Regionalismo de 1930

Prof. Cavalcanti

O REGIONALISMO DE 1930.

DESTAQUES: JOSÉ LINS DO REGO E GRACILIANO RAMOS

Camillo Cavalcanti (UESB)

 

1. Definição.

 

            O regionalismo modernista compreende as manifestações literárias cuja “realidade literária se inspire e se ampare em um plano físico e social determinados, que aparece como sua contraface.”[1]. Entretanto, esta definição trata somente do regionalismo, devendo ser acrescida do corte temporal PÓS-“Semana de Arte Moderna de 1922” para se completar na expressão regionalismo modernista.

            Esta noção é muito importante para o entendimento de ambos os fenômenos: regionalismo e modernismo, já que existe regionalismo antes do modernismo, como também há modernismo sem regionalismo.

 

 

2. Problemas conceituais.

 

            Como já referido, o regionalismo não é fruto direto do modernismo, e por isto eclode em outras épocas. Exemplos na literatura brasileira podem ser citados: a) de feição romântica, José de Alencar (Mecejana, CE – Rio de Janeiro, 1877) e Franklin Távora (Baturité, CE, 1842 – Rio de Janeiro, 1888); b) de influências realistas, Domingos Olímpio (Sobral, CE, 1860 – Rio de Janeiro, 1906), Inglês de Souza (PA, 1853 – Rio de Janeiro, 1918)[2].

            Além dessa questão, há de se indagar o etnocentrismo que subsiste na aplicação do conceito de regionalismo, pois, uma vez sendo a “obra-contraface” de um determinado espaço físico e social, os romances urbanos também deveriam receber tal conceituação quando contrafaces diretas de topônimos, hábitos e fatos paulistas, cariocas ou de qualquer outra metrópole.

 

 

3. Quantos regionalismos há na literatura brasileira?

 

            Toda vez que se puder distinguir uma região, pela sua peculiaridade, do restante do país, e nessa mesma região se identificar uma literatura que permite a representação da singularidade topográfica, política ou cultural do local, então haverá regionalismo.

            Assim a pergunta parece estar simplificada: quantas regiões existem no Brasil? Ledo engano: oficialmente, Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste; mas essas macro-regiões possuem diferenças marcantes de uma localidade para outra (note-se a diversidade cultural entre RJ, SP e MG).

            Desse modo, observem-se os diversos regionalismos:

 

a) regionalismo de São Paulo: Antônio de Alcântara Machado

b) regionalismo do Rio de Janeiro: Lima Barreto

c) regionalismo do Mato Grosso: Mário Palmério

d) regionalismo do Rio Grande do Sul: Érico Veríssimo

e) regionalismo de Minas Gerais: Guimarães Rosa

f) regionalismo da Amazônia: Peregrino Júnior.

 

 

4. O regionalismo nordestino sobressai aos demais.

 

            No entanto, a visão que se tornou oficial e, portanto, de maior prestígio diz respeito ao I Congresso Brasileiro de Regionalismo, ocasião que Gilberto Freyre encontrou para lançar o Manifesto Regionalista de 1926 — tudo isto pela força que o evento logrou nos círculos intelectuais.

            A preocupação maior de Gilberto Freyre (Recife, 1900 – Recife, 1987), ainda que levantasse a bandeira do regionalismo, residia nas questões, motivos, costumes nordestinos. Centrava-se no regionalismo nordestino, e não noS regionalismoS.

            Ocorrido em Recife, o Congresso contou com a participação de Joaquim Inojosa, que afirma ter Gilberto Freyre apenas redigido o Programa do Centro Regionalista, muito longe do manifesto apresentado por ele em 1952.[3]

            Em todo o caso, foi o regionalismo nordestino que ocupou maior espaço nas letras nacionais na década de 30, se não pelo Manifesto, ao menos pelo Programa ou pelo próprio Congresso que muito repercutiu na capital federal (à época, Rio de Janeiro) e em São Paulo.

 

 

5. Autores principais do ciclo nordestino: Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

 

5.1. José Lins do Rego (Pilar, PB, 1901 – Rio de Janeiro, 1957)

 

RESENHA BIOGRÁFICA:

É um dos autores mais importantes da literatura regionalista brasileira. Em livros como Menino de Engenho (1932) e Fogo Morto (1943), retratou a decadência do patriarcalismo no Nordeste do Brasil. Parte do mesmo grupo intelectual que Rachel de Queiroz e Jorge de Lima, José Lins foi um dos principais interlocutores de Gilberto Freyre, que o incentivou a escrever seu primeiro livro. Formado em direito em Recife em 1923, o autor colaborou com assiduidade na imprensa nordestina, principalmente com artigos sobre literatura. Nomeado fiscal do imposto de consumo, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1935, onde residiria até a morte. Na então capital da República, escreveu para os jornais dos Diários Associados, O Globo e Jornal de Esportes. Fanático por futebol, exerceu também cargos de direção no Clube de Regatas do Flamengo, na Confederação Brasileira de Desportos e no Conselho Nacional de Desportos. Sobre sua atividade de cronista, o crítico Valdemar Cavalcanti escreveu: "José Lins tornou-se no Rio uma espécie de cronista da cidade: aquele que seria capaz de denunciar o estrago que faziam os urubus na paisagem da lagoa Rodrigo de Freitas; capaz de alertar prefeito e vereadores quanto a determi-nado projeto de lei que poderia vir a prejudicar interesses do povo; capaz de botar a boca no mundo contra uma derrubada de árvores, contra um ato injusto ou uma iniciativa infeliz."

