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Gênesis

INTRODUÇÃO AO LIVRO DE GÊNESIS

 Tábua de conteúdos:

INTRODUÇÃO

·  I. O LIVRO: ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

1. Título

2. Conteúdo e Estrutura
3. Gênesis e a Bíblica
4. História da Interpretação
a) Interpretação tradicional
b) Interpretação da crítica literária
c) Interpretação da crítica da forma e da história das tradições
d) A reação conservadora
e) Situação atual
II. O LIVRO: ASPECTOS LITERÁRIOS

·  1. Gêneros Narrativos

a) A Histórica cosmologico-antropológica
b) A Saga
c) A Novela de José
2. Composição Literária
a) A Hipótese documental
b) A Hipótese histórico-tradicional
c) A Hipótese dos onze tabletes
III. A ÉPOCA: ASPECTOS HISTÓRICOS

·  1. Autoria

2. Data e local de origem
3. Contexto histórico
4. Data e historicidade das narrativas
a) Narrativas da história primeva
b) Narrativas patriarcais
IV. A FÉ: ASPECTOS TEOLÓGICOS

·  1. Narrativas da história primeva

2. Narrativas da história patriarcal
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO

A introdução crítica aos livros da Bíblica é a tarefa preparatória da exegese crítica; seu propósito é levantar através de critérios críticos e portanto científicos o conjunto de dados necessário para reconstruir o contexto da obra em todos os campos do conhecimento que interessam à exegese, basicamente o contexto histórico, literário e teológico. Essa é proposta do presente trabalho: chegar a algumas definições a respeito da estrutura literária, composição, origem histórica e importância teológica.

I. O LIVRO: ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

1. Título

Os judeus nomearam o primeiro livro de Moisés com sua primeira palavra, bereshith, ("no princípio"). Na LXX é chamado genesiV em razão da palavra grega usada para traduzir o hebraico toledoth (gerações, cf. Gn 2.4). O nome passou à vulgata como transliteração (Liber Genesis) antes de chegar até nós.

2. Conteúdo e Estrutura

Todos os autores consultados concordam que o livro de Gênesis compõe-se basicamente de duas grandes seções; a primeira, Gn 1.1-11.26, consiste na história primeva, compreendendo os relatos da criação do mundo e do homem (Gn 1), paraíso e queda (2-3), descendência de Adão e saga de Caim e Abel (4-6), o dilúvio, Noé e seus descendentes (5.28-10.32), descendência de Sem e a construção da torre de babel (11.1-26). A segunda seção, (Gn 11.27-50.26) contém as histórias dos patriarcas, Abraão (Gn 11.27-25.18), Isaque e Jacó (25.19-37.2) e José (37.2-50.26). Além dessa divisão fundamental, foram propostas outras subestruturas para o livro. Clyde Francisco (1), LaSor-Hubbard-Bush (2) e Derek Kidner(3) entendem que o livro divide-se em seções iniciadas pela fórmula toledoth ("São estas as gerações de...") que ocorre 11 vezes, em 2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10; 11.27; 25.12; 25.19; 36.1; 36.9; 37.2. Na divisão básica de Francisco, temos a primeira seção tratando a criação (cf. 2.4) e as outras nove da descendência de Adão até Jacó em nove gerações; em sua opinião essa estrutura reflete a intenção do autor final de arranjar o material "num padrão unificado". (4) Seria natural esperar que essa divisão fosse um indício de propósitos teológicos; mas embora reconheçam essa estrutura natural por gerações, tanto Francisco(5) como IAT(6) e Kidner(7) preferem estruturar o conteúdo em torno de seus motivos mais importantes. Essa posição tem a seu favor o peso de Westermann, que observou em Gen 12-50 três grandes ciclos de formatos diferentes e organizados em torno de motivos claramente distintos: o ciclo de Abraão tratando da progressão de pais aos filhos, formado de histórias individuais (Gn 12-25), o ciclo de Jacó-Esaú da relação entre dois irmãos, dominado por um grande grupo de narrativas (Gn 25-36) e o ciclo de José de vários relacionamentos familiares, consistindo de uma única grande narrativa (Gn 37-50). (8) Eugene Maly apresenta um esboço semelhante da história patriarcal em três ciclos. (9) De fato, desde que as gerações de Ismael e Esaú tem importância secundária na linha narrativa, e a história de Isaque parece fazer parte da história de Abraão, parece correto seguir essa tendência e considerar que nove das ocorrências de toledoth dividem o livro em dez seções, mas no total temos oito motivos mais importantes, sendo cinco na primeira parte e três na segunda parte, conforme o quadro 1. (10)

