Teoria do Texto


Basedo na versão cinematográfica do conto "Pai Contra Mãe" de Machado de Assis, livremente adaptada por Sérgio Biachi em 2005 

 

 

P R I M E I R A   P A R T E

 

Dos Recursos Argumentativos

 

              No primeiro trecho, de escolha da professora, a frase inicial (“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos”) remete ao tempo do mundo comentado através da narrativa que se inicia. A partir daí, o recurso dominante é o da Ironia, presente em frases como: “A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos”; “perdiam a tentação de furtar”; e “sobriedade e a honestidade certas”. E, através do adjetivo “grotesca”, o autor dá ênfase ao seu posicionamento quanto ao uso de tais instrumentos, voltando, logo em seguida, à mais pura Ironia, ao declarar que “a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”.

 

 

No terceiro parágrafo, há o uso freqüente de Operador Argumentativo com valor restritivo (“nem”), utilizados para dar ênfase à Ironia contida em frases como “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancada”. Mas a mais contundente Ironia está presente numa frase logo em seguida, que diz que “o sentimento da propriedade moderava a ação”, dando conta de que os senhores não queriam bater muito em seus escravos, a ponto de ‘inutilizar’ sua ‘propriedade’. E, por fim, o trecho selecionado encerra com uma Sinestesia de valor extremamente Irônico: “dinheiro também dói”.

 

 

O segundo trecho, de escolha do grupo, vai de “Não estava em maré de riso” até “Nem todas as crianças vingam”. O trecho inicia-se, portanto, com uma semi-Metáfora para, logo em seguida, valer-se de Recursos Argumentativos mais sutis. Assim, quando diz “a escrava pôs os pés à parede”, Machado cria uma imagem mais contundente para o simples termo ‘resiste’. E, logo adiante, ao dizer “recuou com grande esforço”, dá a dimensão da força envolvida nesta resistência, seguido do termo “inutilmente”, que revela a impotência da escrava fujona, perante o seu capitão-do-mato. Portanto, quase podemos visualizar a imagem: assim, estas três frases isoladas remetem ao recurso da Comparação, enquanto que, analisadas em seu conjunto, tem um valor de gradação, de início ascendente e, por fim, descendente. Machado termina este parágrafo com uma sucessão de adjetivos, que também exploram este mesmo efeito Comparativo de gradação ascendente: “Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão”.

 

 

O parágrafo seguinte inicia-se com um efeito contundente de Comparação, que expõe duas situações antagônicas: a do mais fraco “Arminda caiu no corredor” e a do mais forte “Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação”. E o parágrafo termina deixando claro quem é o perdedor (“após algum tempo de luta a escrava abortou”), mas somente após uma seqüência de dois substantivos (“levada do medo e da dor”) que, juntos, têm um efeito de sinergia, que dá a dimensão do pavor da escrava. O autor começa o parágrafo seguinte com uma espécie de recapitulação do ocorrido “O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo”, mas situando uma temporalidade trágica, também, de valor Comparativo, novamente com um efeito final de gradação (“entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono”). Em seguida, usa uma semi-Metáfora (“Não sabia que horas eram”) para marcar tanto o estado desnorteado de Candinho, quanto uma sutil mudança do texto, da descrição de uma tragédia para a retomada da Ironia, sugerida mesmo pelo nome da rua para onde o ‘capitão’ deveria seguir (“urgia correr à rua da Ajuda”).

 

 

O parágrafo final é rico em Ironias, sempre obtidas através de Comparações (“O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco”), e as explicações que se seguem, reforçam tanto esta ‘comparação’ quanto a sua conseqüente ‘ironia’ (“fúria diversa, naturalmente, fúria de amor”). E, após feita a transição do trágico para o irônico, Machado mergulha na pura Ironia (“Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga”), terminando o parágrafo com uma semi-Metáfora (“lágrimas-verdadeiras”) e uma Comparação final (“abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto”). E a última frase do conto desnuda a moral vigente de exploração do homem pelo homem – e do pouco caso com o sofrimento alheio –, numa Ironia que beira o macabro: “Nem todas as crianças vingam”.

 

S E G U N D A   P A R T E   ( I T E M   “ A ” ):

 

Transcrição de Falas

 

 

Dido (Lázaro Ramos)

 

“Tu não está acostumado a ficar preso, né?”

