Como se tornar um polímata num mundo de especialistas?

26 de dezembro, 2015


Já há algum tempo me deparo com o discurso de que no mundo complexo e interconectado de hoje é importante que indivíduos e profissionais desenvolvam múltiplas habilidades, sejam versáteis e capazes de se adaptar a diferentes situações. No entanto, observa-se que as pessoas que de fato detém tais características têm encontrado diversas barreiras para exercê-las em sua vida profissional. Assim, existe uma ruptura entre o desejo dos indivíduos de exercitarem suas múltiplas potencialidades e a realidade do mundo do trabalho, no qual a maioria dos empregos disponível não parece atender a tais necessidades. Isso faz que com que os indivíduos não consigam vislumbram a possibilidade de efetivamente exercitar suas múltiplas potencialidades, o que pode gerar sentimentos muito ruins e duráveis como frustração, depressão e ansiedade.


Embora algumas publicações populares tenham versado sobre como as pessoas podem exercer seus múltiplos interesses[1-3], ainda há uma grande lacuna na literatura acadêmica sobre o tema de múltiplas aptidões. Esse ensaio tem o objetivo de analisar a polimatia como traço individual que enseja a orientação de um indivíduo para o desenvolvimento de conhecimento e aprendizagens de forma ampla, profunda e conectada e sugerir estratégias que pessoas detentoras de tal traço (polímatas) possam adotar para atingir eminência em mais de uma área.

Antes de responder à pergunta “como se tornar um polímata num mundo de especialistas?”, é preciso definir com muita clareza os termos envolvidos. Polimatia tradicionalmente se refere à condição de se ter conhecimento profundo em diversas áreas. A pessoa que não busca profundidade em área alguma está relacionada com o termo diletante[4], e não polímata. Embora haja certo consenso que polimatia envolve profundidade e abrangência do conhecimento, pouco se avançou na definição do construto para além disso.


Eu propus, em minha dissertação não publicada[5], que polimatia envolve três dimensões: abrangência, profundidade e conectividade. O terceiro elemento advém de evidências de que pessoas eminentes em mais de uma área têm em comum a característica de integrar e unificar suas diversas atividades e interesses como parte de um todo cognitivo, afetivo e conativo (motivacional).


Outra proposição que nasceu na mesma dissertação é que a polimatia na verdade consiste em quatro construtos distintos: (1) traço polimatia (trait polymathy); (2) polimatia filosófica (philosophical polymathy); (3) polimatia profissional (professional polymathy); e (4) polimatia eminente (eminent polymathy).


O traço polimatia se refere a uma constelação de padrões de comportamento que está relacionada à busca e desenvolvimento da profundidade, abrangência e conectividade do conhecimento e aprendizagens. O traço polimatia está localizado na esfera da personalidade individual e pode ser medido através de instrumentos psicométricos.


A polimatia filosófica se refere ao desenvolvimento de diversos e profundos conhecimentos e aprendizagens numa esfera social restrita. Ou seja, a polimatia filosófica é uma condição almejada e desenvolvida por indivíduos, porém seu alcance está restrito à esfera pessoal e familiar dessa pessoa. Isto é, um polímata amador pode ser um contador profissional, apreciador de arte e músico, que é o “Beethoven” da sua esfera familiar. No entanto, ele não enfrentou os gatekeepers da área artística, e não pretende que sua arte adquira o mesmo grau de responsabilidade social que sua atividade como contador (no Brasil, se uma empresa faz atividades ilícitas seus contadores podem ser criminalizados como corresponsáveis). Assim, sua arte serve apenas para sua apreciação pessoal e de seu círculo familiar. É importante frisar que a polimatia filosófica não dispensa a profundidade, a particularidade dessa polimatia é definida por (i) não atingir a uma camada social mais ampla e (ii) não ensejar responsabilidade pelo conhecimento adquirido; o polímata do exemplo pode ser o maior conhecedor de arte sacra do país, no entanto, ele não responde socialmente como tal e não aceita a responsabilidade por isso. A polimatia filosófica pode ser medida através de evidências de avocações (“avocations”) ou por testes psicométricos. É possível que a polimatia filosófica também possa ser considerada um proxy para avaliar o grau de traço polimatia de um indivíduo. O racional por detrás disso é que o primeiro passo natural para uma pessoa que busca e deseja desenvolver diversas aprendizagens é apresentar interesses avocacionais diversificados, ou seja, hobbies diversos. Por fim, para designar esse tipo de polimatia eu preferi o termo “filosófico” a termos como “amador” e “avocacional”, dado que “filosófico” está ligado ao amor pelo conhecimento e aprendizagem sem apresentar uma conotação pejorativa como “amador”, e sem descartar o possível chamado ou a “voz interior” como o termo “avocacional”.