Qual é então o sentido da evidente divisão natural em seções a partir dos "toledoth"? Uma possibilidade é a de que o autor de gênesis compôs o livro a partir de tradições orais que sempre incluíam as genealogias; Kidner comenta que "algumas das características da tradição oral ... trazem gênesis à mente." (11) Aqueles que defendem um processo complexo na formação de gênesis, simplesmente responderiam que as narrativas não constituem um todo pleno de sentido, nem um plano unificado de construção, mas são resultado de "diversas mãos" (12). Se for esse o caso, tratar-se-á de um problema de composição do livro.

 

QUADRO 1: ESBOÇO DE GÊNESIS

 

I. A HISTÓRIA PRIMEVA (1-11)

II. A HISTÓRIA PATRIARCAL (12-50)

Motivo

Criação

Prova e Queda

A Humanida-de sob o Pecado

O Dilúvio (O Mundo sob Juízo)

Os Patriarcas depois do Dilúvio (Repovoa-mento e reincidência no pecado)

Abraão e sua Família

Jacó e seus Filhos

José e seus Irmãos

Divisão

1.1-2.4a

2.4b-4.26

5.1-32

6.1-11.9

11.10-26

11.27-25.18

25.19-37.1

37.2-50.26

Genea-logias

2.4a

Os céus e a terra

 

5.1

Adão e seus descenden-tes

10.1

Filhos de Noé

11.10

Sem e seus descenden-tes

11.27

Terá e sua famí-lia

25.12

Ismael e seus des-cen-den-tes

25.19

Isaque e sua família

39.1,9

Esaú e seus des-cen-den-tes

37.2

Jacó e sua famí-lia

                       

3. Gênesis e a Bíblia

É imediatamente evidente que gênesis não se apresenta por si mesmo na bíblia. Desde o princípio fez parte do Pentateuco, e a edição final original provavelmente não estava dividida em quatro volumes. Tal divisão tem razões outras posteriores; no entanto não se pode negar que o texto de gênesis consiste numa seção distinguível do restante do Pentateuco, na medida em que apresenta uma introdução necessária à história da libertação de Israel para a aliança. (13) Os elementos históricos e teológicos básicos como a criação, a queda e a aliança de Deus com Abraão (Gn 12.1-3) fazem parte dos princípios e estendem seu sentido não só para dentro do Pentateuco, mas para além dele, na medida em que constituem a razão de toda a história da salvação e motivo teológico do restante da escritura; e a forte presença de seus temas no NT nos permite dizer sem exagero que "Gênesis está de várias maneiras quase que mais perto do Novo Testamento do que do Velho". (14)

4. História da Interpretação

a) Interpretação tradicional

A abordagem tradicional dominou até cerca de 1850. Essa abordagem via as narrativas de gênesis como historiografia a respeito dos princípios do mundo e da história patriarcal, aceitava a autoria mosaica sem restrições e tendia a isolar os três primeiros capítulos do restante da história primeva. É certo que houveram vozes discordantes como Irineu, Ibn Ezra e alguns pensadores iluministas, (15) mas a abordagem permaneceu dominante.

 b) Interpretação da crítica literária

Em 1753 Jean Astruc dividiu o Gênesis em dois ou três fios narrativos paralelos com base nos nomes de Deus, assentando o fundamento da crítica literária e abrindo caminho para os estudos de Eichhorn e Michaelis, que deram forma à hipótese documental. Alexander Geddes e outros construíram uma hipótese que dava grande ênfase à diversidade considerando o Pentateuco uma coleção de diversos textos autônomos (e não obras literárias), chamada hipótese fragmental. Uma terceira alternativa, a hipótese complemental, surgiu a partir de De Wette (1805) que procurava combinar as soluções antecedentes atribuindo novamente certa unidade ao Pentateuco.

