Toponímia Geral e do Brasil


Fichamento de Texto: “Métodos e Questões Terminológicas na Onomástica”

de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (FFLCH/USP)

 

 

I n t r o d u ç ã o

 

A toponímia serve-se do substrato vocabular, sendo a nomenclatura local uma base de pesquisa lingüística produtiva. Mas, por muito tempo, os nomes próprios foram considerados “uma categoria muito especial”, sendo tratados isoladamente do chamado “vocabulário comum”.

 

Os nomes próprios compartilham das modificações estruturais dos demais lexemas e comportam a mesma categorização dos fenômenos comuns ao sistema lexical. “Os suportes sócias, a que denominamos referentes onomásticos, são modelos capazes de assumir a função de marcadores semânticos ou elementos significativos do meio/núcleo retratado” (pp.2-3).

 

           Ocorre, aí, um movimento de ambivalência: um traço espacial qualquer ganha existência pelo recorte da linguagem, que sói tem uma significância por definir uma realidade concreta e materializável.

 

O simbolismo da língua será analisado por uma metalinguagem expressiva e terminológica, tornando-se difícil, por vezes, recuperar as distâncias entre a expressão e o objeto representado, sendo excessivamente opaco ou aparentemente inexplicável o batismo ocorrido. Assim, faz-se necessário reconstruir todo o processo gerativo da denominação até se formar o enunciado final.

 

Do tempo da enunciação até o resultado final (e a sua “memorização”), há toda uma atividade discursiva que deve ser re-analisada, de modo a equacionar as condicionantes situacionais que, em qualquer cultura, alteram os significados dos nomes ao longo da História.

  

Situação Atual dos Estudos Onomásticos no Brasil

 

Tanto a Antroponímia como a Toponímia são co-responsáveis pela preservação dos fatos culturais em uma determinada área geográfica, atuando como formas conservadoras da memória do núcleo. “Estes marcadores, por evoluírem de modo mais lento que as normas e posturas sociais, são definidos como enunciados arcaizantes das linguagens, capazes de recuperar os momentos históricos vividos e a própria trajetória do homem na formação do grupo” (p.3).

 

Hoje afirmamos também que ambas as disciplinas podem se inscrever no campo da Terminologia ou da Sócio-terminologia, segundo as definições apresentadas por Cabré e Faulstich. “Saindo do isolamento, o pesquisador contemporâneo começa a interagir com o meio ou com a comunidade de falantes e usuários da língua, entrando em contato com outras formas de expressão, as variáveis sociolingüísticas” (p.4).

 

O caráter atual das pesquisas onomásticas firma uma mudança no corpo de estudo e na consideração do nome. Antes de buscar, prioritariamente, as influências aparentes do topônimo, “o designativo tornado ‘nome’ passa a ter uma valência peculiar ou dupla: nem apenas um nome nem apenas forma e expressão sígnicas, mas vocabulário de língua, referencializado como topônimo ou antropônimo” (p.4).

 

O componente semântico que caracteriza a substância do nome próprio projeta-o em duas variáveis gerais (‘lugar’ e ‘pessoa’), ambas particularizadas em diversas categorias (“taxes”), devendo-se observar a ilustração no final da página 4, que explicita as coincidências entre a intersecção do campo da Toponímia e da Antroponímia (T∩A) com a área maior, do “onoma” que, por sua vez, está inserido no Universo da língua.

 

“Este esquema mostra as relações de inclusão sensíveis no processo designativo e as passagens de um vocábulo pleno, em uso na língua, para o uso onomástico – toponímico/antroponímico, seguido ou não da perda de sentido aparente” (p.5). A seguir, á apresentado o seguinte exemplo ilustrativo:

 

·        Cabra (lat. ‘capra’: mamífero ruminante) > Cabral (onde pastam as cabras) > Cabral (antropônimo familiar) > Serra do Cabral (MG)

 

·        Adolfo (visigót. ‘athaulf’: lobo nobre) > Adolfo (antropônimo) > Adolfo Tabacow (rua de SP) > Adolfo (‘corônimo’: parte de um espaço habitado).