A polimatia profissional se refere ao desenvolvimento de conhecimentos e habilidades profissionais cuja abrangência perpassa um único domínio. Isso significa que um polímata profissional é capaz de prover produtos e serviços úteis à sociedade envolvendo mais de um domínio. Aqui devemos evocar pelo menos duas dimensões da polimatia: profundidade e abrangência. Para atingir polimatia profissional o indivíduo deve alcançar em mais de um domínio um nível de profundidade semelhante ao que Kaufman e Beghetto [6] chamam de “Pro-c”, ou seja, a criatividade no nível profissional. Como a polimatia profissional está intimamente ligada ao campo das habilidades, ela deveria ser medida através de evidências de que o indivíduo têm proficiência em mais de uma área, ou então poderia se utilizar testes de desempenho, ou ainda uma medida agregada dos dois métodos.


A polimatia eminente se refere a uma condição de projeção notória devido a conhecimentos, habilidades e obras que sobrepujaram de alguma forma a fronteira do estabelecido em certa área. Para polimatia eminente é necessário atingir o que Kaufman e Beghetto chamam de “Big-C”, a criatividade no seu estágio mais elevado, que envolve grandes contribuições para uma área e que geralmente é acompanhada de premiações importantes como o Nobel ou o Pulitzer. Há polímatas eminentes de duas ordens: os de menor ordem conseguiram obter “Big-C” em uma área e “Pro-c” em pelo menos outra área; e os de maior ordem conseguiram obter a lendária “Big-C” em mais de uma área; estes últimos seriam os polímatas “lendários”, tal como Leonardo Da Vinci e Benjamin Franklin.  O fato de muitos textos retratarem tais figuras como os representantes da polimatia pode ter levado à ideia de que polimatia no geral é algo muito raro, quando, na verdade, se considerarmos todos os casos que apresentei, a polimatia pode ser bastante comum.  Por fim, a polimatia eminente deveria ser medida por meios historiométricos, dado que algumas pessoas apenas atingem o nível “Big-C” no fim da sua vida, além do fato que algumas contribuições podem ter sido super- ou sub-estimadas durante o período de vida do indivíduo.


A figura 1 representa os diferentes construtos da polimatia e a qual esfera social eles pertencem.



Figura 1. Os quatro diferentes tipos de polimatia.


Para o segundo objetivo desse ensaio, que concerne à sugestão de estratégias, estou assumindo que meu público-alvo são pessoas com elevado grau de traço polimatia e que desejam atingir a condição de polímatas eminentes. Aqui torna-se evidente como a clara conceituação de um construto já pode, por si só, ser proveitosa a esse fim.


A primeira dica diz respeito à autenticidade e à estabelecer com coragem sua postura no mundo. Há muitas pressões sociais para um pessoa se tornar um especialista em dado domínio o quanto antes. Elas incluem pressões que ensejam o lado positivo de se tronar um especialista: as recompensas auferidas são maiores (um cardiologista ganha mais do que um clínico geral que ganha mais do que um mero interessado em medicina); e pressões que evocam um futuro negativo para o mão-especialista: a ausência de uma carreira bem definida, o não pertencimento a um grupo profissional, etc. Tais pressões fazem com que o detentor de traço polimatia se sinta mal, ansioso e “errado” por não ter consigo decidir qual caminho seguir.


Assim, o primeiro passo que alguém com alto grau de traço polimatia deve dar é abraçar sua natureza polímata e ver tal característica como algo que pode ser muito positivo. Alguns pensadores apontaram que o traço polimatia pode estar relacionado a maior criatividade, maior efetividade na aprendizagem, maior capacidade de síntese, e maior capacidade de perceber ligações entre ideias aparentemente desconexas [7-13]. Desta forma, o traço polimatia deve ser encarado como uma benção e não como uma maldição. No entanto, estar de bem consigo mesmo não levará, por si só, ninguém a se tornar eminente. Se você tem o desejo de se tornar um polímata eminente, você deve também abraçar isso como objetivo e não ter vergonha de adotar essa meta numa esfera familiar e depois numa esfera profissional. Se você sente no seu íntimo que quer ser um gênio em múltiplas área, você pode dizer ao mundo que pretende fazer trabalhos relevantes envolvendo A e B ou X e Y. Não é crime.