Após cerca de 100 anos de indefinição, exatamente em 1853, Hupfeldt apresentou a teoria das quatro fontes, ou JEDP (Javista, Eloísta, Deuteronômica e Sacerdotal), posta em sua forma clássica na segunda metade do século XIX por Graf e Wellhausen. Usando o método histórico crítico, a história primeva e patriarcal foi tratada como um problema puramente literário, composta de (no caso de gênesis) três grandes obras literárias e sem fundamento na realidade histórica, como motivos lendários e míticos. Naturalmente a autoria mosaica foi rejeitada e a data distribuída por diversos momentos e lugares da história de Israel. Essa posição dominou quase sem qualificativos até cerca de 1920.

c) Interpretação da crítica da forma e história das tradições

A partir de Herrman Gunkel, em 1910 tem início uma abordagem que reconhece que as narrativas do gênesis tiveram uma longa história de transmissão geralmente oral antes da sua fixação por escrito (formgeschichte). Os relatos orais assumiam formas específicas com a finalidade facilitar a lembrança preservar a memória e os costumes da tribo/povo, devendo ser distinguidos do contexto literário e estudados a partir de seu sitz im leben original. Abordagem histórico tradicional (traditiongeschichte) baseia-se na obra de Gunkel mas enfatiza o sentido dos relatos tradicionais em sua forma e contexto final. Essa abordagem permanece negando a autoria mosaica, atribuindo datas avançadas para o Pentateuco e considerando irrelevante a questão da historicidade das narrativas. (16)

d) A reação conservadora

Desde a hipótese fragmental de Geddes fortes críticas surgiram contra as teorias histórico críticas, começando por Ewald em 1823, passando por Kurtz (1846), E. W. Hengstenberg (1802-1869), que "fez muitas críticas devastadoras ao movimento liberal",(17) e em nosso século O.T. Allis e U. Cassuto. As discussões giraram principalmente em torno da questão da autoria mosaica e da historicidade nas narrativas; por isso mesmo questionaram fortemente os critérios usados para isolar as supostas fontes subjacentes; entretanto, embora bem aceitos nos círculos conservadores, não puderam vencer a predominância da hipótese documental.

e) Situação atual

O problema da composição do Pentateuco (e de gênesis) é uma questão ainda em aberto. Críticas fortes (Cassuto, R. Harrison) e alternativas mais conservadoras tem sido apresentadas com aceitação variada, mas aparentemente a hipótese documental ainda vai viver bastante. A crítica da forma e das tradições foi adaptada e absorvida pela hipótese documental, e as abordagens mais conservadoras de Gleason Archer, R.K.Harrison tem sido substituídas por adaptações evangélicas da hipótese clássica, ou da história das tradições, como a obra de LaSor-Hubbard-Bush. No brasil há uma forte tendência nos meios evangélicos históricos à "convivência" com a hipótese documental, motivada pela presença de novos professores mais liberais nos seminários, pela popularização de literatura histórico-crítica (Paulinas, Sinodal) e pela influência crescente dos teólogos metodistas e luteranos no meio evangélico.

II. O LIVRO: ASPECTOS LITERÁRIOS

1. Gêneros Narrativos

A leitura cuidadosa do Pentateuco evidencia uma grande complexidade literária no que se refere aos gêneros utilizados. Esses gêneros envolvem tanto materiais fixados por escrito (ou fontes literárias) como narrativas orais, compondo a pré-história da linha (ou linhas) narrativa. O trabalho de identificação e estudo desses materiais é atribuição da formgeschichte (história das formas), aplicada de forma pioneira ao AT por Hermann. Gunkel, a partir de 1910(18). Werner Schmidt(19) propõe três formas narrativas básicas e três subtipos com total de 6 formas narrativas: (20)

a) A História cosmológico-antropológica

Eissfeldt chama estas narrativas de "mitos",(21) juntamente com H.Gunkel, que conceitua os mitos como "histórias de deuses, ao contrário das sagas, cujos protagonistas são seres humanos".(22) Schmidt adota o termo afirmando que tais narrativas tem a função de fundamentar a cosmovisão e a ordem social(23) (como os mitos gregos). Evidentemente o termo envolve certos posicionamentos a respeito da história e da inspiração, pelo que optamos pelo termo história, embora não negando que a função primária é a mesma do mito. A histórias cosmológico-antropológicas envolvem o relato da criação, a antropogenia de gênesis, a união de deuses com as filhas dos homens (6.1-4) e o dilúvio (6.5-19).

b) A saga

A lembrança do passado não e feita em gênesis em forma de historiografia propriamente dita, mas em forma de sagas com longa história oral antes da fixação escrita, e não historiograficamente precisas. As sagas se apresentam de diversas formas:

b.1. A saga individual: tem um protagonista ou herói que condensa em si aspectos históricos e políticos em forma individual ou de relações familiares, tratando de forma pessoal questões etno-sociais importantes (cf. Gn 25.19ss). A saga tipifica os personagens (Gn12.15ss) e apresenta os motivos decisivos em forma de discurso direto (Gn 26.9ss) no intento de comunicá-los de forma clara e inesquecível.

