o ensino e a inserção do design brasileiro na comunidade global

seminário anglo-brasileiro em design e inovação:
agregando valor na cadeia produtiva

há alguns anos atrás, um pernambucano e uma carioca recém-chegados de londres, editaram, aqui no rio grande do sul, a obra de um bahiano que fala sobre a necessidade da indústria brasileira se voltar para a inovação pra poder se tornar competitiva num mercado cada vez mais globalizado. e o caminho que esse bahiano escolhia, apontava para essa inovação industrial tão necessária para o comércio brasileiro poder crescer num mercado globalizado era exatamente o caminho do design (ou do desenho e da arte industrial, pois afinal, esse bahiano genial era não menos que rui barbosa, na penúltima década do século 19).

"Que agente é esse, capaz de operar no mundo transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina, pacificadora, comunicativa e afetuosa entre todas..."

"Raro é o produto utilizável em que o gosto, a arte, a beleza não constitua o elemento incomparavelmente preponderante do valor. Ora, como nós não produzimos senão matéria bruta, o preço da nossa exportação ficará sempre imensamente aquém da importação de arte. Nenhum país, a meu ver, reúne em si qualidades tão decisivas para ser fecundamente industrial, quanto o nosso, onde uma natureza assombrosa prodigaliza às obras do trabalho mecânico e do trabalho artístico um material superior, na abundância e na qualidade."

— rui barbosa: o desenho e a arte industrial
discurso no liceu de artes e ofícios do rj
em 23.11.1882 (páginas 9 e 18)



assume um tom quase profético o texto de rui barbosa, quando vemos o que dizem especialistas em mercado hoje, no início do século 21:

“quinze anos atrás as empresas competiam em preço. hoje, na qualidade. amanhã será no design”

— bob hayes, harvard business school

“partimos do pressuposto que todos os produtos de nossos concorrentes terão basicamente a mesma tecnologia, o mesmo preço, o mesmo desempenho e as mesmas características. o design é a única coisa que diferencia um produto do outro no mercado.”

— norio ohga, ceo, sony


o crescimento industrial deixou de se apoiar na inovação tecnológica, no maquinário, no equipamento, e passa a se apoiar cada vez mais no design, na diferenciação formal entre os produtos, e não na diferenciação entre os equipamentos de produção.

este design que ensinamos e praticamos, que se oferece adequado às novas necessidades de competitividade dessa indústria, não deve no entanto, na medida em que é diferenciador formal, ser entendido como limitado à estética do produto. sobre este aspecto vale ainda hoje relembrar o que tomás maldonado disse em 1958:

"o fator estético é apenas um entre vários fatores com os quais o designer pode operar, mas não é nem o principal nem o predominante. os fatores produtivos, construtivos, econômicos - talvez também os valores simbólicos - também existem. o design industrial não é uma arte e nem é o designer necessariamente um artista"



“modelo virtuoso”:

sobre as bases em que deve se apoiar esse design inovador e capaz de impulsionar a indústria e a economia, podemos traçar um “diagrama virtuoso” em torno de design, inovação e competitividade, onde numa ponta está o governo, na outra a indústria e numa terceira, a universidade.

a cada um desses atores corresponde um papel: o primeiro implementa políticas, a segunda implementa práticas e a terceira, pesquisas.

para que esse modelo funcione adequadamente, espera-se que o governo aja sobre a indústria regulando-a através de políticas, visando um retorno de competitividade de bens e serviços. e que aja sobre a universidade provendo-a de recursos para que essa desenvolva suas pesquisas, que também geram um retorno em competitividade do capital intelectual. e indústria e universidade interagem, por sua vez, alimentadas pelo fluxo de conhecimento e da realização deste conhecimento.

esta deve ser a relação ideal entre esses parceiros, na implementação de um modelo de desenvolvimento apoiado na gestão do capital intelectual e na capacidade industrial.

mas que modelo de ensino deve representar a universidade para se encaixar no nosso “diagrama virtuoso”?


