Transcrição Diplomática de Texto


As “Capitanias Hereditárias”, de Luís Teixeira (1574)

Imagem: Mapas Históricos Brasileiros, da enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História, ed. Abril Cultural, 
São Paulo/SP, 1969. Reprodução do fac-simile existente na mapoteca do Ministério das relações Exteriores, 
situada no Rio de Janeiro, no então estado da Guanabara

 

Transcrição Diplomática:

 

 

A terra do Brasil he aqueparte alinha vermelha

desta do peru aquallinha he a de marcacam que

os Reys de Castella ou Catholicos dom Fernãdo

edona Izabel e Elrey dom João o 2o. de Portugal

fizeram nodescobrimeto geral as Capitanias que

vãorepartidas perlinhas vmelhas São Merçes

que os Reys de Portugal dom Manuel e dom lo/

am seu filho/ o terceiro deste nome fizerão a homẽs

que muy bem os Seruiram nodescobrimento/ e‘

conquista das Indias orientaes/A que diz de Sua

Magestade foy de Fro. Pereira reymão/q morrendor e

ficandosem èrdro. ficou a Coroa/ nesta esta abahia

detodolossantos e Cidade do Salvador onde

assíste oGouerñadoreoBispo todas as mais sam

villas/ excepto a cidade de São Sebastião no Rio

de Ianeiro/capitania de Pero de Goes/aqual Cidade

foy tomada aos francses pello Gouernador Mẽ,,

de Saa/as melhores emais ricas destas Capita/

nias São ade Sua Magestade/ e a de iorge dal,

buquerque. estas sam as quemais Yngenos tem

de asucar eassi tem mais trato de mercadores

tem cada huã destas capitanias pella costa do

mar 5o legoas/ epera o Sertão tanto ate che

gar a linha da demarcacam como na reparticão

dellas seve/ he pouoada esta terra do Brasil/ to,

da de portugueses quãto dizem as Capitanias

esomente ha costa do mar. equãdo muito 15 . 20

legoas pello Sertão/he muy pouoada do gentio

daterra/tem muytos matimentos/ em partes

della ha Ouro assi de Minas como delauagẽs

 

 

Tropico de Capricórnio

 

 

 

Dados Biográficos:

 

Luís Teixeira (século XVI) foi um cartógrafo português que exerceu o cargo de cosmógrafo do Reino de Portugal. Foi pai de João Teixeira Albernaz, o velho e de Pedro Teixeira Albernaz, como ele também cartógrafos.

 

 

 

Dados Históricos:

 

 

Em 1532, Dom João III dividiu o Brasil em capitanias, tentando incentivar o povoamento. A partir do litoral, a terra foi repartida em faixas paralelas e irregulares, doadas aos mais ilustres fidalgos da corte portuguesa.

 

 

Muito tempo depois, em 1574, Luís Teixeira desenhava este mapa (hoje na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, Portugal), em que aparecem as capitanias hereditárias com seus respectivos donatários (do Norte para o Sul): Rio Grande, Itamaracá, Pernambuco, Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Paraíba do Sul e São Vicente. A Bahia, considerada capitania de Sua Majestade, era a sede do governo-geral do Brasil.

 

 

No mapa, a linha de Tordesilhas aparece deslocada dez graus para Oeste, mas é possível que o erro seja proposital, pois favorecia aos portugueses, estendendo mais para ocidente as fronteiras da colônia brasileira.

 

 

 

Outras Obras Relavantes:

 

  • 1573-1578 - "Roteiro de todos os sinais...", atualmente na Biblioteca Nacional da Ajuda, em Lisboa. Da obra faz parte o mapa "Capitanias hereditárias" (1574).

 

 

  • 1597 - "Theatrum Mundi", com João Baptista Lavanha. Esta carta, reproduzida na obra "Portugaliae Monumenta Cartographica" (1960), encontra-se atualmente na Biblioteca Real de Turim. Ilustra, particularmente, a dificuldade, à época, em representar a curvatura da Terra em um planisfério.

 

 

  • c. 1600 - "América Austral", atualmente na Biblioteca Nacional de Florença. Em pergaminho iluminado, com as dimensões de 82 x 98 centímetros, representa o continente americano em toda a sua extensão, desde a Groenlândia até ao estreito de Magalhães. O centro de interesse é a costa atlântica, embora a costa do Pacífico também figure, na altura da América Meridional. Inclui ainda a costa ocidental da África e da Europa.