b.2. Motivos etiológicos: relatos que procuram responder às perguntas sobre as origens de lugares, costumes, nomes e relações étnicas (cf. Gn 19).

b.3. História de santuário: representa um tipo especial de saga e também de etiologia, que "legitima um santuário como local de peregrinação, contando de uma revelação ocorrida naquele local e mostrando desta maneira o caráter sacro do lugar" (24) (cf. Gn 18; 22; 28:10ss; 32.23ss). Tanto Schmidt como Eissfeldt entendem que tais "lendas" tem núcleo provavelmente pré-israelita (ou caananita), deixando claro que carecem de fundamento histórico. No entanto o próprio Schmidt admite que a história narrativa não existe necessariamente em função do motivo etiológico,(25) não havendo assim razões que tornem necessário negar a historicidade dos relatos.

b.4. Ciclos de sagas: quando sagas antigas e autônomas são desenvolvidas ou vinculadas entre si para formar uma unidade maior temos um ciclo de sagas (Abraão-Ló em Gn13ss; Jacó-Esaú em Gn 25,27ss; 32, Jacó e Labão (Gn 29-31). A motivação desse agregamento pode ser tanto a proximidade espacial como o fato de terem o mesmo protagonista.

C) A Novela de José

Trata-se de uma grande narrativa com unidade dramática e trama claramente concebida. Tematiza a soberania de Deus na história e mantém-se silente a respeito de teofanias e milagres; apresenta José como o homem ideal, possivelmente com fins didáticos, em correspondência com a literatura de sabedoria(26)

Além das formas narrativas acima, Eissfeldt incluiria as Listas, que envolveriam as notas genealógicas, listas de reis, enumerações de povos, Tc; os cânticos e provérbios, que não seriam criações mas descobertas dos autores e editores incorporadas ao texto (cf. 25.32; 4.23,24) e as notas folclóricas sem saga, contendo informações etiológicas desvinculadas (22.20-24; 10.9ss); finalmente temos as bênçãos e maldições (cf. Gn 49).

Além da pré-história do texto e das formas antigas, é preciso dar atenção ao livro como produto literário. A primeira parte do livro (Gn 1-11) é caracterizada por dois tipos bem distintos de artifícios literários; o primeiro conjunto privilegia o arranjo esquemático e lógico (Gn 1; 5; 10; 11.10-26) enquanto o outro nos apresenta basicamente narrativa histórica (Gn 2-3; 4; 6-9; 11.1-9)(27). Os relatos tem fortes paralelos com textos mesopotâmicos, indicando relacionamento de gênese (não dependência literária). Como um todo não se trata nem de "mito" nem de história do ponto de vista moderno, mas de algo entre os dois gêneros. O restante do livro (12-50) envolve principalmente sagas bem "linkadas", selecionadas a partir de propósitos teológicos, compondo uma grande narrativa histórica voltada para certos temas fundamentais.

2. Composição literária

Normalmente o evangelicalismo tende a enfatizar a unidade literária e teológica de Gênesis em detrimento da inegável complexidade e diversidade literária. O fato é que existem evidências consistentes de que o livro (e todo o Pentateuco) são o produto final de um processo editorial(28): 1) o caráter duplo da obra, integrando blocos de conteúdo legal à narrativa histórica; 2) descontinuidades na ordem e assunto tratado em vários lugares (Gn 4.26 e 5.1; 19.38 e 20.1); 3) Diferenças de vocabulário, sintaxe e estilo (p.ex. Gn 1 e 2); 4) variação no uso dos nomes divinos em correlação com conceitos teológicos; 5) duplicações de material (Gn 21 e 26); 6) Glosas e anacronismos (Gn 12.6 e 14.14). Para explicar essa complexidade evidente foram desenvolvidas as teorias literárias, das quais examinaremos rapidamente quatro:

a) Hipótese documental

Como já vimos acima em história da interpretação (p. 5), a teoria clássica identifica quatro documentos principais como fontes subjacentes ao Pentateuco, sendo apenas três delas presentes em Gênesis. As fontes são identificadas pelos temas tratados, pelo uso dos nomes divinos, pela duplicação do material e pela teologia (cf. quadro 2).