 

“O doutor é um grande solidário, muita gente quer ajudar também. Se a polícia não estivesse esperta, eu te levava pra dar uma volta aí na comunidade pra você ver os seus ‘investimentos’...”

 

“Agora, me diz uma coisa: o que é que a periferia leva, o que é que a comunidade leva com estes seus “empreendimentos comunitários’? (...) Hein? O que é que a gente ganha? Qual é a nossa parte no teu lucro?”.

 

“250 mil dólares. Seqüestro é um negócio moderno, precisa de violência porque ela funciona como propaganda para estimular a negociação. Não é isto o que mais importa hoje em dia? Business, marketing, livre iniciativa?”

 

“Seqüestro não é só captação de recursos. É, também, redistribuição de renda...”

 

 

Ricardo Pedrosa (Caco Ciocler)

 

“Incomoda (...) a miséria estampada na porta da empresa? (...) Explícito demais...”

 

“Eles vão adorar o joguinho na Internet. Entretenimento também é cultura...”

 

“Você está me cobrando? Você deveria estar satisfeita! (...) Meu amor, isto aqui é uma empresa. Se vocês não sabem mexer num computador, aprendam...”

 

“Se você quer dar uma de heroína, você fode com o seu emprego e com uma série de projetos para pessoas que estão precisando...”.

 

“É importante mostrar que nós podemos ajudar as pessoas necessitadas e, ainda, movimentar a economia do País. A consciência.org irá abrir novas possibilidades de trabalhar com a solidariedade, aumentando a arrecadação e criando novas maneiras de diminuir as desigualdades sociais para que eventos como este que aconteceu (sic) com o Marco Aurélio não aconteçam nunca mais. Obrigado.”

 

“O resultado está aí: invista em causas sociais! É bom para o próximo, é bom para a sua empresa. Muito Obrigado!”.

 

 

Marco Aurélio (Herson Capri)

 

“Quem financia a solidariedade hoje, está preocupado com o retorno (...) por isso, a sua imagem deve estar vinculada ao êxito...”.

 

“Consumidores da Classe ‘AA’ sempre imprimiram o seu padrão de consumo às outras classes. Hoje, a classe média também quer ter o luxo... de ter princípios. Daí, este surto de ações sociais.”

 

“Só no Brasil, estima-se um número de 20 milhões de voluntários. Para as empresas, este público de 20 milhões é um potencial gerador de lucros. Do outro lado, o consumidor quer que a empresa tenha responsabilidade social.”

 

“A empresa socialmente responsável pode até vender mais caro do que a concorrente. Afinal, está cobrando mais pelo bem comum. A sua empresa também pode se associar a este projeto vencedor...”

 

“O que é uma orelha, comparado com as milhares de pessoas que a gente ajuda?”

 

 

 

S E G U N D A   P A R T E   ( I T E M   “ B ” ):

 

Marginais & Empresários

 

 

Ricardo Pedrosa (Caco Ciocler)

 

 “É importante mostrar que nós podemos ajudar as pessoas necessitadas e, ainda, movimentar a economia do País”.

 

 

Marco Aurélio (Herson Capri)

 

“Consumidores da Classe ‘AA’ sempre imprimiram o seu padrão de consumo às outras classes”.

 

 

Dido (Lázaro Ramos)

 

“250 mil dólares. Seqüestro é um negócio moderno, precisa de violência porque ela funciona como propaganda para estimular a negociação. Não é isto o que mais importa hoje em dia? Business, marketing, livre iniciativa?”

 

 

 

As falas de Ricardo Pedrosa são menos técnicas, do ponto de vista dos jargões da administração e da economia, do que as falas de Marcos Aurélio. Contudo, sempre que Ricardo lança mão de uma retórica própria à Sociologia aplicada, sempre o faz de forma oportunista, com a clara intenção de levar vantagem nos negócios de cunho social, fazendo uma releitura sempre que lhe garanta lucros e isenção de responsabilidades, no que se refere a resultados positivos. Um exemplo disso é a própria frase acima mencionada, retirada de seu discurso final. Nela, ele enfatiza os benefícios de se ajudar os necessitados e, de tabela, contribuir com o crescimento da economia do País, como forma de justificar a capitação de recursos pelas entidades assistências, especialmente a sua própria empresa, em sociedade com marco Aurélio.