Eu proponho que o caminho para a polimatia eminente deva passar necessariamente pelos outros três tipos de polimatia. Dificilmente alguma pessoa atingiria a polimatia eminente sem ter traços de personalidade que conduzam a isso, sem ter passado por um período de degustação (sappere) de diversos conhecimentos e experiências; e, finalmente, sem se tornar um profissional de alguma área específica. Assim, minha segunda dica é: acostume-se logo com o desenvolvimento da profundidade e com os gatekeepers. Como a polimatia filosófica é relativamente fácil de ser exercitada, basta que não haja grandes empecilhos para você perseguir seus múltiplos interesses, creio que o grande abismo se encontre entre a polimatia filosófica e a polimatia profissional. Por mais multi-talentoso que você seja, você terá que se tornar um profissional em algum momento. E isso engloba ter responsabilidade social pela tarefa que você executa: bater um pênalti na pelada do fim de semana pode parecer uma grande responsabilidade, mas bater um pênalti numa copa do mundo é outro nível de responsabilidade. É normal que as pessoas (com ou sem traço polimatia) não gostem de encarar responsabilidades. Responsabilidades nos trazem ansiedade porque nós temos que arcar com as consequências caso os resultados sejam ruins. Quando você se depara com uma situação ruim, a tendência natural é sentirmos repulsa a causa da situação ruim; se toda vez que você joga futebol seus colegas o chamam de desengonçado, jogar bola vai se tornar um fardo.


Pessoas com traços polímatas encaram o desenvolvimento da profundidade de maneira diferente das outras, como possuem miríades de habilidades e interesses, quando se deparam com uma situação negativa no caminho do desenvolvimento da profundidade, tendem a lembrar que detém diversos talentos, e logo a tentação de abandonar uma atividade difícil é apoiada pela certeza de possuir uma gama de habilidades que “garantirá” sucesso futuro em qualquer outro empreendimento. Pessoas que acreditam possuir poucas habilidades não veem muita escolha, ou elas serão bem-sucedidas no que estão fazendo ou falharão em absoluto. Polímatas têm a tendência a preferir a abrangência, assim eu proponho que ele encare o desenvolvimento da profundidade como o desbravamento de novos horizontes em uma área. Polímatas geralmente desejam transformar o mundo, alcançar o inalcançado, e exercer sua plena potencialidade, assim eu proponho que o polímata encare o desenvolvimento da profundidade não como um fardo, mas como uma etapa necessária à maestria; já que ela - e somente ela – lhe conferirá os subsídios para poder cruzar a fronteira do que está estabelecido e se tornar eminente. Desta forma, eu recomendo que assim que escolher se aprofundar numa dada área de interesse, se envolva o quanto antes com as atuais referências na área e, principalmente, com os gatekeepers da área; se você quer ser músico, você vai ter que provar o valor da sua música na sociedade, então pesquise e interaja logo com os grupos e as pessoas que guardam as chaves de cada etapa que você precisa atingir. Você precisa pensar em etapas, você não vai estourar de primeira ou começar no time profissional do Barcelona, você vai cumprir etapas. Uma vez no caminho da profundidade, você verá que não é tão ruim assim se aventurar e cada etapa da maestria, e ir abrindo portas cada vez mais elevadas.


A terceira dica é um complemento da segunda, diz respeito a como escolher uma área de interesse para se aprofundar. Alguns critérios são fundamentais: (1) acreditar que é capaz de ser efetivo em tal área, isto se chama confiança, ou self-efficacy; (2) ser uma área realmente importante para você; (3) acreditar que ao atingir eminência nessa área você estará transformando de forma positiva a sua vida e a sociedade. Sobre a questão das habilidades pessoais, eu recomendo uma auto-análise e uma análise de suas habilidades por pessoas de confiança a partir do princípio da vantagem comparativa. Isto é, dado a realidade que me encontro onde eu consigo ser melhor, mais eficiente e produtivo em comparação às outras pessoas? Por exemplo, no Brasil parece haver pouco incentivo às ciências e à matemática no ensino básico. A maior parte das pessoas prefere seguir carreira em ciências sociais ou humanidades. Se você possui habilidades que não são encontradas em seus pares, vale à pena investir nelas mesmo que você se julgue ainda mais superior em, por exemplo, interpretação de texto, que é uma habilidade mais genérica e que muitas pessoas possuem.