Fonte: Itaú Cultural www.itaucultural.org.br

 

 

OBRA:

ROMANCE: Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); O moleque Ricardo (1935); Usina (1936); Pureza (1937); Pedra Bonita (1938); Riacho Doce (1939); Água-mãe (1941); Fogo morto (1943); Eurídice (1947); Cangaceiros (1953); Romances reunidos e ilustrados, 5 vols. (1980).

MEMÓRIAS: Meus verdes anos (1956).

LITERATURA INFANTIL: Histórias da velha Totônia (1936).

CRÔNICA: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homens, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954); Presença do Nordeste na literatura brasileira (1957); O vulcão e a fonte (1958).

VIAGEM: Bota de sete léguas (1951); Roteiro de Israel (1955); Gregos e troianos (1957).

FILMES: Pureza, direção de Chianca de Garcia (1940); Menino de engenho, direção de Valter Lima (1965); Fogo morto, direção de Marcos Farias (1976).

Fonte: Academia Brasileira de Letras www.academia.org.br

 

 

5.2.Graciliano Ramos (Quebrângulo, AL, 1892 – Rio de Janeiro, 1953).

 

RESENHA BIOGRÁFICA:

É um dos expoentes da geração de 30 do Modernismo e um dos maiores prosadores brasileiros. Vidas Secas (1938) e São Bernardo (1936), seus romances mais conhecidos, são marcos da lite-ratura nacional em razão da limpidez da forma e da profundidade com que examinam a influên-cia do meio - o sertão nordestino - sobre os personagens que o habitam. Sua atuação na im-prensa começou em 1905 em Alagoas. Em 1914, morando no Rio de Janeiro, trabalhou como re-visor dos jornais cariocas Correio da Manhã, A Tarde e O Século. Nessa época, colabora ainda no periódico fluminense Paraíba do Sul e no Jornal de Alagoas. De volta a Alagoas, Graciliano traba-lhou como jornalista, comerciante e estabeleceu contato com escritores nordestinos então em evidência, como José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Em 1927, foi eleito prefeito da cidade de Palmeira dos Índios. Em 1936, quando era diretor da Instrução Pública de Alagoas, foi preso sob acusação de subversão comunista. A detenção durou 11 meses e serviu de base para o livro Memórias do Cárcere (1955). Depois de solto, o autor voltou a viver no Rio de Janeiro, onde continuou a exercer as funções de jornalista e inspetor de ensino. Suas crônicas estão reunidas nos volumes Linhas Tortas (1961) [!] e Viventes das Alagoas (1962), publicados postumamente.

Fonte: Itaú Cultural www.itaucultural.org.br (com data discordante do site oficial para Linhas Tortas)

 

OBRA:

1933: Caetés (romance); 1934 São Bernardo (romance); 1936 Angústia (romance); 1938 Vidas Secas (romance); 1939 A Terra dos Meninos Pelados (conto infanto-juvenil); 1942 Brandão Entre o Mar e o Amor (romance); 1944 Histórias de Alexandre (contos do folclore infanto-juvenil); 1945 Infância (memórias); 1946 Histórias Incompletas (contos); 1947 Insônia (contos); 1953 Memórias do Cárcere (memórias - 2 volumes); 1954 Viagem (crônicas); 1962 Linhas Tortas (crônicas); 1962 Viventes das Alagoas (quadros e costumes do Nordeste); 1962 Alexandre e outros Heróis (contos e outros); 1980 Cartas (correspondência); 1984 O Estribo de Prata (infantil); 1992 Cartas a Heloísa (correspondência).

Fonte: Graciliano Ramos – Site Oficial www.graciliano.com.br

 

 

6. Discussão crítica.

 

            O regionalismo, encarado como fronteira identitária, assume um caráter localista que tende a rejeitar os intercâmbios culturais, constituindo-se, dessa forma, uma identidade fechada, i.e., uma organização social, política e culturalmente etnocêntrica da comunidade, a exemplo do que ocorreu no Congresso Brasileiro de Regionalismo, em que, por mais que se esperasse um diálogo com outras identidades regionais minoritárias, apenas se defendiam os interesses do Nordeste, mais especificamente de Recife.

            Nesse sentido, devem-se investigar nas obras de Graciliano Ramos e José Lins do Rego as categorias regionais não apenas como topos específico da região, mas como representação de tensões mais universais, ou seja, próprias de todos nós.