 

Dido, por sua vez, faz uma releitura dos mesmos jargões que, aplicados às circunstâncias em que estes são utilizados, parecem apropriados. Mas, na verdade, apenas parecem apropriados, pois, afinal, utilizar termos como business, marketing, e livre iniciativa para justificar o ato criminoso de seqüestro, é uma falácia, por mais que se queira denunciar o contexto de corrupção do Brasil atual. Esta é a maior falha do filme de Bianchi, que justifica a violência contra os corruptos, ao invés de denunciar a própria corrupção e a situação de penúria e abandono das classes menos abastadas. Portanto, ao seguir esta linha, Bianchi acaba, na verdade, repetindo a mesma lógica da dominação, conforme relata, em depoimento, uma das entrevistadas do DVD. Cabe, portanto, indagar se Bianchi não acaba manipulando a opinião das platéias, valendo-se, para tal, da própria autoridade do próprio texto machadiano, transformando as suas boas intenções iniciais em algo com credibilidade questionável, apesar da plena verossimilhança, reforçada pelos dados e fatos históricos.

 

Assim sendo, Bianchi acaba reduzindo o alcance ideológico do discurso de Dido, reduzindo-lhe o caráter revolucionário e transformando a sua retórica em algo tão oportunista quanto à do próprio Ricardo Pedrosa, fazendo mesmo com que ambos utilizem jargões semelhantes, desmontando a provável intenção inicial de imprimir uma característica de “virada de mesa” no jogo perverso das relações sociais (no caso, já limitado pela crítica específica da atuação das Ongs, ao invés de um questionamento maior quanto à manutenção de um ‘status-quo’ de desigualdade social), reduzindo tudo a um revanchismo híbrido que beira a apologia ao crime de seqüestro, certamente o que as alas mais conservadoras gostariam de ver para desqualificar quaisquer esforços de crítica social.

 

 

 

S E G U N D A   P A R T E   ( I T E M   “ C ” ):

 

Os “Navios Negreiros”

 

 

Dido (Lázaro Ramos)

 

“Esse aí é o nosso navio negreiro. Dizem que a viagem era bem assim. Só que ela só durava dois meses. E o principal: o navio terminar em algum lugar.

 

Na escravidão, a gente era tudo máquina, tudo máquina. Eles pagavam combustível e manutenção para que a gente pudesse trabalhar de graça para eles. Agora, não é diferente. Agora, a gente é escravo sem dono.

 

Cada um aqui custa 700 paus para o Estado por mês. Isso é mais que três salários mínimos. Isso diz alguma coisa sobre este País. O que vale é ter liberdade pra consumir. Essa é a verdadeira funcionalidade da democracia.”

 

 

Dido faz uma analogia entre o tráfico negreiro e o a situação atual dos pobres, explicitando que, antes, a força de trabalho humana era uma propriedade e que, hoje, a liberdade e a autonomia implícitas na cidadania é, na verdade, uma ilusão, pois todos seríamos “escravo sem dono”. Faz, em seguida, uma relação explícita de valores, revelando que o custo do aprisionamento chega a ser maior do que o custo da liberdade moderna, sendo a Democracia apenas algo que legitima a liberdade de consumir.

 

Este tipo posicionamento extremado até se justifica, num cenário de capitalismo selvagem. Contudo, o afã revolucionário de Bianchi não considera uma estrutura maior, historicamente constituída e na qual estamos todos inseridos, praticamente sem opções de se mudar as regras do jogo, sem um custo social ainda maior.

 

Além disso, ao não considerar as razões jurídicas da ordem vigente, Bianchi deixa margem para seus críticos, que, implacavelmente podem até acusá-lo de insistir num posicionamento anárquico e simplista, que não considera alternativas. Na verdade, o que está em jogo é a questão da superpopulação carcerária, agravada por uma situação de não crescimento econômico suficiente para abranger a todos, através de um equilíbrio mais equânime entre crescimento e distribuição.

 

Portanto, ao difundir a simples critica pela crítica, Bianchi acaba por fazer o jogo retrógrado dos seus opositores, os verdadeiros responsáveis pelo atraso social do País, que, paradoxalmente, acabam por veicular o mesmo tipo de solução caótica, que consiste em fazer o outro sofrer as mesmas mazelas sofridas pelos mais fracos, num desfecho sem solução definitiva, já que o principal, que seria a adoção de medidas efetivas de diminuição das desigualdades, fica em segundo plano, ofuscada por um revanchismo sociológico muito pouco eficiente.