bauhaus:

o modelo clássico do design e do ensino de design como o conhecemos inicia-se no século vinte com a criação, em 1919, da bauhaus, na alemanha. que, por sua vez, teve sua origem no movimento de artes e ofícios do século 19.

ao olharmos esse modelo em busca de indícios iniciais da internacionalização do design, observamos que no manifesto e no programa da bauhaus weimar, escritos por walter gropius em 1919, a única menção a estudantes estrangeiros era a de que eles deveriam pagar o dobro das taxas. a globalização não era a preocupação principal da nova escola, mas sim a quebra de paradigmas na arquitetura, na arte, na educação, nas relações de produção. a bauhaus era, nas palavras de mies van der rohe, uma idéia, formulada precisamente por gropius - e somente uma idéia poderia se disseminar tanto.

a pesquisadora dagmar rinker nos lembra do seguinte, no texto "produktgestaltung ist keine kunst" (design não é arte), publicado no livro/catálogo "ulmer modelle / modelle nach ulm" da exposição de mesmo nome (aliás, invejo porto alegre tê-la recebido e o rio de janeiro não...)

"é importante notar que, até cerca da metade do século 18, design e produção estavam unificados na figura do artesão. somente a divisão do trabalho e a emergência das condições de produção numa sociedade industrial tornaram necessária a segregação da atividade do design e entregá-la a especialistas. até a metade do século 20, estes especialistas vieram das categorias profissionais dos arquitetos, engenheiros e artistas. ainda não havia escolas de design; embora a bauhaus tenha de fato alcançado um patamar decisivo no design de produtos industriais, o ensino era ali sempre subordinado à primazia da arquitetura."



a diáspora da guerra levou os grandes mestres da bauhaus – gropius, breuer, albers, moholy-nagy, bayer e mies van der rohe – para os estados unidos e contribuiu para acelerar uma internacionalização daquela experiência. e assim a bauhaus cumpriu o seu papel na disseminação pelo mundo de uma nova idéia, ou de muitas novas idéias que vieram contribuir para a civilização industrial do século 20, tornando-se referência para o futuro.


hfg ulm:

a reconstrução da europa no pós-guerra e a trágica experiência da alemanha nazista inspiraram os planos da fundação scholl, criada por inge scholl em memória de seus irmãos hans e sophie, jovens estudantes presos e executados em 1943. já nos primeiros esboços para a criação de uma escola, datados de 1947, considerava-se que esta deveria estabelecer relações com outros países através do um corpo docente internacional. deveria também, "influir sobre a criação de produtos sociais e ajudar a indústria a conciliar forma e qualidade" devendo com isso "favorecer o crescimento das exportações e contribuir para a elevação do nível de vida".

o reforço às idéias democráticas e o apoio à emergência de uma nova cultura eram preocupações contínuas de inge scholl e otl aicher que, juntos com max bill, fundaram a hfg ulm. desde sua concepção, a escola definiu-se como um centro internacional para o ensino, o desenvolvimento e a pesquisa no campo do design de produtos industriais.

mas associar consciência crítica ao ato criativo foi o pecado mortal para a escola de ulm, que fechou suas portas em 1968, quinze anos após a sua criação.

sua influência, no entanto, permanece vívida quatro décadas depois do seu fechamento, graças a um processo assim descrito pela ex-estudante da hfg ulm margit weinberg staber:

"como que instados por um secreto bater de tambores, jovens moças e rapazes reuniram-se vindos de toda a europa, américa do norte e do sul, grã-bretanha e japão nas províncias da suábia para a fonte de um conhecimento presumível e apreensível. todos eles levaram o programa de volta à seu próprio ambiente de origem"

margit weinberg staber
"
ulmer modelle / modelle nach ulm", pág. 118



esdi:

e foram dois ex-estudantes da max bill e maldonado, na hfg ulm – alexandre wolner e karl heinz bergmiller – que modelaram aquela que viria a ser a primeira escola de design formalmente constituída na américa do sul. ao brasileiro wollner e o alemão bergmiller se juntaram, entre outros, o pernambucano aloísio magalhães e o cearense goebel weyne, que ajudaram a estruturar o curso.