 

Antecedentes: Carta de Lopo Homem (1519)

 

Mapas Históricos Brasileiros, da enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História,

ed. Abril Cultural, São Paulo/SP, 1969

 

 

 

Características Lingüísticas:

 

No presente texto, estamos na transição entre o período arcaico fonético e o pseudo-etimológico, quando podemos acompanhar a tentativa dos alfabetizados em simbolizar a fala, muitas vezes valendo-se de sinais gráficos (èrdro > herdeiro) e de recursos de pontuação e de separação de palavras (“/”; “,,” etc). A letra ramista “v” é ainda transcrita por “u” (Gouerñador > governador), enquanto que a “j” não é utilizada (iorge > Jorge; io/am > João; Ianeiro > Janeiro). Há uma transcrição peculiar das nasais (sam por são e homẽs por homens), enquanto que mesmo os nomes próprios têm grafias particulares, como Mẽ de Saa (Mem de Sá). Não há distinção gráfica de sufixos temporais em verbos (fizerão significa fizeram e não farão), muitas palavras aparecem juntas (delauagẽs > de lavagens) e o topônimo Baia de Todos os Santos aparece transcrito numa forma assemelhada à castelhana (abahia/detodolossantos).

 

O texto é contemporâneo das “Regras de Escrever a Ortografia da Língua Português” de Pero de Magalhães Gândavo, publicadas em 1574, dois anos antes da publicação de “A Ortografia da Língua Portuguesa”, de Duarte Nunes de Lião, tratados que estabeleceram as normatizações do período pseudo-etimológico. Não há, contudo, uniformidade morfológica, sintática ou léxica com outros textos da mesma época, como Os Lusíadas, de Luis de Camões (1572), no qual o português já é, tanto na estrutura da frase quanto na morfologia, muito mais próximo do atual.

 

Outro fato digno de nota é a utilização regular da terceira pessoa do singular do verbo ser (transcrito como “he”), além de fortes resquícios fonéticos, como em Vmelhas > vermelhas; Francses > franceses e, ainda, huã > uma.

 

 

Comentário Final:

 

Evidentemente, o aspecto histórico foi o que mais me chamou a atenção no texto. Mas há uma particularidade, que faz refletir sobre a diferença da velocidade do tempo transcorrido no passado em comparação com os nossos dias atuais, particularmente se considerarmos o período compreendido entre os Séculos XVI e XVIII.

 

Se o texto de Luís Teixeira já trazia informações sobre os “Yngenos de asucar” num sistema ortográfico tão peculiar, tal tema seria ainda tratado em “Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas”, do jesuíta italiano André João Antonil, publicado em Lisboa em 1711 (portanto, 137 anos depois). Mas Antonil, por sua vez, escreveria de forma bem mais articulada em termos discursivos, além de evidenciar uma maior regularidade das demais características lingüísticas (morfologia, sintaxe, lexicologia e semântica).

 

Desta forma, fica a constatação da evolução do texto escrito desde 1500 até 1711, enquanto que as transformações mercantis tratadas pela História demandaram muito mais tempo para ocorrer: normalmente, nos dias atuais, tendemos a pensar que esta dicotomia temporal (‘escritos passados’ versus ‘fatos presentes’) acontece ao contrário, sendo os fatos o carro-chefe da evolução. Mas, na verdade, é a língua, através de seus textos e relatos, que moldam o pensamento – e mesmo a lógica econômica, filosófica ou outra qualquer –, ao longo dos séculos.

 

 

Bibliografia:

 

 

  • VÁRIOS. Mapas Históricos Brasileiros, in enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História, ed. Abril Cultural, São Paulo/SP, 1969

· HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001

 

· SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1964.

 

·TEYSSIER, P. História da Língua Portuguesa. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1984.

 

· ANTONIL, A.J. Cultura e Opulência do Brasil. In Coleção Reconquista do Brasil (3ª. ed.). Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1982.

 

· Sítio Wikipédia: www.wikipedia.com.br (concultado em 14/dez/2007 às 18h25min)