A quarta dica diz respeito a harmonizar seus interesses: evite uma postura de competição entre eles. Quando um polímata escolhe uma área de interesse, ele o costuma fazer de uma forma diferente dos outros, porém comumente disfuncional: ou ele se submete (vou ser X mesmo já que não dá pra ser X, Y e Z), ou ele leva uma vida dupla (sou X no trabalho, mas secretamente sou Y). Eu, enfaticamente, não recomendo essas estratégias. Root-Bernstein[8] demonstrou que uma qualidade fundamental de quem conseguiu atingir a eminência é a capacidade de unificar suas diferentes atividades num todo emocional e intelectual. Isto significa que qualquer atividade que você decida fazer não deve competir com seu interesse fundamental. Se você sentir que o trabalho está competindo com seus outros interesses e vice-versa, você está num mal caminho. O ideal (e o melhor caminho) é que as várias atividades trabalhem em conjunto para você atingir seu objetivo polímata. Vladimir Nabokov deu aulas de literatura, tênis e boxe, estudou borboletas e mariposas, trabalhou em problemas de xadrez e escreveu livros de ficção. Se ele pensasse todos os dias “que droga, eu preciso dar aulas, mas gostaria de estar escrevendo, caçando borboletas e pensando em problemas de xadrez”, sua vida seria uma miséria. No entanto, parece que ele harmonizava com sucesso essas atividades; por algum tempo ganhou dinheiro dando aulas e concomitantemente foi desenvolvendo sua habilidade na escrita até ganhar notoriedade nesta área. Com essa notoriedade, conseguiu um emprego numa universidade americana que lhe deu tempo e subsídios para seu interesse científico por borboletas e mariposas. Seus biógrafos dizem que ele escreveu Lolita durante suas viagens como colecionador de borboletas...


Com Nabokov aprendemos que se pode desenvolver a profundidade tanto sequencialmente como simultaneamente, e que é fundamental conectar nossas atividades de forma harmônica. Além disso, vimos que a profundidade em uma área abre portas que não imaginávamos. Dessa forma, minha última dica é: não tenha tanta pressa! Alguns interesses você vai conseguir conjugar simultaneamente, outros não. E tenha a sabedoria de perceber que ao atingir um nível de maestria em alguma área, oportunidades para o desenvolvimento de outros interesses com certeza aparecerão.



Referências


1. Broderick, D., Ferocious Minds: Polymathy and the New Enlightenment. 2005: Borgo Press.

2. Sher, B., Refuse to Choose!: Use All of Your Interests, Passions, and Hobbies to Create the Life and Career of Your Dreams. 2007: Rodale Books.

3. INSTANT-Series, T., Jack of All Trades: How to Master All Sorts of Skills in Short Amount of Time and Be a Modern Renaissance Person. 2015.

4. Dictionary.com, Dilettante, in Dictionary.com Unabridged. 2015, Random House, Inc.

5. Araki, M., Polymathic Leadership: Theoretical Foundation and Construct Development, in Business Management. 2015, Pontifícia Universidade Católica: Rio de Janeiro. p. 203.

6. Kaufman, J.C. and R.A. Beghetto, Beyond big and little: The four c model of creativity. Review of General Psychology, 2009. 13(1): p. 1-12.

7. Wapnick, E., Why some of us don't have one true calling. 2015, TEDxBend.

8. Root-Bernstein, R.S., M. Bernstein, and H. Garnier, Correlations between avocations, scientific style, work habits, and professional impact of scientists. Creativity Research Journal, 1995. 8(2): p. 115-137.

9. Root-Bernstein, R. and L. Shavinina, The art of innovation: Polymaths and the universality of the creative process. International handbook of innovation, 2003: p. 267-278.

10. Root-Bernstein, R. and M. Root-Bernstein, Artistic Scientists and Scientific Artists: The Link Between Polymathy and Creativity, in Creativity: From potential to realization, R.J. Sternberg, E.L. Grigorenko, and J.L. Singer, Editors. 2004, American Psychological Association: Washington, DC, US. p. 127-151.

11. Root-Bernstein, R., et al., Arts foster scientific success: Avocations of Nobel, National Academy, Royal Society, and Sigma Xi members. Journal of Psychology of Science and Technology, 2008(1): p. 51-63.

12. Root-Bernstein, R., Multiple Giftedness in Adults: The Case of Polymaths, in International Handbook on Giftedness. 2009, Springer. p. 853-870.

13. Root-Bernstein, R.S. and M.M. Root-Bernstein, Sparks of genius: The thirteen thinking tools of the world's most creative people. 2013: Houghton Mifflin Harcourt.



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