Uma Carta a Joana Luísa

Texto de Vergílio Alberto Vieira

 

[A carta que se segue foi escrita por Vergílio Alberto Vieira, professor que foi, na extinta Escola Veiga Beirão, e onde, por obra do acaso – ou não – deu a sua última aula na sala 19, a mesma que recebeu a sabedoria de Sebastião da Gama, o pedagogo, talvez hoje recolhida por entre o pó que ficou pousado na alma das memórias.

Nesta carta, Vergílio, o escritor, toma-se por Sebastião, o poeta, e escreve a Joana Luísa, no mais profundo respeito por este último, como homem.]

Teresa Lopes

 

 

PRÉMIO DE POESIA SEBASTIÃO DA GAMA

2003

Escola Básica 2.3 Fernão de Magalhães

 

 

 

Convento da Arrábida, 24 de Junho de 2003

 

               Querida Joaninha,

 

Quisera Deus, e o Solstício de Verão, que não te deslocasses, este ano, ao Largo do Carmo, para me representar na cerimónia de entrega dos prémios do Concurso Literário que antigos alunos, docentes actuais e de outros tempos, da Escola Veiga Beirão e da Escola Fernão Lopes, dedicados leitores e amigos da poesia, ali realizam em meu nome.

Eu sei, saudosa companheira, que, apesar da tua ausência, seremos lembrados com ternura, pois que a ternura, como a poesia, “paira à flor das coisas”, paira “na alegria/das crianças que riem sem porquê”, para que, livremente, se exprima sem que se pretenda, como o Poeta, “segurá-la (…) nos braços” ou “vesti-la com palavras…”.

Flores do campo, silvestres flores em vasinho de cidade, os poemas por eles escritos nasceram sem sequer saberem que neles existe a poesia, que neles se prende “o perfume das flores” e “o quebrar das ondas pela praia”.

Poesia não fossem os poemas, querida Joaninha, não estaria eu entre as crianças sem que elas me vejam, para que não as assuste a minha presença.

No olhar das crianças, contudo, a poesia é amor.

E, como deixei escrito no conhecido poema do livro Serra-Mãe, para que o amor verdadeiramente seja amor, terá o Poeta de não mexer “os lábios nem os braços”, mas – porque é poesia – apenas a deixar “viver em si”.

Foi isto, afinal, o que te quis dizer nesta cartinha singela que, nem a greve dos correios, nem a tua ausência, fizeram atrasar, ou até impediram que não chegasse ao destino.

Porque não se trata de uma carta de amor, como as do Pessoa que nada tinham de ridículas, mas da forma mais simples de voltar ao lugar donde se avista o Tejo, o lugar onde cada janela é um cais e cada coração a branca partida de um veleiro a caminho do mar, recomenda-me, Joaninha, a todos os que, neste dia, aí se encontram para recordar o poeta que eu fui, e aqui está no “seu cantinho”, quase “sem respirar”, quase “sem se bulir” para que “não dêem por ele”, nem por ti, minha Joana Luísa, de quem me despeço com um beijo.

 

 

Sebastião da Gama