num texto em que demonstra sua paixão e engajamento no projeto da esdi, aonde lecionou desde o início, o jornalista zuenir ventura assim descreve esse processo:

“concebida e fundada quando o país fervilhava de inquietação em todos os campos da criação, a esdi foi para o nosso desenho industrial o que a bossa nova foi para a música; o que o cinema novo foi para a indústria cinematográfica; o arena para o teatro, e brasília para a arquitetura. foi um momento fundador, quando o mundo descobria um novo brasil - de glauber rocha, oscar niemeyer, tom jobim, pelé - e o brasil descobria que tinha algo a ensinar ao mundo.

na parte que lhe coube, a esdi nos deu regra e compasso, criou uma mentalidade, lançou enfim aquilo que é a base do desenho industrial: o projeto.”

zuenir ventura, dezembro de 2000


em seu livro ("esdi: biografia de uma idéia"), pedro luiz pereira de souza tenta desmontar a idéia de que a esdi teria sido feita segundo o modelo de ulm. segundo ele, esta idéia, por inexata, contribui para a mitificação da hfg ulm e reduziria a importância da herança crítica dessas instituições. mas não há dúvida que o "ulmer-modelle", de um design apoiado na ciência e na técnica, foi de importância fundamental para o estabelecimento de padrões e idéias que conduziram o design e a indústria pelas décadas seguintes, com reflexos bem evidentes até nesta primeira década do século 21.

no entanto, havia riscos no “ulmer modelle” – e dagmar rinker, no texto citado anteriormente, aponta:

"esta nova pureza formal da geometria e da adequação aos materiais apresentava o risco de enrijecer num formalismo acadêmico."


tomás maldonado aponta que hannes meyer, diretor da bauhaus a partir de 1928, já havia reconhecido esse perigo. e é o próprio maldonado, numa discussão com reyner banham, que diz que tanto os adeptos do "styling" quanto os "formalistas neo-acadêmicos" haviam se rendido ao conceito reacionário do "design de produto como arte".

(aliás, um dos privilégios que eu tive enquanto na direção da esdi foi presenciar um apaixonado debate sobre essa questão – os maneirismos da “guten form” – enquanto caminhava pelas ruas do rio com os designers enzo mari e gui bonsiepe – o primeiro um pioneiro do design italiano e o último ex-estudante e professor da hfg ulm, e figura fundamental no estabelecimento de políticas de design na américa latina, tendo recebido o título de “doutor honoris causa” pela esdi/uerj)

voltando dessa digressão pós-ulmiana sobre a forma:

seja por influência da vocação internacional da hfg ulm ou pela carência local de docentes para ensinar essa nova disciplina, a esdi desde o princípio manifestou vocação para se afirmar como um “hub de conhecimento” internacional, tanto ao receber docentes e palestrantes como max bense, umberto eco, abraham moles, tomás maldonado, até mesmo pierre cardin, quanto ao aceitar estudantes sul-americanos em seu curso – prática que foi bastante comum até os anos oitenta.

no início dos anos 70, a esdi foi a primeira escola a requerer filiação ao icsid (international council of societies of industrial design), reconhecendo a importância da construção de um diálogo internacional para o exercício da atividade do design.

ainda em 1975 – ano em que a esdi, criada como escola independente pelo governo do estado da guanabara foi incorporada à universidade do estado do rio de janeiro – ocorreu outro marco desse processo de internacionalização.
o jovem designer freddy van camp, formado pela esdi em 1968 e recém-chegado da alemanha aonde lecionara em braunschweig como assistente de arno votteler, abraça uma idéia inovadora: levar uma turma de estudantes da esdi para uma visita à alemanha, aonde, na escola de braunschweig, juntaram-se a estudantes de design do professor reinhard butter, da ohio state university e a estudantes locais do professor votteler para um workshop conjunto brasil - alemanha - estados unidos. a experiência, que se pretendia repetir nos anos seguintes nos outros dois países, foi interrompida pela instituição do depósito compulsório para viagens ao exterior criado pela ditadura brasileira.


