Poemas de Amadeu Baptista


O Bosque Cintilante

 

 

Edvard Grieg: Dança da Anitra, de Peer Gynt

 

 

Estou perdido entre uma sombra

e uma amendoeira,

mas estar perdido não significa

não conhecer a beleza do que passa

no instante em que passas

ou estar mais próximo da desolação

neste vestígio antiquíssimo da desolação.

 

A sombra de que falo

vem de um lugar onde o coração

está próximo,

de um lugar onde a inocência pulsa ainda

sob a terra,

de um lugar onde os lábios pronunciam

a subtileza de um nome

com o teu nome.

 

Porque tu és essa ave

que o vento reconhece e agita

o coração,

a árvore branca e poderosa

a que os pássaros regressam,

a árvore que cintila na escuridão

e pelo subtil estremecimento da noite é o último refúgio

de quem se encontra perdido

entre a sombra de uma amendoeira

com o teu nome,

algures no mundo,

neste vestígio antiquíssimo da desolação.

 

 

 

António Vivaldi: Outono, de As Quatro Estações

 

 

Que memória haverá da gôndola vermelha

     que atravessa o canal,

quando eu morrer?

Que sombras beneficiarão a Piazzeta

e iluminarão a noite,

quando eu morrer?

Quem consolará Beatrice, Belvidera

e Orietta,

quando eu morrer?

Continuarão a chamar-me demónio

e a condenar a angústia

que me afeiçoa às mulheres e me afasta do culto,

quando eu morrer?

Que música ondulará sobre Sant'Angelo,

quando eu morrer?

E as órfãs, as órfãs do Pio ospedale della Pietà,

quem velará o sono das órfãs,

quando eu morrer?

Quem se debruçará da janela

para melhor escutar a plangência divina

que exprime o sublime,

quando eu morrer?

 

Deus?

Os anjos?

O próprio outono?

 

 

 

Sergei Rachmaninov: Prelúdio em dó sustenido menor

 

 

Para além da janela a neve abria

outro caminho além desses caminhos

que se ocultam no vento quando o tempo

já não é mais o tempo que vivemos

mas a marca do destino que trazemos

de uma outra dimensão, outro lugar

de onde chegam a estrela e o enigma

que há em nós.

 

Parti, então, rumo à tempestade.

 

 

 

 

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Polonaise, de Yevgeni Onegin

 

 

Todas as cores eram suaves naquele tempo

em que acreditávamos que a divindade existia.

Hoje o nosso amor distribui-se por pequenas parcelas

de nuvens cor-de-rosa, alguns segmentos de sol

     que tomaram a forma de um lago

sobre o nosso olhar, um risco entre duas coisas

que já não sabemos nomear mas estão lá, perante as nossas mãos

chegam a queimar os sentimentos e a magoar

     como jamais pudemos imaginar.

A divindade ainda vive, tal como vivem coisas imemoriais

entre nós, mas talvez se tenha perdido o sentido essencial

do que habita a alma nestes dias, o poderoso triunfo

da aliança sobre todos os eventos. Sentamo-nos nesta pedra

e esperamos, um processo de múltiplos brilhos emerge do céu

para que contemplemos a dor, às vezes adormecemos

para escutarmos as vozes do que aconteceu e o pesadelo

adensa sobre as cabeças esse ruído indizível de muitos anos

de desolação após outras tantas estações de uma felicidade

     quase subversiva, alheia

a tudo quanto dói e fere. Hoje é possível dizer que o amor

nos induziu às sete partidas do mundo e a clareira nos espera

ainda se algo mais denso pulsar na pedra do nosso

     contentamento, eu digo

como te entrego este bloco de sílabas inesperadas

para compreender todas as turbinas do mundo, os seus vulcões,

o movimento que enche o coração e há-de animar

de novo a divindade a operar o milagre da transfiguração

     e da esperança. 

Amo-te dezenas de vezes e de mil maneiras diferentes,

     carrego nos dedos

este inebriamento de mel com o teu nome e o teu odor

e sei como há plácidas tempestades entre dois seres,

a flor do meu segredo é essa pulsão que conduz às tuas raízes

para que um imenso vendaval de pétalas floresça

no meu peito, meu amor,

um surto de escuridão.