Embora os estudiosos concordem em linhas gerais com a exposição acima, há discordâncias sobre diversos detalhes. Eissfeldt, por exemplo, faz uma crítica à teoria das três fontes para gênesis e apresenta sua teoria de quatro fontes identificando uma fonte L (laica, em contraste com a fonte sacerdotal) teologicamente relacionada à fonte Javista.(29) Fohrer a denominou N por seu caráter nômade rejeitando a suposta laicidade que Eissfeldt lhe atribuiu. (30) Os mais recentes Homburg(31) e Schmidt tendem a permanecer nos limites da teoria clássica. Há autores evangélicos como Clyde T. Francisco(32) e LaSor-Hubbard_Bush(33) que admitem uma forma adaptada da hipótese documental.

QUADRO 2: FONTES DOCUMENTAIS DE GÊNESIS

FONTE

ORIGEM

TEXTOS

CARACTERÍSTICA

QUERIGMA BASICO

 

 

(em linhas gerais)

 

 

J

Compilada em Judá, ca. 950 a.C.

2-4; 6-11; 12-13; 14; 16; 18-19; 24; 25-27; 29.2-31.24; 44; 46; 28-34; 47; 49; 50.1-14.

1. Destaca a proximidade de Deus.

2. Linguagem antropomórfica.

3. Continuidade do propósito de Deus desde a criação.

4. Usa Iahweh como nome de Deus.

A promessa da bênção para todos a partir de Israel (Gn 12.1-3)

E

Norte de Israel, ca. 800 a.C.

15; 20-22; 28; 29.1,15-30; 30; 31.2-32.1; 33.18-20; 35.1-8; 37; 40-42.

1. Destaca a transcendência de Deus.

2. Importância da mediação profética.

3. Prefere Elohim como nome de Deus em Gn.

A obediência que vem do temor do Senhor (Gn 20.11; 22.1-12; Ex 20.20)

P

Exílio, ca. 550 a.C.

1; 5; 6-11; 17; 23; 26; 28.1-9; 35; 36; 46.6-27.

1. Interesse na origem e natureza das prescrições sacerdotais e cultuais.

2. Ressalta a santidade, soberania e transcendência absoluta de Deus.

3. Ausência de vivacidade narrativa, formulismo e detalhismo.

4. Acentuada-mente literário.

O Senhor da aliança é Santo, e seu povo deve ser santo (Gn 1.29; 9.1; 17; cf. Lv).

JE

Fusão de J e E.

15; 27; 29.2-14, 31-35; 33.1-17.

Presença de ambos os conceitos nem sempre em fusão de idéias mas de textos.

Fusão

b) Hipótese Histórico-Tradicional

Trabalhando sobre a base da formgeschichte de H.Gunkel, Gerhard von Rad entendeu que os redatores do Pentateuco "utilizaram as tradições históricas antigas de Israel de novas maneiras para produzir um Kerigma, isto é, uma mensagem específica para uma época histórica específica." (34)von Rad procurou primeiramente identificar complexos de tradição (traditiongeschichte), e isolou cinco tradições básicas: tradição primitiva, história patriarcal, tradição do êxodo, tradição sinaítica e tradição da ocupação (essa última em Josué, que passou a compor o Hexateuco). As duas primeiras seriam os elementos utilizados em Gênesis. Embora a partir de von Rad alguns eruditos como Rendtorff tenham descartado a hipótese documental,(35) os importantes estudiosos contemporâneos H.W.Wolff e Walter Brueggmann aceitam a hipótese documentária e procuram identificar o querigma das quatro fontes como expressando a dinâmica da fé do povo de Deus diante momentos históricos críticos. As abordagens da crítica das formas e da crítica das tradições em geral aceitam a hipótese documental, mas às vezes procuram outras explicações para a composição do Pentateuco e de Gênesis; os evangélicos LaSor-Hubbard-Bush não somente vêem com bons olhos as idéias de Rendtorff, mas admitem que "...o Pentateuco não foi escrito por uma pessoa em uma década determinada. Antes, é o produto de uma comunidade de fiéis ao longo de muitos séculos." (36) sem com isso basear seu trabalho sobre a teoria JEDP, e apresentam uma abordagem do Pentateuco em blocos (promessa, eleição, livramento, aliança, lei e terra) semelhante à abordagem histórico tradicional. (37)

