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O Petróleo vai acabar?

Publicado a 15/07/2012, 01:04 por Pico DoPetroleo
Um amigo colocou há dias esta pergunta. A resposta é óbvia e ele sabe-o, mas não deixa de ser uma questão com algum interesse nos dias de hoje. Seguem em baixo algumas notas em jeito de resposta que explicam a relevância da pergunta.

O petróleo acabará um dia mas não será em breve, provavelmente só para lá do século XXI. É no entanto natural que a questão se ponha depois de 8 anos de preços em alta, mal tal é uma consequência da relação entre a oferta e a procura, não um sinal de um fim iminente do petróleo. No entanto estes últimos anos assinalam o fim do chamado petróleo barato ou fácil; é importante compreender o que tal significa, uma vez que vai muito para além de preços.

O melhor exemplo desta nova era da exploração de petróleo que agora começa é uma das regiões mais maduras do mundo, a América do Norte. A história da exploração petrolífera nesta região começou com reservatórios de grandes dimensões onde o líquido fóssil existia em tais pressões que jorrava automaticamente assim que um furo o ligasse à superfície. Com o tempo esta pressão baixa e eventualmente torna-se necessário forçar o petróleo a fluir injectando água no reservatório. Esta técnica foi sendo apurada ao longo de décadas, por exemplo injectando outras substâncias mais eficazes. Neste tipo de exploração um furo pode produzir petróleo durante anos e um reservatório durar décadas.

Compare-se agora com a exploração dos reservatórios de petróleo de xisto (do inglês <i>oil shale</i> - não confundir com xistos betuminosos) sobre os quais muita tinta tem corrido recentemente. Aqui o liquído fóssil encontra-se fragmentado em pequenas bolsas espalhadas no sub-solo. É necessário efectuar uma multitude de furos em diferentes direcções e depois injectar substâncias especiais a altas pressões que fendem a rocha, abrindo ligações entre as diversas bolsas, assim criando como que um reservatório artificial. A grande diferença é que a longevidade de um furo neste tipo de reservas mede-se em meses e não em anos.

É isto o que significa o petróleo difícil: as novas reservas a entrar em produção requerem um esforço maior para produzir menos petróleo. É um decréscimo de saldo que não é apenas financeiro, pois nenhum banco pode emprestar a energia necessária para abrir um reservatório nos xistos. O petróleo difícil, ou não convencional, apresenta acima de tudo um decréscimo do saldo energético do processo de extracção de energia. Maior investimento para menor retorno energético é também o caso para as areias betuminosas no Canadá, das reservas marinhas ultra-profundas no Brasil ou do petróleo pesado da bacia do Orinoco. 

A principal consequência desta transição para as reservas não convencionais é a dificuldade em substituir o fluxo de produção das reservas convencionais que se vão esgotando. Para manter o ritmo actual da produção de petróleo mundial, a Agência Internacional de Energia estima ser necessário por em produção o equivalente a 3 novas Arábias Sauditas daqui até 2030. Certamente tal objectivo não será conseguido com os petróleos de xisto.

Outra importante consequência é a contracção do mercado internacional de petróleo. Os altos preços têm levado a um aumento muito acentuado do consumo interno dos países exportadores, onde regra geral as condições de vida têm melhorado rapidamente, adquirindo padrões de consumo próximos dos da OCDE. A isto junta-se um crescente proteccionismo de reservas que parecem cada vez mais preciosas; até nos EUA começa a ser igualmente patente a vontade política de evitar exportações de petróleo e gás dos xistos. O volume de petróleo comercialisado internacionalmente está em queda desde 2005, uma tendência que muito dificilmente se reverterá; os maiores perdedores têm sido claramente os países da OCDE, cujas economias não tem muito para oferecer em troca destas fontes de energia mais caras.

Sendo verdade que numa perspectiva mundial o petróleo está longe de terminar, para um país como Portugal a situação é bem diferente. As exigências das reservas não convencionais, a contracção do mercado internacional e ainda a concorrência de economias maiores e mais saudáveis, trazem a perspectiva do fim do acesso ao ouro negro para muito mais perto. Para Portugal o petróleo poderá estar mesmo a acabar-se.












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