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Uma Tragédia Nuclear

Publicado a 14/03/2011, 14:58 por Pico DoPetroleo   [ atualizado a 14/03/2011, 15:13 ]
A notícia domina os meios de comunicação social desde sexta-feira passada: um tremor de terra de magnitude épica, o mais forte em séculos, abalou o Japão. Segui-se-lhe um maremoto que arrasou boa parte da costa noroeste do arquipélago. A perca de vidas provavelmente contar-se-á nas dezenas de milhar, a infraestrutura de transportes, comunicações, abastecimento de água e energia foi muito abalada, em alguns pontos deixou mesmo de existir. O país vive a pior destruição desde a II Guerra Mundial.

Diz o ditado: “uma desgraça nunca vem só” e infelizmente foi o caso. Como muitas outras economias desenvolvidas sem reservas de combustíveis fósseis o Japão alberga um parque nuclear que fornece boa parte da electricidade consumida no país. O terramoto sujeitou parte desta infraestrutura a um abalo acima da magnitude para a qual tinha sido desenhada, mas ainda assim resistiu. Numa primeira instância a situação desenvolveu-se favoravelmente, nenhum reactor foi danificado pelo sismo e a fissão foi terminada com sucesso em todos eles.

Mas no complexo de Fukushima algo correu mal, os reactores foram desligados, mas deveriam continuar a ser arrefecidos por um circuito de água; não havendo energia do próprio reactor, este circuito de água deveria ser mantido por uma fonte de energia externa, mas por razões ainda pouco claras, essa alimentação externa não funcionou. Resultado: lentamente o núcleo dos reactores começou a aquecer para lá dos níveis de segurança aumentando a pressão do vapor de água dentro do primeiro contentor do reactor. Numa primeira reacção esta pressão foi libertada para o espaço entre o primeiro contentor (construído de aço) e o segundo contentor (de betão). Começaram então os problemas, o vapor de água que fora libertado do núcleo fora sujeito a temperaturas altas o suficiente para dissociar a água em hidrogénio e oxigénio, uma mistura explosiva. No sábado esta mistura fez rebentar o contentor de betão do reactor nº 1 e esta manhã incidente semelhante deu-se no reactor nº3. Apesar de não se conhecerem ao certo os impactos destas explosões nos contentores de aço, a situação parecia pelo menos controlada, após a injecção de água do mar que permite controlar a temperatura do núcleo.

Mais informação sobre os acontecimentos nos reactores 1 e 3 no TheOilDrum.

Nas últimas horas há no entanto desenvolvimentos preocupantes em relação ao reactor nº 2 do complexo de Fukushima. Apesar de neste reactor ambos os contentores estarem aparentemente intactos hoje de manhã, a alimentação de água do mar ao núcleo teve de ser interrompida pois as válvulas que permitem o retorno dessa água em forma de vapor deixaram de funcionar. O núcleo esteve várias horas sem arrefecimento e começou a derreter. Responsáveis técnicos japoneses estão a levantar a hipótese de haver a esta altura danos no contentor de aço deste reactor. Não sendo de esperar um desastre com a abrangência geográfica do de Chernobyl, a emissão de matéria radioactiva para o ambiente parece a este momento uma real possibilidade.

Esperemos que de facto uma tragédia possa ser evitada com o contenção do núcleo dos vários reactores dentro dos respectivos conectores até que arrefeçam totalmente. Estes eventos são em grande medida já uma tragédia, mas no plano político. Após alguns anos de revivalismo da energia do átomo, face às crescentes dificuldades de acesso aos combustíveis fósseis, este incidente torna tal opção politicamente impossível num futuro próximo. Uns dirão que era algo expectável em sistemas perigosos que não admitem falhas; outros clamarão que foi a falta de investimento nas últimas décadas que impediu a implementação de soluções mais seguras. Para lá desta discussão uma coisa é certa: a transição para uma economia sem combustíveis fósseis tornou-se hoje mais difícil.

Por fim uma palavra de solidariedade para com o povo japonês, que tem um país para reconstruir.

The New York Times
Emergency Cooling Effort at Reactor Is Failing, Deepening Japanese Crisis
By HIROKO TABUCHI, KEITH BRADSHER and MATT WALD
Published: March 14, 2011

TOKYO — Japan’s struggle to contain the crisis at a stricken nuclear power plant worsened early Tuesday morning, as emergency operations to pump seawater into one crippled reactor temporarily failed, increasing the risk of a wider release of radioactive material, officials said.

With the cooling systems malfunctioning simultaneously at three separate reactors at the Fukushima Daiichi Nuclear Power Station after the powerful earthquake and tsunami, a more acute crisis developed late Monday at reactor No. 2 of the plant. There, a series of problems thwarted efforts to keep the core of the reactor covered with water — a step considered crucial to preventing the reactor’s containment vessel from exploding and preventing the fuel inside it from melting down.

Deutsche Welle
Merkel suspends nuclear extension over Japanese risks
Mark Hallam (AP, dpa, Reuters) 14.03.2011

Chancellor Angela Merkel on Monday pledged a three-month pause in her government's plan to extend the running times of Germany's nuclear power plants.

She said that this would mean that the oldest reactors will be turned off, at least temporarily, almost immediately.

Merkel said that the risks of a meltdown at the Fukushima atomic reactors in Japan, triggered by the massive earthquake and subsequent tsunami in the region, had shown the world that nuclear safety should be reevaluated.

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