c) Hipótese dos onze tabletes

D.J. Wiseman, em New Discoveries in Babylonia about Genesis(38) defendeu que a expressão toledoth ("são estas as gerações de..."), discutida acima nas p. 2-4 é um colofão, (39) assinalando sempre o fim de uma seção de narrativa que consistiria em nada menos que os arquivos ou registros familiares de que cuidaram os sucessivos patriarcas. Apesar das críticas de Kidner a Wiseman, (40) Harrison retomou a teoria em sua introdução ao AT e a partir dela desenvolveu uma teoria alternativa. Observando o contexto da expressão toledoth em Gn 5.1 e 37.2 Harrison conclui que ela não pode se referir ao futuro, mas ao passado; como um de seus significados possíveis é "narrativa" ou "memória genealógica", e em 2.4 ela surge com a repetição do título em 1.1, (41) há uma forte possibilidade de toledoth realmente ser um resíduo de colofões e portanto sinal da composição de Gênesis a partir de onze unidades literárias ou tabletes (cf. quadro 3). Evidências em favor dessa hipótese incluiriam a continuidade cultural entre o conteúdo de cada fonte e seu contexto histórico declarado, e o fato de cada seção se ater à duração da vida de cada pessoa. A novela de José também manifesta continuidade ambiental com o Egito do período Hicso (1715-1570), o que permite a Harrison defender a plena possibilidade da autoria mosaica de Gênesis, posto que Moisés certamente conheceria a escrita (por sua formação no Egito) e teria pleno acesso aos supostos registros familiares patriarcais e à história de José.

A hipótese de Harrison é uma alternativa interessante à hipótese documental, mormente porque ao contrário desta, tem uma base objetiva nas práticas literárias do oriente antigo e não gera argumentos circulares ou conclusões a priori; a teoria JEDP se apoia numa concepção de transmissão literária que até o momento não se provou ser histórica nem paralela a qualquer outra no oriente; além disso, sua artificialidade tende a forçar sobre textos que não se encaixam naturalmente na teoria explicações que sustentem a teoria (ao invés de criticar a teoria), tornando a hipótese metodologicamente fragmentadora do texto e preconceituosa. Vale lembrar que um princípio científico denominado "a navalha de Occam", reza: "a explicação mais simples é preferível". Por outro lado, há pelo menos uma séria objeção à teoria de Harrison ainda não tratada adequadamente: as fortes evidências de pré-história oral de vários materiais não concordam com as 11 fontes imediatas. Essa teoria não teve grande popularidade.

QUADRO 3: OS ONZE TABLETES

Tablete 1

Gn 1.1-2.4

Origens do cosmos

Tablete 2

Gn 2.5-5.2

Origens da humanidade

Tablete 3

Gn 5.3-6.9a

Histórias de Noé

Tablete 4

Gn 6.9b-10.1

Histórias dos filhos de Noé

Tablete 5

Gn 10.2-1.10a

Histórias de Sem

Tablete 6

Gn 11.10b-11.27a

Histórias de Terá

Tablete 7

Gn 11.27b-25.12

Histórias de Ismael

Tablete 8

Gn25.13-25.19a

Histórias de Isaque

Tablete 9

Gn25.19b-36.1

Histórias de Esaú

Tablete 10

Gn36.2-36.9

Histórias de Esaú

Tablete 11

Gn 36.10-37.2

Histórias de Jacó

Embora o livro de Gênesis, com todo o Pentateuco, manifeste complexidade literária, sua unidade estrutural e posição estratégica no Pentateuco é de capital importância. Embora não seja sábio descartar os resultados da erudição histórica, precisamos reconhecer a natureza canônica do material e talvez repetir com David J. A. Clines que o Pentateuco é "uma unidade ... não na sua origem, mas na sua forma final", (42) Será essa a saída para a erudição evangélica? A questão ainda está em aberto, mas seguiremos essa posição, com LaSor-Hubbard-Bush.

 

III. A ÉPOCA: ASPECTOS HISTÓRICOS

1. Autoria

A determinação da autoria do Pentateuco - e de Gênesis - depende em grande parte das conclusões a respeito da composição do livro. Adotando a posição de Harrison, poderíamos aceitar a autoria mosaica quase plena para o Pentateuco. Aceitando alguma forma da hipótese documental (que goza de certo consenso entre os especialistas) ficamos entre a rejeição da autoria mosaica ou a aceitação de uma autoria qualificada. Essa última posição é preferível, pois embora o Pentateuco seja uma obra anônima, há evidências positivas de sua autoria qualificada: 1) O Pentateuco contém indicações de atividade literária de Moisés, quando ele surge recebendo ordens para redigir histórias (Ex 17.14; Nm 33.2), leis (Ex 24.4; 34.27) e um poema (Dt 31.22); 2) a tradição hebraica desde a antigüidade atribui o Pentateuco a Moisés, embora a ligação de ambos tenha crescido da ligação pré-exílica a algumas leis até a atribuição sem qualificações no NT. Podemos então concluir que "... a participação de Moisés na produção do Pentateuco foi altamente formativa, embora seja pouco provável que Moisés tenha escrito o Pentateuco conforme ele existe em sua forma final",(43) e outros autores/editores ou escolas teológicas desenvolveram a obra de Moisés (tradições narrativas?, Samuel? (1Sm 10.25)) e possivelmente Esdras o colocou em sua forma final (Ed 7.6; 11ss).