panorama mundial do ensino de design hoje:

hoje, de acordo com dados do inep/mec e da capes, o brasil tem:
 
483 cursos ou habilitações em design / desenho industrial
10 mestrados
1 doutorado

a partir desses dados, podemos inferir um número mínimo de dez mil estudantes de design no país.

de acordo com um programa da série planet green veiculado pelo discovery channel no ano passado, em 2007 os estados unidos tinham quatro mil estudantes de design, enquanto que a coréia tinha quarenta mil e a china, duzentos mil estudantes de design.

neste panorama, para o qual todos deveríamos estar bem atentos, a esdi iniciou, a cerca de oito anos, um movimento de abertura e rediscussão do seu modelo de ensino, não a partir de mudanças curriculares, que ainda deverão ocorrer em breve, mas a partir de mudanças políticas, ao se aproximar do setor produtivo e ao retomar, ao mesmo tempo, aquela experiência pioneira de intercâmbio internacional de 1975.

freddy van camp, ao reassumir a direção da esdi em 2000 (da qual fiz parte como seu vice-diretor) contactou novamente os mesmos professores reinhard butter, em ohio. da alemanha, arno votteler sugeriu uma nova geração de escolas para parceria. E foi assim que, em maio de 2001, a esdi assinou seu primeiro protocolo de cooperação internacional com a ohio state university, visando promover uma melhor formação para os seus alunos, além do aperfeiçoamento do seu corpo docente e a abertura de possibilidades efetivas de colaborações em projetos e pesquisas. logo a seguir, ao final do mesmo ano, foram a fachhochschule potsdam e a hfg schwäbisch gmünd, herdeira quase vizinha da hfg ulm. e não parou mais...

a excelente performance dos nossos estudantes tem contribuído bastante para isso. Eles, com sua capacidade, tem aberto portas que se mantém abertas para as novas turmas que participam do processo. vejamos um pequeno trecho (pouco mais de um minuto) de um depoimento de quatro estudantes da esdi que participaram do programa de intercâmbio em duas escolas alemãs.

(obs: no video um das quatro ex-alunas da esdi fala sobre sua experiência na escola alemã e no estágio que fez numa empresa de design em berlim)


mas não foi apenas no sentido do intercâmbio acadêmico que caminhou essa abertura na esdi. a partir principalmente de projetos acadêmicos para os quais a escola procurou apoio do setor produtivo (e foi prontamente atendida), e contrariando muitas opiniões divergentes, a escola começou a se abrir também na execução de projetos de pesquisa contratados. demonstrou-se que não havia nisso concorrência com as empresas de design, até mesmo por ter capacidade e interesse limitados para executar tais projetos.

a general motors deu suporte a um trabalho desenvolvido com estudantes de quarto ano (o curso da esdi tem a duração de cinco anos), fornecendo desenhos-base e dados sobre o veículo fabricado por eles, além da consultoria de uma profissional do desenvolvimento de produtos da empresa. o trabalho, sobre o interior do celta voltado para um público feminino, desenvolveu tanto aspectos de produto quanto a comunicação visual de painéis, palheta de cores, etc.

o projeto com a embraer foi semelhante ao anterior, sendo que a empresa forneceu até mesmo um anel do corpo de uma aeronave estudada para que fossem feitos mock-ups na escala real.

a microsoft research, que funciona em redmond, no estado de washington, estados unidos, convidou a esdi para participar de um desafio proposto a seis escolas de várias partes do mundo. Os estudantes de terceiro e quarto ano desenvolveram um produto-conceito durante um semestre, com assessoria de um designer sênior da empresa. Ao final do período, um trabalho de cada escola era selecionado para ser apresentado durante um encontro acadêmico de cientistas da computação do mundo todo, na sede da empresa. a esdi teve o desempenho tão elogiado pela empresa que sua participação, que deveria ocorrer em apenas uma edição do evento, se estendeu por quatro edições seguidas, sempre com muito sucesso. Projetos semelhantes foram desenvolvidos também com a yahoo e com a electrolux.

