O filósofo Invisível  
(8/9/2006)     
 
Richard Rorty

Os filósofos mais influentes do século XX foram John Dewey, Martin Heidegger. Betrand Russel e Ludwig Wittgenstein. Deles, Dewey foi que teve a vida mais feliz, o de prosa mais tediosa e o de que possuía melhor caráter moral. O direito à arrogância ele doou aos outros.

Russell, embora simpático ao sofrimento humano, nunca perdeu a pose e os modos aristocráticos. Tinha o hábito de se apropriar temporariamente da mulher dos amigos, suculento assunto para biógrafos. Wittengenstein distribuía a baixa auto-estima que tinha a
todos que encontrava. O perfeccionismo moral que muitos achavam sedutor o tornou inábil para agradar àqueles que por ele tinham fascínio. Suas idiossincrasias e tormentos o fizeram cultuado, um monstro canonizado. Heidegger foi outra espécie de mosntro, um intelecto superior que se tornou admirador de Hitler. A covardia que demosntrou para esconder o próprio passado nazista é um dos mais terríveis exemplos da degradação moral de um homem que beirava a genialidade.

Dewey, ao contrário, foi sempre ponderado, generoso e simpático. Poucos lhe tinham algum rancor, além de Russell, sabidamente arrogante e irônico para com o colega americano, cuja vida e temperamento foram compassados. Não há em sua biografia desastres, como o movimento pacifista de Russell em meio à Primeira Guerra, a tentativa de Wittgestein em ser professor de curso primário e a proclamação do Furhrer como o presente e futuro da Alemanha perpetrada por Heidegger. Dewey sempre tocou o barco sem pretensões além de ser um bom professor, um bom marido, um bom pai e um bom cidadão. Teve sucesso, principalmente no último dos obejtivos.

Nos quarenta anos que anteceram sua morte, em 1952, foi uma espécie de Sartre ou Habermas, um na França e outro na Alemanha, dos americanos: servia de consciência ao país. Agia sem dramatizar e também sem criar um estilo próprio. As dezenas de livros e artigos que escreveu são recheadas de originalidade e bom senso, embora vazias de poesia. Mesmo admirados têm dificuldade em extrair piadas ou frases de efeito dos textos de Dewey.

Os biógrafos do filósofo caem sempre na mesma armadilha: falham ao tentar torná-lo atual, consumível, emocionalmente grandioso. O mais apurado dos que tentaram, Martin Jay, revela poucas surpresas: detalhes de Dewey e os familiares, o choque com a morte de dois filhos ainda crianças, a depressão da primeira esposa, muito inteligente e o difícil segundo matrimônio é tudo o que temos. Isto pinçado de mais de 20000 páginas entre cartas e manuscritos! Assumindo que os sentimentos agudos são canteiros da originalidade filosófica, quiçá por aí achemos uma trilha que melhor explique as idéias de Dewey.

Além das informações novas trazidas por Jay, eu já sabia que Dewey e Woodrow Wilson ( 28º presidente americano, de 1913 a 1921) estudaram juntos na Universidade Johns Hopkins em 1884 e que chegaram a debater se o governo federal deveria ou não usar fundos na educação de crianças negras sulistas – Wilton era contrário, alegava que seria intrusão nos direitos dos estados do sul).

Foi surpresa eu saber que o prestígio de Dewey era tamanho na China que o Departamento de Estado dos EUA, em 1942, pediu que este escrevesse mensagens, espalhadas por aviões, pedindo que os sinos resistissem à invasão japonesa. Detalhes assim só vêem à luz graças aos anos que os biográfios despendem vasculhando arquivos empoeirados. Devemos gratidão ao trabalho de Martin Jay e às pequenas descobertas que auferiu.

Outro acerto da biografia foi a comparação entre o desenvolvimento intelectual de Dewey e o da própria América (por exemplo, industrialização, Grande Depressão, a tentativa do Partido Comunista de dominar a esquerda americana) como também a enumeração das lições trazidas das divesas viagens ( Japão, China, Rússia, Turquia e México, entre outras). Há argumentos plausíveis para que entendamos as todas parte das vicissitudes políticas e ideológicas pela qual passou Dewey, embora falte críticas ao biografado.

Caso intente saber menos de eventos da vida e mais sobre a ressonância das idéias de Jonh Dewey vá a outras fontes, melhores na separação entre o velho e o novo, o que vive e o superado dentre os pensamentos do mais social dos intelectuais americanos.


Richard Rorty é filósofo mundialmente conhecido e está aposentado da Cadeira de Literatura Comparada da Universidade de Stanford

Tradução de Clodoaldo Teixeira