 

 

“Houve modificação, portanto, na passagem do vocabulário de seu estado de língua para o estado denominativo, o que pode ocorrer em uso dêitico ou anafórico” (p.6)

 

                             A Conceituação do Nome Próprio e Estatuto Lingüístico

 

É na filosofia helênica que despontam várias tendências de configuração dos nomes próprios. Apresentado como ‘onoma’, envolve as noções do ‘logos’ e da ‘praxis’, dos contrários (‘physei’ e ‘nomoi’) , do ‘órganón’, do ‘kyrión’ e do ‘prosegorikon’. (p.6)

 

Contudo, ‘logos’ e ‘praxis’ exercem o papel de ancoragem histórica ou “instâncias discursivas distintas” (Greimas), como segue:

 

·        “Logos”: na ciência, seria o enunciado, o dito, a razão e o entendimento filosófico do discutido;

·        “Práxis”: seria a realização, a figurativização, o simulacro do real em exemplos concretos.

 

 

Dentro de uma nomenclatura técnico-científica ou especializada, topônimos e antropônimos podem ser interpretados como:

 

·        “Termos” (segundo a definição de Cabré);

·        “Unidade Terminológica” (UT);

·        “Predicador Semântico” (segundo Faulstich)

  

A definição de Faulstich completa a de Cabré e ressalta a importância dede se analisar os nomes sincrônica e diacronicamente. Tal ressalva se torna evidente os designativos pessoais e de lugares acabam se transformando em signos vazios ou de segunda classe e, para que recuperem o estatuto pleno de palavra-sígnica, deve-se restaurar o seu valor denotativo (diacronia). A seguir, deve-se procurara a adequação ou a correspondência entre o uso lingüístico e as diferentes ‘semías’ incorporadas, procurando reconhecer, no enunciado originário, as causas determinantes da enunciação, acompanhando o percurso gerativo do sintagma criado na língua de partida.

 

“Tendo uma função específica de marcadores ou referenciais, topônimos e antropônimos podem integrar o conjunto da obra lexicográfico-terminológica particular” (p.7). Essa figurativização poderá ocorrer em dois planos:

 

·        No âmbito conceptual da ciência-objeto (Onomástica);

 

·        Na esfera em que os vocábulos definitórios (‘arquétipos’, ‘constantes’ e ‘variáveis’, ‘paralelismo’, ‘transferência’, ‘taxes’) recebem um tratamento nomenclatural.

  

O vocábulo onomástico deve ser estudado etimológica e semanticamente, nos enunciados discursivos ou em função de um texto maior, sendo que, de um modo geral, entra em circulação como dêitico ou referencial. E, muito embora os dois termos (topônimos e antropônimos) participem da mesma categoria do nome próprio, são diferentes na finalização.

 

Preliminarmente, a professora Dick procura discutir o topônimo como um dado além da palavra/lexia. Na recuperação da forma vocabular primitiva, chega-se a dois actantes desse mecanismo (o ‘denominador’ e o ‘tempo da enunciação’), que permitem a desconstrução do vocábulo-termo e sua recomposição após o tratamento linguo-etno-sóciocultural.

 

“Os antropônimos, ao identificarem lugares, passam a pertencer à categoria dos topônimos antroponímicos ou antropotopônimos, e é nessa modalidade que figuram nos mapas” (p.8).

  

A Construção do Texto Onomástico e Modelo Toponímico

 

Entendidos, tradicionalmente, como uma representação simbólica dos contornos de uma paisagem física ou urbana, os mapas se caracterizam por permitirem, também, dois planos de interpretação:

 

·        O “verbal”: expresso nos nomes dos acidentes; e

 

·        O “não-verbal”: caracterizado por símbolos convencionais distintos, segundo a natureza do acidente mapeado (cursos d’água, caminhos, serras, rodovias, estradas vicinais, ferrovias, vilas, povoados, cidades).

  

“No simbolismo da linguagem, os signos tomados nomes exigem (...) cuidados de interpretação e reflexão. Há os que são facilmente compreensíveis, porque o semantismo que sugerem ainda não se cristalizou; outros, apresentam dificuldade dupla, seja quanto à origem genética da palavra ou quanto ao significado intrínseco”. (p.8). Este é um fato comum no Brasil e que ocorre com palavras oriundas de outros estratos de língua, presentes desde a colônia.

 

Ainda ocorre a tendência em considerar A Toponímia, mais que a Antroponímia, como um fato meramente nomenclatural, uma relação de palavras-nomes aleatórias e desvinculadas entre si. “Ao se projetar o nome num processo de influências linguo-culturais para se determinar o seu traço dominante, ocorre, de fato, a instalação de uma tensão dialética a ser resolvida pelo emissor-nomeador” (p.9).