a motorola brasil contratou a esdi visando obter um novo olhar, sob a perspectiva de designers em formação, da pesquisa com usuários de celular das classes “c” e “d” no brasil. Pouco dos resultados pode ser revelado, mas o trabalho, desenvolvido em duas etapas, e cada uma delas contou com nove estudantes e dois professores coordenadores, trabalhando junto com a designer da motorola do brasil e em contato com os estúdios de design da empresa em seul e chicago.

a fundação odebrecht apóia um projeto social desenvolvido junto a comunidades quilombola no sul da bahia, de recuperação econômica e promoção de desenvolvimento regional. para atuar nesse projeto, contratou a esdi, que com uma equipe de três estudantes e um professor, desenvolveu pesquisa e propôs diversas melhorias nos ambientes e processos de trabalho relacionados à produção da fibra de piaçava. Esse projeto, como vamos ver adiante, foi desenvolvido em parceria com a escola de schwäbisch gmünd, na alemanha, e teve a participação de um professor daquela escola, que visitou as comunidades em duas ocasiões e deu consultoria ao desenvolvimento do trabalho. Além disso, foi realizado um workshop na alemanha sobre o assunto, com resultados bastante interessantes.

o outro passo importante foi o incentivo ao empreendedorismo. embora o plano para a criação de uma incubadora de empresas na escola já fosse uma discussão antiga, um fato ajudou a marcar esse caminho do empreendedorismo na esdi:

no final de 2003, procurados por um ex-aluno, abrimos as oficinas e demos apoio institucional ã sua pesquisa sobre materiais naturais sustentáveis. iniciando com o bambu, material com o qual já trabalhava há muitos anos, o designer cláudio ferreira começou na esdi uma pesquisa sobre a palmeira da pupunha. ao final de 2004, tendo em mão belas amostras de um compensado feito a partir de réguas retiradas do caule da pupunha adulta, decidimos submeter o material ao crivo do mais conceituado prêmio de design do mundo, concedido pelo fórum industrial de hannover, na alemanha. e o material foi premiado. entusiasmados com o prêmio, cláudio e eu fomos recebê-lo em hannover. e para nossa surpresa e emoção, ao chegarmos lá fomos agraciados com o troféu if gold, o “oscar do design”, que em 55 anos jamais havia sido concedido a um projeto desenvolvido em uma universidade. e foi também o primeiro prêmio dessa categoria recebido pelo brasil no if.

em 2006, graças à repercussão alcançada pelo nosso trabalho, a esdi foi convidada pela curadora do salone satellite, evento que acontece dentro do salão do móvel na feira de milão, a participar da mostra de novos talentos e escolas de design. a escola se fez representar pela mostra “palm trees, banana trees, technology: sustainability and design trends at esdi”. nesta pequena mostra, apresentamos a pesquisa sobre novos materiais sustentáveis, ao mesmo tempo em que mostrávamos imagens de outros projetos desenvolvidos na escola. nosso discurso apresentava um país de palmeiras, bananeiras e rica biodiversidade, mas onde estávamos preocupados com o uso dos nossos recursos naturais, ao mesmo tempo em que mantemos também uma boa produção de projetos em produtos para os setores de informática, telecomunicações, e outras tantas áreas.

esta mesma exposição foi trazida, de forma compacta, para o casa brasil 2007, em bento gonçalves.

iniciamos em 2007 as atividades da design.inc, uma ainda pequena incubadora de empresas de design de produto, que também pretende se dedicar ao apoio e incubação de projetos dos nossos estudantes. nela, temos incubadas duas empresas:

a fibra design sustentável, nascida a partir do sucesso do designer cláudio ferreira com o compensado de pupunha, que já vem trilhando um caminho pavimentado de outros sucessos, como parcerias com grandes empresas, e até mesmo uma nova premiação no if design 2008, pelo material e processo do skate “folha seca”;

e a habto design, vencedora também de diversos prêmios, entre eles o movelsul deste ano, e que tem trabalhado em parceria com a fibra, como foi o caso do projeto do espaço do sebrae-rj no evento de moda “rio fashion week”, no início deste mês de junho.