 

6.1. Graciliano Ramos

 

a) Visão geral e Interpretação de São Bernardo.

 

CANDIDO, Antonio. [Trechos escolhidos]. in: ---. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio

de Janeiro: Editora 34, 1992. (p. 29-33; 71-79)

 

c) Interpretação de Vidas Secas.

 

CASTRO, Manuel Antônio. As faces do trágico em Vidas Secas. in: ---. Travessia poética. Rio de Janeiro:

Tempo Brasileiro/ INL, 1977.

 

6.2. José Lins do Rego.

 

a) Visão geral.

 

LIMA, Luiz Costa. José Lins do Rego. in: COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil. Niterói: Eduff/

Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. (V, 341-364)

 

b) Interpretação de Menino de Engenho e Meus verdes anos.

 

LINHARES, Temístocles. Um contador de histórias. in: ---. História crítica do romance brasileiro. Belo

Horizonte: Itatiaia/ São Paulo: Edusp: 1987 (II, 231-268)

 

 

7. Trabalho.

 

            Apresentar uma leitura particular de um ou mais romances estudados em aula, com apoio nos estudos críticos referenciados, objetivando entender, entre as vidas rural e urbana, as diferenças que são manipuladas de forma a gerar exclusão.

 

“ELE SI VESTI IGUAL UM PARAÍBA! QUEM QUÉ FICÁ CUM ELE?”

 

            Aponte razões desses estereótipos e proponha modos de intervir nessa questão de identidades.

Prazo: 2 semanas (13 de maio)

 

 

8. Próxima aula.

 

            Para concatenar as conclusões da atividade acima mencionada, ler o que falta dos textos listados no item 6 para discussão em aula — partindo do sertão em todos nós — sobre a crise por que passa o sujeito quando não compreende diferenças entre si e um outro “imprevisto”, “inusitado” e “indeclinável”, bem como quando não entende a subjetividade alheia. E por isso, sua própria crise interna, enquanto sujeito isolado.

ROMANCES ESTUDADOS

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro:

---. São Bernardo. São Paulo: Martins, 1967.

REGO, José Lins do. Meus verdes anos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.

---. Menino de engenho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

ADONIAS FILHO. O romance de 30. Rio de Janeiro: Bloch, 1969.

CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

CASTRO, Manuel Antônio. As faces do trágico em Vidas Secas. in: ---. Travessia poética. Rio de Janeiro:

Tempo Brasileiro/ INL, 1977.

FREYRE, Gilberto. 10. Manifesto regionalista de 1926/1952. in: TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda

européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1997.

LIMA, Luiz Costa. José Lins do Rego. in COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil. Niterói:

Eduff/Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. (V, 341-364)

LINHARES, Temístocles. Um contador de histórias. in: ---. História crítica do romance brasileiro. Belo

Horizonte: Itatiaia/ São Paulo: Edusp: 1987 (II, 231-268)

MARTINS, Wilson. O Manifesto Regionalista que não houve. in: Jornal de Poesia. http://www.secrel.com.br/jpoesia/wilso28.html

 

BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA

BRAYNER, Sônia. Graciliano Ramos. in: COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil. Niterói:

Eduff/Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. (V, 389-408)

CARPEAUX, O brasileiríssimo José Lins do Rego; Visão de Graciliano. in: ---. Reflexo e realidade: ensaios.

Rio de Janeiro: Fontana, [1976?]

CARVALHO, Lucia Helena. A ponta do novelo (uma interpretação de Angústia, de Graciliano Ramos). São

Paulo: Ática, 1983. (ensaios 96)

COUTINHO, Edilberto. O romance do açúcar: José Lins do Rego, vida e obra. Rio de Janeiro: José

Olympio/ INL, 1980.

LIMA, Luiz Costa. A reificação de Paulo Honório. in: ---. Por que literatura? Petrópolis: Vozes, 1966.

LINHARES, Temístocles. Do sofrimento, da pobreza, da revolta. in: opus cit, p. 191-230.

STEGAGNO-PICCHIO, Luciana. História da literatura brasileira (2ª ed. revista e ampliada). Rio de Janeiro:

Aguilar, 2004. (co-edição: Academia Brasileira de Letras; Lacerda)



[1] LIMA, Luiz Costa. José Lins do Rego. in COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil. Niterói: Eduff/Rio de Janeiro: José Olympio, 1986 (V, 363)

[2] sobre os regionalismos do século XIX e início do XX, consultar: ADONIAS FILHO. [Prólogo]. in: ---. O romance brasileiro de 30. Rio de Janeiro: Bloch, 1969. (p. 11-17)

[3] Cf. FREYRE, Gilberto. Manifesto regionalista de 1926/1952. in: TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1997 (p. 343-345); MARTINS, Wilson. O Manifesto Regionalista que não houve. in: Jornal de Poesia. http://www.secrel.com.br/jpoesia/wilso28.html

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