2. Data e local de origem

As narrativas patriarcais foram conservadas inicialmente por via oral, durante a escravidão no Egito, e possivelmente fixadas por escrito durante o período de Moisés. O documento mosaico pode constituir ou ser a base do Groundschchrift por trás de J e E, ou ser um antecessor de J (nesse caso, entre 1500 e 1300 a.C., na peregrinação até Canaã). Já a narrativa de Gn 1 é mais claramente posterior (P, ca. de 550 a.C., no exílio). Seja como for, se aceitamos que o conteúdo essencial de Gênesis provém de Moisés, fixaremos essa data como a referência principal.

 3. Contexto Histórico

Uma vez reconhecendo que Gênesis teve a sua gênese em Moisés por volta de 1400 a.C., temos condições de esboçar um rápido panorama histórico. Nesse tempo os Hicsos haviam sido expulsos do Egito, Babilônia começava a emergir de um período conturbado de embate com os hurritas, e a civilização cananéia que no século anterior florescia neste momento está fragmentada e consideravelmente influenciada pelos hurritas.

4. Data e Historicidade das narrativas

a) Narrativas da história primeva

Antes de tudo, precisamos observar a natureza profundamente literária de Gn 1-11. O texto se caracteriza por dois artifícios literários distintos, um mais esquemático e poético e o outro em forma de história, mas com recursos literários como os nomes simbólicos e típicos e a etnografia. (44) Sabemos também que há paralelos conceituais e narrativos entre o Gênesis e a literatura mesopotâmica (p. ex. a Enuma Elish), mas que nada provam além de um relacionamento de gênese entre os relatos bíblicos e mesopotâmicos. Os estudiosos liberais, como Eissfeldt tratam esses materiais pelo nome eufêmico de "transhistóricos", para logo deixar claro seu caráter mítico. (45) Embora os evangélicos não possamos tratar as narrativas como "mitos", não podemos também considerá-las história no sentido moderno; de fato, o material não alega conter descrições objetivas, mas narrativas em poesia e prosa com motivos essenciais que pretende expor. Isso não significa que abordagens apologéticas como a de Archer, Harrison, Kidner e Ernest Lucas sejam inválidas, mas que no interesse de demonstrar a plausibilidade literal de Gn1 muitas vezes não consideram a natureza típica das narrativas.

b) Narrativas Patriarcais

Os progressos no conhecimento do Oriente Próximo da era patriarcal tem lançado luz sobre as narrativas patriarcais e levado muitos estudiosos a atribuírem valor histórico a estas narrativas. (46) Há indicadores objetivos da historicidade dessas narrativas: 1) o estudo literário das narrativas patriarcais revela sua natureza historiográfica; 2) há fortes indícios de que as narrativas refletem as condições do início do segundo milênio, como os nomes de época dados aos patriarcas, o estilo de vida nomadista da época e outros. (47) A tradição bíblica coloca os patriarcas cerca de 400 anos antes do êxodo. Uma vez que a estela de Meneptá registra a presença de Israel na palestina ca. de 1220, podemos datar o final do período patriarcal de 1700 a.C. no máximo.

A questão da historicidade das narrativas do Gênesis ainda é motivo de debates especialmente em torno de seus motivos cosmológicos e sobrenaturais, como a criação, o primeiro homem, o dilúvio e José no Egito. Cada um desses motivos merece atenção especial, e recomenda-se o aproveitamento das ciências humanas e naturais como meio de iluminar o texto sagrado, cuidando-se para não contrariar as escrituras nem por outro lado cair no obscurantismo anti-científico.