vivemos hoje uma nova etapa, dos projetos colaborativos entre a esdi e suas escolas parceiras. a esdi se coloca hoje como uma plataforma internacional para o desenvolvimento colaborativo de projetos de pesquisa de design, sejam estes acadêmicos/especulativos ou voltados para o mercado. em dezembro de 2007, durante um seminário na coréia, participei do lançamento de uma plataforma de projetos bric + k, envolvendo escolas de design de excelência do brasil, rússia, índia, china e coréia.

conforme relatado anteriormente, tivemos recentemente uma experiência no desenvolvimento de projetos sobre o ciclo da piaçava, no sul da bahia, em conjunto com a hfg schwäbisch gmünd, da alemanha. recebemos um professor que atuou no rio e na bahia como consultor do projeto e promovemos um workshop na alemanha sobre o tema, com estudantes de schwäbisch gmünd.

participamos ainda de um projeto de pesquisa dirigido pela ensci /les ateliers, de paris, relativo ao ambiente doméstico em habitações populares na frança, brasil e cuba.

e estamos no momento desenvolvendo um projeto de táxi urbano junto com a hfg offenbach, na alemanha, e uma escola na turquia. e teremos ainda a participação do professor reinhard butter, da ohio state university, como consultor desse projeto em setembro.


aferindo resultados:

os resultados de todo esse investimento estão sendo sentidos pela escola: no ano passado, ao ser divulgado o resultado do primeiro enade (exame do inep/mec que afere resultados dos cursos superiores), esdi obteve as maiores médias nacionais entre os 131 cursos de design avaliados no país.

o guia do estudante da editora abril classificou a esdi com a cotação máxima de cinco estrelas.

e a revista business week de outubro, no seu panorama anual do ensino criativo de 2007, incluiu a esdi entre as sessenta melhores escolas de design do mundo, ao lado de harvard e do mit.

é sem dúvida nenhuma um retorno que (quase) recompensa o sacrifício que fazemos no ensino público...


buscando soluções para alguns problemas pendentes:

falando agora não apenas da esdi, mas nos incluindo a todos, podemos identificar alguns pontos que precisamos reforçar na formação dos designers brasileiros:

- cultura geral de design

encontramos com freqüência em nossos estudantes a falta de interesse pelo que se produziu no passado. não podemos abdicar de encontrar as formas adequadas de transmitir essas informações históricas, que são essenciais no sentido de se criar massa crítica, de se instilar nos estudantes o conhecimento dos acertos e erros do passado que irão contribuir para que estes venham a projetar e produzir com qualidade. qualidade refinada pelo exercício da pesquisa e da crítica.

neste sentido, sentimos bastante a falta, no brasil, de museus de design e de tecnologia ocupados em expor o passado e o presente, trazendo para todos, estudantes e população, referências que embasem um olhar crítico sobre a produção da nossa sociedade.

- cultura de negócios / empreendedorismo

para que nós designers possamos nos relacionar melhor com o mercado (e quem sabe até sendo melhor remunerados...), precisamos nos aproximar mais de determinadas disciplinas com as quais temos tido dificuldades históricas em nos relacionar: economia, administração, marketing. nestas áreas têm surgido novidades que precisamos incorporar ou pelo menos filtrar com a nossa capacidade metodológica e de trabalho em equipes multidisciplinares que gostamos de apregoar.

nós deveríamos falar muito mais de inovação do que economistas ou engenheiros, que dominam este cenário atualmente. mas, talvez por sabermos muito bem que o pensamento criativo não é algo tão facilmente domável, temos um “respeito” maior pela palavra inovação, sem que percebamos o quanto é intrinsecamente inovador o método ou o pensamento do design para abordar problemas e gerar soluções, enxergando-os de uma forma mais ampla, considerando-os sob múltiplos ângulos e procurando incorporar diversos conhecimentos para sintetizar tudo num produto.