 

Não basta existir o traço ambiental, mas é preciso que esse traço tenha significação para o sujeito, gerando efeitos lingüísticos (‘hiponímia’, ‘co-hiponímia’, ‘hiperonímia’ etc.). Na disciplina dos nomes, deve-se considerar o encadeamento das informações em dois eixos (o ‘tópico’ e o ‘cronológico’), sendo que o referencial desempenha, em qualquer um deles, um papel na relação de significância, situando-se entre o onoma (sistema lingüístico) e o referente (sistema semiótico).

 

        A coesão dos enunciados toponímicos e antroponímicos é mais difícil de ser intuída do que nas demais modalidades discursivas: a logicidade deve ser interpretada em cada um dos recortes lingüísticos que simbolizam o objeto nomeado.

  

A Metodologia de Trabalho

 

As cartas geográficas não servem apenas para o conhecimento pontual da área mapeada. “Permitem, também, que se busquem outros planos de apreensão do objeto em exame, em épocas anteriores, descrevendo-se ou recuperando-se o continuum denominativo daquela nomenclatura” (p.10).

 

Se o enunciado é um produto ou uma resultante da manipulação intelectual do nomeador, deve ser estudado num esquema de articulação lingüística, o que permitirá que seja alcançada:

 

·        A verdade do nome no conjunto da nomenclatura;

 

·        Sua inscrição num esquema de coordenadas tempo-espaciais;

 

·        Sua contextualização (texto-objeto no contexto geral); e

 

·        A sintonia entre o tempo do enunciado e o tempo real da produção do designativo, quando assume o papel de marcador de lugares.

  

Nem sempre os nomes estudados são de primeira geração. Pelo distanciamento temporal e/ou espacial em que se encontram os atores do processo de nomeação, a unidade lexical empregada pode significar uma aplicação indireta, mas distante em termos de uma lógica semântica.

 

“Não há um compromisso real do denominador nem uma imposição do processo de nomeação quanto a representar fidedignamente a paisagem: num contexto físico como o brasileiro, dominado pela geomorfologia exuberante”, o nomeador, se insensível a ela, não a valoriza positivamente, de modo a transformá-la em signo vinculado. “Nessa hipótese, gera uma expressão atípica, de difícil, enquadramento nos padrões motivadores explícitos” (p.11).

 

Como metodologia de trabalho, a professora Dick recomenda “um diagnóstico pontual da área de estudo, levantando os seus característicos e traços semióticos”:

 

·        Morfologia urbana, com o sistema de circulação viária (ruas, avenidas etc.) e seus marcos principais;

 

·        Aspectos demográficos e movimentos da população e termos de camadas étnicas recorrentes;

 

·        Aspectos físicos gerais, incluindo os recortes geomorfológicos e hidrográficos;

 

·        Condições econômicas da região;

 

·        Fauna, flora, regime climático e sistema de chuvas.

 

 

São “instrumentos metodológicos hábeis para o estudo onomástico a documentação cartográfica referida e a arquivologia, que se posicionam como fontes idôneas para o estabelecimento das etapas relativas à desconstrução e à recriação dos próprios dados” (p.11).

 

Mas, por vezes, o ato enunciativo acaba revelando um subjetivismo ou o uso local de uma expressão que podem truncar a percepção do observador. A título de exemplo, a professora Dick apresenta o exemplo da cidade de Varre-e-Sai (RJ): “a análise excessivamente cartesiana do objeto onomástico sofre embates pela necessidade de se completar a investigação com o exame comportamental ou psico-social do pensamento coletivo dominante” (p.12)

 

                              Os Conceitos de Base, o Vocábulo e as Taxionomias

 

A freqüência do emprego de determinadas formas lingüísticas, e o mecanismo de sua criação, sugeriu a formação de um postulado básico relativo aos arquétipos toponímicos, de características gerais e nitidamente descritiva, própria dos conjuntos icônicos.