IV. A FÉ: ASPECTOS TEOLÓGICOS

1. Narrativas da história primeva

O texto de Gn 1-11 tem como propósito fundamental a teologia. Pode-se identificar quatro temas teológicos fundamentais: 1) Deus como criador: Deus surge nos dois primeiros capítulos como o criador soberano e absoluto, em contraste profundo com a mentalidade da época que divinizava e personificava as forças da natureza; Deus cria a matéria, a controla e molda. Esta não é inimiga de Deus, mas algo que ele criou, e portanto "muito boa". Ele é também a fonte da vida, que é o seu sopro. Apesar de ser parte da criação e ser vivente como os animais (1.20;2.19;6.17), o homem é peculiar em sua natureza e relação com Deus; sua criação é especial, e ele é portador da imagem de Deus. A criação da mulher revela ainda a natureza essencialmente comunitária ou social do ser humano, e ao mesmo tempo o interesse de Deus pela plenitude de Adão, que só se realiza na mulher. O casamento e a família são aqui instituições que tem a sua origem em Deus; 2) O problema do pecado: os capítulos 2 a 3 respondem porque as coisas estão arruinadas, como os homens se tornaram pecadores e alienados de Deus. O argumento é que Deus não é culpado pelo atual estado de coisas, mas a humanidade, que por seu livre arbítrio escolheu o pecado. Presente também é a idéia de que Adão era o nosso representante; na narrativa ele tem uma função simbólica ou típica de toda a humanidade. As narrativas em 4,6 e 11 abordam a seriedade radical do pecado e sua progressão desastrosa na sociedade humana; 3) O juízo de Deus: Em cada momento em que o pecado atinge níveis críticos Deus se levanta e resiste ao homem com juízo, amaldiçoando os meios de subsistência, castigando por forças naturais (dilúvio) ou confusão de línguas em Babel; 4) A graça de Deus: em cada um dos julgamentos que Deus realiza, há uma manifestação correspondente de graça, preservando e sustentando. A graça revela a paciência e a longanimidade de Deus. Sua ausência na narrativa de Babel por um lado, aponta para a grandeza e irreformabilidade do pecado humano; por outro gera um suspense a respeito do destino do homem que se satisfaz no texto logo à frente, em Gn 12.1-4, o ponto de virada de Gênesis e do Pentateuco.

 2. Narrativas da história patriarcal

São aspectos teológicos característicos da história patriarcal: 1) A eleição e as promessas: os capítulos 12 a 21 são dominados pelo tema da promessa, e pelo contraste proposital entre a promessa e a realidade natural de Abraão, revelando a espera e peregrinação de Abraão como uma caminhada de fé. Deus cumpre sua promessa sempre parcialmente, e a transfere a cada um dos patriarcas. A história de José "provê o primeiro estágio na transição de uma família patriarcal para uma nação independente". (48) Em José Deus age para manifestar sua salvação ao seu povo preservando-o da fome; 2) Fé e Justiça: Os progressivos testes de fé a que Abraão foi submetido forçavam o amadurecimento de sua fé e a confiança irrestrita em Deus; a vida coerente com essa fé constitui a justiça de Abraão; 3) A aliança: tem importância central em 12-50, e especialmente em 15 e 17. A aliança é "...o estabelecimento de um relacionamento particular ou o compromisso de seguir determinado curso de ação, que não existe por via natural, sancionado por um voto em geral selado numa cerimônia solene de ratificação". (49) Na aliança com Abraão só Deus se coloca sob obrigação (incondicional), para garantir seu cumprimento.

Outros pontos teológicos, embora não os mais fundamentais podem receber maior atenção; a revelação em Gênesis, a imagem de Deus no homem, relações sociais (sexo, família, trabalho, governo) e a recuperação do pecador. Mas os expostos acima compõe um elemento fundamental das tradições do Pentateuco e fundamenta histórica e teologicamente o restante das escrituras.

 CONCLUSÃO

A introdução a Gênesis envolve muitas questões críticas que ainda não foram adequadamente respondidas, e esse traballho não pretende resolvê-las. Mas algumas conclusões tem sido preferidas pela simplicidade e fundamentação crítica: 1) Gênesis tem uma estrutura básica facilmente reconhecível; 2) a composição literária ainda é foco de intensos debates, mas por enquanto alguma forma de hipótese documental precisa ser reconhecida; 3) Moisés deve ser reconhecido como fonte primária, mas não como autor final de Gênesis; 4) a historicidade das narrativas de Gênesis pode ser aceita como possível; 5) Gênesis tem um lugar fundamental no Pentateuco e na Bíblia ao lançar conceitos teológicos fundamentais para a fé do AT e do NT.

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