónica e global, uma vez que apresentam igual relevância no processo de leitura.

Antes do ensino formal da leitura/escrita, aprendizagem dos caracteres do alfabeto, a criança já esteve em contacto com a linguagem escrita.

As crianças descobrem precocemente alguns princípios da escrita, quando colocadas em contacto com a mesma – comportamentos emergentes de leitura. Este processo antecede o ensino formal da decifração, favorecendo o sucesso na aprendizagem posterior da leitura.

A criança descobre, ao ouvir ler, que o conteúdo escrito contém informação, serve um propósito e é revelado pela linguagem oral. Tais descobertas só ocorrem quando estas “leituras” são regulares para a criança e quando se conversa sobre o que lhe foi lido, e quando a criança manipula material escrito.

Desta forma as crianças adquirem conhecimentos sobre: o acto de ler; a estrutura do livro e respectivo manuseamento; e algumas características físicas da escrita.

A literacia da família e do jardim de infância são determinantes na capacidade de aprendizagem formal da leitura, pois influenciam a vontade de aprender a ler. Tal como o contacto com falantes da mesma língua e contexto social, pois pesam nas aquisições fonológicas, estruturas sintácticas e conhecimento lexical.

Nesta fase que antecede o ensino formal da decifração, é determinante que a criança desenvolva um conjunto de capacidades associadas ao desenvolvimento de comportamentos de emergência de leitura: linguagem oral (na língua de escolarização) e consciência fonológica.

Durante o ensino formal, e sobretudo na sua iniciação, desenvolve-se a compreensão do alfabeto e a estrutura da escrita, desde da sua forma mais elementar até à sua construção mais complexa, visando sempre a automaticidade da decifração. Esta é fundamental para a compreensão de texto, uma vez que favorece a leitura global, maior captação do sentido das palavras e do texto e activação da via sublexical, sempre que necessário.

O sucesso da decifração cabe ao professor, enquanto promotor de saber e aos alunos, enquanto, sujeito de aprendizagens.

É, por isso, fundamental que os professores dominem o processo da decifração e todas as etapas inerentes, pois cabe-lhes a função de adoptarem as melhores metodologias possíveis de forma a formar leitores fluentes.

O professor, enquanto promotor de saberes deve conseguir conduzir as crianças, no sentido de desenvolver e proporcionar ferramentas, de forma a que sejam capazes de executar e aplicar as aprendizagens apropriadas e traduzi-las em conhecimentos aplicáveis.

É de salientar, a importância que a língua de escolarização desempenha em diversas aprendizagens, sobretudo em crianças, cuja língua materna difere da que é promovida em contexto escolar e de aprendizagens.

A língua de escolarização, normalmente, língua oficial do país de ensino, caracteriza-se por ser, não só, objecto de ensino, como simultaneamente, meio de comunicação e veículo de todas as aprendizagens.

No caso de crianças de língua materna diferente da de escolarização, a aprendizagem da leitura e da escrita torna-se bastante mais complicada. A língua portuguesa apresenta características diferentes das outras línguas estrangeiras, ainda que possa ter algumas semelhanças, com certas língua, e muitas diferenças com a maioria. Estas diferenças não só se reflectem na morfologia, fonologia da língua, como também, nalguns casos, na sua representação gráfica.

Uma vez que o conhecimento da língua de escolarização é fulcral para o ensino da leitura e da escrita, torna-se imprescindível o trabalho de aprendizagem da língua oficial de ensino, para só então, mais tarde, se iniciar o processo de decifração.
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Rita Morais Sarmento Matos,
17/06/2011, 11:52
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