precisamos aprender melhor a estimular atitudes inovadoras e empreendedoras. precisamos vencer a cultura da inércia e estimular sempre novas maneiras de pensar, de aprender, de trabalhar, de produzir.

a vantagem competitiva do brasileiro está na sua capacidade de adaptar-se rapidamente, em improvisar dentro das possibilidades disponíveis, em criar dentro de contextos limitados, sejam estes limites decorrentes dos materiais ou do instrumental disponíveis, ou de outras restrições. temos sem dúvida alguma bastante potencial inovador.

- sustentabilidade

esta não deve ser encarada como uma mudança na atitude do design, ou a partir do design, mas como uma mudança de atitude demandada pelo mercado, pela sociedade como um todo. portanto, não estamos diante de "um novo design", ou de uma "nova onda" de design sustentável, mas de um novo conjunto de determinantes ao qual o designer deve se adequar: na pesquisa, na conceituação, no projeto, nos materiais, na produção, no uso, nos serviços associados, no pós-uso e no descarte dos produtos. Esta preocupação estende-se a toda a cadeia produtiva, e envolve também o emprego de pessoas em todo este ciclo que operem em condições social e ambientalmente dignas.

existem novos quesitos a serem considerados, como a própria razão para se fazer um novo produto, ou a seriedade da questão do uso e descarte de materiais, além da virtualização das experiências e dos produtos em que as sensações transmitidas ou associadas ao produto são primordiais.

- cooperação com o setor produtivo

na delicada interação entre a universidade e o setor produtivo, a primeira não deve de forma alguma se tornar uma fonte de mão de obra barata ou de repasse de tecnologias a baixo custo.

e o setor produtivo, por sua vez, deve entender a sua importância na formação de profissionais melhor qualificados e procurar mecanismos para investir na melhoria da qualidade do ensino. e se beneficiar da inovação proveniente do pensamento livre de amarras que circula no meio acadêmico e estudantil.

(note-se bem que não estou dizendo que o pensamento da universidade não é, por vezes, retrógrado, preso a dogmas e contrário à inovação)

a universidade deve procurar abrir canais de acesso ao mercado para melhorar a qualidade do seu trabalho na formação das novas gerações e o mercado deve procurar, na universidade, parcerias, oportunidades, pensamento inovador, onde se possa investir.


apontamentos para o futuro:

recentemente a universidade de stanford estabeleceu os objetivos de sua escola de design, que julgo serem um bom conjunto de recomendações a serem seguidas nesse processo de globalização do ensino de design:

nosso propósito: criar a melhor escola de design. ponto.

preparar futuros inovadores para serem pensadores / atores de vanguarda

utilizar o método ou o pensamento do design para inspirar equipes multidisciplinares

promover a colaboração radical entre estudantes, professores e a indústria

atacar grandes projetos e usar prototipagem para descobrir novas soluções



na busca de um modelo para o ensino e pesquisa de design atentos ao contexto global, cito a designer argentina silvia fernández, no seu texto sobre as influências da escola de ulm no ensino do design na américa latina, aonde ela ao mesmo tempo louva a inclusão do design industrial no programa do cnpq voltado para o apoio à industrialização brasileira, no ano de 1981, e depois aponta que ainda hoje falta acesso dos designers ao círculo político dominado usualmente por engenheiros, economistas e outros cientistas.

ao finalizar, chamo a atenção novamente para a necessidade de termos um modelo eficiente de trocas entre o setor produtivo, o governo e a universidade que possa alavancar crescimento, não nos esquecendo da inserção da cooperação internacional como ferramenta de contínuo aperfeiçoamento e aferição desse modelo.

agradeço a atenção e a paciência de todos em ouvirem esse longo e entusiasmado relato, e espero ter contribuído para a sugestão de caminhos a serem trilhados pela educação dos nossos novos designers para os desafios desse mercado globalizado.


gabriel patrocínio
 
esdi/uerj
novo hamburgo
24 de junho de 2008