 

Tais propriedades icônicas remetem a aspectos imanentes ou essenciais dos objetos, independentemente da ação exterior, definindo as noções relativas à grandeza, dimensão, profundidade, altura, coloração, posição geográfica etc., conforme evidenciado no esquema abaixo:

 

E n u n c i a d o s:                                         T o p ô n i m o s:

 

“o rio é grande”                                               Rio Grande

“o morro branco destacava-se”                       Morro Branco

“as águas fundas do riacho”                             Riacho Fundo

“ficava na região dos lagos”                             Interlagos

  

“Em oposição a este conceito, a visão de mundo dos denominadores coloca em jogo expressões vinculadas a ideologias dominantes em determinados períodos, a alta espiritualidade ou o acentuado pragmatismo, a estética das formas, a alegria, a tristeza, a homenagem, a devoção. À tipologia conceitual resultante desse pensamento denominamos variáveis culturais ou tendências denominativas, características de modalizações espaciais e cronológicas”. (p.13). Pode-se ilustrar tais variáveis com a homenagem feita a Caetano Veloso: a sua cidade natal, Santo Amaro (BA), é mais conhecida como a “Cidade de Caetano” do que propriamente por seu nome oficial.

 

Outro conceito recorrente é o de acidentes toponimizados, uma modalidade generalizada na Toponímia Universal e que pode exemplificada com a conjugação reflexiva de cachoeira>Cachoeira. O termo lagoa, na realidade brasileira, é uma das formações hidrotoponímicas mais assíduas na nomenclatura, seja em:

 

·        Sintagma simples: Lagoa;

·        Adjetiva (sintagma composto): Lagoa Azul, Lagoa Bonita;

·        Com conectivo: Lagoa da Prata, Lagoa de Cima;

·        Em derivados: Lagoão, Laguna, Lagoinha;

·        Em uso plural: Lagoas, Lagoinhas;

 

O mesmo ocorre com outro termo de alta produtividade: laje / lajeado / lajinha / lajinhas e suas variações, sendo “a diversidade da paisagem física do território a responsável por esse processo seletivo de ocorrências variadas” (p.14).

 

       O sintagma toponímico é constituído de:

 

·        Um ‘termo genérico’ (objeto da nomeação); e de

 

·        Um ‘termo específico’ (nome particular do objeto nomeado).

  

No enunciado “bairro de Vila Pompéia” (SP), o termo “vila”, na origem um índice de aglomeração humana, vem se enfraquecendo, paulatinamente, como portador desta função. Esta ‘lexia’ passa a funcionar como um hiperônimo de outras unidades semelhantes (‘parque’, ‘jardim’, ‘granja’, ‘chácara’, condomínio’, ‘conjunto residencial’), para transmitir a noção de aglomerado.

 

“Nas línguas justapostas, como o português, os termos genéricos da nomenclatura geográfica permanecem por mais tempo no vocabulário ativo dos usuários; as dificuldades de separação/segmentação entre eles e os termos específicos ocorrem mais nas línguas aglutinadas, como as nossas línguas indígenas” (p.15). O Projeto ATESP (ver nota final), dentro do Atlas Toponímico do Brasil e do Vocabulário toponímico de origem indígena brasileira, comprovam esta tese, conforme os exemplos de Itaquaquecetuba e Taquaquicetuba, dentre outros.

 

As formações vocabulares hidrográficas trazem os respectivos termos genéricos em posição inicial e final no sintagma, com implicações no significado:

 

·        No primeiro caso (posição inicial), caracterizam os objetos por situações aspectuais ou de estado: Água Fria, Água Grande, Água Preta;

 

·        No segundo caso (posição final), remetem a associações ou características acidentais do objeto: rio do jacaré > Jacareí [jakaer’yl], rio da taquara > Taquari [takwar(a)’y], rio do acará > Acarai [akara’yl];

  

Considerando-se, a título de exemplo, os sintagmas a seguir relacionados:

 

·        “rio Branco”: topônimo simples de natureza física; e

 

·        “Rio Branco”: Topônimo composto, identificador de uma cidade no norte do país.

  

Observa-se que houve, no segundo caso, a incorporação do designativo genérico “rio”, “transposto do curso d’água, formando, assim, um novo par e, conseqüentemente, um novo signo, diferente do primeiro. A expressão “rio branco” deixou de ser apenas um indicativo hidrográfico para acumular a idéia de um referencial urbano” (p.15).

  

Taxionomias Toponímicas

 

A professora Dick ressalta que o material toponímico pesquisado na rede onomástica deve ser ordenado em esquemas classificatórios, para fins de sistematização. Pode-se considerar, como ponto de partida, a divisão empregada por Albert Dauzat (1936), ao incluir os topônimos franceses em dois campos de influência: o da geografia física e o da geografia humana.

 

Nos EUA, em 1954, George R.Stewart divulgou os mecanismos da nomeação onomástica, distribuídos em nove classificações modulares:

 

·        Nomes descritivos;

·        Possessivos;

·        Comemorativos;

·        Incidentais;

·        Eufemísticos;

·        Manufaturados;

·        Etimologias populares;

·        Nomes deslocados (“shift names”);

·        Nomes resultantes de erro em sua formulação (“mistaken names”)

 

“Destes mecanismos, os nomes descritivos e os comemorativos devem ser vistos com atenção especial, porque constituem (...) protótipos de atividades denominativas gerais ou comuns a diferentes povos” enquanto que “as demais categorias têm menos índice de uso, se aplicadas a uma macro-toponímia, mas deve-se considerar que o modelo foi pensado a proposto para o contexto americano, de base inglesa” (p.16)

 

O sistema classificatório elaborado pela professora Dick em 1980 possui uma visível base terminológica e se organizou no plano sincrônico das significações sígnicas, para evitar a recorrência à diacronia. “A pesquisa do material ilustrativo foi realizada no Índice dos Topônimos do Brasil e teve como objetivo reconhecer as características onomásticas, determinando-lhe o padrão motivador e dando-lhe um tratamento semântico-distribucional por áreas de ocorrência” (p.16).

 

No primeiro momento do estudo (1980), relata que foram propostas 19 taxes e que, depois, este número se ampliou para as atuais 27 taxes, algumas delas comportando subdivisões. As taxionomias toponímicas são exemplificativas, podendo ser ampliadas em ‘categoremas’ distintos (‘fitotopônimos’, ‘ergotopônimos’, ‘somatotopônimos’ etc.), respeitando sempre o modelo a seguir descrito:

 

·        Adoção de um prefixo nuclear (greco-latino), relativo a um dos campos de ordenamento cósmico (o ‘físico’ e o ‘humano’); e

 

·        Acréscimo do termo “topônimo”, para dar a justa medida do campo de atuação da unidade onomástica criada.

 

As características mais utilizadas pelo homem brasileiro “respeitam aos designativos de origem vegetal, animal, hidrográfica, geomorfológica e litonímica; e, no plano cultural, aos nomes de origem religiosa, antroponímica, histórica, social e noológica” (p.17).

  

Funções do Topônimo e Conclusão

 

As taxionomias toponímicas permitem interpretar os nomes de lugares com maior segurança, do ponto de vista semântico, sendo estudado enquanto forma de língua e de acordo com a causa de seu emprego. O produto resultante (topônimo) ganhará vida própria, passando a ter caráter motivado e não apenas arbitrário.

 

Muitas vezes, ocorre a perda do sentido primeiro e o nome se torna tão vazio semanticamente que a população só o reconhece atrelado ao seu referencial. Como exemplo, dá-se o termo “São Paulo”, cujo significado passou a ser o da metrópole, perdendo o sentido religioso original podendo, portanto, o esvaziamento onomástico conduzir ao “não-nome” ou à antítese do nome pleno.

 

Em resumo, são atribuídos aos marcadores onomásticos, as seguintes funções:

 

·        Icônica ou arquetípica;

·        Variável cultural;

·        Motivadora, memorialística e identitária.

  

A permanência do nome no continuum denominativo é fator de estabilidade dos valores sociais, permitindo a recuperação historiográfica de usos e costumes vivenciados pela população.

 

        Por fim, a Toponímia e a Antroponímia podem representar conceitos operatórios definíveis em função de um corpo teórico coerente. Hipóteses e procedimentos de trabalho devem se articular com a estrutura do modelo cognitivo seguido, sendo que “a fórmula lugar-nome-pessoa terá maior impacto quando ambos os sujeitos, destinador e destinatário, participarem, em igualdade de percursos, do processo denominativo” (p.18).

 

 

NOTA: O Projeto ATESP contava, na ocasião, com 445 municípios pesquisados e com 30.000 topônimos cadastrados. Um de seus propósitos era o tratamento de padrão médio motivador dos designativos, em todas as condicionantes.

  

Fichamento de Texto:

 

“Métodos e Questões Terminológicas na Onomástica”. Estudo de caso: o Atlas Toponímico do Estado de São Paulo – de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (USP)